sábado, 23 de agosto de 2014

Sobre Bienal,-- e novos modelos e formatos,modos e meios

 É tempo de  reflexões  inerentes a possíveis (para muitos, almejadas) vertentes não apenas especificamente para os  cenários editorial e livreiro, por extensão literários, do país no momento, mas também generica e essencialmente das práticas e  modos de leitura – tema sempre recorrente,imperioso na vida cultural de qualquer sociedade.

A cada ano, quando da realização de Bienal do Livro – como agora, de 22 a 30.08 em São Paulo – reportamo-nos às discussões e análises que ora se intensificam e desdobram  com relação a ela : marcante foi, e ainda repercute, a última edição de São Paulo,2012, que mostrou-se esvaziada,’fisicamente’  por parte e no seio do próprio meio editorial-livreiro, haja vista p. ex. grandes editoras estarem  ausentes,sob argumentação de "custos exorbitantes" e "parcos resultados", e conceitualmente por força do crescente  pensamento crítico quanto ao tradicional "modelão”,ou "formatão" da Bienal (assim são definidos pelos profissionais do ramo): deve-se observar que o mesmo cenário, pelas mesmíssimas razões, repete-se na presente Bienal na capital paulista.
Ao mesmo tempo em que as atenções se voltam cada vez mais para os eventos regionais, essa profusão (benéfica,digo eu) de festas e feiras pelo país: Belém, Fortaleza,Ouro Preto, Paraty, Porto Alegre,Passo Fundo (estas duas últimas bastante tradicionais, já de longa data).
Além da "Primavera dos Livros”, originariamente realizada no Rio de Janeiro mas que já tem, há dois anos consecutivos, sua edição paulistana -- a congregar editoras não entre as maiores  mas por certo algumas das mais operosas; e especificamente no Rio, a FLUPP- Festa Literária Internacional das UPPs” ,com debates, performances, música e leituras, trazendo em si conotações e características diferenciadas e bastante significativas, em especial proposta a se consolidar como importante vetor de exposição,informação e difusão da agora denominada “literatura\ cultura  da periferia”.
E mais : “Fliaraxá - Festival Literário de Araxá, abrigando encontros  com vários escritores outros);  a já tradicional “Fliporto --  Festa Literária  Internacional de Pernambuco,  agora em sua 9ª. edição  --  que comporta  inclusive um Congresso Literário , a reunir escritores nacionais e internacionais em painéis com palestras, entrevistas e debates.
Todos eles a transcender o  escopo de um evento de exposição e venda de livros para se constituir em notável cenáculo temático, tendo – em painéis,palestras,diálogos,depoimentos – a Leitura,seus fomento,estímulo e prática, e o Livro, suas formas,formatos e significados, como tema,mote e leitmotiv.
 Com efeito, as  diversas festas e feiras literárias regionais e específicas que se multiplicam pelo país a cada ano, constituem-se  claramente em  geradores de  elementos de reflexão acerca de eventos literários e de novos cenários, ou novas vertentes dos cenários editorial e livreiro,por extensão literários, do país – a proliferação de eventos e feiras de livros contrapostos,  por suas estruturas,escopo,focos e enfoques, ‘conceitualmente’ à  Bienal e seu formato tradicional.
Persiste  o intento – falo com conhecimento de causa -- entre editores, livreiros e profissionais do setor, de fortalecimento e incremento a esses eventos regionais , os quais -- tanto por suas próprias concepções como pelas efetivas programações realizadas até aqui --têm oferecido os elementos de estimulante  reflexão  conceitual sobre festas literárias : com efeito oferecem  o que faz parte das proposições preconizadas para  reformulação conceitual da Bienal.

Para início de conversa, em minha opinião: ainda vejo extrema validade na bienal -- mesmo sob as formas de seus  'modelão e formatão, frequentada pelos contingentes daqueles parcos e raros leitores para os quais todas as pesquisas apontam a média de leitura de ...  2 livros por ano (!); ainda que com as características de ‘feirão’, etc  -- evidentemente admitindo, e concordando plenamente, com a necessidade de certas alterações, ajustes e adaptações. A validade que sustento tem em vista o chamado 'grande público', por força do comprovado fato de a bienal representar a contrapartida real,concreta, a um tipo de comportamento desse '(não)leitor comum': sua relação com a livraria, tida e vista por ele como uma espécie de 'templo sagrado', espaço de sacralização -- apesar de tudo em termos de atrativo,utilidade, conforto, etc que as livrarias oferecem hoje (café,poltronas,ambientes de leitura,etc) -- a inibi-lo e refrear sua possibilidade de chegar ao livro.
Na Bienal, justamente por seu ‘modelão’ -- que de resto permite uma exposição mais abrangente quase completa, do conjunto dos acervos de editoras -- por seus cenários 'populares' e descontraídos[sic], propicia um sensível processo de dessacralização.Ainda mais se propostas,como tem ocorrido gradativamente (mas ainda  incipiente),expandir alguns focos no temático,como de resto anotei.

Só que... .
entendo que o assunto, e a questão, vão muito além, a exigir reflexões,meditações amplas e profundas,reformulações de pensamentos e concepções,e sobretudo ações concretas de superação de incompreensões e distorções conceituais. Especificamente a requerem considerações e observações justamente acerca do livro e da leitura no país.

Até porque ....
por  outro lado -- ou acima de todos os lados -- um espectro ronda (alvissareiramente, saúdo eu) a bienal e as livrarias, por extensão as editoras, a totalidade do mundo editorial-livreiro: o e-commerce, notável em sua propriedade (benfazeja,enfatizo) de mudar a relação do leitor,e do produtor e do revendedor, com o livro -- dinamizando-a,enriquecendo-a,valorizando-a, aprimorando-a.

lê-se mais, no Brasil hoje, que as (incompletas) estatístcas apontam  

Bem, referi-me aos “(...) parcos e raros leitores para os quais todas as pesquisas apontam a média de leitura de ... 2 livros por ano[!]”: talvez alguns dos que aqui me lerem  venham a contra-argumentar  -- até mesmo com fortes reações -- que na verdade o índice de leitura do brasileiro,apontado pela recente pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil” – e registrado no livro sob mesmo título(org.Zoara Failla;edição IPL e Imprensa Oficial.) – é na verdade de 4(quatro) livros por ano,e não 2. Observam meus  pacientes leitores – que assim me agraciam – que, sim, o número em ‘estado bruto’ é esse, mas excluídas as obras indicadas pelas escolas e aquelas compradas pelo governo para distribuição à rede escolar e bibliotecas, e considerada apenas a leitura espontânea chegamos à  lamentável  marca que registrei.
 Em minha opinião, até mesmo pelo latente ceticismo com relação às estatísticas de modo geral, (já houve quem dissesse: “números são como biquínis femininos: mostram muito mas escondem o essencial...”), ainda mais as formuladas cá no Brasil, questiono esses cenários de um modo geral . Todos os levantamentos,pesquisas e computações retratam,reportam-se e registram, no tocante a índices de leitura, de produção, de vendas, de faturamento, etc, única e exclusivamente os dados inerentes a livros impressos – sem catalogar, até porque não existem ainda mecanismos para tal [por indolência e ‘inércia’,por certo relutância (sic) de editores,livreiros,etc , face a suas respectivas posturas diante do elemento a que vou me referir a seguir], esses mesmos  dados para os livros digitais e todas as formas e meios de leitura intensamente,e irreversivelmente, presentes hoje, nos tablets,iPads,iPhones,portais,sites, diversos links pela internet e demais plataformas digitais.
       Vou adiante para uma desafiadora conclusão: lê-se mais que as (incompletas) estatísticas apontam; e produz-se e vende-se muito mais hoje no Brasil, e em todas  faixas etárias e todos os tipos de textos.

O que quero dizer :
        o digital faz crescer os índices de leitura no Brasil ! quando sustento que lê-se muito mais no meio digital do que revelam as simples(e simplórias) estatísticas sobre vendas , e leitura, de e-books, se já não bastasse citar o quanto de textos,obras e narrativas literárias que se abrigam,e são consultadas e 'downlonizadas' por milhares de pessoas diariamente, nos portais e sites de literatura, nos blogs, nas redes sociais, na internet como um todo . Um exemplo marcante : a coletânea Geração subzero (org. Felipe Pena;editora Record.), reunindo textos veiculados exclusivamente no twitter -- com um subtítulo bastante significativo, “20 autores congelados pela crítica, mas adorados pelos leitores” – e entre eles alguns ‘campeões de vendas’ no mercado (formal)  livreiro, como  Thalita Rebouças, André Vianco. Outro exemplo :  a editora Intrínseca veiculou  diariamente, em seu twitter, o texto “Caixa preta”, da americana Jennifer Egan, escrito originalmente em bloquinhos de até 140 caracteres -- no que,aliás, Claudio Soares fora pioneiro, ao 'tuitar', ainda em 2006, fragmentada em posts, sua (excelente) obra Santos Dumont número 8. Além dos exemplos das (já) centenas de obras convertidas em versões de aplicativos para iPad e iPhone.
      As ações e realizações em blogs, no Facebook, no twitter , em diversas plataformas constituem exemplos claros, taxativos, do que vem sendo chamado de narrativas digitais, literatura eletrônica ou narrativas em rede, uma 'literatura eletrônica" caracterizada basicamente por interatividade, hipertextualidade,não- linearidade, multimídia -- contundente,e inquestionável prova de como o criar textos literários - ficcionais e não-ficcionais - construir narrativas,contar histórias vem sendo remodelado com e pelas novas tecnologias,gerando em especial novos,e nunca tão dinâmicos na história cultural,modos,meios e formas de leitura,conhecimento.aprendizado,entretenimento, lazer e de novos comportamentos. Isto é :  obras e textos em mídias, veículos e suportes outros que não aqueles metódica e estatisticamente computados.  .

e-books : claras inverdades e ... realidades nítidas

Nem é preciso consultarmos e nos valermos dos levantamentos, pesquisas e  estatísticas agora regularmente efetuadas – inclusive pela  Câmara Brasileira do Livro- CBL, pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros- SNEL – para constatar  o crescimento da produção e vendas de e-books, num processo vertiginoso de aceleração (quantitativa e qualitativa) – um estrondoso ganho de  volume, de proliferação temática e genérica e diversificação autoral, com lançamentos simultâneos nos meios físico e on-line. Por fim, livrarias, notadamente grandes do ramo, como  Cultura, Travessa,  Saraiva,   adaptaram-se, e competentemente, diga-se, à realidade, até porque estão auferindo resultados compensadores : definitivamente incorporaram e-books a seus acervos e catálogos, e os oferecem e promovem com toda ‘pompa e circunstância’, e muita eficiência.
                                               ___________

Então (sem chegar a ser uma conclusão, porquanto temos de avançar vigorosamente em todas as reflexões possíveis e praticar todas as ações necessárias), dispostos uns, subjacentes outros, encontram-se muitos elementos, tópicos e questões a permear indissoluvelmente o livro, e inerente a ele, a leitura no país. Que, de um lado, a Bienal,as festas literárias regionais e  aquelas dotadas de especificidades ,auspiciosamente proliferantes hoje, expressivas de uma alentada reconceituação de eventos ; de outro, o meio e a mídia digital a proporem e propiciarem notáveis perspectivas de difusão da matéria literária e de circulação do conteúdo do livro e,por extensão das extensões, oportunidades,possibilidades e fomento da leitura --- tudo isso seja efetivamente incorporado,crescente e consistentemente, na agenda de todos os setores e searas  educacionais-culturais,editoriais,livreiras, literárias,intelectuais e mesmo sociais.






sexta-feira, 15 de agosto de 2014

um conto inédito de Arthur Azevedo

do e-book CONTOS INÉDITOS DE ARTHUR AZEVEDO [Foglio\Objetiva; ago 2014; $5,00]
http://www.objetiva.com.br/livro_ficha.php?id=1423
[conjunto de especiais características: 15 contos inéditos de Arthur Azevedo – nunca publicados em livro ou obra impressa ou em outros meio e suporte que não a veiculação original em periódicos de diversas épocas e distintas etapas da vida literária do escritor (e da história política,institucional, social e cultural brasileiras). 
 reveste-se de notável relevância histórico-bibliográfico pelo duplo atributo de , a par do aludido ineditismo , poder contribuir para dar a público, e difundir, o contista Arthur Azevedo – muito mais conhecido e difundido como teatrólogo , mas ainda insuficientemente editado, publicado e estudado. Arthur Azevedo tem cerca de 25 por cento das mais de duas de centenas de contos que escreveu ainda inéditos, apesar de 8 - a principais -- coletâneas impressas publicadas ( suas crônicas – caso pior ainda – têm nada menos do que 85% delas inéditas em livro ou outra forma impressa ou digital .
- imprescindível é que um autor – um multi-autor, como ele -- não seja devidamente estudado,inclusive academicamente, editado,publicado,difundido,reconhecido como um dos grandes 'retratistas' e intérpretes da cidade do Rio de Janeiro, por extensão do Brasil,do final século XIX -início do século XX..
- incompreensível como um dos escritores brasileiros mais criativos e populares de todos os tempos, que em suas criações e escritos aliou expressiva quantidade a significativa qualidade, ainda tem grande parte de sua produção intelectual inédita
-
absolutamente indispensável recuperar e tornar conhecido esse relevante material --- a que me dedico, para recolher , organizar, editar e dar a público tanto os contos quanto as crônicas de um dos mais criativos, fecundos e valiosos escritores brasileiros de todos os tempos

um exemplo concreto (e insinuante) da irônica verve azevediana

------------------
Bolina por bolina
                                                                                I
Naquela tarde, o Medeiros, que morava numa das ruas transversais do Catete, estava no seu gabinete de trabalho, a ler uma folha da tarde,esperando a hora do jantar, quando d. Therezinha, sua esposa, chegou da rua, e foi ter com ele visivelmente agitada.
-- Que tens ?... aconteceu-te alguma coisa?
-- Estou furiosa!
-- Por que?
-- Fui bolinada!
--Bolinada?
-- Sim, no bonde... ainda agora, por um de teus amigos...
-- Qual deles? Perguntou o marido, erguendo-se de um salto.
-- Espera, deixa-me tomar fôlego, disse d. Therezinha, tirando o chapéu e sentando-se numa cadeira.
E erguendo a voz:
-- Eulália!
-- Senhora! acudiu a criada lá de dentro.
-- Dá cá um copo d’água, d. Therezinha suspirou ruidosamente e comentou:
-- Hoje, depois que saíste, fui à cidade comprar umas coisas que me faltavam para acabar um vestido que estou fazendo. Pouco me demorei. Estive na rua do Ouvidor... no largo de S. Francisco de Paula... e voltei ao largo da Carioca para tomar o bonde... Ele estava parado no largo olhando muito para mim...
-- Mas ele quem ?
-- Não me lembro o nome... Aquele sujeito de barba à Ando e monóclio, que me apresentaste um dia no Parque...Aquele?... Sabes?...
-- Não sei.
-- Ora, aquele foi advogado da Ernestina Rocha quando esta se divorciou.
-- Ah! o Moniz!
-- Moniz – é isso mesmo!
-- Não estarás enganada? Olha que o Moniz é um rapaz sério.
-- Sério? Vais ver a sua seriedade! – Como já te disse,ele estava parado no largo, a olhar com muita insistência para mim...
-- Mas tu não podias reparar que ele olhava com muita insistência para ti, se não olhasses com muita insistência para ele...
-- Pode ser, e foi talvez animado pelos meus olhares inocentes que o patife entrou no bonde e se sentou ao meu lado.
-- Falou-te?
-- Cumprimentou-me com muita amabilidade. Quis entabular conversa, disse-me que estava fazendo muito calor, que íamos ter mudança de tempo – mas como eu só lhe respondia por monossílabos imperceptíveis, calou-se. Quando chegamos perto do Passeio Público, senti o seu joelho encostado ao meu. Julguei que fosse por distração. Afastei o joelho... Ele insistiu... Medi-o de alto a baixo com um olhar repreensivo, mas o desavergonhado não se deu por vencido.
-- Miserável! Rosnou o Medeiros.
-- Quando o bonde fazia a volta da Lapa, o homenzinho encostou resolutamente a coxa na minha coxa! A primeira idéia que me acudiu foi bater-lhe com o leque na cara, mas recuei diante do escândalo...
-- E não fizeste nada?
--Levantei-me, fiz parar o bonde,desci, tomei um carro que passava, e vim para casa. Manda pagar ao cocheiro, que está esperando.

O Medeiros saiu do gabinete e mandou despedir o carro. Quando voltou, já d. Therezinha ali não estava: tinha ido para o seu quarto de toilette mudar de roupa.
Ele foi ter com ela, e disse-lhe:
-- Estou perplexo! Tinha o Moniz em conta de homem escrupuloso, incapaz de semelhante procedimento!
-- Pois aí tens.
-- E ele é casado.
--É. Com uma senhora muito mais bonita que eu. E dizem que tem cabelinho na venta! Ah! se ela soubesse...
-- Há de sabê-lo!
-- Hein?
-- Oh! o tratante pagará capital e juros! Afianço-te que tão cedo não se mete a outra!
-- O melhor é evitar o escândalo!
-- Ele que o evitasse!
-- Olha o que vais fazer!
-- Não te assustes!
-- Já estou arrependida de te haver contado o que se passou!
-- Fizeste bem; não te arrependas: as senhoras honestas assim procedem.
-- Pretendi apenas que conhecesses o grande amigo que tens.
-- Achas então que não devo fazer nada?
-- Deixe de cumprimentá-lo: é quanto basta.
-- Veremos. Anda daí! Vamos jantar que são oito horas.
O Medeiros e d. Therezinha jantaram alegremente, e não se falou mais no caso do bonde.
                                                                         II
D. Therezinha não deixava de ter razão: uma vez que ela protestara contra a audácia do reles bolina, e contara tudo ao marido, era desnecessário entre os dois uma explicação, da qual poderia resultar um escândalo público; bastava realmente que eles nunca mais se falassem, mas conquanto não tivesse a alma impetuosa de um corso, pensava o Medeiros que a vingança não era um prazer exclusivamente reservado aos deuses, e começou a ruminar um plano terrível de desagravo.

O acaso veio de encontro ao desejo.
Poucos dias depois do incidente que deixei narrado, o Medeiros, tomando ao sair de casa um bonde que ia para a cidade, descobriu, sentada a um canto, a esposa do Moniz.

Sentou-se ao lado dela, cumprimentou-a com muita afabilidade, e daí a pouco, enchendo-se de coragem, suspirou e pisou-lhe delicadamente um pé.

Ele esperava que ela se zangasse; desculpar-se-ia, dizendo-lhe: - Faço a vossa excelência o mesmo que seu marido fez à minha mulher; mas, oh surpresa! a dama abaixou o rosto e sorriu, lançando ao Medeiros um olhar de soslaio, um olhar que prometia, que dava quanto pedia um bolina!
A vingança do Medeiros foi muito mais completa que ele desejava, e, passados tempos, quando d. Therezinha lhe perguntou se havia tomado algum desforço contra o Moniz:
-- Tomei, filha, tomei; isto é, eu te digo: para falar a verdade, quem tomou não fui eu, foi a senhora.
                                                                                                                                              A.A.
                                                                                                                      [O Século 18 março 1907]
Foto: do e-book "CONTOS INÉDITOS DE ARTHUR AZEVEDO" [Foglio\Objetiva; ago 2014; $5,00]
http://www.objetiva.com.br/livro_ficha.php?id=1423

um exemplo concreto (e insinuante) da irônica verve azevediana
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Bolina por bolina

                                                      I
Naquela tarde, o Medeiros, que morava numa das ruas transversais do Catete, estava no seu gabinete de trabalho, a ler uma folha da tarde,esperando a hora do jantar, quando d. Therezinha, sua esposa, chegou da rua, e foi ter com ele visivelmente agitada.
-- Que tens ?... aconteceu-te alguma coisa?
-- Estou furiosa!
-- Por que?
-- Fui bolinada!
--Bolinada?
-- Sim, no bonde... ainda agora, por um de teus amigos...
-- Qual deles? Perguntou o marido, erguendo-se de um salto.
-- Espera, deixa-me tomar fôlego, disse d. Therezinha, tirando o chapéu e sentando-se numa cadeira.
E erguendo a voz:
-- Eulália!
-- Senhora! acudiu a criada lá de dentro.
-- Dá cá um copo d’água, d. Therezinha suspirou ruidosamente e comentou:
-- Hoje, depois que saíste, fui à cidade comprar umas coisas que me faltavam para acabar um vestido que estou fazendo. Pouco me demorei. Estive na rua do Ouvidor... no largo de S. Francisco de Paula... e voltei ao largo da Carioca para tomar o bonde... Ele estava parado no largo olhando muito para mim...
-- Mas ele quem ?
-- Não me lembro o nome... Aquele sujeito de barba à Ando e monóclio, que me apresentaste um dia no Parque...Aquele?... Sabes?...
-- Não sei.
-- Ora, aquele foi advogado da Ernestina Rocha quando esta se divorciou.
-- Ah! o Moniz!
-- Moniz – é isso mesmo!
-- Não estarás enganada? Olha que o Moniz é um rapaz sério.
-- Sério? Vais ver a sua seriedade! – Como já te disse,ele estava parado no largo, a olhar com muita insistência para mim...
-- Mas tu não podias reparar que ele olhava com muita insistência para ti, se não olhasses com muita insistência para ele...
-- Pode ser, e foi talvez animado pelos meus olhares inocentes que o patife entrou no bonde e se sentou ao meu lado.
-- Falou-te?
-- Cumprimentou-me com muita amabilidade. Quis entabular conversa, disse-me que estava fazendo muito calor, que íamos ter mudança de tempo – mas como eu só lhe respondia por monossílabos imperceptíveis, calou-se. Quando chegamos perto do Passeio Público, senti o seu joelho encostado ao meu. Julguei que fosse por distração. Afastei o joelho... Ele insistiu... Medi-o de alto a baixo com um olhar repreensivo, mas o desavergonhado não se deu por vencido.
-- Miserável! Rosnou o Medeiros.
-- Quando o bonde fazia a volta da Lapa, o homenzinho encostou resolutamente a coxa na minha coxa! A primeira idéia que me acudiu foi bater-lhe com o leque na cara, mas recuei  diante do escândalo...
-- E não fizeste nada?
--Levantei-me, fiz parar o bonde,desci, tomei um carro que passava, e vim para casa. Manda pagar ao cocheiro, que está esperando.

O Medeiros saiu do gabinete e mandou despedir o carro. Quando voltou, já d. Therezinha ali não estava: tinha ido para o seu quarto de toilette mudar de roupa.
Ele foi ter com ela, e disse-lhe:
-- Estou perplexo! Tinha o Moniz em conta de homem escrupuloso, incapaz de semelhante procedimento!
-- Pois aí tens.
-- E ele é casado.
--É. Com uma senhora muito mais bonita que eu. E dizem que tem cabelinho na venta! Ah! se ela soubesse...
-- Há de sabê-lo!
-- Hein?
-- Oh! o tratante pagará capital e juros! Afianço-te que tão cedo não se mete a outra!
-- O melhor é evitar o escândalo!
-- Ele que o evitasse!
-- Olha o que vais fazer!
-- Não te assustes!
-- Já estou arrependida de te haver contado o que se passou!
-- Fizeste bem; não te arrependas: as senhoras honestas assim procedem.
-- Pretendi apenas que conhecesses o grande amigo que tens.
-- Achas então que não devo fazer nada?
-- Deixe de cumprimentá-lo: é quanto basta.
-- Veremos. Anda daí! Vamos jantar que são oito horas.
O Medeiros e d. Therezinha jantaram alegremente, e não se falou mais no caso do bonde.

                                               II
D. Therezinha não deixava de ter razão: uma vez que ela protestara contra a audácia do reles bolina, e contara tudo ao marido, era desnecessário entre os dois uma explicação, da qual poderia resultar um escândalo público; bastava realmente que eles nunca mais se falassem, mas conquanto não tivesse a alma impetuosa de um corso, pensava o Medeiros que a vingança não era um prazer exclusivamente reservado aos deuses, e começou a ruminar um plano terrível de desagravo.

O acaso veio de encontro ao desejo.
Poucos dias depois do incidente que deixei narrado, o Medeiros, tomando ao sair de casa um bonde que ia para a cidade, descobriu, sentada a um canto, a esposa do Moniz.

Sentou-se ao lado dela, cumprimentou-a com muita afabilidade, e daí a pouco, enchendo-se de coragem, suspirou e pisou-lhe delicadamente um pé.

Ele esperava que ela se zangasse; desculpar-se-ia, dizendo-lhe: - Faço a vossa excelência o mesmo que seu marido fez à minha mulher; mas, oh surpresa! a dama abaixou o rosto e sorriu, lançando ao Medeiros um olhar de soslaio, um olhar que prometia, que dava quanto pedia um bolina!
A vingança do Medeiros foi muito mais completa que ele desejava, e, passados tempos, quando d. Therezinha lhe perguntou se havia tomado algum desforço contra o Moniz:
-- Tomei, filha, tomei; isto é, eu te digo: para falar a verdade, quem tomou não fui eu, foi a senhora.
                                                                           A.A. 
                                                    [O Século 18 março 1907]
C

domingo, 27 de julho de 2014

sobre periódicos e literatura

a propósito do colóquio "Real em revista", no Real Gabinete Português de Leitura, Rio de Janeiro,de 28.07 a 01.01- em que notáveis estudiosos, pesquisadores e especialistas discorrem e dialogam sobre periódicos e literatura. o evento é concomitante à consecução do projeto de digitalização de periódicos dos séculos XVIII, XIX e XX nos acervos do RGPL.
estarei presente, e aponho aqui excerto de paper que, tempos atrás, escrevi para entidade acadêmica e um portal de literatura.
                                       ______________________

Apontamentos e anotações de ‘garimpos’ literários

Pesquisador dedicado a literatura brasileira (oitocentista e parte novecentista), ensaísta, articulista, escritor ( autor de 11 livros impressos e 5 e-books), em meus trabalhos – pesquisas, estudos; artigos,ensaios, palestras, conferências, e mormente livros – priorizo, melhor dizer torno exclusivo, fazendo disso o próprio leimotiv de minha atividade intelectual e autoral., o approach da diferenciação, no que se refere ao inédito, ou pouco conhecido e divulgado, ou estudado e publicado, etc. -- investigados,pesquisados, identificados e recolhidos  os textos e escritos nessa condição em suas respectivas fontes primárias , vale dizer nos periódicos – jornais, revistas, almanaques, álbuns - dos respectivos tempos de suas veiculações originais. O vasculhar e o ‘garimpo’ em fontes primárias constituem per se o mote e força motriz que rege e impulsiona meus projetos e programas literários.
 Nos periódicos encontra-se, e neles arregimento, o material básico, a matéria bruta – melhor : a  matéria- prima (no mais elevado sentido) – com que trabalho, a massa e argamassa com que construo meus escritos e obras.
  Na verdade, o vasculhar e garimpar permanentes, sistematizados, concatenados, consistentes, em periódicos para efeito de meu trabalho literário coaduna-se conceitualmente com os  interesse e atenção que  desde sempre me despertou as relações históricas entre os literatos e a imprensa. 
A rigor, sempre me interessou e despertou especial dedicação, como tópico marcante de estudo literário,  as relações – quer no Brasil oitocentista quer novecentista - entre literatos e escritores com a imprensa. 
Foi - e é – assim, a caracterizar e enfatizar tais vasculhar e garimpar  permanentes, sistematizados, concatenados, consistentes, em periódicos para descobrir  e recolher inéditos ou raros de Machado de Assis, de Lima Barreto; para investigar  inéditos ou pouco conhecidos de Castro Alves, Viriato Correa, Olavo Bilac,Laurindo Rabelo, Francisca Julia, Inglês de Souza, Mario de Alencar, Aluisio Azevedo, Raul Pompéia – os quais   comporão um conjunto (a ser livro) de “inéditos dispersos”[sic]; para recolher inéditos de Arthur Azevedo, de Coelho Neto.
___________
De Machado de Assis, o conto até então inédito, dado como desaparecido – tudo indica que por  sua temática e elementos de trama plenos de sutileza -- “Um para o outro”, publicado em A Estação julho-agosto 1879, que incluí no livro Contos de Machado de Assis : relicários e raisonnés (PUC-Rio\Loyola, 2008), veio de um longo trabalho investigativo desenvolvido durante 6 anos – no caso, com foco exclusivo em uma única fonte primária, o citado jornal.
                  --publicado originalmente nos  folhetins de 30 de julho, 15 e 30 de agosto, 15 e30 de setembro e 15 de outubro de 1879  em A Estação, o conto “Um para o outro” , dado como perdido,jamais fora  incluído até então em qualquer antologia,coletânea,seleta ou  edição em volume.
                 

Recentemente – a comprovar que em Machado nada é definitivo e conclusivo, sempre há o que desvendar --  resgatei um pequeno conjunto de escritos variados,  apenas publicados em periódicos como O Parahyba (1859), O Futuro (1863), Diário do Rio de Janeiro (1866), A Instrução Pública (1873; 1875), a saber : uma crônica, um editorial (sim), um conto., duas traduções – organizados no livro “Machado de Assis : inéditos em livro”, ora no prelo (ABL).
Ainda referente a Machado de Assis, debruço-me há mais de um ano no jornal O Parahyba – periódico de excepcional atuação e extrema importância para a história jornalística e cultural brasileiras.
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            Projeto que resgata e dá a conhecimentos público, acadêmico,editorial e cultural  um dos periódicos mais importantes – ainda que pouquíssimo conhecido e estudado --  da história jornalística brasileira, fundado e  publicado na cidade de Petrópolis,Rio de Janeiro.
            Reveste-se de especial significância a  produção de Machado de Assis no jornal : 4 poemas -- o primeiro deles, em abril de 1858, considerado “uma data da história literária do Brasil”; outro,uma das primeiras do Machado tradutor, atividade que desenvolveu com notável mestria por longo tempo); uma crônica(em junho de 1859, sob todos os ponto de vista histórica, por ser efetivamente  a primeira de sua fértil safra de mais de 700 escritas durante 41 anos, e pelo vigoroso teor político)--todos, textos importante como elementos, para estudos e registro historiográfico, dos primórdios da criação machadiana..
            O Parahyba, publicação bissemanal, fundado em 1857 pelo jornalista e escritor Augusto Emílio Zaluar, caracterizou-se por um acervo de idéias "progressistas", abrigando, no campo político, teses e posturas liberais pouco comuns então, como p. ex. a educação – o jornal empenhava-se pela criação e extensão do ensino profissional (editorial de janeiro de 1858 pregava: “A base de todo nosso desenvolvimento está na instrução pública”) – questões econômico-financeiras (a crise de 1858-59 gerou muitas matérias; um editorial criticava “os capitalistas”), problemas fundiários e de colonização de terras,além de aspectos ligados a costumes e comportamentos e tratamento de temas pouco enfocados, alguns considerados ‘difíceis’ ou delicados(como p. ex. a situação da mulher na sociedade). o jornal manteve-se até novembro de 1859, vencido por dificuldades financeiras, apesar de contar com um grupo de colaboradores bastante qualificado e de nomes, como Machado de Assis,  Quintino Bocaiúva, Manuel Antonio de Almeida,entre outros.
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De Machado, mapeei sua produção textual na imprensa brasileira, oitocentista (de 1855 a 1899) e novecentista (1900- 1907), como poeta, tradutor,contista, cronista,articulista, crítico literário, crítico teatral,romancista,  que me serve como guia e bússola de investigações e pesquisas -- apontando rigorosamente a seqüência cronológica de sua atuação e suas respectivas produções  em cada periódico:
   A Marmota / O Parahyba (Petrópolis- RJ) / Correio Mercantil / O Espelho / Diário do Rio de Janeiro /Semana Ilustrada / A Primavera /Jornal do Povo/  O Futuro/ A Saudade / O Binóculo/ Jornal das Famílias / Biblioteca Brasileira / Almanaque Ilustrado da Semana Ilustrada /Imprensa Acadêmica (São Paulo) /Revista Mensal da Sociedade de Ensaios Literários/  Revista Contemporânea/ Semanário Maranhense (São Luiz- MA)/ Arquivo Literário/ Jornal da Tarde/   Jornal do Comércio/  A Reforma / Leitura Popular/  A Luz/  Arquivo Contemporâneo/ The New Word (Nova Yok-EUA)/ A Instrução Pùblica/  O Globo/  A Crença/  A Época/ Ilustração Brasileira/  Gazeta de Notícias/ O Cruzeiro / Revista Brasileira/  A Estação/ Almanaque da Gazeta de Notícias/  Gazeta Literária / Gazeta Suburbana/  A Ilustração /  O Poeta/   A Semana  /Diário de Notícias/  A Quinzena/  Almanaque das Fluminenses/   O Álbum/  Revista Brazileira/  A Cigarra/  República/ A Bruxa/ Brasil-Portugal / O Comércio de São Paulo /Almanaque Brasileiro Garnier 

Aliás, para Machado o jornal – vis a vis o teatro -- eram os dois elementos, ou as duas searas, fadadas a se constituírem nas ‘barreiras’ a um processo ‘invasor’, a predominância de obras,textos e autores e da cultura estrangeiras, culpabilizadas pela indigência da produção artística e cultural brasileira, o jornal, “literatura comum,universal,altamente democrática” exposto enfaticamente no artigo  “O jornal e o livro”, no  Correio Mercantil, 10.01.1859.
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Mesmo nos casos em que trabalhei com textos e escritos oriundos de fontes secundárias -- livros, ou coletâneas ou antologias publicadas -- volvi-me às fontes primárias – os periódicos -- e os cotejei com as formas originais nos periódicos de origem : e assim sempre o faço e farei para todos os trabalhos..
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Assim foi, p. ex., nos contos políticos, inclusos os chamados “argelinos” de Lima Barreto, os quais publicados em apenas uma coletânea – a 2ª. edição de Histórias e sonhos, 1951 (e não na primeira, de 1920) --portanto ‘semi-inéditos’, conferi com os respectivos textos veiculados originalmente em Careta(1914; 1915; 1919; 1920;1921;1922; 1924 - postumamente) e no Correio da Noite (1914), nos quais aliás encontrei, em algumas crônicas, trechos diferentes dos publicados na coletânea, e apontando-os vis a vis uns com outros  incorporei-os no livro Lima Barreto e política : os “contos argelinos” e outros textos (PUC-Rio\Loyola, 2010)

Do mesmo modo, com os textos compondo o livro  Escritos de Euclydes da Cunha: política, ecopolítica, etnopolítica (PUC-Rio\Loyola, 2009), captados em livros e seletas publicados, mas verificados um a um nos respectivos veículos originais, nos jornais A Província de São Paulo,1888-89; Democracia, 1890; O Estado de S. Paulo, 1892-97, 1900, 1904; Jornal do Commercio, 1907; O Paiz,1908; na revista Kosmos, 1906; no Almanaque Brasileiro Garnier, 1908.
Também com as crônicas machadianas, de duas séries escritas para a Gazeta de Notícias, respectivamente em 1886 e em 1886-87, publicadas em um livro e em uma coletânea (‘semi-inéditas’, pois) , que devidamente confrontadas e verificadas com os originais nas fontes primárias, foram reunidas no livro Crônicas de Machado de Assis : “A + B” e “Gazeta de Holanda” (PUC-Rio\Loyola, 2010).
De iguais forma e modo procedi ao indispensável cotejo dos elementos textuais de fontes secundárias – i.e.,  livros, seletas, coletâneas e antologias -- com aqueles das respectivas  primárias -- veiculados originalmente em periódicos, dentre o possível e disponível encontrar -- em outros dois de meus trabalhos capitais recentes(ambos a se tornarem livros, ambos ainda sem arregimentar editor) : “Machado de Assis: leitor, formador de leitor” -- -- que tendo como temática a leitura e leitores no Brasil, o livro e o escritor como seus instrumentos e veículos de fomento, com um viés sobre elementos  presentes e atuantes na vida literária e padrões de leitura do Brasil Oitocentista, reporta a Machado de Assis, sua formação literária e capacidade formativa de leitores, tendo como  escopo levantar, catalogar, mapear, identificar, examinar, e interpretar, as leituras  e influências literárias  de autores e de obras, brasileiros e estrangeiros, na formação intelectual de Machado , e em decorrência,também constituindo um retrato de inéditas amplitude e abrangência,das citações, alusões, referências a obras, textos e autores em todos seus romances, contos, poemas,teatro, traduções, crônicas, artigos e ensaios, críticas literárias, críticas teatrais, pareceres, prefácios, com as quais informou,formou e criou leitores no século XIX (e continua a fazer contemporaneamente e por todos os tempos); e “Machado de Assis e os portugueses : influências, convivências  e convergências literárias e culturais” – a reportar  às relações, interações, intertextualidades entre Machado de Assis e portugueses,  nestes considerados  em um viés, autores, obras e textos lusos, cronologica e literariamente  quer a ele anteriores quer contemporâneos, que exerceram decisiva influência na formação e vida literárias, constituíram leituras do escritor brasileiro (nos livros em sua biblioteca pessoal e aqueles objetos de consultas regulares em acervos e bibliotecas públicas e mesmo em livrarias), receberam citações, alusões, menções, referências e recorrências feitas por Machado de Assis nos romances,nos contos,nas crônicas, em artigos e ensaios,na poesia, na criação teatral, na tradução,na crítica literária,crítica teatral, prefácios, pareceres, correspondência; em outro viés, tanto  vínculos familiares laços conjugais, quanto personalidades lusas a ele contemporâneos, viventes no Brasil à época,que cada qual a seus grau, modo e teor, participaram e atuaram  ativamente na trajetória  pessoal,literária e profissional de Machado de Assis.
 Os dois estudos duas obras têm em comum oferecerem cenários e cenáculos completos das influências e orientações literárias e bibliográficas, vale dizer autores, obras e textos, brasileiros e estrangeiros, em Machado, decisivos para sua formação e biografia intelectual – no caso dos portugueses absolutamente cruciais, como nenhum outro, também politicamente, socialmente e pessoalmente, além de lingüística e literária; ambos  apresentam, de  modo inédito por sua completude, raisonnés de todas as leituras realizadas por Machado e todas citações,referências, alusões a autores, obras e textos praticadas por ele em seus escritos.
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Por sua vez, Arthur Azevedo, que sempre despertara em mim marcante atração sob o ponto de vista literário, propiciou-me, e tem propiciado, o desenvolvimento de um (intensivo ) programa de pesquisa e de produção de obras focados essencialmente na recolha e recuperação de nada menos do que 95% de suas crônicas e cerca de 25% de seus contos, até agora inéditos em livro ou outro meio, inclusive digital, somente publicados em periódicos de distintos períodos, abrangentes de um leque cronológico de 1872 a 1908 : dele, incorporei 5  contos inéditos, originalmente em O Mequetrefe, 1884, em A Rua,  1889,  no Almanaque do Comércio, 1887, na Kosmos, 1906, no Almanaque Brasileiro Garnier, 1910, no livro Contos de Arthur Azevedo : os “efêmeros” e inéditos (PUC\Loyola, 2009); e incluí um conto inédito, “Aventuras de um adolescente.” recolhido de A Vida Moderna, março 1887, incorporado ao livro e e-book que publiquei em 2012 Arthur Azevedo : Cenas da comédia humana - contos em claves temáticas (Imã Editorial);  49 crônicas, nunca divulgadas,abrigadas no livro Arthur Azevedo : crônicas (inéditas) em A Vida Moderna 1886-87 (ABL, 2013); 15 contos, no e-book Arthur Azevedo : contos  inéditos, em produção (Foglio\Objetiva); 20 contos e 20 crônicas no conjunto “Arthur Azevedo : Contos e crônicas inéditos em O Rio-Nu”.
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Atualmente, dedico-me a organizar quatro obras inerentes a Coelho Neto, duas delas por referência aos 150 anos de nascimento (1864) e 80 anos de morte (1934) : uma, reunindo seus últimos contos escritos em vida, a segunda,  reunindo suas crônicas tratando de política, veiculadas essencialmente em diversos periódicos em distintas épocas, a terceira abrigando crônicas somente publicadas em um jornal no período 1918-19; e mais uma obra,  reportando aos 450 anos da cidade do Rio de Janeiro, em 2015, organizando um conjunto, com alguns textos inéditos, de crônicas sobre a cidade. 

Ainda em 2014, por também reportar a 160 anos de publicação, em livro (1854) de Memórias de um sargento de milícias,  preparo livro especial que além do texto em si oriundo do livro incorporo estudos críticos e sobremodo, a título de cotejo pois diferente em diversos trechos, até mesmo de forma substancial, parte do escrito originalmente veiculado no Correio Mercantil, entre junho e agosto1852.

E também neste ano, debruçando-me numa obra de Lima Barreto que desde sempre me interessou e fascinou, pelo que contém de significantes e significados para a trajetória literária do escritor – “Clara dos Anjos”, escrita por ele em 3 versões, a primeira como esboço em 1904 (110 anos, portanto), a segunda em 1919 como conto, a terceira em forma de romance, publicada em livro somente em 1948, mas veiculada originalmente em folhetins na Revista Souza Cruz, 1920-21 : especial e preponderantemente nestes trabalho com fins de cotejo, interpretação e análise com relação às demais e delineamento do importante processo de inflexão em elementos da concepção e da produção literária de Lima.
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Em suma, constituintes, desde sempre, do cenáculo basilar de meus estudos e atuação literários, periódicos - e a consulta,investigação, pesquisas neles - fossem jornais, fossem revistas, fossem almanaques, especificamente dos oitocentos e das primeiras décadas dos novecentos brasileiros, permanentemente pautaram\pautam, pontuaram\ pontuam, permearam\permeiam, impulsionaram\impulsionam minhas idealizações, projetos e realizações em literatura brasileira.
MR
































sábado, 19 de julho de 2014

MORTE DE UM GÊNIO -- QUE EXISTIRÁ E FICARÁ PARA SEMPRE

Profundamente abalado, arrasado mesmo – nem conseguia escrever ontem, tento hoje -- com a morte do grande João Ubaldo Ribeiro, 18.07. todos que me conhecem sabem de quanto o adoro, como escritor e pessoa. Para mim, o maior romancista brasileiro de hoja, fora de qualquer dúvida – quem escreve “Viva o povo brasileiro”, “Sargento Getulio”, “O albatroz azul”, p. ex. possui estatura universal, comparável aos gênios da Literatura. [mas é dele uma esplêndida coletânea de contos e crônicas, inclusive de cunho paradidático, publicada em livro impresso e ebook ].
“Gênio”, era João, assim Glauber Rocha o definia com todas as letras. E com tal genialidade, era de uma simplicidade, um despojamento, uma autenticidade, até mesmo modéstia (muuuuita) e timidez. Acadêmico com todas as honras e fardões, era nas ruas do Leblon que o encontrávamos em sua melhor, e contumaz quase inseparável, indumentária : bermudas, chinelas – com aquela irresistível cara abolachada, o cinematográfico bigode, o eterno sorriso e um bom humor indestrutível. Os gênios, como se sabe, não precisam de pompas e circunstâncias, dispensam falsas elegâncias e rituais, vivem  e aparecem como são.
João era dono de vasta cultura, literária e de outras áreas (inclusive foi pós-graduado em Ciência Política, leu e discorria com absoluto conhecimento sobre os grandes ensaístas políticos, os chamados  intérpretes do Brasil): leu de tudo, desde cedo (conta sua iniciação por imposição severa do pai), por isso o excepcional embasamento literário – segundo ele, fundamentado nos escritores barrocos, Vieira à frente e  no cimo.
Seu estilo narrativo vinha daí : fluente, quase na oralidade, único, impermeável a modismos, a ‘modernidades’, certeiramente atemporal. Ler seus escritos era\é um prazer e um deleite somente proporcionado pelo baluartes de altíssimo quilate literário.
Sua riqueza cultural, aliás, extrapolava : viveu um tempo na Alemanha, daí dominava (e amava) perfeitamente o alemão [cá entre nós: foi ouvindo-o, primeiro numa memorável palestra, depois em conversas informais –sim, tive-as com ele, onde ? nas ruas do Leblon, claro...—que despertou em mim o fervor pelas língua e lingüística, literatura e cultura alemãs, como já expus aqui (ao tratar do Unheimlich, lembram ?)]; e para quem não sabe, ele pessoalmente verteu para o inglês todo o “Viva o povo brasileiro” para efeito de sua publicação pelo mundo !.
Assim era João – e suas deliciosas estórias e ‘causos’ pessoais. Divertíamos ouvindo-o declarar, eis um exemplo concreto de sua modéstia, sua autenticidade, que “ eu só podia mesmo ser escritor, não por vocação ou talento [sic] , mas por exclusão, não tinha aptidão para cantar nem tocar instrumento musical, não sabia dançar,  não jogava bem futebol, não consegui aprender a jogar xadrez, era péssimo em jogo de cartas, não dava pra nada – por isso fui escrever....  vejam só, a marca dos gênios é assim.
Foi-se, de corpo, mas fica permanente entre nós -- e no Olimpo da literatura brasileira --  de genialidade e um conjunto de atributos que nem todos possuem.

mr

19.07.2014

domingo, 29 de junho de 2014

MACHADO DE ASSIS, 175 anos(21.06.1839) - um corolário

 para concluir a série acerca dos 175 anos de nascimento de Machado, uma reflexão inerente à mais emblemática de suas obras.
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 em torno de Capitu e o exercício machadiano da dúvida.
 Machado sempre cultivou a dúvida como instrumento de reflexão, e evitava o maniqueísmo de personagens por não aflorar os questionamentos.. Uma das expressões de sua evolução literária foi a narração. O narrador machadiano muda. Existem as expressões cunhadas no estudo machadiano do narrador confiável e do narrador não-confiável; o narrador não-confiável se sobressaindo a partir da segunda fase, iniciada em 1880. Esse tipo de narrador é quem coloca dúvidas sobre as coisas. Nesse particular, costuma-se conferir importância desmesurada àquela grande questão do romance  Dom Casmurro: Capitu traiu ou não traiu? – o que é absolutamente descartável e desprezível. E aqui peço licença para abrir um longo parênteses e me estender nesse assunto, que é importante para caracterizar um elemento fundamental , um dos fulcros capitais de toda a ficção machadiana . A tola discussão se Capitu traiu ou não traiu é o que menos -- na verdade,nada – importa :Machado faz de Dom Casmurro -- a meu juízo, a maior obra da literatura brasileira, anos-luz acima de qualquer outra, comparável às maiores obras-primas da literatura universal -- um transcendental exercício da dúvida, um ensaio sobre a dúvida, que de resto permeia toda sua ficção : evoca-se,nesse romance,  o 'shakespearianismo' [sic : neologismo meu...] do ciúme e traição a la Otelo \Desdêmona, mas o que existe mesmo, assim entendo,é uma conotação 'hamletiana', vale dizer o 'ser ou não ser', que seria traduzido, sob a égide do exercício machadiano da dúvida,pelo 'traiu ou não traiu' inerente a Capitu -- aliás, a mais complexa e bem construída protagonista feminina da literatura brasileira , a suma da mulher machadiana criada e fomentada em toda sua ficção . Nesse ‘teor hamletiano’ reside toda a ficção machadiana, mormente na seara contística : é o 'fez\nãofez',''disse\não disse', ' saiu\não saiu', 'roubou\não roubou', 'recaiu\não recaiu' (caso do primoroso conto "Singular ocorrência"), e por aí vai. E o narrador é o agente dessas dúvidas .Examinado, ou lido, pela ótica, ou na órbita do ciúme --'oteliano': e  Shakespeare foi a maior influência sobre Machado, suas referência e citação prediletas, mil vezes referenciado em contos e crônicas -- Capitu é julgada infiel pelo narrador Bentinho, um ciumento nato e hereditário,doentio,e dissimulado -- e aqui entra outra grande influência de Machado : Freud , pois fomenta a pseudo-traição de Capitu como processo de transferência de sua atração pela mulher de Escobar.   Bentinho  é o narrador da história . e aqui chegamos ao âmago da coisa, no âmbito da análise literária, que creio 'mata' a questão : o narrador-em –primeira- pessoa machadiano, mormente pós-1880 é um narrador não-confiável, que de resto Machado adotou em muitos dos textos ficcionais desse período -- justo os mais importantes e impactantes -- ao contrário do narrador confiável de antes, que se expressa pelo chamado narrador-em terceira-pessoa (embora Machado tenha também criado um ‘falso’ narrador-em-terceira-pessoa, mas isso faz parte de outra digressão) . Se o narrador de Dom Casmurro  fosse este, distanciado e isento  tanto quanto possível, haveria campo para se cogitar de Capitu infiel, adúltera , mas não : sendo em primeira-pessoa, nada a declarar, ou melhor nada a discutir. Dom Casmurro surgiu cerca de 3 ou 4 anos depois de Madame Bovary, de Flaubert, e de O primo Basilio, de Eça de Queiroz, dois 'parentes' sanguíneos ,literariamente, do romance de Machado, mas neles o narrador –em- terceira-pessoa não deixa dúvidas quanto à infidelidade de Ema Bovary e de Luisa , que são personagens 'chapados',definidos, mulheres praticantes nitidamente da infidelidade --não cabe aqui discutir quais os motivos que as levaram, ainda que saibamos ter sido o abandono por parte dos maridos ou a insatisfação com o casamento, etc : aliás, a infidelidade que Machado insinua em suas protagonistas, ao longo de sua ficção, é exatamente motivada ou gerada por esse comportamento dos homens, vide como exemplo emblemático disso o conto "Uma partida',neste livro que ora publico. Capitu não, não é nada 'chapada', é primorosamente construída como figura literária , sua grandeza ficcional é comparável á de Ana Karenina, e por aí vai.
Machado ao longo de sua ficção levantava ,incentivava, insuflava e cultuava todas essas dúvidas,praticava quase que permanentemente esse exercício,  e as colocava no leitor. Então, ao mesmo tempo em que Machado moldava ,e mutava,  sua trama e seus protagonistas, também moldava e mutava narradores e, conseqüentemente, leitores. Esse culto ao questionamento passou para o leitor, que começou a ler,ou pelo menos deveria ler – o que é mais do válido para o leitor de hoje, também --  as histórias de Machado de forma diferente. E nisso está plenamente demonstrada a genialidade de um autor : na evolução literária de Machado, alteram-se formas e ritmos narrativos (condimentados de ironia e humor,adquirem um tom mais coloquial e de certa forma intimista), transformam-se protagonistas, transmutam-se narradores e leitores. Mutações e transformações, dos protagonistas , que se manifestam também em  transmutação do narrador e da voz narrativa e a criação  de um ‘novo’ leitor, o leitor- modelo em contraponto ao leitor-empírico. Machado construiu em seu texto  ,e por meio dele,  um novo “leitor-modelo” — definido este conforme a conceituação de “leitor-modelo’ e “leitor-empírico” de Umberto Eco. Machado formou seus leitores recorrendo a estratégias temáticas,tramáticas,narrativas,estilísticas que ,como poucos, tinha e sabia usar -- entre essas estratégias ,as digressões,fragmentações narrativas,retardamentos de fatos anunciados ou prometidos ao leitor, metamorfoses de vozes narrativas, de forma e de linguagem .Machado descondicionou o leitor empírico do leitor-modelo, como ninguém na literatura brasileira,  'desconstruiu' essa relação, embora via de regra seja ela utilizada para que o leitor chegue aonde o autor deseja. Contudo,  não satisfeito,na esteira desse 'dissídio' fez o leitor(o empírico) oscilar em "grave"-- que espera algo mais do que um 'simples texto', ou um 'puro romance', ou uma 'obra correta',um leitor que deseja reflexões de caráter mais realista-- e "frívolo"-- que espera impactos e emoções no texto ou na obra,um leitor de tipo romântico ;  ora graves ora frívolos, esses leitores são por assim dizer 'transportados' para dentro dos romances e para a maioria dos contos pós-1880 :   na obra machadiana, o leitor empírico é o ‘frívolo’, e ‘grave’ é o leitor-modelo.  Até o final da década de 1870, os  romances e contos , atendiam ao leitor empírico\frívolo ,  como aliás não poderia deixar de ser,  condicionado e formado no âmbito do Romantismo e seus valores ; ao passo que  o grave mantinha-se em ‘surdina’.  As metamorfose ao longo do tempo, a partir da década de 1860, deram-se concomitantes : na medida da evolução literária machadiana,o leitor empírico\frívolo vai ‘cedendo espaço’ ao leitor-modelo (inclusive um novo,criado por Machado)\grave, ao mesmo tempo em Machado  'camufla'  as diferenças existentes  entre injunções ficcionais e reais ,incentiva o leitor a acreditar no fictício,ou embuste\artimanha, e o induz a ilusões interpretativas, simplesmente fomentando um narrador de pouca,ou nenhuma, confiabilidade, uma espécie de 'narrador volúvel' que habita e conduz muitos de seus contos. E o leitor situa-se como um ‘espelho’ desse narrador.No fim , ainda que sob o controle do autor, ou do narrador  cabe ao leitor,quase que exclusivamente,  o acesso a unidade dentro da imensa e complexa obra ficcional de Machado – que nisso parece contrariar Nietzsche\Zaratustra : “Alguém que conhece o leitor, nada fará por ele...”
Vale lembrar que desde seu primeiro livro publicado,em 1861 , Queda que as mulheres têm para os tolos – que título instigante, provocador ! – Machado fomenta o enigma,o mistério, o disfarce,o subterfúgio: porque persiste a dúvida histórica de ser uma tradução ou uma criação original dele – de que teci especulações reflexivas em artigo específico sobre esse texto. Cá entre nós e para nós, a versão de ser criação original é muito mais,digamos,’charmosa’, muito mais – não há dúvida alguma — ao estilo e espírito machadiano: sutil, insinuante, ambíguo, dissimulado -- a par de outras igualmente grandiosas, a mais espetacular característica/conotação de toda obra de Machado. Ele sempre cultivou a dúvida, o ‘traiu ou não traiu’(implícito em sua maior e definitiva obra), ‘insinuou ou não’, ‘seduziu ou não’, ‘mentiu ou não’, ‘furtou ou não’,‘fez ou não fez’— e é esse teor ‘hamletiano’, a  ligá-lo e  referenciá-lo a ninguém menos que Shakespeare, uma de suas maiores admirações e citação constante .Dele, Machado assimilou e incorporou  à sua obra ficcional a temática do ciúme, aliás o binômio ‘ciúme e perdão’  – presente e atuante  em romances como Ressurreição, A mão e a luva, sobretudo em Dom Casmurro, e em inúmeros contos : binômio que remete a Freud, de quem Machado consubstanciou – sem o conhecer...— os elementos e conceitos do inconsciente, do psiquismo humano, da sexualidade feminina, estabelecendo como nenhum outro escritor brasileiro de seu tempo vetores e  pontos de interseção entre a literatura e a psicanálise,  desde as primeiras obras, mesmo as da ‘fase de aprendizado’ e atingindo seu clímax na denominada ‘fase de maturidade’. Como sentencia Roberto Schwarz  ,Machado é um autor que em 1880 está dizendo coisas que Freud diria 25 anos depois. Em Esaú e Jacó, por exemplo, antecipou-se a Freud no ‘complexo de Édipo’”.
O certo é que Queda que as mulheres têm para os tolos ser ou não tradução é o que menos importa. O que vale ser considerado mesmo é , primeiro, sua própria textura — leve, gracioso, fluente, irônico, bem-humorado — e sua indefinição genética, sua não-identificação formal; depois, ter sido inspiração para muito do que viria a seguir , o modelo de uma ‘teoria amorosa’ exercitada por Machado em “Desencantos”(1861), em Ressureição (1872), e finalmente na opera-mater, a grandiosa Dom Casmurro.(1899) .  Todos esses textos têm por modelo essa “teoria amorosa” -- traduzida ou não por Machado, em 1861; em todos eles, a ‘ideologia’ da dúvida, da dubiedade, da incerteza, da ambigüidade; todos abordam a questão da escolha que a mulher deve fazer entre um homem de espírito e um homem sem juízo – que constitui-se num dos primordiais arcabouços dramatúrgicos e temáticos da ficção machadiana.
Em Dom Casmurro a história de amor e ciúme de Bento Santiago e Capitolina representam a reescrita não apenas de Otelo de Shakespeare, mas das principais peças teatrais do dramaturgo inglês : Machado embebeu-se nas lições shakespeareanas e delas impregnou seu romance mais lido e estudado , conseguindo atar, finalmente, as duas pontas de sua carreira literária — a de tradutor, iniciada em sua juventude, paralelamente com a de dramaturgo,  e a de romancista, já maduro. Nessa simbiose, inclusive, Machado como que prenuncia, cerca de 100 anos antes, a tese contemporânea — vigente no âmbito da Teoria Literária desde o final do século XX — proposta por especialista, “a ficção vista  como  nova fonte de teorização para a tradução”, a  tradução  aparecendo como  fio condutor e meio operandi , quer tendo sido feita realmente em Queda que as mulheres têm para os tolos , quer ‘incorporada’ em Dom Casmurro, e estabelecendo vetores claros de inflexão em quatro etapas cruciais da vida literária de Machado.Um elo a ligar  ‘primeiras obras’ — a pioneira publicada, o exercício teatral inicial, o romance precursor — com aquela que é a síntese, corolário, consolidação. Elo que se alonga mais  ,  visto por outros aspectos e ângulos: vai  a Esaú e Jacó e atinge o corolário final em Memorial de Aires. Nos dois derradeiros trabalhos, Machado opta por um expediente ficcional — dentre os vários que utiliza ao longo de sua obra – atribuindo a um morto a autoria desses romances, deslocando-se para uma condição ambígua de editor e crítico de si mesmo, fingindo abrir mão da autoria de seu texto –-  ambiguidade gerada e conduzida pelo mesmíssimo vetor que o fez, nos primórdios, assumir a também condição ambígua de ‘tradutor’ em Queda...  e da mesma forma abrir mão da autoria de seu texto.







sexta-feira, 27 de junho de 2014

MACHADO DE ASSIS, 175 anos(21.06.1839) - VI

Os primeiros de Machado (contin.)
o 1o. livro publicado, 1861 -- extremamente significativo, por um conjunto incrível de elementos, que o fazem obra fundamental na produção literária machadiana
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Queda que as mulheres têm para os tolos

      Um sugestivo e instigante título batizou a primeira obra de Machado de Assis publicada em forma de livro — embora não o fosse o primeiro  texto dado a público : fora precedido por três poemas,um conto (que,a la Machado, duvida-se ser tradução ou criação original) e uma incipiente novela (cuja autoria é discutida até hoje), todos eles modestos exercícios de iniciação ficcional, praticados na imaturidade literária dos 20 anos .
         A primeira de suas peculiaridades reside no fato -- que o leitor perceberá de imediato -- de não constituir-se em um gênero definido, difícil de classificar nos moldes tradicionais, aproximando-se mais de uma sátira e menos de um ensaio, muito longe de ser um romance,uma novela, um conto ou uma crônica. Outra das particularidades refere-se ao ter despertado ao longo do tempo – não tanto quando de sua publicação – dúvidas, daí uma salutar (culturalmente falando) polêmica, quanto à sua condição de criação original ou tradução de Machado de Assis,contendo em si, portanto, uma conotação de mistério,dúvida e polêmica, que de resto apenas corroboram, por assim dizer, o ‘espírito’ machadiano de fazer literatura : afinal, todos sabemos, o autor de Dom Casmurro  utilizou em muitas de suas criações – romanescas e contísticas, até mesmo em crônicas – o subterfúgio, a dissimulação, o cultivo consciente, fundamentado e deliberado do enigma.
        A multiplicidade da representatividade histórica de Queda que as mulheres têm para os tolos expressa-se em especial por deflagrar , a par de todos os elementos acima mencionados,  um elo de interações, afinidades e intertextualidades com outros  importantes momentos da vida literária  de Machado de Assis, prenunciando,anunciando, antecipando e consubstanciando em sua forma,linguagem,estilo e conteúdo muito  do que viria a seguir na lavra ficcional do autor.
        Que elos de intertextualização são esses ? a) como suposta tradução -- que a meu juízo não é -- inserida na produção machadiana como intérprete de Victor Hugo, La Fontaine, Lamartine, Shakespeare, Dante, Poe, Dickens, Goethe,e outros, constitui manifestação pioneira do conceito da tradução, a incorporar a célebre “teoria do molho”  , reaplicada e reutilizada numa perspectiva das teorias do comparatismo elaboradas por ele  próprio, em muitos aspectos antecipadora da vertente atual dos estudos de Literatura Comparada ; b) a ‘teoria amorosa’ desenvolvida  em “Desencantos”, em Ressureição, e chegando a Dom Casmurro – o  livro inaugural interagindo com a primeira peça teatral, com o primeiro romance e  com a  obra-mater : em todas elas, a ‘ideologia’ da  dubiedade, da  ambigüidade, da dicotomia ; c) a mulher como protagonista primordial da ficção machadiana ,que nos moldes de  Flaubert, Balzac, Eça de Queiroz (juntamente com Freud – de quem Machado ‘antecipou’ muitos conceitos, não fosse este,como aquele, grande perscrutador da alma humana), traz para o centro das discussões, o feminino  e a questão da sexualidade feminina  : nenhum escritor de seu tempo  ‘edificou’ tanto a mulher como personagem capital e leitmotiv básico de seus textos como Machado ,que escrevia sobre mulheres e para mulher  ; d) a tríade  tolo -- mulher -- homem de espírito , que permeia toda a ficção machadiana, sob uma teia dramatúrgica presente em contos e romances ao longo do tempo e da evolução literária de Machado ,transportando a 'ideologia' de Queda que as mulheres têm para os tolos  para muitas das obras posteriores.
  
Machado, eterno enigma

Queda que as mulheres têm para os tolos  veio a lume no ano de 1861, originalmente publicada na revista A Marmota Fluminense, em cinco folhetins sucessivos: 19, 23, 26, 30 de abril e 03 de maio, e no mesmo ano em livro, um opúsculo de 43 páginas, formato 16 x 12cm , pela Typographia de Paula Brito [Francisco de Paula Brito, "o primeiro editor digno deste nome que houve entre nós", em citação de Machado de Assis, exerceu papel fundamental no desenvolvimento da carreira literária de Machado – bem como de muitos outros escritores, em meados do século XIX. Inaugurou, na verdade, uma vertente histórica e uma linhagem de editores ou casas editoriais que se constituíram em ponto de encontro da elite cultural e de incentivo à produção literária.]
 Tanto nos folhetins como nos volumes editados  aparece sob a indicação de “tradução de Machado de Assis”, sem informar no entanto   o nome do autor original.
 Estudiosos e pesquisadores de Machado de Assis por muito tempo sustentaram  -- em que me incorporei  -- tratar-se de  um trabalho original, disfarçado em tradução por ‘timidez’ do autor, mas o  ensaísta (e machadófilo) francês Jean-Michel Massa defendeu, recentemente, ser uma tradução do panfleto publicado anonimamente pela editora F. Renard de Liège, em 1859,  com o título “De l'amour des femmes pour les sots”, atribuído posteriormente ao belga Victor Henaux — ainda que apenas cite nominalmente  a obra, sem maiores detalhes , em seu livro Machado de Assis traducteur [Massa teria tido acesso, segundo ele, à 4ª. edição da obra de Henaux, pertencente à Biblioteca Nacional de Paris].
O disfarce concebido por Machado, segundo os que asseguram ser uma criação e não tradução – por ‘timidez’ do autor – seria mais um dos inúmeros  subterfúgios machadianos: de um lado, por ser Queda...  seu  primeiríssimo livro  publicado, em 1861; de outro lado, pelo fato de ser ele anda ‘um ilustre desconhecido’ e sobretudo por ser um texto de gênero absolutamente indefinido — não é romance, não é conto, não novela, não crônica, não poesia, não teatro : aproxima-se mais do ensaio (filosófico) .Machado , ‘a la Machado’, teria optado por aparecer como tradutor : inclusive porque sempre foi (e é) difícil encontrar, comprovar e certificar-se de  muitas das traduções  feitas por ele – que  constituem um permanente desafio a críticos,pesquisadores,historiadores e estudiosos.
Convém assinalar que em 1859, A Marmota publicou, também em folhetins,dois textos literários muito peculiares no que se referem a Machado de Assis. De 10 maio a 30 agosto, o conto “Bagatela” , com uma nota inicial informando “O  sr. Machado de Assis  cujo nome e de cujas produções literárias já os nossos leitores têm conhecimento, pelo que de sua pena se tem publicado, mimoseou-nos com a seguinte tradução,que muito lhe agradecemos, cujo trabalho não é,como o título diz, uma Bagatela”.No entanto, Jean-Michel Massa  realizou intensa pesquisa, consultando primeiramente “os melhores especialistas do conto fantástico(M.M. Castex, Vax, Stragliati,  M. Versians) e nenhum deles tinha a menor referência sobre esse texto; depois, buscando localizar na Biblioteca  Nacional de Paris o conto entre as principais obras -- nada menos que  19 obras publicadas entre 1842 e 1859 e em 3 coletâneas de contos fantásticos – da mesma forma nada encontrando; em última instância,Massa supõe que o conto possa ter sido publicado  numa revista literária francesa de pouca importância e algo obscura, da qual não restam exemplares ou registros bibliográficos.
Em se tratando de Machado, sabemos tudo ser possível – o feito pelo não-feito, o criado pelo traduzido, o escrito pelo não-escrito. Nada como esses exemplos para alimentarem especulações, divagações, ilações e interpretações em torno não apenas de Queda... – a rigor, um prenúncio do que se desenrolaria na produção literária de Machado – mas de várias outras obras, entre pseudônimos,anônimos e criptônimos, dúvidas e mistérios, sutilezas e enigmas,disfarces e subterfúgios .
Mestre dessas ‘artes’, Machado utilizou-os  à exaustão, como meios e instrumentos de disfarce: só de pseudônimos, foram mais de 30 assinaturas diferentes, em contos (como eram publicados em folhetins, por vezes uma assinatura diferente para cada capítulo) e crônicas : nestas, a prática do anonimato, por Machado, atingiu seu auge, por assim dizer, na série “Bons Dias!”, conjunto seqüencial de crônicas publicadas na Gazeta de Notícias de abril 1888 a agosto 1889  – porque somente descoberto e revelado na década de 1950, por J. Galante de Souza, vale dizer cerca de 70 anos depois (!)    

Mistério e enigmas, aliás, não faltam na obra e na carreira literária de Machado. O mistério machadiano pode perfeitamente ser  associado à lenda fáustica : Fausto, de Goethe,símbolo da inquietação humana, aturdido num universo que não compreendia, vendeu a alma ao diabo, em troca de sabedoria e poder ; Machado, ao contrário , desdenhou do poder, preocupado apenas em alcançar o conhecimento, “aquele conhecimento impiedoso, meio diabólico e tantas vezes doloroso que desnuda a alma do homem e procura, em vão, levantar o véu da natureza”. Em Machado, pressente-se sempre que há alguma coisa mais oculta, sem se saber exatamente  o quê — e nada o explica satisfatoriamente. Sente-se que existe sempre algo a descobrir no mistério machadiano, no enigma do criador de uma obra de ficção tão importante quanto a dos grandes mestres dos séculos XIX e XX, como Balzac, Stendhal,  Flaubert, Proust.
 Por outro lado, os que admitem Queda que as mulheres têm para os tolos como  efetivamente tradução, ainda assim mantêm suas dúvidas ( a que me integro) , de resto extensivas a essa dificuldade na localização de traduções efetivamente realizadas por  Machado e, importante saber, ao fato de Machado simplesmente suprimir seu nome como tradutor em alguns trabalhos.
Daí, quem garante Queda que as mulheres têm para os tolos ser  efetivamente uma tradução feita por Machado, ou mais um de seus subterfúgios ? E cá entre nós e para nós, a versão considerada por mais de um século é muito mais, digamos, ‘charmosa’, muito mais —  não há dúvida alguma — condizente e apropriada ao estilo e espírito  machadiano : sutil, insinuante, ambíguo, dissimulado. Pois não é essa, a par de outras igualmente grandiosas, a mais espetacular característica/conotação de toda obra de Machado ? Ele sempre cultivou a dúvida, o ‘traiu ou não traiu’(implícito em sua maior e definitiva obra), ‘insinuou ou não’, ‘seduziu ou não’, ‘mentiu ou não’, ‘furtou ou não’,‘fez ou não fez’— um  teor ‘hamletiano’ que permeia todos os romances, contos e  novelas, a  ligá-lo e  referenciá-lo a  Shakespeare,uma de suas grandes admirações e contumaz citação ..
De Shakespeare e de Goethe – este,  outra  de suas leituras mais assíduas --Machado assimilou e incorporou  à sua obra ficcional a temática do ciúme, aliás o binômio ‘ciúme e perdão’ , presente e atuante  em romances como Ressurreição, A mão e a luva, sobretudo em Dom Casmurro, e em inúmeros contos : binômio que também (ou essencialmente) remete a Freud, de quem Machado consubstanciou – sem o conhecer...—os elementos e conceitos do inconsciente, do psiquismo humano, da sexualidade feminina, estabelecendo como nenhum outro escritor brasileiro de seu tempo vetores e  pontos de interseção entre a literatura e a psicanálise,  desde as primeiras obras, mesmo as da ‘fase de aprendizado’ e atingindo seu clímax na denominada ‘fase de maturidade’. Como sentencia Roberto Schwarz  , “Machado é um autor que em 1880 está dizendo coisas que Freud diria 25 anos depois. Em Esaú e Jacó, por exemplo, antecipou-se a Freud no ‘complexo de Édipo’”. E sabemos ser   Machado de Assis  o grande  autor do romance psicológico brasileiro do século XIX e do início do século XX.
 O certo é que  Queda que as mulheres têm para os tolos ser ou não tradução é o que menos importa. O que vale ser considerado mesmo é, primeiro, sua própria textura — leve, gracioso, fluente, irônico, bem-humorado — e sua indefinição genética, sua não-identificação formal ; depois, ter sido inspiração para muito do que viria a seguir , o modelo de uma ‘teoria amorosa’ exercitada por Machado em “Desencantos”(1861), em Ressurreição(1872), e finalmente na opera-mater, a grandiosa Dom Casmurro.(1899).  Queda que as mulheres têm para os tolos adquire representativa especial e peculiar, pois lhe serviu de inspiração para a escrita de sua primeira peça teatral, por cadeia, de seu primeiro romance,e, por fim, de sua obra definitiva e  consagradora .Todos esses textos têm por modelo a “teoria amorosa” -- traduzida ou não – anunciada por Machado, em 1861;   em todas eles, a ‘ideologia’ da dúvida, da dubiedade, da incerteza, da ambigüidade; todos eles abordam a questão da escolha que a mulher deve fazer entre um homem de espírito e um homem sem juízo – que constitui-se num dos primordiais arcabouços dramatúrgicos e temáticos da ficção machadiana.

a forma literária de uma trindade machadiana
        Entre os vários e relevantes  elementos por meio dos quais Queda que as mulheres têm para os tolos prenuncia, integra-se e intertextualiza-se  com diversas obras machadiana,entre eles a ironia, o sarcasmo, a sutileza, a finura psicológica, o vocativo ao leitor, vale  destacar o que se pode denominar de  ‘diplomacia amorosa’ ,  expressa pela  tríade  tolo -- mulher -- homem de espírito que permeia toda a ficção machadiana e sua evolução literária .
     A trindade habita intensamente, como protagonista, a maioria dos contos do ciclo 1858-71 -- mormente nos contos “Confissões de uma viúva moça”,“Fernando e Fernanda”,”A felicidade pelo casamento” , “O anjo Rafael” ,”A mulher de preto”, “Linha reta e linha curva” ,“Ernesto de Tal”, “O machete”, “Aires e Vergueiro”, “Antes que cases” – e está presente em todos os contos  do período 1872-79 . A tríade está nos romances RessureiçãoA mão e a luvaHelena , anuncia-se algo transformada na transição representada por Iaiá Garcia, transmuta-se inteiramente em Memórias póstumas de Brás Cubas (quando surge consistentemente o cético, oriundo do homem de espírito transformado), reaparece em Quincas Borba , e, sob outra perspectiva ,em Dom Casmurro , por fim chega a seu ocaso nos derradeiros romances Esaú e Jacó e Memorial de Aires (o cético  atingindo seu cume no Conselheiro Aires) : na última obra, a seara  da redenção total da mulher machadiana(protagonizada por Carmo), definitivamente apartada da preferência pelo tolo ao invés e em vez do homem de espírito.
            Os tolos são, via de regra, frívolos, estroínas, praticam as fórmulas socialmente estabelecidas, sua linguagem assemelha-se à retórica romântica dos folhetins, ostentam autoconfiança, são determinados e objetivos nas ações afetivas, até mesmo fingindo sentimentos e aparentando paixões com o fito exclusivo de conquistar a mulher. Exatamente ao contrário dos homens de espírito, que fracassam e são excluídos por não se coadunarem com os padrões de postura, convenções e relacionamento sociais e por acreditarem numa vida  além e acima do jogo estratégico de aparências falsas e artificiais – mas se verá  que , ao longo do tempo e dos contos  ( e aqui convém lembrar o quanto os contos se constituíram de terreno e instrumento de experimentação, como meio fundamental do processo de evolução ficcional de Machado até a ‘inflexão’ do final da década de 1870/início de 1880 ,  cujas causas e motivos tanto intrigam os analistas e estudiosos de Machado) , numa espécie de aprendizado pelo fracasso, irão amadurecer,assumir  uma atitude de reflexão sobre a "realidade aética da vida" vis –a - vis com a desilusão com as possibilidades da vida moral e  transmutar-se no cético.
       Se o macro-universo do entorno – os cenários político-institucionais-sociais, mormente a partir da década de 1870 --  se transforma, o micro-universo literário deve acompanhá-lo: Machado pressente os novos tempos,convence-se da necessidade crucial de mudança, já exercita os primeiros passos do grande salto que virá no final dessa década, altera seu enfoque, sua temática,sua linguagem,seu estilo, sua estética literária – a começar pelos novos perfis dados a dois dos vértices do triângulo. Apenas dois, porque o tolo continuará com sua frivolidade e estoicismo, servil das convenções sociais e atado ainda à retórica romântica. De um lado, o homem de espírito muda, amadurece, estabelece nova relação com a mulher-- recusando terminante e objetivamente aquelas que fingem e ostentam--caminha da contemplação para o ceticismo; de outro, a senhorinha ingênua,namoradeira,festeira,‘casamenteira’(por interesse ou conveniência) cede lugar,primeiro à mulher matrimonial (por sentimento ou segurança),voltada para a vida íntima, para “a paz doméstica”,tornando-se  depois – pelo rompimento gradativo dessa paz e a fragilidade dessa vida doméstica – vulnerável à “vida exterior”,“estratégica”,dual,.determinada, paradoxal..
              A ‘nova’ mulher machadiana deplora a frivolidade do tolo (com quem se casou) e passa a se inclinar para o homem de espírito (de quem aspira ser  amante). Machado, atento e obediente aos ditames sociais-‘ideológicos’ dos novos tempos,como sempre praticou em toda sua obra ficcional, convoca o leitor à acurada reflexão sobre a preferência da mulher – quer a antiga quer a atual – e deixa-lhe a responsabilidade do julgamento conclusivo. A ele cabe dizer afinal o que pensam/querem as mulheres. 
 Em  Dom Casmurro  a história de amor e ciúme de Bento Santiago e Capitolina representam a reescrita não apenas de Otelo de Shakespeare, mas das principais peças teatrais do dramaturgo inglês : leitor contumaz,e em especial tradutor,  dos textos shakespeareanos, Machado embebeu-se nas lições do ‘bardo’ e delas impregnou seu romance mais lido e estudado , conseguindo atar, finalmente, as duas pontas de sua carreira literária — a de tradutor, iniciada em sua juventude, paralelamente com a de dramaturgo,  e a de romancista, já maduro. Nessa simbiose , inclusive, Machado como que prenuncia, cerca de 100 anos antes, a tese contemporânea — vigorante no âmbito da Teoria Literária desde o final do século XX  — proposta por especialista, “a ficção vista  como  nova fonte de teorização para a tradução”, a  tradução  aparecendo como  fio condutor e meio operandi , quer tendo sido feita realmente em Queda que as mulheres têm para os tolos., quer ‘incorporada’ em Dom Casmurro, e estabelecendo vetores claros de inflexão em quatro etapas cruciais da vida literária de Machado.

Por outro lado, ao se  examinar  alguns aspectos da atividade de tradutor em Machado de Assis, denota-se que em todas as traduções que fez, “se permitiu algumas licenças”, as quais demonstram que, para ele, o traduzir não deveria ser um ofício de menor valor na carreira de um escritor. Como tradutor e crítico-teórico do traduzir, Machado desde o início de sua carreira literária percebeu como nenhum de seus contemporâneos a importância do papel da tradução  como geradora e incentivadora do ‘diálogo’ entre textos, ou ‘diálogo entre literaturas’,como propiciadora da hoje extremamente citada e difundida intertextualidade — na qual, como em muitos outros campos e searas,  foi ele também um precursor.

Machado em sua  ação tradutória  não compartilhava com seus contemporâneos “o entendimento de cor local, no sentido dado pelo Romantismo – o etnocentrismo, o indigenismo, a paisagem natal como elementos essenciais para se criar uma literatura nacional genuína” – colocando-o em discordância com o momento cultural do País no século XIX. E ia além, criando e praticando um conceito da tradução – na verdade, um processo criador -- que, entre outros aspectos, incorporava  em maior ou menor grau sua célebre “teoria do molho” , segundo a qual  "pode-se ir buscar a especiaria alheia, mas há de ser para temperá-la com o molho de sua fábrica" : vale dizer, embora bebesse nas fontes européias utilizadas como ‘comida para seus pensamentos’,  ruminava os diversos alimentos e os transformavam em pratos tipicamente machadianos, pois tirava de cada coisa uma parte e fazia o seu ideal de arte, que praticava pioneiramente como ninguém --  reaplicada e reutilizada numa perspectiva das teorias do comparatismo elaboradas por ele  próprio, em muitos aspectos antecipadoras da vertente atual dos estudos de Literatura Comparada.
Tenha sido tradução ou não -- em ambos os casos, manifesto eloqüente de criatividade de Machado – dando início e alavancando sua evolução literária ,  Queda que as mulheres têm para os tolos ultrapassa os limites de seu próprio significado histórico, como  obra debutante e reveladora para , estabelecendo elos e decorrências na criação ficcional, na inspiração  teatral, na atividade tradutória ,abrindo e fechando ciclos temáticos, oferecendo todas as possibilidades de análise,interpretação e reflexão, contextualiza-se na fértil e enorme seara da genialidade de Machado de Assis como uma das expressões mais proeminentes de verdadeira transcendência literária.