
-- Que nome bonito, minha linda ! nome e pessoa, aliás...em que posso serví-la,moça ?
Pronto, sabia, lá vem esse idiota, mais um. Claro é homem e acha que esse é seu papel, com essa baboseira meio-troglodita.
-- Deixe de gracinha, e faça sua função com respeito e seriedade. Preciso deste documento, que tudo indica, só se encontra aqui nesta repartição, já passei por praticamente todas as outras. Pode ver para mim? é urgente.
--É a tal coisa, todos pedem urgência,repetem que é importante,tudo igual. Urgente e importante é resolverem aqui nossa situação, há 4 anos não temos aumento, salário de fome ,condições de trabalho precárias, e tendo de atender todo mundo bem. Coloque-se no meu lugar...Preencha o formulário de requisição, por favor.
Falava,falava, mas não desviava os olhos docorpo de Paula, bem formado, as pernas, ah!que pernas bem torneadas, e de quebra que rosto... corpo de Paula , bem formado, as pernas, e que pernas ! bem torneadas, e de quebra que rosto...
Sim, Paula era uma bela mulher, atraente e sedutora, ainda mais com aqueles olhos verdes e os negros cabelos encaracolados. A Paula poderia se aplicar - ela sempre se lembrava do comentário do amigo Sergio Augusto ( preciso voltar a visitá-lo,lembrou-se) com relação a Natassa Kinski:"com aquele corpo, não precisava daquele rosto, e com aquele rosto pra que tanto talento?".
Bela, sensual, e mais: talentosa,competente, obstinada estudiosa, eficientíssima em tudo que fazia – e não se diga que contrariasse o estereotipado perfil de uma intelectual, uma ‘nerd’(muito por ser afinal uma ‘cdf’, talvez por causa dos óculos de alto grau que por vezes tinha de usar); escritora, pesquisadora,verdadeira arqueóloga literária sempre à busca de raridades bibliográficas. .
Anos de convivência com Mauro, até mais –digamos- íntima, a fizera garimpeira de preciosidades textuais. Como agora, sob os olhares voluptosos daquele funcionário público, quase que despindo-a,sem disfarçar de alto a baixo. É certo que ela gostava – qual mulher não gosta de sentir-se desejada? – e fomentava isso, com sua sensual picardia e um jeitinho todo especial de seduzir para obter o que queria.
-- Mas no caso esse documento tem importância que o senhor nem imagina e ter acesso a ele é urgente. O senhor, que tanto me elogia, e acho que já me admira, não vai querer que eu saia daqui de mãos abanando e decepcionada com o senhor,que é tão simpático e dedicado a fazer o melhor para quem precisa, não é mesmo?
Embevecido, era a sensação, o estado daquele voraz devorador ocular, e de outros sentidos fisiológicos. (que mulher, meu Deus! gataça,e cheia de manha. que faço ?)
Esse cara todo embasbacado podia ser bom para facilitar e agilizar a recolha do documento ,mas não sei:de repente,excitado, vai entrar numa de fazer uma troca,o documento pelo meu,digamos,afeto, já conheço o lance. (bem feito,culpa sua, com essa mania de charme ,não se emenda mesmo, né Paula? não basta valer-se dos meios protocolares,normais? não, tem que fazer joguinho, seduzir,estimular tentações- não sabe como são os homens, oh idiota?. vê se contorna e resolve isso, logo logo).
Absorta nos pensamentos, mas sem perder de vista os olhares e gestos do homem, Paula percebeu que ele acionava o computador e acessava alguma coisa, um arquivo talvez, um link, uma entrada. Fingiu-se distraída, consultou o celular – ah!um SMS, é de Vera, grande amiga, ainda ontem à noite jantamos juntas e falei dessa minha incursão aqui, e agora ela me envia _ “Vamos ajudar a procurar o documento. Deve ter coisas muito importantes nele”. Querida,.só você mesmo, sim tem coisas muuuuito importantes , será uma revelação, ou confirmação bombástica em torno do nosso Machado na política,’quem viver verá’...
Desde que o burocrata em estado de transe sexual e mental aí na minha frente, atrás desse balcão, consultando essa máquina resolva ser o atendente cioso de seus deveres e desista de ser o donjuan dos cenáculos documentais.Claro que é lugar comum, imagem recorrente, nada de novo nesse enredo – até Kafka, ora ora o aludiu.
-- Estou consultando aqui, mas não está fácil localizar. Talvez você tenha de voltar outro dia, preciso de tempo para conseguir isso, vou me empenhar ao máximo, principalmente pelo prazer de servi-la, minha... (cacete, isso é hora de chegar gente aqui, logo agora?). Pois não, um momentinho, por favor.
Esse rapaz que acaba de chegar é bom alvitre, talvez faça o cara aí se tocar. Aliás, rapaz bem simpático, bonito mesmo, corpo meio sarado, e até que tem um ar inteligente. Entabulo conversa? quem sabe...?(você não tem jeito mesmo, Messalina, Mata-Hari de meia-tigela).
-- Bem, como ia dizendo,você me dê seu telefone que aviso quando tiver o documento.
Pronto, é o que ele queria. E você também, sua burra, quando vai aprender com essa mania de sedução?(fácil e cômodo dizer que é ‘técnica,estratégia de pesquisa’,que aprendi com o Mauro,também um metido a sedutor, a jogar charme,a fazer gracinhas e gracejos no caso com as mulheres,claro. É essa a sina do pesquisador,como a do jornalista,onde comecei : utilizar esses expedientes,não de todo reprováveis, para ‘dobrar’ as fontes?
Falando no bruxo, ei-lo que me procura ao celular – “mensagem urgente: Mauro” -- mas não atendo: sei que está ansioso, doido pra saber se consegui o documento, compete comigo,bem sei - e eu com ele, claro. Primeiro resolver de vez a situação aqui com esse burocrata – e, óbvio, saber quem é e qual é desse moço recém-chegado... : professor, pesquisador, que tipo de profissional,quem é ele?...
-- Não, não posso esperar,tem de ser hoje e só hoje. Agora ou nunca, tenho de trabalhar nesse documento e enviar logo logo relatório para Paris, a uma universidade. Se não for hoje, desisto e perco o trabalho, inclusive a possibilidade de ter de vir aqui à cata de outro documento decorrente deste, conforme o parecer da universidade de lá(é a de Rennes,do Massa: nem pensar em detalhar pro brucutu aí).
Espero tê-lo convencido, o conquistador de araque vai se tocar que nunca mais verá, se me der o documento agora haverá uma segunda chance... E enquanto isso, exercito um pouco de charme pra cima do cara aí parado estático, ou será extático, com minha pessoa ? as mãos nos bolsos, cara de pastel à espera de o funcionário-excitado atendê-lo, ou de poder falar comigo,já adivinho(e almejo,óbvio)...
Entre o ar perplexo atrás do balcão, certamente impactado por minha resposta, e o ar paspalho aqui a meu lado, fatalmente traído pelo sensorial corpóreo, tiro da sacola o batom discreto e passo-o pelos lábios em suaves e lentos movimentos (e olhando de soslaio para um e para outro, dois patetas à frente da ‘femme fatale’). Ah, no celular tem SMS do Mauro, só podia ser_ “PF, como está o lance aí?vai conseguir? saudades... MR”
-- Bem,já que é tão importante e urgente assim, moça, vou ver o que dá pra fazer,me aguarde,por favor(droga,será que vou ter de desistir e esperar a outra vez, de preferência sem um chato por perto? paciência, perde-se uma batalha mas não se perde a guerra, já dizia o Manezinho de Madureira, saudades daquele cara lá do “meu amado subúrbio”,li isso no Lima Barreto). O senhor, aí, o que deseja ?
-- Ah, eu ? (o cara tá mesmo embabacado, afinal ninguém me resiste, eheh... eta mulher danada! idiota,isso é que sou...). Recolher documentos da Fazenda sobre a economia brasileira na década de 1850, tenho a relação deles comigo. Não preciso de todos, mas pelo menos desses aqui marcados, principalmente as portarias do ministro.(ih,a gata parece ter se interessado: por mim ou pelo pedido?)
-- Gozado, a bela moça me pede documento que é da década de 1860, o senhor me vem com 1850: estão combinados ? Um se junta ao outro, são do mesmo projeto?vocês trabalham juntos ? (se deu bem hein cara!). ...Preencha o formulário de requisição, por favor,senhor. Bem, vou lá dentro verificar para um e para outro, veremos o que consigo (queria mesmo é reter mais a gata por aqui,... ou fazê-la voltar).Sabem perfeitamente que vão levar a reprodução, né? E que reproduzir demora, ainda mais se os documentos forem velhos,que são pela data, e exigirem cuidados especiais.
Ei, o que é isso ? mas esse período, e a grande expansão econômica de então ,que o Sergio Buarque descreveu tão bem ,no Raizes do Brasil e o Caio Prado reafirmou no História econômica do Brasil, é justamente um dos atuais estudos do Mauro prum livro (como trabalha o bruxo!),que até me chamou para participar... quem é esse moço, afinal? hum, vou apurar(como jornalista que fui).....
-- Pelo visto, companheiro, parecem ser dados importantes, não? Desculpe perguntar,não me leve a mal (a voz singela ajuda a quebrar resistências),qual seu ramo de pesquisa ?
-- Bem, nem tanto mas um pouco,sim,importantes : apenas preciso saber certos elementos de política fiscal da época, que faz parte de um projeto de finanças públicas para a Ebape,da FGV.(creio ter me saído bem, não posso abrir o jogo, mesmo pra essa beleza de mulher,que agora me sorri com um pouco de malícia,acho). Sou economista e professor. Raphael Lambertti.
-- Fleming, Paula Flemming.
No aperto de mãos sinto a mão firme dele, embora delicada : me vem até certo frenesi,que é isso, Paula? te cuida,caraca.
Que sensação gostosa ao tocar a mão dela, quase não resisto, me excito, para com isso rapaz....
Entre suspiros, pelo pensamento nela lá fora, e a frustração do plano fracassado, o funcionário espantava-se na consulta que lhe revelava quem era Paula .
-- Esse Google mostra muita coisa, ou tudo mesmo, maravilha. Mas essa moça, tão gataça, tão gostosa, é uma verdadeira sumidade, caramba! olha só o que está aqui, tem formação lá no estrangeiro e trabalhos feitos em várias universidades do exterior,além de projetos em entidades de Portugal,da França e da Alemanha! isso só aumenta meu desejo, ao mesmo tempo em que me .dá um certo medo,é muita areia pro meu caminhão.
Tenho de extrair o máximo desse moço, será verdade o que ele diz? aliás, como me preocupo com o Mauro,e ele às vezes ,quase sempre, não reconhece;acha que me formou,moldou e aprimorou e por isso me dá uma esnobada. mas eu tô ali, oh, tenho paixão por ele, paixão intelectual fique claro (mas rola também de outro tipo,todo mundo sabe, tantas foram nossas vivências, tempos de estudos,trabalho e... amor).
Mas agora,sem deleites de passado, o presente me instiga com esse cara aí e sua pesquisa,além de ter de continuar a administrar o burocrata, que,imagino, antes dos documentos, aposto que foi fuçar pra saber quem sou eu, e se viu alguma coisa deve no mínimo estar tonto e meio deslumbrado, e deve também querer ver se descobre email,telefone,endereço – ih, estaria eu perdida!.
-- O interesse maior na verdade é pela dívida pública federal de então, que já se formava e pautaria, e pauta ,historicamente a existência econômica do Brasil (acho que continuo me saindo bem,com esse discursinho que tem certo fundamento e consistência, sem revelar a essência da verdade de tudo. a qualquer hora ele vai me ligar, ou mandar um SMS, vou ter de informar – mas sem essa belezoca aí perceber...).E tenho também de saber dela que documentos de 1860 é esse,o problema é que não tô conseguindo controlar minha excitação, e fico descentrado e meio bocó.
-- O que você procura trata de quê? deve ser muito importante,por sua ansiedade, e pela seriedade profissional que você mostra ter,de pessoa inteligente e preparada (e com esse visual de ‘miss-sexy das pesquisas inglórias’...nossa, que pernas,que cruzada e descruzada genial!)
A gata é fera,olha só essa boazuda,uma intelectual de primeira ; tô naquela de que uma mulher bonita,e gostosa, não pode ser tão cabeça assim, já me disseram que isso é preconceito, e preconceito burro, completamente fora de lógica. Mas o que fazer, é minha cabeça,não sou inteligente mesmo, não tive lá muita instrução, só o sufici.ente para entrar no serviço público,graças a Deus, e isso é que me segura e leva minha vida.(emprego público! bah,grrr!com esse salário de merda ,aumento só de vez em quando, e neste lugar respirando poeira, e tendo de atender cada um,cada chato, cada feiúra - diferente dessa belezoca aí - e cada pastelzinho como o moço que tá lá fora,,no mínimo na paquera da gracinha. por falar nisso, tenho de saber também quem é,rapidinho, pra destrinchar logo esses documentos que eles querem, primeiro o dela,óbvio...)
Não posso também abrir o jogo, não sou burra, fica aí jogando essa conversa mole pra cima de mim,e pensa que caio nessa? tô meio interessada em você, não só por sua pesquisa, mas por ter um jeito bem atraente, meio sensual.e quem garante que tá me dizendo a verdade?(aprendi a desconfiar e depurar de certos depoimentos,mesmo os dados nos documentos e fontes de nossas pesquisas.o carinha aí é simpático, pode ser sincero,mas não me convenceu de todo,e agora quer extrair de mim algo mais...)
-- É sobre a culinária no Brasil imperial, justo nessa década de 1860 intensificou-senesse campo também, a influência da França e da

