domingo, 6 de julho de 2008

eu e a Flip 2008


Um dos grandes lances deste último dia foi a mesa-redonda “Papéis avulsos”, com Ana Maria Machado, Luiz Fernando Carvalho, Sergio Paulo Rouanet ,com mediação de Lilia Schwarcz : uma primorosa homenagem a Machado de Assis : Luiz Fernando Carvalho, responsável por algumas das mais premiadas adaptações da literatura brasileira para o cinema e televisão, falou sobre os desafios de transformar o romance Dom Casmurro na minissérie “Capitu”; a premiadíssima Ana Maria Machado discorreu sobre suas relações intelectuais com Machado e como ele “moldou” a escrita dela; Rouanet, emérito machadiano, Rouanet desvendou meandros da edição com a correspondência de Machado que prepara .

Shandiano e menipéico

minha colher aqui (com trecho de ensaio escrito em 2007 ) vem a propósito do temo cunhado por Rouanet – “shandismo” – que caracteriza,junto com a sátira menipéia, os vetores básicos ,e explicam, a histórica inflexão machadiana,na década de 1880, dentro do processo de sua evolução literária.
(...) Existe uma expressão , hoje comum e consensual no meio da machadologia (e da machadofilia), que define uma forma literária, que vindo de Sterne, de Maistre, Garret e Diderot,adquire em Machado sua substância mais consistente,simbiótica e conclusiva, inclusive dando a essa forma literária seus contornos e conteúdo definitivos -- e realizando algo absolutamente sui generis em toda a prática, ou teoria, literária , qual seja de um lado induzir a interpretação de seu Memórias póstumas de Brás Cubas sob os vetores desses elementos definidores dessa forma literária formulados por ele,de outro, em movimento retroativo,que se aplicasse esses elementos também na interpretação das obras que lhe serviram de modelo ( Vida e opiniões de Tristan Shandy, o cavalheiro; Viagem em torno do meu quarto; Viagens da minha terra : Jacques, o fatalista), um caso único na história literária de uma obra e um autor posterior influenciar obras e autores anteriores, algo como o influenciado influenciando quem o influenciou. Essa forma literária, sedimentada por Machado e subsidiante da compreensão crítica dos autores seus modelos, é a forma shandiana, caracterizada por a ) atuação intensa e imprescindível do narrador, mais do que nunca e mais do que em outro tipo de narrativa uma persona do autor; b) fragmentação,temporal e espacial, da narrativa,esta extremamente não-linear,dotada de circularidade ; c)digressividade ,seja extratextual seja intratextual ; d) alta rotatividade de pontos de vista narrativos e acentuada volubilidade no tratamento dado ao leitor, ora arrogante e presunçoso ora gentil e deferente.
À forma shandiana estão associadas – não de modo genérico e onipresente , porquanto válido em algumas obras e autores, em outros não – a sátira menipéia e a tradição luciânica, originadas de uma tradição grega, dos diálogos socráticos, que mesclam temas especificamente filosóficos com assuntos de retórica e dialética, eivados de hilaridade, comicidade e ironia: na duplicidade sério-cômico,abriga o popular, o erudito, o burlesco, tornando-se p. ex. um dos elementos basilares da carnavalização conceituada por Mikhail Bakhtin . Na obra machadiana a partir da década de 1880 denota-se a presença marcante de manifestações da sátira menipéia, como a paródia, o subterfúgio ,a profanação, o disfarce e, em especial, a ‘desconstrução’ de formas literárias .
A forma shandiana e o 'shandismo' foram o instrumental de que Machado se valeu para promover e concretizar o grande salto literário de sua obra, no final da década de 1870/início de 1880 -- com a plena consciência de que tinha de mudar tematica,tramatica e estilisticamente, subvertendo e solapando o Realismo literário então vigente e criando uma linguagem ,ficcional e não-ficcional diferenciada - mescla do humor e da seriedade, da galhofa e da crítica social e política, do riso e do tédio
.(...)

Um comentário:

Maryeelle disse...

Amigo, pelo menos de FLIP,
nossa, como seu blog me informa tanto...fico tão feliz por ler sobre o que não pude ver ou estar...
passei pela FLIP no sábado à tarde, por algumas horas...
foi pouco...mas...fiquei tão contente, mesmo assim...
parabéns renovados por seu trabalho.
Abraço
Maria Aparecida Torneros