terça-feira, 14 de abril de 2015

PONTES DE VISTA : MACHADO DE ASSIS E OS PORTUGUESES


Lançada a 11 abril, com todas ‘pompa e circunstância’, na lendária Livraria Lello (todos devem saber, por certo, de sua gloriosa história), no Porto, Portugal, a 1ª. edição da revista acadêmica de filosofia e literatura “Pontes de Vista” [seu lema diz: “nascemos com pontos de vista, mas só crescemos com pontes de vista.”] publica contribuições de investigadores, filósofos e pensadores de língua portuguesa internacionais, 
-- e abriga meu artigo “Machado de Assis e os portugueses”, escrito especialmente para a revista
inerente a estudo que desenvolvo há mais de um ano, a gerar livro (“ Machado de Assis e os portugueses : influências, intertextualidades, convívios”), cuja finalização se dará no segundo semestre deste ano; livro aguardado com expresso interesse pelo Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa e pelo Instituto de Literatura Comparada da Universidade do Porto..

quinta-feira, 2 de abril de 2015

O cinema vai à literatura: um réquiem a Manoel de Oliveira

-- morreu em 01.04. um dos maiores cineastas da história do cinema : mais, um dos magistrais artista do mundo.

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O cinema vai à literatura
(e a literatura se vale do cinema)

Sempre é oportuno e indispensável tecer reflexões sobre a sempre vigente relação literatura-cinema, com suas interseções, confluências ...e divergências . Poucas formas artísticas estabelecem entre si tantas relações de sentido mútuo, ainda que sujeitas a entreveros e embates, acusações de “infidelidade autoral”, polêmicas sobre liberdades de criação, etc.-- até porque são diferenciadas as linguagens e distintos os respectivos códigos e modos de funcionamento : narrativa literária e narrativa fílmica distinguem-se e na maioria dos casos  contrastam- se; são  sempre  difíceis as transposições de uma para o outro, pois as características intrínsecas do texto literário -- originalidades, subjetividades, entrelinhas, elaboramentos -- por princípio não encontram a mesma expressão na narrativa cinematográfica.
 A par das diferenças, entre a  página e a tela há laços  estreitos -- em forma de ‘mão e contra-mão’ : a página contém palavras que acionarão os sentidos e se transformam na mente do leitor em imagens; a tela abriga imagens em movimento que serão decodificadas pelo expectador  por meio de palavras.Entre a literatura e o cinema, há um parentesco originário, diálogo que se acentuou sobremaneira após a intermediação dos processos tecnológicos. Assim, a enorme e expressiva influência da literatura sobre o cinema tem sua contrapartida, por meio de um  ‘cinema interior ou mental’ sobre a literatura e as artes em geral, mesmo em uma época precedente ao advento dos artefatos técnicos.
Optando pela modalidade narrativa, o cinema roubou da literatura parte significativa da tarefa de contar histórias, tornando-se, de início, um fiel substituto do folhetim romântico. E, apesar de experimentações mais ousadas, como a "Avant-Garde" francesa da década de 1920, ou o surrealismo cinematográfico, que buscaram fugir dessa linha, a narratividade continua a ser o traço hegemônico da cinematografia.
Daí, adaptar para o cinema ou para a televisão — meios reconhecidamente ligados à cultura de massa — obras de autores como Shakeaspeare, Dostoiévski, Tolstói, Balzac, Flaubert, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, para citar apenas alguns nomes de relevo no panorama universal e nacional — equivale a trazer para as mídias o prestígio da grande arte ou, no dizer de alguns, tornar a arte erudita acessível ao grande público. Mas a adaptação de obras literárias para o cinema e, posteriormente para a televisão --  meios que privilegiam a linha narrativa — também não se tem feito sem conflitos, pois as adaptações resultam sempre em empreendimentos insatisfatórios.
Não se pode negar que, principalmente em seu período clássico, o cinema tenha procurado na aproximação com a literatura uma forma de legitimar-se. E além das freqüentes adaptações de obras literárias para a tela, tornou-se prática corrente, em particular naquele período, a contratação de escritores como roteiristas. Assim é que, em Hollywood, notáveis escritores como William Faulkner, Scott Fritzgerald, Aldous Huxley, Gore Vidal, , James Age,Nathanael West, dentre outros, tornaram-se os contadores de muitas histórias que comoveram o grande público e garantiram o sucesso de vários empreendimentos. Saber se tais roteiros traziam a marca da criação literária já é uma outra questão, que talvez possa ser analisada a partir da postura de alguns desses escritores-roteiristas. Faulkner, por exemplo, não fazia segredo sobre a natureza de sua atividade em Hollywood: "Faço apenas o que me dizem para fazer; é um emprego, e pronto."
“A literatura e cinema não são tão distantes assevera o pesquisador e professor do departamento de espanhol e português da University of California (UCLA), Randal Johnson – com quem tive oportunidade de conversar quando de sua estadia no Rio de Janeiro, em 2008, convidado pelo Programa de Pós-graduação da Escola de Comunicação (ECO-Pós) da UFRJ em parceria com o Globo Universidade para ministrar uma disciplina compactada sobre Cinema, Literatura e TV. Para ele,  as relações entre cinema e literatura não se limitam às adaptações do texto escrito para a tela, apontando três outros importantes pontos de encontro : o primeiro seria os filmes feitos sobre escritores – de que gradativamente proliferam vários exemplos em cinematografias distintas; outro, seria o uso estrutural ou incorporação de textos literários no discurso cinematográfico – esta indubitavelmente a ocorrência maior; e também  o encontro da literatura e do cinema poderia se dar através de referências como alusões literárias nos diálogos e citações implícitas ou explícitas, visuais, orais ou escritas diretamente na tela – um expediente cada vez mais recorrente na produção contemporânea. Por outro lado,  Johnson critica  enfaticamente  a valorização do texto literário sobre o discurso cinematográfico, sustentando ser  muito comum entre os espectadores uma exigência de fidelidade do filme ao livro. . A insistência na fidelidade da adaptação cinematográfica à obra literária originária,pode resultar em julgamentos superficiais que freqüentemente valorizam a obra literária em detrimento da adaptação, sem uma reflexão mais profunda. Os filmes são julgados criticamente porque, de um modo ou de outro, não são “fieis” à obra modelo. O conceito, de ‘fidelidade’ assume conotação crucial,tornando-se na discussão\reflexão do relacionamento entre cinema e literatura, no chamado ‘x da questão’ : tudo, a rigor, gravita em torno disso.
Às vezes a mais fiel das adaptações faz o pior dos filmes, porque o material não se presta a uma história filmada e, na forma como está escrito, não funciona na tela, por mais forte que seja a história no original.
Esse  freqüente discurso da fidelidade baseia-se,a meu juízo, na crença difundida de que a literatura é superior ao cinema, um preconceito devido ao fato da literatura ser anterior no tempo ao cinema, o que pode levar à idéia de que o livro é historicamente mais nobre e o filme secundário -- além evidentemente do pensamento de que cinema e literatura são rivais a partir da crença na idéia de que o filme adaptado suga e destrói o que é essencial no livro.
 Na verdade, desde que o cinema é cinema, a literatura tem sido um de seus pontos de partida – as relações entre o cinema e a literatura são tão fortes que alguns estudiosos chegam a afirmar a sua existência antes mesmo do surgimento do cinema. Para isto evocam uma teoria limite, segundo a qual há uma essência do cinema, de um “pré-cinema” embutido em alguns textos literários anteriores à forma de expressão cinematográfica, e que teriam como especificidade o fato de os escritores ordenarem o relato em função da incidência do olhar do narrador, da sua ‘ocularização’ da cena a narrar. Desse modo, a narrativa cinematográfica já se encontraria latente em alguns textos narrativos literários, e  a relação logo passou a trilhar indissolúvel (sic)  mão dupla, quando literatos e dramaturgos começaram a se inspirar no cinema para formar narrativas em prosa e em  poesia. A rigor, as diferenças entre textos literários e filmes neles apoiados são marcadas por historicidades específicas de cada linguagem --- ísto é, o tempo histórico que cada um retrata (um filme realizado na década de 2000 abriga um relato literário escrito ou passado em 1890 , ou em 1950, etc ) : e o  momento histórico de cada um é que se constitui faceta que conduz a inevitáveis diferenças. Nenhum filme ‘repete’ uma obra literária, nenhuma obra literária ‘repete’ um filme, quer pelas diferenças de linguagem, quer pelo momento próprio de produção e circulação de cada um de seus produtos.
 Essa intrínseca, dialógica e dinâmica relação nasce no momento em que o cinema descobre seu potencial digamos literário , ao absorver o modelo narrativo do romance do século XIX a subsidiá-lo para melhor contar histórias – malgrado podermos hoje levantar a reflexão em plena  era da imagem digital em que vivemos : o cinema  continuaria ‘preso’ a um modelo narrativo já ,em maior ou menor grau, superado pela própria literatura? .Se o cinema beneficiou-se do romance do século XIX, por que na era da imagem digital, quando a capacidade plástica do cinema atinge seu ponto mais alto, continuam-se a ilustrar romances do século XIX?
Examinado detidamente com isento rigor crítico, no campo da narrativa, em sua já longa  história, o cinema não sofreu muitas variações – malgrado certas exceções, como experimentos  ‘de vanguarda’ – e vem à mente, por aproximação etimológica, a  “Nouvelle Vague” da década de 1960 , que se propunha a romper  com a lógica linearizante da estética e da narrativa fílmica de até então, inspirada num congênere da seara literária, o “nouveau roman”—ambas dialogando entre si pelas respctivas técnicas narrativas, num movimento de realimentação recíproco entre as duas linguagens.Convém não esquecer,entretanto, que sob a égide de suas  afinidades com a cultura literária, se o cinema europeu tendia, então, a se afastar do modelo romanesco tradicional, a indústria cinematográfica hollywoodiana, voltada para o entretenimento, consolidou-se seguindo padrões já consagrados da narrativa literária – levando  Jorge Luis Borges  a  observar que, com os westerns, “Hollywood, por razões comerciais, naturalmente, salvou a épica, num tempo em que os poetas tinham esquecido que a poesia começou pela épica”.Tanto uma quanto o outro buscando ultrapassar  as limitações formais e “não procurando  ordenar o caos”, ao contrário, o caos tornando-se o princípio da criação. Os cineastas da “Nouvelle Vague”,p. ex., queriam mostrar que nem tudo faz sentido e que os caminhos são múltiplos; e por fim  aquilo que Jean Cocteau afirmou sobre o cinema pode agora se efetivar, pois para ele, os filmes só seriam bons quando fossem acessíveis como uma caneta e um papel.
Contudo, há de se atentar para um outro viés ,uma espécie de contra-mão no processo de interação cinema-literatura, no caso um contrafluxo mediado, executado,e recentemente cada vez mais incentivado pelo setor editorial e mercado livreiro – nos quais dá-se o crescente movimento de publicação de  livros motivados... pelo cinema :roteiros de filmes, diários de filmagens, histórias sobre a elaboração de filmes(making-of), edição ou reedição de obras literárias abrigando imagens e outros elementos iconográficos  que remetem para os filmes realizados a partir da adaptação da obra para  o cinema – uma subversão das relações entre cinema e literatura.  De resto, uma tendência à qual avolumam-se questionamentos sobre até que ponto  sinaliza tanto  ‘perda de prestígio’ e ‘distorção\vulgarização’ da matéria  literária, como sobretudo ‘dessacralização’ da literatura,  tênues que se tornam cada vez mais as fronteiras entre ela e outros tipos de bens culturais que circulam pela mídia.e no seio de consumo da sociedade.
 Da mesma forma e desse processo decorrente, deflagra-se ao longo da segunda metade do século XX,por parte e ação do setor  editorial ,a  contrapartida à incorporação da obra literária,fosse best seller ou não – muitas criadas especificamente para se transporem à tela – pelo cinema , com o relançamento de romances adaptados e especialmente com a publicação de roteiros .Toda a literatura poderia, então, ser considerada como texto básico para um filme, e na direção oposta, parece que o cinema vem buscando cada vez mais o espaço do livro, no que o mercado editorial explora o filão das publicações derivadas de filmes.
Por outro lado e em outra vertente, ao praticarem exercícios literários, cineastas e roteiristas via de regra imprimem a suas narrativas muito mais o teor, o timbre, o ritmo, o timing fílmico -- e menos literário. E além disso, mesmo que sua estória e trama seja de ação,de movimento, costumam  lidar  com o onírico, o  sonho , e com o psicológico -- que é, sabemos,  elemento recorrente ao extremo no cinema, do expressionismo alemão a Stroheim, de Bergman a Buñuel, de Resnais a Godard. Não poderia ser de outra forma, pois são eles  antes e acima  de tudo pessoas do cinema.
Tudo isso propicia um exercício de reflexão e indagação: as incursões de cineastas e de profissionais de tv na literatura podem ser bem resolvidas e bem sucedidas ? O caso é que um diretor de cinema ou de tv  quando vai à literatura  leva com ele uma bagagem da linguagem  -- o ritmo, o corte abrupto, o esperar pronto entendimento do leitor, qual um espectador -- e assim  comete  pecados e pecadilhos marcantes . Ao contrário, um escritor que vai para o cinema -- como roteirista, quase sempre -- o faz melhor, sabe adaptar, mostra-se mais seguro, os resultados são melhores: caso de Rubem Fonseca, dos exemplos clássicos dos escritores norte-americanos com Hollywood ,e ainda de Jean Louis Carrière , Dalton Trumbo no cinema europeu.
Sob essa perspectiva, é comum cineastas em incursões literárias  atuarem numa espécie de contramão, na via inversa do terreno do relacionamento -- ou do embate -- literatura/cinema ; os questionamentos sobre “apropriação de obras literárias por cineastas”, ao realizar filmes, ganha outro contorno, de sinal trocado : no caso, um cineasta não pega um livro e faz um filme -- e vale lembrar que  para o escritor Autran Dourado “não existe livro filmado, existe filme baseado em livro” -- mas escreve um livro com elementos e ‘cacoetes’ de filme. Sai de seu habitat original e vem para outro, mas utilizando o mesmíssimo instrumental, na vã tentativa de sintetizar o mimetismo palavra-imagem.
No ‘umbelical’ -- nada dicotômico, portanto -- relacionamento do cinema com a literatura, podem ser extraídos, ou inferidos\induzidos, alguns elementos que responderiam a Stanley Kubrick -- para quem “tudo que pode ser escrito e pensado pode ser filmado” --  também provando o inevitável  desejo de cineastas e roteiristas, ao escreverem uma obra literária, que  ‘tudo que pode ser filmado poderia ser escrito’...


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quinta-feira, 19 de março de 2015

Inéditos de Machado de Assis

atendendo a pedidos -- não, não é frase-feita, ou lugar-comum,muitos me solicitaram, no facebook,  em email, até por telefone, que informasse mais sobre o livro "MACHADO DE ASSIS: TEXTOS INÉDITOS EM LIVRO ", publicado pela Academia Brasileira de Letras, 2014.
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resultado de cuidadosas pesquisas junto a periódicos, no caso oitocentistas -- como é de meu métier.
então, identifiquei uma crônica, um editorial (sim !), um conto (a rigor, o embrião de conto depois publicado e incorporado ao acervo machadiano), duas traduções
ao que eu saiba -- no universo de estudiosos machadianos, uma 'confraria' onde tudo se sabe ou percebe...-- não tinham sido coligidos nem catalogados , daí a meu juízo inteiramente desconhecidos.
[para ilustrar :
1. a crônica,de sugestivo e provocativo título "A odisséia econômica do sr. ministro da Fazenda", foi publicada em O Parahyba, jornal que raros, inclusive estudiosos e pesquisadores da imprensa brasileira, conhecem, ou conferiram a devida atenção : O Parahyba, de Petrópolis, foi tão importante que nem os grandes jornais da época tratavam de temas que ele encampou, como educação pública, situação da mulher, questão fundiária,colonização, além de veicular muita literatura, inclusive com textos inéditos. .
2. poucos iriam imaginar Machado escrevendo editorial, como o fez neste no Diário do Rio de Janeiro, 1866, ainda mais de cunho político (ainda existe muito por aí a pecha, absurda, de Machado alienado politicamente, etc : identifiquei, levantei, mapeei, organizei as 385 crônicas, 55% do total, que publicou tratando de política- para desmistificar tal equívoco crasso).
3.a falta de atenção de pesquisadores também manifestou-se no caso do conto -- "Um parêntese na vida", em O Futuro 1863, que apareceu assinado por um tal S., claro que mais um embustes e artimanhas machadianas --um 'embrião' (inacabado)do que seria "Felicidade pelo casamento", publicado no Jornal das Famílias, 1866: aponho no livro os parágrafos absolutamente idênticos de um e de outro.
4.do mesmo, entre pesquisadores da imprensa brasileira e entre estudiosos de Machado 'passou ao largo' o jornal A Instrução Pública, exemplo de uma imprensa pedagógica dos anos 1870, de enfoque e conteúdo educacional, e mais ainda desconfiarem (os pesquisadores) de Machado traduzir (por encomenda, como muitas das traduções que fez) uma série de conferências científicas(quem iria imaginar ?!...) ,do então iminente dr. T. Gallard, feitas na Sorbonne,em 1867, "Notions d; Hygiène des Instituteurs Primaires "/ "Higiene para uso dos mestres-escolas"; e no mesmo jornal,em 1872, não se atentar para a tradução de Machado para o canto XXV de "Inferno", de Dante, em cuja publicação em livro não aparecem uma introdução e um prólogo, além de trechos do poema diferentes.
lamentável a ABL não comercializar o livro (nenhum, aliás), restringir a doações a escolas, universidades, entidades, etc (nem mesmo para a imprensa: terrível) lamento maior em se tratando de um livro que reveste-se de notável relevância histórico-bibliográfico que escritos de Machado de Assis -- sempre indispensável de ser difundido – per se abrigam; ainda mais da natureza dos textos, manifestações de ineditismo -- imprescindíveis de se darem à luz -- a contribuírem para dar a público mais elementos valiosos da magnífica obra literária do maior nome da literatura brasileira.

terça-feira, 17 de março de 2015

Apontamentos e anotações de ‘garimpos’ literários

- a propósito da descoberta recente de poema inédito de Machado de Assis
https://www.facebook.com/rosso.mauro
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Pesquisador dedicado a literatura brasileira (oitocentista e parte novecentista), ensaísta, articulista, escritor ( autor de 11 livros impressos e 5 e-books), em meus trabalhos – pesquisas, estudos; artigos,ensaios, palestras, conferências, e mormente livros – priorizo, melhor dizer torno exclusivo, fazendo disso o próprio leimotiv de minha atividade intelectual e autoral., o approach da diferenciação, no que se refere ao inédito, ou pouco conhecido e divulgado, ou estudado e publicado, etc. -- investigados,pesquisados, identificados e recolhidos  os textos e escritos nessa condição em suas respectivas fontes primárias , vale dizer nos periódicos – jornais, revistas, almanaques, álbuns - dos respectivos tempos de suas veiculações originais. O vasculhar e o ‘garimpo’ em fontes primárias constituem per se o mote e força motriz que rege e impulsiona meus projetos e programas literários.
 Nos periódicos encontra-se, e neles arregimento, o material básico, a matéria bruta – melhor : a  matéria- prima (no mais elevado sentido) – com que trabalho, a massa e argamassa com que construo meus escritos e obras.
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De Machado de Assis, o conto até então inédito, dado como desaparecido – tudo indica que por  sua temática e elementos de trama plenos de sutileza -- “Um para o outro”, publicado em A Estação julho-agosto 1879, que incluí no livro Contos de Machado de Assis : relicários e raisonnés (PUC-Rio\Loyola, 2008), veio de um longo trabalho investigativo desenvolvido durante 6 anos – no caso, com foco exclusivo em uma única fonte primária, o citado jornal.
                  --publicado originalmente nos  folhetins de 30 de julho, 15 e 30 de agosto, 15 e 30 de setembro e 15 de outubro de 1879  em A Estação, o conto “Um para o outro” , dado como perdido,jamais fora  incluído até então em qualquer antologia,coletânea,seleta ou  edição em volume.

A par do citado livro pela ABL, 2014, ainda referente a Machado de Assis, debruço-me há mais de um ano no jornal O Parahyba – periódico de excepcional atuação e extrema importância para a história jornalística e cultural brasileiras, e pouquíssimo conhecido e estudado,  fundado e  publicado na cidade de Petrópolis,Rio de Janeiro, caracterizado por um acervo de idéias "progressistas", abrigando, no campo político, teses e posturas liberais pouco comuns então, como p. ex. a educação, questões econômico-financeiras, problemas fundiários e de colonização de terras,além de aspectos ligados a costumes e comportamentos e tratamento de temas pouco enfocados, alguns considerados ‘difíceis’ ou delicados(como p. ex. a situação da mulher na sociedade).

Mesmo nos casos em que trabalhei com textos e escritos oriundos de fontes secundárias -- livros, ou coletâneas ou antologias publicadas -- volvi-me às fontes primárias – os periódicos -- e os cotejei com as formas originais nos periódicos de origem : e assim sempre o faço e farei para todos os trabalhos..
Assim foi, p. ex., nos contos políticos, inclusos os chamados “argelinos” de Lima Barreto, os quais publicados em apenas uma coletânea – a 2ª. edição de Histórias e sonhos, 1951 (e não na primeira, de 1920) --portanto ‘semi-inéditos’, conferi com os respectivos textos veiculados originalmente em Careta(1914; 1915; 1919; 1920;1921;1922; 1924 - postumamente) e no Correio da Noite (1914), nos quais aliás encontrei, em algumas crônicas, trechos diferentes dos publicados na coletânea, e apontando-os vis a vis uns com outros  incorporei-os no livro Lima Barreto e política : os “contos argelinos” e outros textos (PUC-Rio\Loyola, 2010)

Do mesmo modo, com os textos compondo o livro  Escritos de Euclydes da Cunha: política, ecopolítica, etnopolítica (PUC-Rio\Loyola, 2009), captados em livros e seletas publicados, mas verificados um a um nos respectivos veículos originais, nos jornais A Província de São Paulo,1888-89; Democracia, 1890; O Estado de S. Paulo, 1892-97, 1900, 1904; Jornal do Commercio, 1907; O Paiz,1908; na revista Kosmos, 1906; no Almanaque Brasileiro Garnier, 1908.

Também com as crônicas machadianas, de duas séries escritas para a Gazeta de Notícias, respectivamente em 1886 e em 1886-87, publicadas em um livro e em uma coletânea (‘semi-inéditas’, pois) , que devidamente confrontadas e verificadas com os originais nas fontes primárias, foram reunidas no livro Crônicas de Machado de Assis : “A + B” e “Gazeta de Holanda” (PUC-Rio\Loyola, 2010).

De iguais forma e modo procedi ao indispensável cotejo dos elementos textuais de fontes secundárias – i.e.,  livros, seletas, coletâneas e antologias -- com aqueles das respectivas  primárias -- veiculados originalmente em periódicos, dentre o possível e disponível encontrar -- em outros dois de meus trabalhos capitais recentes(ambos a se tornarem livros, ambos ainda sem arregimentar editor) : “Machado de Assis: leitor, formador de leitor” -- -- que tendo como temática a leitura e leitores no Brasil, o livro e o escritor como seus instrumentos e veículos de fomento, com um viés sobre elementos  presentes e atuantes na vida literária e padrões de leitura do Brasil Oitocentista, reporta a Machado de Assis, sua formação literária e capacidade formativa de leitores, tendo como  escopo levantar, catalogar, mapear, identificar, examinar, e interpretar, as leituras  e influências literárias  de autores e de obras, brasileiros e estrangeiros, na formação intelectual de Machado , e em decorrência,também constituindo um retrato de inéditas amplitude e abrangência,das citações, alusões, referências a obras, textos e autores em todos seus romances, contos, poemas,teatro, traduções, crônicas, artigos e ensaios, críticas literárias, críticas teatrais, pareceres, prefácios, com as quais informou,formou e criou leitores no século XIX (e continua a fazer contemporaneamente e por todos os tempos); e “Machado de Assis e os portugueses : influências, convivências  e convergências literárias e culturais” – a reportar  às relações, interações, intertextualidades entre Machado de Assis e portugueses,  nestes considerados  em um viés, autores, obras e textos lusos, cronologica e literariamente  quer a ele anteriores quer contemporâneos, que exerceram decisiva influência na formação e vida literárias, constituíram leituras do escritor brasileiro (nos livros em sua biblioteca pessoal e aqueles objetos de consultas regulares em acervos e bibliotecas públicas e mesmo em livrarias), receberam citações, alusões, menções, referências e recorrências feitas por Machado de Assis nos romances,nos contos,nas crônicas, em artigos e ensaios,na poesia, na criação teatral, na tradução,na crítica literária,crítica teatral, prefácios, pareceres, correspondência; em outro viés, tanto  vínculos familiares laços conjugais, quanto personalidades lusas a ele contemporâneos, viventes no Brasil à época,que cada qual a seus grau, modo e teor, participaram e atuaram  ativamente na trajetória  pessoal,literária e profissional de Machado de Assis.
Os dois estudos duas obras têm em comum oferecerem cenários e cenáculos completos das influências e orientações literárias e bibliográficas, vale dizer autores, obras e textos, brasileiros e estrangeiros, em Machado, decisivos para sua formação e biografia intelectual – no caso dos portugueses absolutamente cruciais, como nenhum outro, também politicamente, socialmente e pessoalmente, além de lingüística e literária; ambos  apresentam, de  modo inédito por sua completude, raisonnés de todas as leituras realizadas por Machado e todas citações,referências, alusões a autores, obras e textos praticadas por ele em seus escritos.

Por sua vez, Arthur Azevedo, que sempre despertara em mim marcante atração sob o ponto de vista literário, propiciou-me, e tem propiciado, o desenvolvimento de um (intensivo ) programa de pesquisa e de produção de obras focados essencialmente na recolha e recuperação de nada menos do que 95% de suas crônicas e cerca de 25% de seus contos, até agora inéditos em livro ou outro meio, inclusive digital, somente publicados em periódicos de distintos períodos, abrangentes de um leque cronológico de 1872 a 1908 : dele, incorporei 5  contos inéditos, originalmente em O Mequetrefe, 1884, em A Rua,  1889,  no Almanaque do Comércio, 1887, na Kosmos, 1906, no Almanaque Brasileiro Garnier, 1910, no livro Contos de Arthur Azevedo : os “efêmeros” e inéditos (PUC\Loyola, 2009); e incluí um conto inédito, “Aventuras de um adolescente.” recolhido de A Vida Moderna, março 1887, incorporado ao livro e e-book que publiquei em 2012 Arthur Azevedo : Cenas da comédia humana - contos em claves temáticas (Imã Editorial);  49 crônicas, nunca divulgadas,abrigadas no livro Arthur Azevedo : crônicas (inéditas) em A Vida Moderna 1886-87 (ABL, 2013); 15 contos, no e-book Arthur Azevedo : contos  inéditos, em produção (Foglio\Objetiva); recolhi e organizei um conjunto de  20 contos e 20 crônicas (inéditos em livro)  publicados em O Rio-Nu, 1903, jornal humorístico, sarcástico,satírico,mas também de crítica social e política,  que fazia o maior sucesso no início do século XX no Rio.
                                                       
 
Na verdade, o vasculhar e garimpar permanentes, sistematizados, concatenados, consistentes, em periódicos  coaduna-se  com  a própria conceituação do periódico como veículo de registro e até intervenção nos fatos,episódios e processos de seu tempo, e sua relevância como fonte inesgotável  para estudos de história,literatura,artes, cultura, política, sociologia, etc.: nos estudos literários, especificamente, são cada vez mais recorrentes  para efeito de investigação e pesquisa , pesquisadores e estudiosos de literatura debruçando-se crescente e intensamente sobre esses verdadeiros mananciais de informações , muitos até inexplorados, para constituir ou reconstituir a história literária.

Em suma, constituintes, desde sempre, do cenáculo basilar de meus estudos e atuação literários, periódicos - e a consulta, investigação, pesquisas neles -  permanentemente pautaram\pautam, pontuaram\ pontuam, permearam\permeiam, impulsionaram\impulsionam minhas idealizações, projetos e realizações em literatura brasileira.

sábado, 7 de março de 2015

Quem tem medo da literatura feminina / feminista ?

não apenas pelo 8 de março , mas todos os dias de todos os anos!
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Preconizada por Virginia Woolf, na década de 1930 [Virginia, irônica e realista, em conferência para jovens universitárias inglesas no Giron College, estabelecia as condições mínimas para que as mulheres atravessassem a fronteira física e psíquica da criação literária, ao declarar : “tendo um quarto para si e renda própria” -- ditames abrigados no livro A Room of One’s Own (Um quarto todo seu.) ], defendida pelas feministas  européias de 1970, uma ‘escrita feminina’ ganhou corpo (e forma) na literatura .
Mulheres escritoras (ficcionais e não-ficcionais) passaram a ter – ou adquiriram, por ‘méritos próprios de qualidade e personalidade  -- voz própria, estilo próprio, linguagem própria, temática própria, longe de “simplesmente reproduzirem modelos falocêntricos, caracterizados por racionalismos e pragmatismos”  acentua a ensaísta  Luce Irigaray:

Qual seria afinal uma ‘linguagem feminina’, como se expressa  um discurso essencialmente  ‘feminino’? existe afinal  uma voz especificamente feminina ?

Apesar das (para alguns, incontornáveis) dificuldades para uma definição precisa, entendo  -- e sustento, convicto -- existir uma linguagem literária feminina com elementos, valores e vetores próprios, nitidamente percebidos na prosa ficcional, na poesia  e no teatro, e que só fazem acrescentar e enriquecer a Literatura (e a Cultura, em geral) – linguagem marcada pela subjetividade, por uma escrita mais sensorial e sensível, mais poética, lírica , uma escritura com ‘o corpo e a alma’.
Na ficção feminina, o (originariamente ditado pelos cânones românticos) amor -- condimentado pelo erotismo, por vezes intenso -- deixa de ser tema absoluto para ceder espaço a sondagens existenciais, e até ao questionamento político e filosófico. Tudo isso traduzido e materializado em experiências formais e estilísticas : fragmentação narrativa, o ritmo ‘labiríntico’ no lugar da estrutura  linear, intertextualidade, tendência a impregnar a escrita com elementos de oralidade,  foco narrativo múltiplo,  intenso fluxo-de-consciência..
Certamente pode-se encontrar desses elementos na denominada ‘literatura masculina’– e efetivamente encontra-se: como negar serem essencialmente ‘femininas’ a linguagem literária, o estilo, a escrita de Marcel Proust, de Flaubert, de Balzac, ou muitas passagens de Tolstoi, e mesmo de Shakespeare, para citar gigantes da literatura universal – o que,de algum modo, desmistificaria esse tipo de distinção acentuada, da qual, enfatizo, não sou partidário. Gratifica-me bastante acentuar que a escrita feminina, marcante como é, ostenta suas características próprias, peculiares, plena de,digamos, ‘personalidade literária’, assim como a possui,em sua devida proporção, a ‘literatura  masculina’.  

E no que enfatizo as concretas existência e expressão de uma literatura feminina,vis a vis com  uma ‘literatura masculina’ [sic --  longe muito longe de ratificar, conforme certas críticas de contingentes assumidamente feministas, uma indesejável,digna de repúdio, “divisão de sexos”--  ao contrário justamente confiroe identidade própria e plena personalidade às linguagem,escrita e estilo praticados literariamente pela mulher.
A meu juízo,  valorizo-as, enalteço-as, dignifico-as.
                                                                                                                                                       MR
.                                                                _______________

 uma escrita feminina brasileira, sim

Muitos constataram — e comprovaram — a influência negativa da literatura em relação à posição da mulher na sociedade, "os literatos, romancistas e poetas explorando a concuspicência, a imoralidade e a luxúria que chamam amor; e naturalmente como nas relações entre senhor e escrava só pode haver obscenidade, os homens de talento produziram montanhas de livros onde a patologia mundana do amor é rebuscada ao mais íntimo e profundo limite." Com o tempo e a evolução dos conceitos sociais, almejada uma efetiva  mudança na sociedade, tornou-se imperativo repensar a condição feminina, enxergando a mulher, não como um complemento da família, mas como importante agente de mudanças pela função que exerce na sociedade.
 No Brasil, o surgimento de mulheres escritoras ocorre principalmente a partir do século XIX, no contexto da crescente importância da imprensa e do início de movimentos em prol dos direitos das mulheres. Quando as questões relativas à emancipação feminina começaram a aparecer na imprensa, as mulheres se organizavam associativamente e passaram a reivindicar maior participação na sociedade em mudança. Ocorreram então os primeiros movimentos organizados tendo como principal objetivo a melhoria das condições de vida da mulher — desde que orientada pela ótica masculina. [afinal, na constituição da família brasileira sempre imperou o pater familias, ou seja, o poder  nas mãos do homem, responsável não só por seus escravos e agregados como também por sua mulher, filhos e netos — a família patriarcal como a célula mais importante da formação da sociedade; este poder social do homem advinha do direito consuetudinário e as próprias leis brasileiras asseguravam-lhe autoridade : os direitos civis no Brasil, basicamente, até 1890, eram uma extensão dos de Portugal, isto é, eram regidos pelas Ordenações Filipinas — o primeiro Código Civil Brasileiro só vigorou a partir de 1917. Na família monogâmica, criada para preservar o poderio econômico dentro de um mesmo grupo sangüíneo, exigia-se que a sexualidade feminina fosse rigorosamente controlada, pois era a única forma de que o homem dispunha para assegurar a paternidade e a herança familiar. ]
O que não impediu, porem, a formação de uma linhagem de mulheres militantes dentro da literatura (como personagens ou como autoras) e da sociedade (na militância política, por meio sobretudo do veículo jornalístico) que desenvolveram trabalho emancipatório preparador das condições que propiciariam, no século XX, a implementação e solidificação de um movimento que se  poderia chamar de estética feminista.
Na literatura brasileira, considera-se o romance Úrsula (1859), da maranhense Maria Firmina dos Reis, a primeira narrativa de autoria feminina. O romance reduplica os valores patriarcais, construindo um universo onde a donzela frágil e desvalida é disputada pelo bom mocinho e pelo vilão da história. Contrariando os finais felizes, a narrativa termina com a morte da protagonista, vítima da sanha do cruel perseguidor.
No entanto, de modo geral a  escrita praticada por mulheres esteve ausente dos anos decisivos para a formação da literatura brasileira durante o século XIX , na vigência do Romantismo – o que soa algo inusitado, porquanto justamente a mulher como leitora foi o grande,crucial, basilar elemento,primeiro pela prática de leitura no país, responsável pela existência e proliferação de escritores e da própria  literatura brasileira. Se não totalmente ausente do mercado, restrita a colaborações em periódicos de vida curta ou de público definido pela circulação no espaço doméstico (o que, de resto, significa em meados dos 1800  uma confirmação  antecessora   à  interpretação de Virgina Woolf, da década de 1930).. As primeiras manifestações de escrita feminina levadas oficial e intensamente ao público externo vieram no final do século XIX, já na ‘vigência’ do Realismo na literatura brasileira [paradoxal ? seria o Romantismo  ‘mais apropriado’ para a expressão da écriture féminine?, reflito...]
Loas, todas as loas, portanto, para as pioneirissimas  Rita Joana de Souza, Ângela do Amaral Rangel, Barbara Heliodora, Maria Josefa Barreto, Beatriz Francisca de Assis Brandão, Maria Clemência Silveira, Delfina Benigna da Cunha, Ildefonsa Laura Cesar, Ana Euridice de Barandas, Nisia Floresta, Violante de Bivar e Velasco, Alta de Souza, Clarinda da Costa Siqueira, Joana Paula de Noronha, Ana Luisa de Azevedo Castro, Maria Firmina dos Reis, Adelia Fonseca, Maria Benedita de Oliveira Barbosa (Zaira Americana), Maria Angélica Ribeiro, Isabel Gondim, Maria do Carmo de Melo Rego, Rita Barém de Melo, Joaquina Meneses de Lacerda, Ana Ribeiro, Julia da Costa, Amália Figueiroa, Luciana de Abreu, Serafina Rosa Pontes, Adelina Vieira, Josefina Álvares de Azevedo, Carmem Dolores, Narcisa Amália, Gabriela de Andrada, Maria Benedita Bormann, Inês Sabino, Anália Franco, Delminda Silveira, Adelaide de Castro Guimarães, Honorata  Carneiro de Mendonça, Carmen Freire, Emilia Freitas, Vitalina de Camargo Queirós, Ana Facó, Francisca Izidora da Rocha, Maria Carolina Corcoroca de Souza, Ana Autran, Corina Coaraci, Luísa Leonardo, Alexandrina Couto dos Santos, Ana Aurora do Amaral Lisboa, Revocata Heliosa de Melo, Anna Alexandrina Cavalcanti de Albuquerque. Até entrarmos o século XX com Júlia Lopes de Almeida, chegar a Gilka Machado e Maria Lacerda de Moura. 
[ sob o terrível risco de não elencar aqui todas as escritoras de hoje, o que seria praticamente impossível,contemporaneamente a escrita feminina brasileira encontra  expoentes, entre outras, em: Clarice Lispector, Cecilia Meireles, Maria Alice Barroso, Maria Helena Cardoso,Rachel de Queiroz, Lygia Fagundes Teles, Nélida Piñon, Sonia Coutinho, Ana Cristina César ,Hilda Hist, Adélia Prado, Lya Luft,Zelia Gattai, Ana Miranda, Marina Colasanti, Lygia Bojunga Nunes, Nilma Gonçalves Lacerda, Maria Adelaide Amaral, Luzilá Gonçalves Ferreira, Myriam Campelo. E entre as mais novas, Heloisa Seixas, Patricia Melo, Fernanda Young ; e nas novissimas, Carmen Oliveira, Adriana Lisboa, Maria Conceição Góes, Clarah Averbuck, Cíntia Moscovich , Leticia Wierzchowski. O ensaísmo abriga Flora Sussekind, Heloisa Buarque de Holanda, Leyla Perrone-Moisés, Walnice Nogueira Galvão, Lucia Abreu, Regina Zilbermann, Nelly Novaes Coelho, Marisa Lajolo, Marilena Chuaí, Marilene Felinto, Eliane Vasconcelos, Beatriz Resende. E outras e outras e outras, muitas outras...]   

Os homens e as mulheres

Naquele  século XIX e na primeira quadra do século XX, no entanto, não foram apenas elas que escreveram ‘sobre elas ou para elas’: quatro  escritores-homens se destacaram por voltar-se, em graus e enfoques diferentes, para as mulheres.: Joaquim Manuel de Macedo descreveu-a e tratou-a como “donzela de irrepreensíveis pendores” em especial em A Moreninha e em inúmeros contos.  José de Alencar traçou o mais completo retrato da mulher ‘urbana’ da corte, no Brasil pós-Independência, no auge do romantismo, notadamente na trilogia  Senhora, Diva e Lucíola, além de nas novelas Cinco minutos e  A viuvinha ,e nos romances   A pata da gazela, Sonhos d'ouro, Encarnação.  
Há de se destacar, porém, Lima Barreto: debruçou-se como ninguém sobre a mulher ‘republicana’ : primeiro na década de 1910, ao desenvolver o “tema de Carmen” , uma série de artigos e crônicas  em jornais e revistas nas  quais a propósito de crimes ou julgamentos,  ataca os homens “que se atribuem direitos sobre a vida das mulheres”, denunciando crimes de uxoricídio, nos quais homens matavam “mulheres infiéis”— e pior eram absolvidos nos julgamentos por “legítima defesa da honra”; e ao longo de toda sua produção croniquesca em jornais e revistas tratar de questões como movimento feminino, voto feminino, direitos femininos.
A rigor, Lima Barreto , que nunca silenciou sobre seu tempo, não poderia mesmo  ficar alheio à situação da mulher na realidade social brasileira do início do século XX, época de tantas e profundas transformações na sociedade. Retratou e a fez personagem em  contos e romances, escreveu sobre a mulher em artigos e crônicas, publicadas em jornais e revistas — sob um  caráter de ambigüidade,ora a criticando, por vezes atacando, ora a defendendo, muitas vezes enaltecendo : diz-se “antifeminista”, põe-se abertamente contra os movimentos feministas, mas defende a necessidade de instrução para a mulher ; repele o ingresso da mulher no serviço público (“... rendosos cargos para as mulheres das classes sociais mais favorecidas : e as reivindicações das operárias ?...”), mas defende o divórcio ; imbuído da moral do seu tempo, retrata a mulher pela ótica comum,  Lima destila sua ácida  ironia crítica sobre a mulher ,mas denuncia sua “absurda” situação de dependência aos homens . Longe, muito longe da falsa, equivocada acusação de  misoginia, posicionado na realidade contra o movimento feminista brasileiro — o que ele denominava “feminismo bastardo, burocrata”— não contra as mulheres,e sim como ojeriza aos signos do progresso republicano, Lima Barreto sempre dá à mulher espaço significativo em sua obra ficcional e não-ficcional : nos romances, contos, artigos e crônicas, apontamentos e notas, comenta a situação da mulher perante o casamento; a viuvez; as oportunidades educacionais e profissionais; a moral que lhe é imposta pelo duplo valor; a desigualdade de julgamento do adultério masculino e do feminino; o mundo da prostituição e o início do movimento feminista no Brasil — e sobretudo defende intransigentemente a mulher “que são “como todos nós, sujeitas, às influências várias que fazem flutuar as suas inclinações, as suas amizades, os seus gostos, os seus amores". Uma ambigüidade implícita e explícita em seus artigos não permeia o retrato da mulher elaborado em seus romances, novelas e contos, em que elas  têm sempre atitude e comportamento progressista, são superiores aos maridos (exemplos de Olga e Edgarda em Triste fim de Policarpo Quaresma; Clara e Castorina em Clara dos Anjos; Efigênia em O cemitério dos vivos; Cecília de Diário íntimo , Cló, Adélia, Lívia em Histórias e sonhos; muitas outras em contos, etc) .
                  
Porém, nenhum escritor brasileiro do período ‘edificou’ tanto a mulher como personagem capital e leitmotiv básico de seus textos como Machado de Assis. Ele  escrevia sobre mulheres e para mulheres. Amores e frustações femininos eram temas constantes, sempre presentes o ciúme, o adultério, a prostituição, e as personagens femininas ocupam lugar privilegiado, lugar de destaque em todos os romances e na maioria dos contos.E mais :Machado sempre escreveu para periódicos cujo público era predominantemente feminino, primeiro no Jornal das Famílias ,depois em A Estação.
Nas entrelinhas de seus contos, romances, e também de suas crônicas, Machado sempre chamou atenção para as necessidades e os direitos da vida afetivo-sexual de suas leitoras: argumentava que a mulher devia receber instrução e não ficar confinada à vida doméstica, tendo direito ao amor e à liberdade -- daí, seus temas mais constantes: o ciúme e o adultério. Machado trouxe à luz a questão da sexualidade feminina ,a exemplo de Flaubert, Balzac, Eça, e mais tarde Freud . [aliás, como Roberto Schwarz diz , “Machado é um autor que em 1880 está dizendo coisas que Freud diria 25 anos depois” -- nos romances, principalmente da ‘segunda fase’, Machado capta de forma aguda, a la Freud, as sutilezas do ‘discurso do desejo inconsciente’,  descreve conflitos e enfatiza o inconsciente, sua obra como o principal elemento/vetor de pontos de interseção entre a literatura e a psicanálise ; a percepção acentuada do funcionamento do psiquismo humano na verdade vem desde as primeiras obras.]
 Na maioria dos romances, a mulher é o elemento forte, põe o homem dependente, é também o esteio, a base da relação. Há matriarcas que dominam e comandam propriedades e a família, a figura masculina sendo até desnecessária; é  comum no romance machadiano, que retrata a sociedade de seu tempo, mulheres fortes, viúvas que não mais casam, como em Iaiá Garcia, Dom Casmurro, Casa Velha, Memorial de Aires. Em toda sua obra, Machado enfatizou o personagem feminino: mesmo em sua primeira fase, Livia, Guiomar, Helena, Iaiá Garcia, Lalau já dominavam; na segunda fase, as mulheres -- Marcela, Virgília, Sofia, Capitu, Fidélia, Carmo --são personagens de grande densidade psicológica

Para muitos estudiosos, Machado era mesmo ‘feminista’ (eu, particularmente, não chego a tanto...)-- e a cada leitura de seus contos,  romances e crônicas nos damos conta da sutileza e da abrangência desse 'feminismo'..

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sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Machado de Assis e os portugueses nos periódicos oitocentistas

na 2a. Semana de  Realizações do projeto  "O Real em revista", no Real Gabinete Português de Leitura, Rio de Janeiro,de 26 a 28.01 , com a presença e atuação de pesquisadores -- evento dentro do notável trabalho de digitalização e incorporação de periódicos dos séculos XVIII, XIX e XX nos acervos do RGPL -- discorri acerca de "Machado de Assis e os portugueses nos periódicos oitocentistas do Rio de Janeiro ", um dos temas capitais de meus estudos literários .

                                                                                            
 artigo

Machado de Assis e os  portugueses : influências, relações; atuação e convívio  nos periódicos
Dentro e na órbita dos estudos machadianos a que me dedico e desenvolvo, as  relações e  interações entre Machado de Assis e os portugueses 
adquiriram relevância ímpar, no que se refere às influências e orientações literárias e bibliográficas, nacionais e estrangeiras (nestas, a abrigar, a par dos portugueses, os franceses, os ingleses, os alemães, os gregos, os latinos, espanhóis e italianos – a oferecer subsídios valiosos para os estudos de Literatura Comparada) na formação intelectual  de Machado, face a extrema, crucial importância destes quer na vida pessoal quer  na construção da obra do escritor brasileiro; e mais : no embasamento e no engajamento político, na fundamentação de seu pensamento ideológico – este, na verdade, um aspecto pouquíssimo notado e conhecido e raramente estudado.

Convém aqui esclarecer o quanto de significância para um ‘desenho’ de marcantes influências literárias, intelectuais e culturais quer para a  formação do escritor quer para efeito de seu contributo à formação de seu leitor (e,vale deduzir e induzir, para o leitorado brasileiro do século XIX ) – per se objeto e leitmotiv de um amplo, abrangente trabalho, de características e elementos quase inéditos, inclusive formalizado em estudo especial e livro a ser editado sob o título significativo de “A formação intelectual de Machado de Assis : fontes para biografia intelectual” -- detêm as leituras, fosse  nos livros de sua posse mantidos na biblioteca pessoal fosse nas consultas realizadas por ele em bibliotecas públicas e particulares,em gabinetes de leitura – mormente no Real Gabinete Português de Leitura – em entidades e instituições, bem como as citações e referências expressas em seus escritos. Os acurados, metódicos, rigorosos levantamento e mapeamento desses elementos tornam-se obrigatórios para constituição informativa e reflexiva de cenários e vetores das  orientações estrangeiras, bem como das influências brasileiras,  em Machado de Assis.

Notório fato: não obstante a preponderância dos franceses nesse cenário de influências estrangeiras, os portugueses -- por seus autores e obras lidos e consultados por Machado, naqueles que com ele conviveram no Rio de Janeiro, naqueles intensamente citados, referenciados em sua obra -- foram absolutamente decisivos na vida, quer pessoal, social e conjugal, quer intelectual, em suas formação e constituição literárias e em sua obra, ficcional e não-ficcional, na edificação de sua linguagem, escrita e estilo narrativo,até mesmo no embasamento político-ideológico-filosófico de Machado de Assis.

relações, vínculos, convívio

A solidez e a característica genuína dos vínculos machadianos com os portugueses são nitidamente expressas por elementos que se estendem de  sua própria origem familiar aos fortes e intensos laços de amizade com lusitanos então residentes no Rio de Janeiro, de seu casamento às  leituras que lhe acompanharam por toda a vida ,fosse nos acervos públicos por ele regularmente freqüentados fosse nos livros em sua biblioteca pessoal, de sua formação literária e cultural às inúmeras (e significativas) citações,alusões, referências e recorrências a autores e obras lusitanos em sua ficção e não-ficção.
No âmbito de seus vínculos familiares e conjugais, emerge a constatação do quanto mulheres de origem portuguesa constituíram-se não apenas em objeto de especial afeto por parte de Machado – até porque exerceram marcante papel em diversos momentos de sua vida -- mas sobremodo contribuíram para a  construção de sua linguagem, no que tange a  prosódia, sintaxe,  léxico e semântica, o que por extensão incorporou-se à  própria linguagem literária machadiana.

Sob outro viés, vale a pena considerar que, em parte decorrente de desses originários vínculos familiares,  ao mesmo tempo guiado por um vetor sob o escopo maior de sua iniciação no embasamento literário-cultural, Machado desde cedo passou a conhecer autores e obras lusitanos, especialmente os clássicos da língua. Jovem, de parcos recursos financeiros, valeu-se na freqüência regular, contumaz a bibliotecas públicas e privadas, e de um acurado autodidatismo em suas leituras de formação, realizadas mormente no Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro (o preponderante),  também no Liceu Literário Português, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
Com o tempo, foi formando gradativamente – e consistentemente – sua biblioteca pessoal, na qual se não majoritários em quantidade autores e obras portugueses se fizeram notar por parâmetros de alta representatividade literário-bibliográfica.

No extenso painel de seus interesses literários e suas leituras, Machado de Assis constituiu-se , per se, em elo decisivo de  contato entre as culturas brasileira e portuguesa na segunda metade do séc. XIX : os  vínculos familiares de origem, bem como os de eleição afetiva e de interesse intelectual que manteve ao longo da vida com membros da colônia portuguesa radicados no Rio de Janeiro,  faziam o escritor circular dentro de um ambiente luso-brasileiro,de marcantes  ecos em seus próprios escritos.

É extenso, como extremamente significativo, o elenco de fraternas amizades cultivadas, desde sua juventude, com escritores portugueses recém transferidos para o Rio de Janeiro (estima-se que em 1852, por exemplo, viviam  cerca de 30 mil na cidade), atraídos pelo ambiente acolhedor e de  alta efervescência cultural, mas também de cunho filosófico-ideológico, aqui criado desde 1837 por aqueles que, afastando-se do levante do Porto, inclusive fundaram o Real Gabinete Português de Leitura.
Pelos anos 1850 encontravam-se radicados no Rio de Janeiro literatos como Francisco Gonçalves Braga, Augusto Emílio Zaluar, Carlos Augusto de Sá, Faustino Xavier de Novais, Francisco Ramos Paz, Ernesto Cybrão, Reinaldo Carlos Montoro, Manuel de Melo, Pedro A. Garção. Todos de alguma influência nas rodas literárias e nos ambientes letrados da capital brasileira.
Desse elenco, destaque absoluto – pelas decisivas, preponderantes influências em Machado – a Zaluar e Xavier de Novais.

Todos esses autores encontram-se de alguma forma presentes nos escritos de Machado, atestando estreita interlocução literária – que, de resto, atesta o clamoroso fato de que nenhum escritor ou literato brasileiro, à época, aproximou-se e identificou-se de tal forma,e essência, como Machado de Assis junto aos portugueses.
Com efeito, foi exatamente por conta da fértil, profícua, intensa  convivência física com esses que Machado tinha como “amigos fraternos” que se  realça e enfatiza – como se asseverou anteriormente – a importância crucial dos portugueses muito maior do que a dos franceses,ingleses, só para citar dois exemplos de preponderantes influências em Machado

Relacionamentos, convivências e atividades intelectuais em comum exercidos e praticados em torno, primeiramente – ainda que em escala incipiente – da Sociedade Petalógica (criada e incentivada por Paula Brito),em  1854-55, na qual estavam Braga,Zaluar e  Garção; em seguida no escritório de Caetano Filgueiras -- que escreveria o famoso prefácio à 1ª. edição da coletânea poética Crisálidas, de Machado -- onde inclusive constituiu-se o denominado “Grupo dos Cinco”, composto de Filgueiras, Braga,.os brasileiros Casimiro de Abreu --que vivera bom tempo em Lisboa - Cândido Macedo Junior,e Machado, em  1857; depois, um novo grupo,unidos por traços ideológicos comuns,de elementos democráticos e liberais, a fornecerem o fermento para uma nova postura política de Machado (que a  sustentaria daí por diante, ao longo do tempo) –  tendo como figura central o proscrito francês Charles Ribeyrolles, e onde estreitou seu relacionamento com Augusto Emilio Zaluar, Reinaldo Carlos Montoro,Francisco Ramos Paz, Remigio de Sena Pereira (estes três iriam traduzir, ao lado de Machado e Manuel Antonio de Almeida, a obra de Ribeyrolles, sob supervisão e acompanhamento deste, Le Brèsil Pittoresque)-- todos mais tarde  participantes e atuantes, com Machado, no  (importantíssimo) jornal O Parahyba, de Petrópolis, e no Correio Mercantil

Mas também exercidos, os relacionamentos e convivências, nos saraus literários; nas reuniões no Grêmio Literário Português, no Retiro Literário Português (uma dissidência do Grêmio), na Arcádia Fluminense (onde, em 1864, Machado apresentou sua peça “Os deuses de casaca”); e  ao ensejo de dois eventos bastante significativos : o centenário (aliás, mais comemorado no Brasil que em Portugal) de nascimento de  Bocage, em 1865, e o tricentenário de nascimento de Camões, 1880, iniciativa do Gabinete Português de Leitura (acontecimento inclusive de intensa participação popular no Rio de Janeiro) – quando Machado apresentou a peça,escrita especialmente para a ocasião, “Tu,só tu puro amor”

-- nos periódicos oitocentistas

Sobretudo e sobremodo a intensa e decisiva convivência de Machado com os literatos portugueses deu-se e dinamizou-se nos jornais oitocentistas nos quais  atuavam e colaboravam, sob distintos graus de regularidade. Assim :
* Marmota Fluminense- sob essa denominação de 1855 a 1857, quando passou a A Marmota -- em 1855-56 (que publicava transcrições de obras portuguesas, como “Folhas caídas”, de Garret,poemas de João de Lemos e Antonio Dinis, e outros);
* Correio Mercantil,.1858-59, no qual  Machado conheceu Faustino Xavier de Novais, e publicou,entre outros textos, o  artigo “O Jornal e o Livro”, marco de um posicionamento dialético-político machadiano, cuja (escreveu ele) “idéia pertenceu ao sr. Reinaldo Carlos [Montoro]” –  artigo contendo  trecho de manifestação de  clara adesão aos princípios democratas e republicanos;[1] ;
* O Parahyba, de Petrópolis, 1858-59 (jornal progressista, avançado para seu tempo, de relevância ímpar na história jornalística,editorial e literária brasileiras – até aqui não devidamente estudado[2] ), criado por Zaluar, editorialista e seu redator-chefe,e contando com Carlos Montoro, Ramos Paz e Machado ;
* Diário do Rio de Janeiro, 1861-62 – nele (com Machado),  Ramos Paz e Sena Pereira;
* O Futuro, 1862-63, criado e dirigido por Faustino Xavier de Novais, contando com Zaluar, Braga, Sena Pereira, Carlos Montoro, Cybrão,  Ramos Paz,  Manuel de Melo;  o primeiro – e pode-se dizer principal, se não único -- jornal explicita e essencialmente luso-brasileiro, de resto expresso formalmente no texto de  editorial de seu 1º.número, a  15.09.1862, e que  inclusive abrigou crônicas machadianas de teor político (e de outros timbres)

A rigor, o  período de cerca de oito anos na vida de Machado, desde meados da década de 1850,  marcado por atuações nesses periódicos, em todos eles ‘cercado’ de portugueses, constitui-se de suma relevância – não só  cultural, também e especialmente filosófica e mesmo ideologicamente -- na construção do pensamento, idéias, opiniões, comentários, criação, produção e manifestações literárias do escritor, sob um processo decisivo de assunção de personalidade e independência de pensamento não submisso a doutrinas e dogmas.
Machado, formado bibliograficamente por muitos portugueses, em leituras e consultas desde o início,  e convivente dia a dia  com literatos lusos, chegava aos  24 anos (1863), lido, respeitado, requisitado, apreciado, extremamente dedicado  a  difundir e propagar sua obra literária, à época já composta de crônicas, poemas,contos,peças teatrais, crítica teatral e literária, um literato bastante respeitado,requisitado, apreciado, ‘amadurecido’ e em evolução.

os portugueses formadores do  Machado escritor 

Primeiramente, por meio dos autores e obras clássicos, quer  antigos e canônicos quer contemporâneos a ele, dos quais foi Machado um persistente leitor, entre aqueles  armazenados em sua biblioteca e aqueles consultados, uns regularmente outros especifica e episodicamente, nos acervos públicos e privados que freqüentava.

Às intensas e perenes leituras e consultas nas bibliotecas e acervos bibliográficos e à estreita e criativa convivência com literatos lusos estabelecidos no Rio de Janeiro, acoplam-se, por sua extrema significância no retrato dessas relações, as profusas  citações e recorrências aos portugueses em toda a obra machadiana (devidamente mapeadas e formalizadas em raisonnés[3]) – o que, torno a enfatizar, identificam os teores,graus e influências de autores,obras e textos lusos em sua  genealogia literária concomitantemente apontam para vetores  na constituição,hábitos,gostos e perfis de leitores a sua época[4], vale dizer serem  vistas como fontes de informação e conhecimento dessas referências autorais e bibliográficas a seus leitores, por extensão ao leitor brasileiro de seu tempo : no que registra e faz aparecer em seus textos, Machado os ‘apresenta’ e transmite aos que o lêem. Há um claro, relevante processo de ‘transferência’ e transmissão de conhecimento literário, bibliográfico,cultural, histórico, político, etc, de insofismável formação cognitiva e de modulação de padrões de leitura da época.

Neste particular, quais autores portugueses, a par de exercerem marcante influência em  sua formação literária, Machado de Assis informou e difundiu junto a seus leitores ? hegemônico  foi Luis de Camões (quem, de resto, pode-se considerar, no cômputo geral das menções e referências de Machado, somente superado por Shakespeare) -- e  Os Lusíadas, a  obra mais citada por Machado depois da Bíblia ; e mais Almeida Garret, Alexandre Herculano,Bocage, Antonio F. de Castilho, Antonio .Dinis da Cruz e Silva,  Nicolau  Tolentino.

O papel e  influências de poetas portugueses  na formação de Machado de Assis, inserido  de resto na própria  tradição poética luso-brasileira da época, têm exemplos cristalinos em Camões,Garret e Castilho, que  marcaram forte e intensamente a poética machadiana, bem como um daqueles conviventes no Rio de Janeiro, Francisco Gonçalves Braga , a quem Machado designou como “meu primeiro mestre”. A se destacar também as influências significativas de Alexandre Herculano – ao lado de Garret, considerado por Machado como modelo na prosa -- e João de Barros na constituição de seu conhecimento histórico.
Almeida Garret, mister enfatizar, a par da acentuada influência temática e estilística na poética machadiana, teve seu “Bosquejo da História da Poesia e Língua Portuguesa”, de 1827, estudo fundamental para a história da literatura no Brasil, a apontar caminhos da emancipação literária – o que viria a se constituir na égide do movimento deflagrado na década de 1830 por Gonçalves de Magalhães e José de Alencar, em prol de um “nacionalismo literário brasileiro” – como  forte inspiração para as reflexões de Machado acerca da literatura brasileira, expressas nos ensaios “O passado, o presente e o futuro da literatura brasileira”(1858), “Instinto de nacionalidade”(1873) e “A nova geração”(1879), e sua obra Viagens da minha terra como uma das peças que moldaram,no teor da sátira menipéica-luciânica (ao lado das obras de Sterne,Diderot e Xavier de Maistre),  a célebre inflexão machadiana no início da década de 1880. 

A se arrolar ainda Camilo Castelo Branco, que inspirou Machado em certos recursos narrativos, como as digressões metaliterárias, as interferências do narrador em diálogo com o leitor, o uso da ironia (já foram apontados elementos da novela  Coração ,cabeça e estômago: uma estética da ambiguidade, de Camilo, em Memórias póstumas de Brás Cubas)
E de um português que não era escritor ou literato, Furtado Coelho, que  produtor teatral propiciou a Machado , porque as levava a cena, o incrementar de sua importantíssima atividade de tradutor (que Mario de Alencar, considerando-o “um dos maiores tradutores brasileiros”, lamentava tivesse Machado interrompido ).
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Por fim, uma reflexão a respeito de questão que muito me instiga, e julgo pertinente. Machado – como representante proeminente do movimento de ‘nacionalização literária’ brasileira -- parece ter sido o primeiro, se não o único a se aproximar e interagir aos portugueses: não se tem referência, por exemplo, das  presença e atuação, nesse sentido, de Gonçalves de Magalhães, José de Alencar e dos demais românticos empenhados,no Brasil, nesse projeto (que se dava simultaneamente em Portugal, convém frisar) de afirmação de nacionalidade literária e cultural..
Não existem dúvidas de quanto ambíguos, ou no mínimo reticentes, postaram-se os românticos brasileiros com relação ao legado lingüístico e cultural dos portugueses: mesmo tendo em conta a importância, ou necessidade, de estabelecer, e sedimentar, traços  diferenciadores do novo país depois da independência de 1822,  o curioso – e  contraditório – é que desenrolou-se um processo de obediência e preservação dos padrões lingüísticos,sintáticos,gramaticais,léxicos portugueses como uma espécie de atestado de qualificação cultural  e ‘civilidade’ intelectual. Isto é, intentavam os primeiros românticos brasileiros se constituírem nos agentes a afirmação nacionalista brasileira, no âmbito cultural, sem no entanto  romperem com o arcabouço lusitano... E por outro lado sem assumirem, e praticarem, como o foi para e em Machado de Assis,  lídimas, eficazes, indispensáveis relações e interações -- que só  embasaram, consolidaram, consubstanciaram uma notável constituição intelectual.

                                            
                                                                                                                                                                   
                                                                                                                                                                              

                                                                                                                                                   
                                                                                                                                                                    

                                                                                                                                                     
                                                                                                                                                                  
                                                                                                                                                                    
                                                                                                                                                                    
                                                                                                                                                    
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           
                                                                                                                                                                    
                                                                                                                                                                      
                                                                                                                                                                                                 
                                                                                                                                                                    
                                                                                                                                                     
                                                                                                                                                

                                                                                                                                                    
                                                                                                                                                                                                                                                                                                        

                                                                                                                                                    
                                                                                                                                                    
                                                                                                                                                    
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                                                                                                    
                                                                                                                                                    
                                              
                                                                                                                                      
                                                                                                                                                     
                                                                                                                                                     
                                                                                                                                                     

                                          
                                                                                                                                                     
                                                                                                                                                    

                                                                                                                                                                                                                                                                                                  
                                                                                                                                              
                                                                                                                                                     
                                                                                                                                                    
                                                                                                                                                     
                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                     
                                                                                                                                                     
                                                                                                                                                    
                                                                                                                                                     


                                                                                                                                                 
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 
                                                                                                                                                   
                                                                                                                                                                                                                                                                                                      
                                                                                                                                                     
                                                                                                                                                                                                                                                                                            


                                                                                                                                                     
                                                                                                                                                   
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[1] Texto que oferece aos estudiosos amplo arsenal de elementos para uma reflexão, até mesmo de cunho ‘revisionista’, acerca da (até então e,de resto, quase consensualmente tida) índole e perfil ‘monarquista-liberal’ machadianos.
                “(Graças ao jornal...) completa-se  a emancipação da inteligência e começa a dos povos.O direito da força,o direito da autoridade bastarda consubstanciada nas individualidades dinásticas vai cair. Os reis já não têm púrpura,envolvem-se nas constituições. As constituições são os tratados de paz celebrados entre a potência popular e a potência monárquica” [“O Jornal e o Livro”, in Correio Mercantil, Rio de Janeiro :10-12.01.1859].
[2] Encontro-me em trabalho de finalização de livro a respeito de O Parahyba.
[3] No estudo a que me dedico, acerca das influências e orientações estrangeiras em Machado de Assis, foram construídos raisonnés de todas as citações e referências lusitanas em todas as obras – gênero por gênero -- machadianas , assim como os autores,obras e textos constantes de sua biblioteca pessoal e aqueles lidos e consultados em acervos públicos.
[4] Como mencionado, a constituição intelectual de Machado, assim como  sua capacidade formativa de leitores – aos quais transmitiu e ‘transferiu’, por via das citações e alusões, os elementos  dessa constituição – é tema e conteúdo do estudo, a ser livro, “A formação literária de Machado de Assis : fontes para biografia intelectual”.
                                                                                                                                                     
                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                     
                                                                                                                                                     
                                                                                                                                                    
                                                                                                                                                     


                                                                                                                                                 
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 
                                                                                                                                                   
                                                                                                                                                                                                                                                                                                      
                                                                                                                                                     
                                                                                                                                                                                                                                                                                            


                                                                                                                                                     
                                                                                                                                                   
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artigo

Machado de Assis e os  portugueses : influências, relações; atuação e convívio  nos periódicos oitocentistas
                                       
                                    “(...) Portugal não teve [apenas] influência, ele está presente [no Brasil]. Os portugueses suscitam desdobramentos delicados (...) ;são eles próprios engrenagens vivas e sensíveis. Trata-se de recolher os elementos que permitirão escrever a história interatlântica do mundo lusofalante no século XIX. Em conseqüência,o conhecimento do século XIX português e especialmente a transição do romantismo ao realismo serão bem esclarecidos,já que as duas literaturas vivem em simbiose.
                                                     J.M-Massa, A juventude de Machado de Assis. Rio de Janeiro: INL, 1965, p. 630
                                                                                                                                


Dentro e na órbita dos estudos machadianos a que me dedico e desenvolvo, as  relações e  interações entre Machado de Assis e os portugueses adquiriram relevância ímpar, no que se refere às influências e orientações literárias e bibliográficas, nacionais e estrangeiras (nestas, a abrigar, a par dos portugueses, os franceses, os ingleses, os alemães, os gregos, os latinos, espanhóis e italianos – a oferecer subsídios valiosos para os estudos de Literatura Comparada) na formação intelectual  de Machado, face a extrema, crucial importância destes quer na vida pessoal quer  na construção da obra do escritor brasileiro; e mais : no embasamento e no engajamento político, na fundamentação de seu pensamento ideológico – este, na verdade, um aspecto pouquíssimo notado e conhecido e raramente estudado.

Convém aqui esclarecer o quanto de significância para um ‘desenho’ de marcantes influências literárias, intelectuais e culturais quer para a  formação do escritor quer para efeito de seu contributo à formação de seu leitor (e,vale deduzir e induzir, para o leitorado brasileiro do século XIX ) – per se objeto e leitmotiv de um amplo, abrangente trabalho, de características e elementos quase inéditos, inclusive formalizado em estudo especial e livro a ser editado sob o título significativo de “A formação intelectual de Machado de Assis : fontes para biografia intelectual” -- detêm as leituras, fosse  nos livros de sua posse mantidos na biblioteca pessoal fosse nas consultas realizadas por ele em bibliotecas públicas e particulares,em gabinetes de leitura – mormente no Real Gabinete Português de Leitura – em entidades e instituições, bem como as citações e referências expressas em seus escritos. Os acurados, metódicos, rigorosos levantamento e mapeamento desses elementos tornam-se obrigatórios para constituição informativa e reflexiva de cenários e vetores das  orientações estrangeiras, bem como das influências brasileiras,  em Machado de Assis.

Notório fato: não obstante a preponderância dos franceses nesse cenário de influências estrangeiras, os portugueses -- por seus autores e obras lidos e consultados por Machado, naqueles que com ele conviveram no Rio de Janeiro, naqueles intensamente citados, referenciados em sua obra -- foram absolutamente decisivos na vida, quer pessoal, social e conjugal, quer intelectual, em suas formação e constituição literárias e em sua obra, ficcional e não-ficcional, na edificação de sua linguagem, escrita e estilo narrativo,até mesmo no embasamento político-ideológico-filosófico de Machado de Assis.

relações, vínculos, convívio

A solidez e a característica genuína dos vínculos machadianos com os portugueses são nitidamente expressas por elementos que se estendem de  sua própria origem familiar aos fortes e intensos laços de amizade com lusitanos então residentes no Rio de Janeiro, de seu casamento às  leituras que lhe acompanharam por toda a vida ,fosse nos acervos públicos por ele regularmente freqüentados fosse nos livros em sua biblioteca pessoal, de sua formação literária e cultural às inúmeras (e significativas) citações,alusões, referências e recorrências a autores e obras lusitanos em sua ficção e não-ficção.
No âmbito de seus vínculos familiares e conjugais, emerge a constatação do quanto mulheres de origem portuguesa constituíram-se não apenas em objeto de especial afeto por parte de Machado – até porque exerceram marcante papel em diversos momentos de sua vida -- mas sobremodo contribuíram para a  construção de sua linguagem, no que tange a  prosódia, sintaxe,  léxico e semântica, o que por extensão incorporou-se à  própria linguagem literária machadiana.

Sob outro viés, vale a pena considerar que, em parte decorrente de desses originários vínculos familiares,  ao mesmo tempo guiado por um vetor sob o escopo maior de sua iniciação no embasamento literário-cultural, Machado desde cedo passou a conhecer autores e obras lusitanos, especialmente os clássicos da língua. Jovem, de parcos recursos financeiros, valeu-se na freqüência regular, contumaz a bibliotecas públicas e privadas, e de um acurado autodidatismo em suas leituras de formação, realizadas mormente no Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro (o preponderante),  também no Liceu Literário Português, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
Com o tempo, foi formando gradativamente – e consistentemente – sua biblioteca pessoal, na qual se não majoritários em quantidade autores e obras portugueses se fizeram notar por parâmetros de alta representatividade literário-bibliográfica.

No extenso painel de seus interesses literários e suas leituras, Machado de Assis constituiu-se , per se, em elo decisivo de  contato entre as culturas brasileira e portuguesa na segunda metade do séc. XIX : os  vínculos familiares de origem, bem como os de eleição afetiva e de interesse intelectual que manteve ao longo da vida com membros da colônia portuguesa radicados no Rio de Janeiro,  faziam o escritor circular dentro de um ambiente luso-brasileiro,de marcantes  ecos em seus próprios escritos.

É extenso, como extremamente significativo, o elenco de fraternas amizades cultivadas, desde sua juventude, com escritores portugueses recém transferidos para o Rio de Janeiro (estima-se que em 1852, por exemplo, viviam  cerca de 30 mil na cidade), atraídos pelo ambiente acolhedor e de  alta efervescência cultural, mas também de cunho filosófico-ideológico, aqui criado desde 1837 por aqueles que, afastando-se do levante do Porto, inclusive fundaram o Real Gabinete Português de Leitura.
Pelos anos 1850 encontravam-se radicados no Rio de Janeiro literatos como Francisco Gonçalves Braga, Augusto Emílio Zaluar, Carlos Augusto de Sá, Faustino Xavier de Novais, Francisco Ramos Paz, Ernesto Cybrão, Reinaldo Carlos Montoro, Manuel de Melo, Pedro A. Garção. Todos de alguma influência nas rodas literárias e nos ambientes letrados da capital brasileira.
Desse elenco, destaque absoluto – pelas decisivas, preponderantes influências em Machado – a Zaluar e Xavier de Novais.

Todos esses autores encontram-se de alguma forma presentes nos escritos de Machado, atestando estreita interlocução literária – que, de resto, atesta o clamoroso fato de que nenhum escritor ou literato brasileiro, à época, aproximou-se e identificou-se de tal forma,e essência, como Machado de Assis junto aos portugueses.
Com efeito, foi exatamente por conta da fértil, profícua, intensa  convivência física com esses que Machado tinha como “amigos fraternos” que se  realça e enfatiza – como se asseverou anteriormente – a importância crucial dos portugueses muito maior do que a dos franceses,ingleses, só para citar dois exemplos de preponderantes influências em Machado

Relacionamentos, convivências e atividades intelectuais em comum exercidos e praticados em torno, primeiramente – ainda que em escala incipiente – da Sociedade Petalógica (criada e incentivada por Paula Brito),em  1854-55, na qual estavam Braga,Zaluar e  Garção; em seguida no escritório de Caetano Filgueiras -- que escreveria o famoso prefácio à 1ª. edição da coletânea poética Crisálidas, de Machado -- onde inclusive constituiu-se o denominado “Grupo dos Cinco”, composto de Filgueiras, Braga,.os brasileiros Casimiro de Abreu --que vivera bom tempo em Lisboa - Cândido Macedo Junior,e Machado, em  1857; depois, um novo grupo,unidos por traços ideológicos comuns,de elementos democráticos e liberais, a fornecerem o fermento para uma nova postura política de Machado (que a  sustentaria daí por diante, ao longo do tempo) –  tendo como figura central o proscrito francês Charles Ribeyrolles, e onde estreitou seu relacionamento com Augusto Emilio Zaluar, Reinaldo Carlos Montoro,Francisco Ramos Paz, Remigio de Sena Pereira (estes três iriam traduzir, ao lado de Machado e Manuel Antonio de Almeida, a obra de Ribeyrolles, sob supervisão e acompanhamento deste, Le Brèsil Pittoresque)-- todos mais tarde  participantes e atuantes, com Machado, no  (importantíssimo) jornal O Parahyba, de Petrópolis, e no Correio Mercantil

Mas também exercidos, os relacionamentos e convivências, nos saraus literários; nas reuniões no Grêmio Literário Português, no Retiro Literário Português (uma dissidência do Grêmio), na Arcádia Fluminense (onde, em 1864, Machado apresentou sua peça “Os deuses de casaca”); e  ao ensejo de dois eventos bastante significativos : o centenário (aliás, mais comemorado no Brasil que em Portugal) de nascimento de  Bocage, em 1865, e o tricentenário de nascimento de Camões, 1880, iniciativa do Gabinete Português de Leitura (acontecimento inclusive de intensa participação popular no Rio de Janeiro) – quando Machado apresentou a peça,escrita especialmente para a ocasião, “Tu,só tu puro amor”

-- nos periódicos oitocentistas

Sobretudo e sobremodo a intensa e decisiva convivência de Machado com os literatos portugueses deu-se e dinamizou-se nos jornais oitocentistas nos quais  atuavam e colaboravam, sob distintos graus de regularidade. Assim :
* Marmota Fluminense- sob essa denominação de 1855 a 1857, quando passou a A Marmota -- em 1855-56 (que publicava transcrições de obras portuguesas, como “Folhas caídas”, de Garret,poemas de João de Lemos e Antonio Dinis, e outros);
* Correio Mercantil,.1858-59, no qual  Machado conheceu Faustino Xavier de Novais, e publicou,entre outros textos, o  artigo “O Jornal e o Livro”, marco de um posicionamento dialético-político machadiano, cuja (escreveu ele) “idéia pertenceu ao sr. Reinaldo Carlos [Montoro]” –  artigo contendo  trecho de manifestação de  clara adesão aos princípios democratas e republicanos;[1] ;
* O Parahyba, de Petrópolis, 1858-59 (jornal progressista, avançado para seu tempo, de relevância ímpar na história jornalística,editorial e literária brasileiras – até aqui não devidamente estudado[2] ), criado por Zaluar, editorialista e seu redator-chefe,e contando com Carlos Montoro, Ramos Paz e Machado ;
* Diário do Rio de Janeiro, 1861-62 – nele (com Machado),  Ramos Paz e Sena Pereira;
* O Futuro, 1862-63, criado e dirigido por Faustino Xavier de Novais, contando com Zaluar, Braga, Sena Pereira, Carlos Montoro, Cybrão,  Ramos Paz,  Manuel de Melo;  o primeiro – e pode-se dizer principal, se não único -- jornal explicita e essencialmente luso-brasileiro, de resto expresso formalmente no texto de  editorial de seu 1º.número, a  15.09.1862, e que  inclusive abrigou crônicas machadianas de teor político (e de outros timbres)

A rigor, o  período de cerca de oito anos na vida de Machado, desde meados da década de 1850,  marcado por atuações nesses periódicos, em todos eles ‘cercado’ de portugueses, constitui-se de suma relevância – não só  cultural, também e especialmente filosófica e mesmo ideologicamente -- na construção do pensamento, idéias, opiniões, comentários, criação, produção e manifestações literárias do escritor, sob um processo decisivo de assunção de personalidade e independência de pensamento não submisso a doutrinas e dogmas.
Machado, formado bibliograficamente por muitos portugueses, em leituras e consultas desde o início,  e convivente dia a dia  com literatos lusos, chegava aos  24 anos (1863), lido, respeitado, requisitado, apreciado, extremamente dedicado  a  difundir e propagar sua obra literária, à época já composta de crônicas, poemas,contos,peças teatrais, crítica teatral e literária, um literato bastante respeitado,requisitado, apreciado, ‘amadurecido’ e em evolução.

os portugueses formadores do  Machado escritor 

Primeiramente, por meio dos autores e obras clássicos, quer  antigos e canônicos quer contemporâneos a ele, dos quais foi Machado um persistente leitor, entre aqueles  armazenados em sua biblioteca e aqueles consultados, uns regularmente outros especifica e episodicamente, nos acervos públicos e privados que freqüentava.

Às intensas e perenes leituras e consultas nas bibliotecas e acervos bibliográficos e à estreita e criativa convivência com literatos lusos estabelecidos no Rio de Janeiro, acoplam-se, por sua extrema significância no retrato dessas relações, as profusas  citações e recorrências aos portugueses em toda a obra machadiana (devidamente mapeadas e formalizadas em raisonnés[3]) – o que, torno a enfatizar, identificam os teores,graus e influências de autores,obras e textos lusos em sua  genealogia literária concomitantemente apontam para vetores  na constituição,hábitos,gostos e perfis de leitores a sua época[4], vale dizer serem  vistas como fontes de informação e conhecimento dessas referências autorais e bibliográficas a seus leitores, por extensão ao leitor brasileiro de seu tempo : no que registra e faz aparecer em seus textos, Machado os ‘apresenta’ e transmite aos que o lêem. Há um claro, relevante processo de ‘transferência’ e transmissão de conhecimento literário, bibliográfico,cultural, histórico, político, etc, de insofismável formação cognitiva e de modulação de padrões de leitura da época.

Neste particular, quais autores portugueses, a par de exercerem marcante influência em  sua formação literária, Machado de Assis informou e difundiu junto a seus leitores ? hegemônico  foi Luis de Camões (quem, de resto, pode-se considerar, no cômputo geral das menções e referências de Machado, somente superado por Shakespeare) -- e  Os Lusíadas, a  obra mais citada por Machado depois da Bíblia ; e mais Almeida Garret, Alexandre Herculano,Bocage, Antonio F. de Castilho, Antonio .Dinis da Cruz e Silva,  Nicolau  Tolentino.

O papel e  influências de poetas portugueses  na formação de Machado de Assis, inserido  de resto na própria  tradição poética luso-brasileira da época, têm exemplos cristalinos em Camões,Garret e Castilho, que  marcaram forte e intensamente a poética machadiana, bem como um daqueles conviventes no Rio de Janeiro, Francisco Gonçalves Braga , a quem Machado designou como “meu primeiro mestre”. A se destacar também as influências significativas de Alexandre Herculano – ao lado de Garret, considerado por Machado como modelo na prosa -- e João de Barros na constituição de seu conhecimento histórico.
Almeida Garret, mister enfatizar, a par da acentuada influência temática e estilística na poética machadiana, teve seu “Bosquejo da História da Poesia e Língua Portuguesa”, de 1827, estudo fundamental para a história da literatura no Brasil, a apontar caminhos da emancipação literária – o que viria a se constituir na égide do movimento deflagrado na década de 1830 por Gonçalves de Magalhães e José de Alencar, em prol de um “nacionalismo literário brasileiro” – como  forte inspiração para as reflexões de Machado acerca da literatura brasileira, expressas nos ensaios “O passado, o presente e o futuro da literatura brasileira”(1858), “Instinto de nacionalidade”(1873) e “A nova geração”(1879), e sua obra Viagens da minha terra como uma das peças que moldaram,no teor da sátira menipéica-luciânica (ao lado das obras de Sterne,Diderot e Xavier de Maistre),  a célebre inflexão machadiana no início da década de 1880. 

A se arrolar ainda Camilo Castelo Branco, que inspirou Machado em certos recursos narrativos, como as digressões metaliterárias, as interferências do narrador em diálogo com o leitor, o uso da ironia (já foram apontados elementos da novela  Coração ,cabeça e estômago: uma estética da ambiguidade, de Camilo, em Memórias póstumas de Brás Cubas)
E de um português que não era escritor ou literato, Furtado Coelho, que  produtor teatral propiciou a Machado , porque as levava a cena, o incrementar de sua importantíssima atividade de tradutor (que Mario de Alencar, considerando-o “um dos maiores tradutores brasileiros”, lamentava tivesse Machado interrompido ).
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Por fim, uma reflexão a respeito de questão que muito me instiga, e julgo pertinente. Machado – como representante proeminente do movimento de ‘nacionalização literária’ brasileira -- parece ter sido o primeiro, se não o único a se aproximar e interagir aos portugueses: não se tem referência, por exemplo, das  presença e atuação, nesse sentido, de Gonçalves de Magalhães, José de Alencar e dos demais românticos empenhados,no Brasil, nesse projeto (que se dava simultaneamente em Portugal, convém frisar) de afirmação de nacionalidade literária e cultural..
Não existem dúvidas de quanto ambíguos, ou no mínimo reticentes, postaram-se os românticos brasileiros com relação ao legado lingüístico e cultural dos portugueses: mesmo tendo em conta a importância, ou necessidade, de estabelecer, e sedimentar, traços  diferenciadores do novo país depois da independência de 1822,  o curioso – e  contraditório – é que desenrolou-se um processo de obediência e preservação dos padrões lingüísticos,sintáticos,gramaticais,léxicos portugueses como uma espécie de atestado de qualificação cultural  e ‘civilidade’ intelectual. Isto é, intentavam os primeiros românticos brasileiros se constituírem nos agentes a afirmação nacionalista brasileira, no âmbito cultural, sem no entanto  romperem com o arcabouço lusitano... E por outro lado sem assumirem, e praticarem, como o foi para e em Machado de Assis,  lídimas, eficazes, indispensáveis relações e interações -- que só  embasaram, consolidaram, consubstanciaram uma notável constituição intelectual.

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Mauro Rosso
pesquisador  de literatura brasileira; ensaísta, escritor


                                                                                                                                










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                                                                                                                                                             apêndice
                              
       machado de assis e  portugueses nos  periódicos oitocentistas do  rio de janeiro

raisonée 1 : machado de assis e  portugueses,  atuação e convívio nos periódicos
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  periódico                           período                      rubricas da                                    os portugueses  atuantes e conviventes
[ordem cronológica de             de  atuação e convívio                 colaboração
                                                                                                       de   MA
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Marmota Fluminense         1855- 57                     poesia; artigos; tradução; conto;         F.G.Braga/Caetano Filgueiras/ A.E. Zaluar/E. Garção /                 
                                                                  crítica literária
   A Marmota                   1857-61    .                poesia;ensaio; índefinido’*     
                                                           
  Correio Mercantil             1858/1865               poesia; conto;artigos; ensaio;                    F. Xavier Novaes/Reinaldo Carlos Montoro                                                               
                                    (interruptos)                      crítica literária      

 O Parahyba                      1858-59                       poesia;  tradução; crônica                     A.E. Zaluar/ Reinaldo Carlos Montoro/
                                                                                                                                              RemigioSena Pereira/ Francisco Ramos Paz

 Diário do Rio de Janeiro       1861-67                       crônicas; artigos;  tradução;                       RemigioSena Pereira/ Francisco Ramos Paz                                                                       
                                                                     crítica literária; poesia   

 O Futuro                             1862-63                        poesia; crônicas; contos                     F. Xavier Novaes/ A.E. Zaluar /Reinaldo Carlos Montoro/
                                                                                                                                    Remigio Sena Pereira/ E. Cybrão/ F. Ramos Paz/ F.G.Braga/
                                                                                                                                                         Caetano Filgueiras/ Manuel de Melo.
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* “Queda que as mulheres têm pelos tolos” (1861)
                                                                 
                                                                        ........................................


raisonée 2 : machado de assis e  portugueses : citações, alusões, referências nos  periódicos
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  periódico                      período                 rubrica do texto          título do texto                                  citações (autor;obra)
[ordem alfabetica]
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A Crença    .                  1875              artigos;ensaios             A A. J. Porciúncula                                  Camões
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A Época                        1875                  contos                       O sainete                                          Camões [Os Lusíadas ]
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A Estação                      1879                  contos                       A chave                                     A.Dinis da Cruz e Silva
                                     1881                  contos                       O alienista                             Pedro António;  Correia Garção .
                                         1882                 contos                       O imortal                              pd.Francisco Manuel do Nascimento
                              1883                  contos                      O programa                                   Camões [Os Lusíadas ];
                                                                                                                                          Justiniano José da Rocha ;
                                                                                                                                                 Firmino Rodrigues Silva
                                     1883                  contos                      Troca de datas                          A.Herculano [Eurico, o presbítero ].
                                     1894                  contos                      Um erradio                          * pde.António Pereira de Figueiredo

                                     1889-91            romances                 Quincas Borba                      Camões [Elegia ; “Sobolos Rios que Vão”] ;                                    
                                                                                                                             Mendes Leal [A pobre das ruínas ]; Bernardim Ribeiro;                                                                                  
                                                                                                                                   A. Garret [Lírica de João Mínimo ];                                     .                                                                                                                                        Manuel de Almeida e Sousa de Lobão ;                                               
                                                                                                                                          pd. Manuel Bernardes[ Nova Floresta ] ;                 
                                                                                                                                             Manuel Antônio Coelho da Rocha
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A Marmota                    1859    .              artigos;ensaios          O passado, o presente e                            A. Garrett ; Sousa Caldas                                                      
                                                                                                        o futuro da literatura                                                                                                 __________________ _____________________________________________________________________________________________
Almanaque Brasileiro
         Garnier                 1896                     contos                    Um incêndio                                  Camões [Os Lusíadas ]
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   Diário do Rio de Janeiro    1860                    crítica teatral              Revista Dramática                        Camilo Castelo Branco 
                                     1861                   crônicas                                                 Bocage ; Pinheiro Guimarães [História de  uma moça rica ]                                                                                             
                                         1861                   crônicas                                                         Pinheiro Guimarães [História de  uma moça rica ]                                                                                             
.                                    1861                    crônicas                                                  pde. José  Agostinho de Macedo [Martim literário]                                                    
                                                                                                                                                                   Camões [Os Lusíadas]
                                         1861                   crônicas                                   pde. Francisco Manuel  de Nascimento [“Em defesa da língua”]              
                                     1861                   crônicas                                                            Bernardim Ribeiro[Menina e moça ]        
                                         1861                     crônicas                                                                       A.Dinis da Cruz [O hissope ]                
                                     1862                   crônicas                                                             A.Dinis da Cruz [O hissope ]; Bocage                                                                                                                                                                                                                                                                                           
                                                   1862                   crônicas                                            A. F.Castilho\José F. Castilho [Tributo à Memória de
                                                                                                                                       Sua Majestade Fidelíssima, o Sr. D. Pedro V, o Muito Amado] ;.    
                                                                                                                              José Castilho[ Memória acerca da 2 Égloga de Virgílio ].    
                                                                                                                                 A. F. Castilho [A noite do castelo;“Cartas de Eco e Narciso”;
                                                                                                                                                                     “Ciúmes do bardo” ].
                                                                                                                                                         pde. F.Manuel do Nascimento
                                     1862                  crônicas                                                                     Sá Miranda [“Carta”]
                                                   1862                   crônicas                                                                  Sá Miranda[“Carta”]; Caldas Barbosa
                                         1863                   crítica literária                                                           A. E. Zaluar [Revelações ]                                                            
                                     1863                 crítica literária                                                                 A.Herculano
                                     1863                 crítica literária                                          A. E. Zaluar [ Peregrinação pela   província de S. Paulo ]
                                        1864                     crônicas                                            A. Garret [ “Tratado de educação” ; “Camões”; Folhas caídas ]; 
                                                                                                                                                                Camões [Os Lusíadas ]
                                      1864                  crônicas                                                                  A.D.Pascual [Morte  moral ]                                                                                                                                                                  
                                          1864                   crônicas                                                               A.D. Pascual { Morte moral ].
                                          1864                 crônicas                                                                 A.E.Zaluar [Folhas do caminho ].
                                          1864                 crônicas                                                              Camões [Os Lusíadas ]
                                      1864                 crônicas                                                              A.Herculano [Eurico, um  presbítero ].
                                          1864                   crônicas                                                                                    A. Vieira                                                                                                                                                          
                                          1864                crônicas                                                        Rebelo da Silva [A mocidade de D.João V].               
                                      1864                 crônicas                                                                   Teixeira de Melo [ Sombras e sonhos ];
                                                                                                                                            Fernandes Pinheiro [Manual do pároco ; Meandro poético ]                                               .                                     1865                 crônicas                                                     José Antonio F. da Silva [Lembranças de José Antônio] ].                          
                                          1865                   crônicas                                                                                 Camões; Bocage
                                      1865                   crônicas                                                                                       Bocage
                                          1865                 crônicas                                                         pde. Manuel  Bernardes [ Floresta ; Exercícios morais ];       
                                                                                                                                 A.F. de Castilho \ José F. de Castilho [ Livraria  clássica ;
                                                                                                                                                                Excertos do pde.Manuel   Bernardes ].     
                                              1865                  crítica teatral           Revista Dramática                       Mendes Leal; Bocage [“Pena de Talião”]; .
                                                                                                                                                                   A.Herculano; A. F. Castilho [Camões ];
                                                                                                                                                                       A.Garret [Frei Luis de Souza]
                                       1866                  crítica literária                                                J. de Vasconcelos Ferreira [Um livro de rimas ]                                                                                 
                                       1866                    crítica teatral           O teatro de José de Alencar                                A. Garret.
                                                    1866                  crítica literária                                                                 Caetano Filgueiras
                                                     1866                  crítica literária                                                   F. Gomes de Amorim [Cantos  matutinos.]                       
                                           1866                 crítica literária                                                        A. Dinis da Cruz [Dido;  Hissope ]                                                                                                                                                                                                          
                                           1866                  crítica literária                                                         F. Gomes de Amorim [ Efêmeros ]                                                                                                                                                                              
                                           1868                 crítica literária                                                                Faustino X. de Novais
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Gazeta de Notícias            1881                  contos                      Teoria do medalhão                  * pde. Francisco Manuel do Nascimento
                                          1882                  contos                      A serenissima república                                     Camões
                                          1883                  contos                      A  igreja do Diabo                        A.Dinis da Cruz e Silva [Hissope ]                                                                                                                                                                                                                                      
                                          1884                  contos                         O diplomático                                       Camões [Os Lusíadas ]                                                                                                                                                       
                                      1884                  contos                      As academias de Sião                                Camões [Os Lusíadas ].
                                      1884                    contos                        Viagem à roda de mim mesmo     Camões; Bernardim Ribeiro ["Vilancete seu"]
                                      1884                    crônicas                                                                        Camões [“Elegia-XI”; João de Barros]
                                          1884                   crônicas                                                                                Camões [Os Lusíadas ]
                                          1885                  contos                        O dicionário                               Pedro A. Garção [Obras poéticas ]                                                     
                                   1887                 crônicas                                                                               Camões                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  
                                          1888                    crônicas                                                 pde. Perereca [Memórias para servir à história do reino do Brasil ].   
                                          1888                  crônicas                                                                           Camões [Os Lusíadas ]
                                       1888                   crônicas                                                 Eça de Queiroz [ A correspondência de Fradique  Mendes ].
                                          1888                    crônicas                                                                                            Camões
                                      1888                    crônicas                                                                               N. Tolentino [ “O bilhar” ].  
                                      1889                   crônicas                                                                              Mendes Leal [Pedro]. 
                                          1889                   crônicas                                                                Manuel do  Nascimento[Filinto Elisio] 
                                      1889                  crônicas                                                                                      N.Tolentino
                                          1889                    crônicas                                                                                       Camões [Os Lusíadas ]. 
                                                    1892                    crônicas                                                                                                 Camões
                                      1893                     crônicas                                                             pde. Manuel Bernardes [Pão partido em pequeninos ]
                                          1893                    crônicas                                                                                          N. Tolentino
                                      1893                    crônicas                                                                                      Camões [Os Lusíadas ]                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                    
                                      1893                    crônicas                                                                                        A. Garret [“Camões”]
                                      1894                   crônicas                                                                                       Camões
                                      1894                    crônicas                                                                                                 Bocage
                                      1894                    crônicas                                                                                           João de Barros
                                      1894                  crônicas                                                                                       Camões                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                    
                                      1895                    crônicas                                                            Camões [Os Lusíadas ]                                                   .
                                          1895                  crônicas                                                                                     Camões                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                               
                                      1895                    crônicas                                             Pedro Rabelo[Alma alheia ]; Bocage ;Camões [Os Lusíadas ]
                                      1896                    crônicas                                                                    N.Tolentino; Guerra Junqueiro
                                     .1896                    crônicas                                                                  Valentim  Magalhães [Bricabraque ]                                                 
                                          1896                   crônicas                                                                        João de Barros [Décadas da Ásia ];                                          
                                                                                                                                                  Camões [Os Lusíadas ]                                                .
                                          1896                   crônicas                                                                      Bocage ; Filinto Elisio
                                          1896                   crônicas                                                                       A. Vieira ; Camões [ Os Lusíadas ]                                               
.                                         1896                   crônicas                                          Valentim Magalhães [Flor de sangue ]                                             .
                                          1897                   crônicas                                                  Xavier da Cunha [Endechas de Camões a  Bárbara ]                                                                                                                                                                                     
                                          1897                   crônicas                                                                           Camões [Os Lusíadas ].
                                          1897                   crônicas                                                                                       Camões
                                          1899                artigos;ensaios                                                                     A. Garret
                                      1899                artigos;ensaios              Garret                                    A. Garret [Viagens na minha terra ];  Camões;                                          
                                                                                                                                                      Frei Luís de Sousa [“Adozinda”; “Folhas caídas”];.
                                                                                                                                                                Bernardim Ribeiro; Gil Vicente.
                                         1900                artigos;ensaios            Eça  de Queiróz                             Eça  de Queiróz; A.Vieira; Camões
                                               1904                crítica literária                                                                           A. Garret
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Gazeta Literária              1884                  contos                      A segunda vida                 A. Herculano [Eurico, o presbítero ]; Sousa Caldas
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 Ilustração Brasileira          1877                 crônicas                                      Pinheiro Guimarães [ História de  uma  moça rica ; A punição ]                                                 
                                          1877                crônicas                                                           A.Herculano [Eurico,um presbítero ].
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Jornal das Famílias           1866                  contos                     Uma excursão milagrosa                             Camões [Os Lusíadas ];.
                                                                                                                                                                   A.Dinis da Cruz e Silva [Hissope ].
                                          1873                 contos                      As bodas de Luís Duarte                           N. Tolentino
                                          1873                   contos                        Decadência de dois grandes homens           A. José de  Castilho                    
                                      1874                 contos                      Os óculos  de Pedro Antão                     Francisco Rodrigues Lobo;
                                                                                                                                                Pedro António ;Correia Garção
                                      1876                    contos                           Encher  tempo                                  Gil Brás; Sousa Caldas 
                                      1876                  contos                    Uma visita de Alcibíades                                A.Garret                                                                                                                                    
                                      1878                  contos                         Dívida  extinta                                    N.Tolentino 
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Jornal do Commercio           1872                crítica literária                                                           Vasco Nunes ; Junqueira Freire
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Marmota Fluminense         1855                     poesia                            Um sorriso                                            Camões                             
          A. Garret
                                      1855                     poesia