domingo, 21 de dezembro de 2014

2014, UM ANO DE ‘ENTRADAS NA POSTERIDADE’—III

As outras facetas de Coelho Neto
Coelho Neto (1864-1934) abriga duas marcas de efemérides, neste 2014 : sesquicentenário de seu nascimento (1864), 80 anos de morte (1934).
* [por essa dupla significância, publico pela Academia Brasileira de Letras a coletânea de contos , na verdade quase crônicas, A cidade maravilhosa, rigorosamente a última obra ficcional do escritor, de edição original pode-se dizer rara pois publicada apenas em 1928; do mesmo modo, algo inusitada, pois revela em Coelho Neto um afastamento definitivo das linhas do naturalismo e do regionalismo que conferiu e com as quais pautou e pontuou os contos escritos em períodos e fases imediatamente anteriores a estes: nos contos denotam-se nitidamente, uns mais outros menos, claros vieses e cunhos essencialmente reflexivos, mais discursivos e dialéticos e menos descritivos, sob um fluxo algo filosófico de expressão e formalização de pensamentos, interpretações, especulações intelectuais -- ainda que exibam e sejam permeados por manifestações do ‘parnasianismo’ marcantes genericamente de sua escrita , desde sempre ].

Ao pesquisar e estudar Coelho Neto para o livro que publiquei em 2010, acerca do antagonismo com Lima Barreto, já tivera a atenção despertada – sem poder então dedicar-me e aprofundar-me nisso – para as crônicas do escritor, bem mais conhecido (e pouco valorizado) por romances,contos,teatro e mesmo artigos na imprensa pautados, pelos estilo e escrita que tão ‘ácidos’ comentários críticos,desairosos mesmo, provocaram p. ex. em Lima Barreto durante a ‘convivência’ dos dois – década de 1910 (e os dois primeiros anos dos 20,uma vez Lima ter morrido em 1922) – nos modernistas,a partir da década de 1920, e nos analistas e leitores de hoje.

O que pouco, muito pouco se conhece – até porque raramente divulgado e estudado—é justamente o Coelho Neto cronista, ‘fértil’ cronista diga-se, pois bastante alentado o acervo de sua produção em jornais e revistas ao longo de quase 50 anos.
E o que menos,muito menos ainda se sabe, é o quanto ,e como, Coelho Neto tratou, em determinadas séries de crônicas, da... política de seu tempo. Registrou e legou importante testemunho textual sobre momentos e processos de grande importância na história brasileira do final do século XIX e primeiras décadas do século XX – e relevante observar : face a seu grande poder de comunicação,por via de uma linguagem assimilável pelo leitor e mercê do prestígio que foi angariando no decorrer dos anos, procurou levar a camadas de público normalmente distantes dos fatos políticos não apenas registros e retratos mas sobretudo comentários pessoais sobre a realidade então vigente. Coelho Neto, a propósito, expressou em entrelinhas logo na primeira das séries seu entendimento de que somente pela crônica – deixava então de se dedicar apenas à ficção (antes, publicara alguns contos no mesmo veículo no qual se iniciaria na crônica) poderia levar a literatura a “um meio despreparado para recebê-la e entendê-la,face ao atraso e ignorância de um público distante das letras” [sic], ao mesmo tempo fazendo da crônica um canal direto de intervenção social. .

Basicamente, são quatro os conjuntos cronísticos nos quais Coelho Neto tratou de temas e questões políticas poemas e contos de verdadeiros libelos contra a escravidão e a favor da República: a par de muitas considerações e apreciações passíveis – e necessárias – de a eles se fazerem, esses conjuntos cronísticos , com seus respectivos enfoques político e social , afastam-se sensivelmente das características mais marcantes da prosa de Coelho Neto.

De um modo geral, os estudiosos da literatura brasileira concordam em que ninguém como Coelho Neto encarnou “mais dramaticamente” o problema da forma. Romântico por inclinação e formação natural, realista em algumas obras, simbolista em outras, sobretudo parnasiano na essência da maioria de seus escritos, a Coelho Neto na verdade nunca faltou capacidade criadora, mas ele próprio a relegou a segundo plano em sua obsessão da escrita de efeito, obsessão que o levou a procurar seguir todas as correntes literárias das épocas em que viveu : somente no fim da vida rebelou-se contra a moda e os modismos.
Coelho Neto incorporou e personificou como nenhum outro múltiplas, e indubitavelmente conflitantes, características e propósitos , “querendo ser primitivo e heleno, colher motivos em lendas nórdicas e orientais, exprimir a natureza de sua terra e a gente contemporânea, fazendo isso tudo menos por curiosidade intelectual do que pelo prazer de ouvir soarem vocábulos exóticos ou onamotopaicos”, sentenciou Lúcia Miguel Pereira.
Por força do culto ao virtuosismo, “deixou-se dominar pela palavra, em lugar de dominá-la”,observou ela em artigo publicado na Gazeta de Notícias, de 9 de dezembro de 1934, exatos 10 dias depois da morte do escritor : “Sua obra visava à fruição estética e, mesmo quando incluía um conteúdo social pendia para o artificialismo, porque tomou o meio pelo fim, confundiu expressão e idéia; suas fases prolixas, difusas, onde a função do adjetivo é muito mais importante que a do substantivo, revelam a tendência a impressionar-se excessivamente com os detalhes, a sentir mais o aspecto exterior das coisas que a sua essência, ao mesmo tempo em que seus vocábulos raros traduzem o gosto pelo bonito, pelo brilhante; a força interior, a obedecer enfim a todas as exigências da moda”.

2014, UM ANO DE ‘ENTRADAS NA POSTERIDADE’—II

Laurindo Rabello: ultra-romântico; “poeta lagartixa”; “o Bocage brasileiro”

“Que homem é esse?” assim exclamou, surpreendido, Antônio Álvares da Silva ao ver Laurindo Rabello pela primeira vez. E então observou : “língua desempeçada a cortar pelo mundo com um desembaraço ; com o maior sangue frio saltava por cima de certos respeitos e deferências, em uma linguagem que eu nunca tinha ouvido. O mais é que eu, tal era a minha comoção, não podia deixar de ouvi-lo, preso, encadeado, como me achava, a uma palavra rápida, correta, fluentíssima e cáustica que fascinava. “
Quem foi, enfim, Laurindo Rabello ?
Foi renomado poeta romântico -- embora no delineamento dos autores e obras representativos do romantismo literário brasileiro, normalmente não está incluído como dos grandes nomes, ao lado de Gonçalves Dias, Gonçalves Magalhães, Fagundes Varela, Casimiro de Abreu, Castro Alves, por exemplo; mas deveria, sob todos os aspectos,sentidos e pontos de vista ter lugar honroso nos manuais canônicos de Literatura brasileira.
Laurindo foi dos mais famosos e estimados poetas brasileiros do seu tempo, mercê de acentuado teor de crítica social e diversidade temática nos variados estilos lírico, burlesco, épico, satírico, presentes em suas composições; notabilizando-se também pela habilidade para atacar e satirizar poeticamente as autoridades, e pelos exercícios poéticos de cunho obsceno -- nos “Poemas livres”, editados postumamente em 1882 , daí cognominado "o Bocage brasileiro", assim designado pela fértil acervo poético de cunho obsceno, erótico, pornográfico, fescenino, produzido mesmo em pleno romantismo literário brasileiro, de resto ‘púdico’, ‘sisudo’, rigorosamente balizado pela moral oitocentista.O autor desses impactantes poemas, vítima de leituras no mínimo incompletas de sua produção literária, teve esse grupo sumariamente expurgado das sucessivas edições de suas obras.
A par do próprio quilate de sua poética romântica, de grande , e qualitativa, diversidade temática nos variados estilos lírico, burlesco, épico, satírico, e erótico e obsceno , aliada a acentuado teor de crítica social, presentes em suas composições, o atributo que mais impressionava seus contemporâneos fosse o talento para os improvisos – repentista, compositor e cantor de modinhas e lundus , bem recebido e aclamado em todos os salões, “o desejado de todas as reuniões sociais e musicais”.
Laurindo Rabello tocava piano e violão, repentista, compositor e cantor de modinhas e lundus, sua popularidade estendendo-se por toda a cidade do Rio de Janeiro, era a figura principal da época, em torno de quem por cerca de 20 anos “girou o movimento harmonioso de nossas canções”.Daí carinhosamente apelidado “o poeta lagartixa”, pela maneira espontânea e alegre de viver, o jeito desengonçado de se trajar, andar e comportar.
Tamanha sua importância literária e intelectual que foi profunda e intensamente comentado por críticos proeminentes entre outros como Silvio Romero, José Veríssimo, Alfredo Bosi, Antonio Candido .Tal sua relevância bibliográfica, formidável é o volume de sua produção poética , seja assim propriamente dita, seja em composições musicais, publicadas, notadamente pos-mortem : são 13 obras poéticas, 11 antologias específicas, 1 seleta e 16 coletâneas de modinhas,lundus e canções -- além do conjunto fescenino , reunido nos “Poemas livres”.
Depois de morrer – em 1864, estamos pois no sesquicentenário de sua morte -- pouco a pouco, o nome de Laurindo Rabello embaçou-se e caiu no esquecimento, por vezes recebendo apenas menção de um estudioso, ou crítico, ou historiador da literatura brasileira.
* [ justamente por tal sesquicentenário, preparei duas obras (ainda a editar e publicar) : “Inéditos de Laurindo Rabello”, abrigando cinco poemas, um folhetim, uma modinha e um lundu, e “Laurindo Rabello fescenino”( este, na verdade o 1º. volume de um conjunto de obras e textos de mesmos teor, timbre e tom, escritos por renomados, consagrados, canônicos, ‘comportados’ escritores brasileiros clássicos), expondo 38 poemas “licenciosos, voluptuosos, obscenos”.
dupla homenagem,portanto : de um lado sejam dados ao conhecimento público os textos, até então inéditos em livro ou outro suporte, apenas publicados originalmente em periódicos de época; de outro, faça-se conhecer – e entreter -- os “Poemas livres”,publicados postumamente (1882) e de imediato colocada esta até então única e restrita edição no limbo das obras proibidas, censuradas, escondidas, confinadas aos porões do esquecimento literário.].
                                                                 
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Eu possuo uma bengala

Eu possuo uma bengala
Da maior estimação,
É feita da melhor cana
E tem o melhor castão.

A minha bela caseira
Toda inteira se arrepia
Quando três vezes por dia
Dou bengaladas nela.
remate (refrão : Lhe ficando a bengalada...
-- lundu composto e cantado por Laurindo Rabello – e sempre pedido em suas apresentações e participações em salões, festas,eventos,etc; o remate, qual refrão, provocava na platéia “apartes picantes, imaginação lasciva e muita hilariedade...”

sábado, 6 de dezembro de 2014

Humberto de Campos -- 80 anos depois

neste 05 dezembro, em 1934, morria Humberto de Campos, um dos mais ativos e profícuos escritores de seu tempo -- inclusive dono de uma verve satírica demolidora ,até mesmo contra seus pares e amigos literatos, e em especial de uma 'veia' fescenina (que na verdade era do Conselheiro XX, presente estará em meu livro com os fesceninos)
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As cruzes
                        
As senhores grazinavam, como periquitos em roçado, em torno da mesa do chá, quando Mme. Gama Simpson se curvou, rindo com alarido, sobre a toalha de linho bordada de cegonhas vermelhas, numa escandalosa explosão de alegria.
Segurando em uma das mãos a taça de porcelana e na outra, fechadinha como um botão de rosa, uma torradinha cor de ouro, a linda criatura ria despreocupadamente, agitando-se na cadeira, quando, com o movimento do corpo, lhe saltou do colo de neve e rosa, pela janela de seda do decote, a sua custosa cruz de brilhante, fugindo-lhe para o ombro, com o risco de perder-se.
— Cuidado com a cruz, madame! — avisou, atencioso, do outro lado da mesa, o conselheiro Atanásio, que observava, sem perder um movimento do solo, as ondulações do Calvário e os arredores da Jerusalém.
D. Lisete olhou o decote, apanhou a cruz fugitiva, e, aconchegando-a à carnem rosada, queixou-se, risonha:
— Também, que idéia esta, de inventar cruzes para o colo da gente!
— Vossa Excelência não sabe, então, o que elas significam, na opinião de Tabarin?
As senhoras mostraram-se curiosas de conhecer a origem daquele costume, e o antigo palaciano começou, medindo as palavras:
— Na Idade Média, quando eram deficientes os meios de comunicação de cidade para cidade, de aldeia para aldeia, de um castelo para outro castelo, os monges, que dominavam nos países barbarizados da Europa tomaram a si a incumbência de marcar os caminhos, cujas direções eram assinaladas por meio de cruzes. Ao deparar, na mata ou na montanha, um destes símbolos da cristandade, o viajante já sabia que não errara o seu roteiro, e que a estrada era, mesmo, por ali...
— Mas... - interrompeu, impaciente, Mme. Souza Batista.
— Espere... - implorou o conselheiro.
E continuou:
— Mais tarde, com o advento das modas femininas, e com o aproveitamento, por parte das mulheres, de todas as conquistas do homem, entenderam elas de utilizar o mesmo símbolo, com a mesma significação.
— A cruz no colo das mulheres quer dizer, então, alguma coisa? — interrompeu, franzindo a testa, Mme. Werther.
— Evidentemente, minha senhora! — tornou o conselheiro.
E explicou:
— Elas estão dizendo, como nas montanhas antigas, que... o caminho é por ali!
Quando o conselheiro terminou a sua narrativa, Mme. Simpson procurou a sua cruz de brilhantes, e tomou um susto. Com os seus modos estabanados, a cruz havia, de novo, abandonado o decote, e fugido para trás...
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Ferrabrás

O coronel Otaviano de Meireles, comandante de um batalhão da Guarda Nacional aquartelado em Niterói, era conhecido em toda a cidade pela sua valentia, e, em especial, pela sua intransigência em questões de honra. Casado com uma das senhoras mais formosas do bairro, era tal o pavor infundido pelo seu nome, que ninguém se atrevia, sequer, a levantar os olhos para a sua cara metade. Aquele que tal fizesse, era, na opinião de toda a gente, um homem liquidado.
Foi por esse tempo, e quando mais se acentuava, em toda a praia de Icaraí, a fama da coragem do coronel, que passou a residir na vizinha capital o jovem advogado Dr. Otacílio Fernandes, que não era coronel, nem major, nem capitão, nem tenente, mas fora, sempre, um dos mais famosos namoradores de Niterói.
Proprietário do prédio em que o coronel residia, não foi necessário grande esforço da parte do moço para travar amizade com o inquilino; e esta foi tão rápida, e tão  sincera, que, uma semana depois, era o Dr. Otacílio convidado para um almoço, no primeiro domingo, na residência do brioso militar.
Chegado o dia, lá estava, na praia de Icaraí, o jovem capitalista. Risonho, amável, dissimulando com um sorriso gentil a austeridade da sua fisionomia marcial, correu o dono da casa ao portão, para receber o convidado e fazê-lo subir até à sala, onde madame já o esperava, obsequiosa e linda, com o rosto a emergir, como uma grande rosa, das espumas de neve do seu elegantíssimo "peignoir" de linho e renda.
— O Dr. Otacílio Fernandes — apresentou o coronel.
E ao recém-chegado:
— Minha esposa...
Minutos depois, sentados à mesa redonda, em que havia apenas três talheres, a palestra corria jovial, feliz, entre petiscos saborosos e sorrisos significativos, quando o telefone tilintou. Era o procurador do coronel que reclamava a sua presença, urgente, na estação das barcas, para ultimação de um negócio inadiável.
— Diabo! — exclamou o bravo militar. Tenho de ir, não há remédio!
E virando-se para o capitalista, enquanto desamarrava o guardanapo:
— Esteja à vontade, doutor. É questão de meia hora. Fique por aí; eu não demoro!
E para a esposa:
— Orminda, faze as honras da casa; eu venho já!
Mal o coronel tomou o bonde, duas taças se chocavam no ar, por cima da mesa, festejando ruidosamente aquele encontro, há tanto desejado. E de tal forma foi a saudação, que, ao reentrar em casa, o coronel foi encontrar os dois no seu gabinete, num colóquio de excessiva intimidade. Apanhado em flagrante, o advogado pôs-se de pé, lívido. Apoiado na porta, que empurrara, o coronel encarou-o trovejando:
— Sim, senhor, Sr. Dr. Fernandes!
Pálido, trêmulo, o advogado lembrou-se da fama do coronel, e sentiu que chegara a última hora da sua vida.
— Sim, senhor! — tornou o militar.
E abrandando a voz:
— Você não tem medo de uma congestão?
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Resposta difícil

Rosto em fogo, cabelos em desalinho, Dr. Atanásio, que acaba de entrar da rua, passeia nervosamente de um lado para outro no seu gabinete de trabalho, agitando nas mãos crispadas uma carta que acabara de receber no escritório, e que fora, para ele, uma punhalada no coração. À sua frente, no canapé de couro escuro, tauxiado de prata polida, a jovem D. Eleonora esconde a face lavada de lágrimas nas duas conchas das mãos cor de neve, soluçando de vergonha e de susto no horror daquela situação.
-- E dizer-se que eu confiava em ti, tua honra, no teu amor, e que estava em S. Paulo tranqüilo, sereno, na certeza de que procedias, aqui, com seriedade. com dignidade, com a correção que me havias jurado, de joelhos, diante de Deus!... - geme, quase chorando, o pobre esposo desesperado.

Madame procura, como um náufrago na tormenta, uma frase com que inicie a desculpa impossível, mas o marido atalha, agitado, com os olhos em chama, forçando-a a esconder, de novo, a cabeça entre as mãos:
-- Que vergonha, meu Deus! que vergonha, agora, para mim!... Nunca mais, na minha vida, poderei levantar o rosto diante desta sociedade, que conhece, que sabe, que testemunhou, impassível, o teu crime, a lama que atiraste sobre o meu nome!...
Enfiando os dedos na cabeleira grisalha, passadas largas, o notável advogado mede, cada vez mais nervoso, a extensão do gabinete, cujos tapetes lhe abafam os passos, quando, de repente, pára, e reclama, cerrando os punhos:
-- Confessa-me. afinal: quando foi que aquele miserável, abusando da tua fraqueza, e aproveitando a minha ausência, penetrou nesta casa?
Adivinhando nessa pergunta um caminho para a reconciliação, D. Eleonora levanta o lindo rosto ensopado de lágrimas, e, fixando os grandes olhos úmidos nos olhos ardentes do marido, indaga, apenas, pronta para uma explicação:
-- Qual?
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Obediência

Mal saída do colégio, para onde entrara ainda criança, isto é, desde que o pai, o comendador Anacleto, enviuvara, foi a encantadora Maria Lúcia residir no palacete recentemente alugado pelo velho capitalista em uma das ruas menos movimentadas de Botafogo. Deslumbrada com a liberdade conquistada à força de estudo, de uma aplicação que lhe granjeara o primeiro lugar na sua turma, apenas uma coisa a desgostou: foi a recomendação que lhe fez o pai, severo e prudente:
-- Olha, minha filha; esta casa é tua; governa-a como se fosses a dona. Uma coisa, apenas, eu te peço: vive isolada, sem relações de amizade, e nunca, em hipótese alguma, incomodes os vizinhos.
E beijando-lhe a testa clara. coroada por uns lindos cabelos castanhos:
-- Muito juizinho; ouviu?
Duas semanas não se tinham passado sobre a libertação de Maria Lúcia, quando uma quadrilha de ladrões, vendo, uma tarde, sair as criadas, que a jovem patroa indultara naquele dia, resolveu assaltar, pulando o muro dos fundos, o palacete do comendador. Descalços, em mangas de camisa, chapéu em cima dos olhos, os miseráveis penetraram na casa e, desrespeitando a fraqueza da moça, praticaram toda a sorte de depredações, esvaziando as gavetas, arrombando os cofres de jóias, carregando, enfim, com todas as coisas de valor que havia na residência do honrado capitalista.
À noite, ao abrir a porta, de regresso ao lar, o comendador teve um pressentimento triste, ao ver a casa às escuras. Abertas, porém, as lâmpadas, recuou, horrorizado, para, em seguida, precipitar-se, de compartimento em compartimento, chamando, aflito, pela menina:
-- Maria Lúcia? Maria Lúcia? Onde estás, minha filha?
No último quarto da casa, esperava-o uma surpresa maior: sentada no leito, desgrenhada pálida, com as vestes em desalinho, Maria Lúcia chorava, com a cabeça nas mãos.
-- Minha filha da minh'alma! - gemeu o velho, atirando-se para ela. - Que foi isso?
-- Os ladrões!... - explicou a moça, num gemido.
E enxugando os olhos;
-- Levaram tudo: as roupas, as jóias, a louça, tudo, enfim. Depois...
-- Depois?... - rugiu o velho, com os olhos esbugalhados.
-- Desgraçaram-me!... - concluiu a moça, prorrompendo em soluços.
-- Desgraçaram-te?... - gritou o velho, de dentes e punhos cerrados, com um rugido soturno, cavo, de fera atingida no coração.
E após um instante de silencio desesperado:
-- E como foi? Amarraram-te?
-- Não, senhor.
-- Subjugaram-te?
-- Não, senhor.
-- Taparam-te a boca?
-- Não, senhor.
-- E por que não gritaste? - berrou o ancião, parando, de súbito, no meio do quarto.
E a moça, levantando para ele, num soluço, os lindos olhos machucados de lágrimas:
-- Papai não disse que eu não incomodasse os vizinhos?

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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

2014, um ano de ‘entradas na posteridade’—i


Gonçalves Dias : mais do que romantismo poético, etnia e alteridade, erotismo e sátira.

Dele, sabe-se ser considerado ícone do romantismo poético brasileiro, quem aliás o inaugurou temática e efetivamente :  o poeta, ensaísta e intelectual Antonio Carlos Secchin sentencia que “Canção do exílio” é o “documento de identidade da história literária do Brasil”(segundo ele, a carta de Caminha seria a “certidão de nascimento da história institucional brasileira”).

Gonçalves Dias teve vida curta: morreu aos 41 anos, a 03.11.1864, vítima de naufrágio, já em águas brasileiras,próximo à costa, quando voltava da Europa—mas o suficiente para merecer, com todas as honrarias, um posto no Olimpo literário do país, ainda que com poucas obras, produzidas entre seus 23 e 29 anos : Primeiros cantos, Leonor de Mendonça (teatro), Segundos cantos, Meditação, Últimos cantos, Os Timbiras (inacabado) , Dicionário da Língua Tupi..
O que pouco se conhece, e talvez muitos não sabem, é o quanto em Gonçalves Dias existe o “alterofilista”[sem o h...] , na expressão de Secchin, no sentido de sua dedicação, extremamente relevantes para a historiografia literária brasileira,em estudos, reflexões e produção poética e em prosa,inclusive em discursos e depoimentos,  às questões de alteridade e  de etnia, ele mesmo mestiço, filho de um português com uma índia – apondo-as e expressando-as, sempre fazendo do índio o elemento da  identidade fundadora do Brasil,  nos poemas “Marabá”, em “I-Juca Pirama”-  em que inaugura, por assim dizer, o ethnoslogos da literatura e da cultura brasileiras -e em diversos outros, não fosse Dias o indianista por excelência, e  precursor, na literatura brasileira.

Assim como, e do mesmo modo provavelmente menos conhecida, duas outras facetas, também importantes historiograficamente e literariamente : o erotismo e a sátira – o primeiro presente, p. ex.,  em “Leito de folhas verdes”,em “Marabá”, em “O canto do índio”; o Gonçalves Dias satírico  em “Sextilhas de Frei Antão” e em  “Que coisa é um ministro?” – apondo-se  aqui, uma observação pertinente : na linha/via reversa, o indianismo gonçalviano,  teria sido satirizado, ou parodiado, por Bernardo Guimarães no “Elixir do Pajé”(de resto, peça ‘clássica’ fescenina do romantismo brasileiro); e por Múcio Teixeira em “Canto da bugra”, paródia a “O canto do tamoio”.

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                                                             Leito de Folhas Verdes
                                                                                                 Gonçalves Dias

Por que tardas, Jatir, que tanto a custo
À voz do meu amor moves teus passos?
À voz do meu amor moves teus passos?
Da noite a viração, movendo as folhas,

Já nos cimos do bosque rumoreja.
Eu, sob a copa da mangueira altiva
Nosso leito gentil cobri zelosa
Com mimoso tapiz de folhas brandas,

Onde o frouxo luar brinca entre flores.
Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco,
Já solta o bogari mais doce aroma!
Como prece de amor, como estas preces,

No silêncio da noite o bosque exala.
Brilha a lua no céu, brilham estrelas,
Correm perfumes no correr da brisa,
A cujo influxo mágico respira-se

Um quebranto de amor, melhor que a vida!
A flor que desabrocha ao romper d`alva
Um só giro do sol, não mais, vegeta:
Eu sou aquela flor que espero ainda

Doce raio do sol que me dê vida.
Sejam vales ou montes, lago ou terra,
Onde quer que tu vás, ou dia ou noite,
Vai seguindo após ti meu pensamento;

Outro amor nunca tive: és meu, sou tua!
Meus olhos outros olhos nunca viram,
Não sentiram meus lábios outros lábios,
Nem outras mãos, Jatir, que não as tuas

A arazóia na cinta me apertaram
Do tamarindo a flor jaz entreaberta,
Já solta o bogari mais doce aroma;
Também meu coração, como estas flores,

Melhor perfume ao pé da noite exala!
Não me escutas, Jatir! nem tardo acodes
À voz do meu amor, que em vão te chama!
Tupã! lá rompe o sol! do leito inútil
A brisa da manhã sacuda as folhas!

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

aos que vão ao ENEM

ainda mais neste 1750. ano de nascimento de Machado
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A crônica em Machado de Assis

Inovador na ficção, como contista e romancista – está na história da literatura brasileira a magistral inflexão estilística, temática e de linguagem por ele executada no final da década de 1870 -- Machado de Assis foi soberbo cronista que fez da crônica muito mais do que um registro pontual do cotidiano, transformando-a em um verdadeiro gênero literário, a servir de modelo, molde e paradigma  a tudo e todos que o sucederam, inclusive os de hoje. .
Ao longo de 41 anos, Machado criou crônicas, nos mais diversos veículos, séries, formatos e assinaturas (ou disfarces), desde 1859, em O Parahyba (de Petrópolis), seguindo-se colaborações para o Correio Mercantil (1859-1864), para O Espelho (1859-60); para o Diário do Rio de Janeiro (1860-63: série “Comentários da Semana”; 1864-67: série “Ao Acaso”), O Futuro (1862-63), Imprensa Acadêmica, de São Paulo (1864 ; 1868 :série “Correspondência da Imprensa Acadêmica”) A Semana Ilustrada (1865-75: séries “Crônicas do Dr. Semana”, “Correio da Semana”, “Novidades da Semana” , “Pontos e Vírgulas”, “Badaladas), Ilustração Brasileira (1876-78: séries “Histórias de 15 dias”, “Histórias de 30 dias”), O Cruzeiro (1878: série “Notas Semanais), Revista Brasileira (1879), Gazeta de Notícias (1881-1900: séries “Balas de Estalo”, “A + B”, “Gazeta de Holanda”— constituídas em versos,os ‘versiprosa’ (termo cunhado por ele e que antecipa em muitos anos a mesma expressão usada por Carlos Drummond de Andrade --“Bons Dias!”  e “A Semana).
Nessas  quatro décadas -- com uma produção de 738 artigos --  o País  teve oportunidade de  conhecer um magnífico repositório da arte machadiana de criação de muitas  das melhores crônicas da literatura brasileira – um número nada desprezível delas consideradas verdadeiras obras-primas..
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Machado fez da crônica  mais do que simples jornalismo, superior ao comum do gênero – haja vista o que Artur Azevedo sentenciou em artigo em O Álbum ,janeiro 1893 : "(...) Atualmente escreve Machado de Assis, todos os domingos, na Gazeta de Notícias, uns artigos intitulados A Semana que noutro país mais literário que o nosso teriam produzido grande sensação artística", a atestar o quanto dotou a crônica dos elementos de verdadeira literatura.
A crônica de Machado de Assis, com suas primordiais características de leveza de tom e teor, fluência textual e estilística muito próxima da oralidade, ironia satírica e pilhéria, metáfora e paródia, ostenta também a presença incisiva (como ocorre em sua obra ficcional) dos conhecidos e admiráveis elementos machadianos do disfarce, da dissimulação, do subterfúgio, da sutileza, dos significados ocultos postos como desafios ao leitor, por meio de outras de suas peculiaridades, o uso do anonimato e do pseudônimo, de que ele foi um dos mais profícuos usuários, e em especial a “arte das transições”--  levada a extremos no unir tópicos aparentemente distintos, um parecendo não ter nada a ver com outro, mas que justapostos oferecem um resultado  surpreendente,cujo trajeto é ‘amenizado’ para o leitor , primeiro desviando-o do tema principal, depois retornando e reintegrando-o,numa espiral de circularidade muitas vezes nem percebida de todo. Mestre do subterfúgio, da dissimulação, da sutileza, do disfarce e do enigma, Machado esconde ou disfarça uma parte da verdade e desafia o leitor a descobri-la e fazê-la emergir, utilizando armadilhas retóricas típicas de sua narrativa na ficção, executadas também na crônica, sobretudo pelo absoluto  domínio da relação cronista-leitor, e a preponderância do conhecido narrador machadiano, o ‘narrador volúvel’ da ficção aparecendo  também na crônica :a rigor,   nos  comentários e ilações desse narrador é que a crônica  passa a se fazer e  sentir.

Na verdade, sempre existiu em Machado um notável e meticuloso experimentador --  mutável na utilização de formas,estilos e modelos --  mas absolutamente seguro,determinado e consciente.. Ao longo do tempo, Machado sempre preocupou-se  com configurações para sua obra : (assim como o conto) a crônica foi um notável e eficaz terreno de experimentações narrativas, nelas se revelando uma seqüência notável de exercícios formais,estilísticos, de linguagem e de enfoque .As crônicas machadianas possuem , em si, estrutura,forma e encadeamentos consistentes e complexos, além de plena interação com os contextos histórico, político,econômico, social,cultural,urbano sob os quais  foram elaboradas : revelam cadeias de pensamento e reflexão em muitos aspectos, passagens e nuances intertextualizados, ou que viriam a se intertextualizar com elementos,ambiências e situações de romances e contos.
Nesse particular, é possível a construção de uma equação especulativa/ interpretativa sobre a correspondência do estilo e enfoque machadianos postos na crônica com estilos, formas e temas postos por ele na ficção e no conjunto de sua obra -- em especial o momento da inflexão, por volta do final da década de 1870, cujas causas e motivos tanto intrigam os analistas e estudiosos  de Machado. Em essência e matéria, a mesmíssima ‘reformulação’ de enfoque, forma e estilo imprimida por Machado de Assis em sua criação ficcional –-- transpondo o romantismo dos primeiros três romances (Ressurreição, A mão e a luva, Helena) e a ‘ideologia’ presente nos contos iniciais (abrigados nas coletâneas Contos fluminenses e Histórias da meia-noite), incorrente no processo de transição no final da década de 1870 (representado por Iaiá Garcia e anunciador da inovação/ ‘revolução’ sintetizada no ‘shandiano’ Memórias póstumas de Brás Cubas) para um  aprofundamento e sedimentação do realismo, mas ‘subvertendo’ e renovando esse realismo (em Papéis avulsos , consolidado em Quincas Borba, em Dom Casmurro, depois em Esaú e Jacó e no definitivo Memorial de Aires ) . Esse  processo de reformulação, dizíamos , deu-se da mesma forma, sob o mesmo diapasão, com a mesma ‘latitude’ literária , na mesma época, também na  produção das crônicas publicadas na imprensa.


Ao se examinar a produção croniquesca de Machado encontraremos  crônicas que .impressionam não apenas pela matéria registrada e narrada mas sim pela forma de contá-la – quer interferindo direta e intimamente na narração, fazendo do narrador  o  comentarista, quer pelo distanciamento, numa forma de narrativa isenta mas intrinsecamente crítica. Em determinadas crônicas há por certo um Machado trivial e contido, em outros um autor meramente humorístico, com textos e narrativas que não passam do simples divertimento; alguns, aparentemente simplórios e despojados, mas carregados de significados; outros em que, sob a capa de uma escrita sóbria, discreta e ‘bem-comportada’ reveste contradições e ambigüidades comportamentais, , mazelas e injustiças sociais,hipocrisias morais e políticas. 

Importante observar ainda quanto os períodos, os contextos históricos, os veículos e seus respectivos  espaços dados à crônica, as assinaturas, influíram tanto no enfoque temático, como  no timbre. Nenhuma série é essencial e totalmente idêntica a outra, ainda que guardem afinidades e similaridades, mantidas  as homogeneidade e unidade  inerentes a  cada uma .Da mesma forma se  constata que cada época, ou série, trata ou prioriza um tema que sobressai por sua relevância,sua particularidade, sobretudo por sua correspondência-consonância com o momento histórico de sua feitura : às distintas e seqüentes séries podem-se traçar a rigor, enredos e sub-enredos que se desdobram e interligam-se em ciclos -- cada script com seu pano de fundo temporal , sob o fio condutor   da própria história brasileira da segunda metade do século XIX.
Relevante e absolutamente indispensável realçar, nesse sentido, o quanto Machado, ao contrário do que equivocadamente interpretado e difundido, tratou de política em seus escritos – também nos contos e romances, sobretudo nas crônicas -- a desmistificar a pecha de “alheio a questões de seu tempo”, “alienado”, etc. Foi ele um lúcido ‘relator’ da história brasileira e um crítico atento e severo da sociedade e das instituições do País : dedicou-se intensamente, para quem não sabe, a registrar, comentar, refletir e especialmente criticar assuntos da esfera política.,  exposto em nada menos do que 385 crônicas ,vale dizer cerca de 52% de sua produção total de 738 artigos  – o mesmo se dando com relação à economia, referenciada e reportada em 77 crônicas..

Ficção e realidade, ficção e história, ficção e sociedade brasileira constituem fulcros sempre presentes na obra machadiana. Em boa parte  de sua ficção e da não-ficção Machado oferece ao leitor uma interpretação satírica, por vezes alegórica,  desnundando mitos e certezas, aparências e disfarces, dilemas e mentiras -- sob o mesmo clamor crítico-satírico de seu olhar ,por vezes direto e transparente,por vezes machadianamente oblíquo e dissimulado, feito  testemunho incomparável  sobre a vida  brasileira  do século XIX.  


mr

sábado, 1 de novembro de 2014

aos que vão ao ENEM

ainda mais neste 175º. ano de nascimento (1839) de Machado de Assis

o conto em machado de assis

Pode-se perfeitamente afirmar ter sido Machado de Assis mais do que  o  decisivo ‘impulsionador’, do conto na literatura brasileira : foi com efeito o  criador do conto brasileiro ,porquanto a par da qualidade superior de suas narrativas curtas, nenhum dos grandes autores que o antecederam pouco ,ou quase nada produziram no gênero -- basta examinar as obras de Gonçalves de Magalhães, Joaquim Manuel de Macedo e José de Alencar, por exemplo – e extremamente parcas,esparsas e efêmeras foram as manifestações  anteriores. A altíssima qualidade literária de Machado como contista tornou-o,desde sempre, comparável aos considerados grandes mestres do gênero de sua época, como Edgard Allan Poe(1809-1849), Guy de Maupassant(1850-1893),Anton Tchecov(1860-1904) – comparável e com eles inter-textualizado .
Não obstante tal  status de um dos maiores contistas,quantitativa e qualitativamente, da literatura brasileira, quiçá o maior, criador de 226 contos , Machado de Assis não recebeu ao longo dos anos, mesmo nas edições póstumas, as obrigatórias integridade, completude e responsabilidade no tratamento editorial de seus contos, cuja história imperfeita de edições constitui-se um complexo enredo de erros, omissões, equívocos, negligência..
Um dos aspectos mais destacados no Machado contista – a rigor, de toda sua ficção em prosa -- talvez sua qualidade essencial, é o emprego do esforço criador na busca gradual e compassada,bem urdida, de uma coerência ,uma abrangência e uma profundidade obtidas parte pelo talento nato parte (a maior) pelo exercício consciente e meticuloso da prática literária , vis a vis com a percepção clara do entorno histórico,social e cultural e dos meios de que dispõe para expressão de sua obra.Essa combinação de vieses,convém enfatizar, determinou substancialmente todo seu desenvolvimento como escritor e essencialmente o processo da evolução literária de Machado  --  como “um todo consistente, coerente, continuado”, com a marcante inflexão no início da década de 1880.

Inflexão que, a par de contribuir positivamente para a análise e interpretação adequadas da trajetória machadiana, em  contrapartida serve para sedimentar um conceito, ou avaliação, sob alguns aspectos, discutível :  a divisão da obra -- ficcional e não-ficcional -- de Machado em duas fases ,o ‘aprendizado’ versus a ‘maturidade’, a ‘formação’  versus  a ‘radicalização’.
O fato de ser algo discutível considerar  a obra machadiana catalogada em duas ‘fases’ não implica necessariamente em renegar a existência,   como em todo processo  , de  escalas e estágios, com nítidos pontos de inflexão,ou de mais intensa transição :  no caso de Machado, os anos 1868-71 , de resto condizente este com o próprio momento histórico-político do País , e principalmente o biênio 1878-79, quando se deu, em O Cruzeiro (março-setembro 1878), além de outros contribuições machadianas,  a  publicação do romance Iaiá Garcia e sete contos -- de titulação, temática,teor e conteúdo, que se podem considerar ‘insólitos’, ‘inusitados’,‘estranhos’[1], diferenciados na contística machadiana -- como elementos decisivos de “ponto de viragem” ficcional antecipador da experimentação levada a efeito em  Memórias póstumas de Brás Cubas, e ainda os contos “A chave”, “Curiosidade” e  “Um para o outro” (que recuperei – 2007-- depois de 128 anos desaparecido e tido como perdido ),  todos originariamente veiculados  em A Estação no ano de 1879.
   
Notável e meticuloso experimentador, mutável na utilização de formas, estilos e modelos, preocupado com configurações (temáticas,tramáticas,estilísticas ,de linguagem) para sua obra, Machado passou a fazer de  cada conto um exercício de forma,gênero e estilo – ora em diálogo, ora paródia, ora sátira, ora epistolar, ora em forma de conferência ,ora denso, ora leve, narrativa longa,narrativa curta, com narrador em primeira pessoa, narrador em terceira pessoa, sem narrador; conto filosófico, conto político, conto fantástico, história romântica, conto humorístico – e nisso vislumbram-se diversas chaves temáticas pelas quais podem ser agrupados --  de análise psicológica , de denúncia social ,  pendulando entre o formal e o coloquial, o erudito e o popular, o nacional e o universal .
                
O amor é o grande tema, central e capital, na contística de Machado. O  amor visto, tido e exposto de Machado, presentes sem exceção em todos os  contos, vez por outra inserindo como a única comunicação possível entre pessoas,quaisquer que sejam suas natureza, caracteres, etnia,classe social, e o casamento – e seu derivativo mordaz, o ciúme – tema difícil de ser tratado à época ,mas sempre em defesa da base moral do amor : até mesmo quanto se reporta a  questões político-sociais como a escravidão ,sobre a  qual, ou a ela se referindo, produziu um significativo  naipe de contos -- todos publicados,importante notar,  no ‘feminino’ Jornal das Famílias.

Machado sempre escreveu sobre mulheres e para as mulheres e não era segredo – pelo menos até 1881,quando consolidou a longa e profícua atuação nas páginas da Gazeta de Notícias -- preferir colaborar em publicações cujo público predominante era feminino, primeiro no Jornal das Famílias  , de 1864 a 1876,  e a partir de 1879 em A Estação. Tinha a mulher não apenas como protagonista de seus romances e contos  mas também sua leitora predileta e leitmotiv. A rigor, a mulher é  a própria essência da ficção machadiana – e nenhum escritor de seu tempo  ‘edificou’ tanto a mulher como personagem capital e basilar  de seus textos como Machado de Assis.(sem se constituir propriamente em explícito ‘defensor dos direitos da mulher’ – muito menos um ‘dialético feminista’ -- Machado era convicto de que as mulheres deviam ser instruídas e não permanecerem atadas à vida doméstica,ao mesmo tempo sempre preocupado e atento para as necessidades emocionais,afetivas e mesmo sexuais das mulheres.).

Condizentes com as alterações e ebulições vivenciadas na sociedade brasileira nas três décadas finais do século XIX, mutações e transformações da mesma forma se dão no universo contístico: antes de 1880, os contos se centravam no namoro,paixão e casamento  o casamento,feliz ou infeliz, consumado ou não, bem-sucedido ou não, por sentimento ou interesse , ao passo que no pós-1880 aparecem com mais nitidez formas e situações de fragmentação e diluição do casamento e ,embora nunca consumadas de fato, intenções e sentimentos de infidelidade afetiva – nos contos  machadianos, há mulheres que flertam com a idéia da infidelidade, mas  acabam não a consumando: importante  observar  que intencionada ou não, fomentada ou não, incentivada ou não, quase sempre platônica, a infidelidade  feminina é sempre contraposta, e redimida,  na redenção pelo amor -- o grande e central  tema da ficção machadiana ; todos os sentimentos impuros e espúrios,proibidos e reprováveis, se idealizados , ou cogitados,em nome dele , são no final  por ele  regenerados.
                                                                                                                                       M.R




[1] O Cruzeiro circulou no Rio de Janeiro de 01.01.1878 a 20.05.1883, e nele Machado colaborou de 23.03 a 01.09.1878, com sete contos, 14 crônicas ( na série “Notas Semanais”), uma ‘ópera-cômica em 7 colunas”(a definição é do próprio Machado), um artigo referente a assunto da seara teatral, a (célebre) crítica literária a O primo Basílio, de Eça de Queiroz, além do romance “Iaiá Garcia”, em folhetins.
   Neste particular,desenvolvi projeto de obra [ainda sem editor] que abriga os contos, e mais a “ópera-cômica em 7 colunas” e o artigo - do mesmo teor de ‘inusitado’-- que  reporta ao teatro : tudo sob o título de “As estranhas fantasias de Eleazar” (Eleazar, o pseudônimo utilizado por Machado em todos os textos de colaboração em O Cruzeiro)

sábado, 18 de outubro de 2014

Em tempo de eleições : Lima Barreto e a política


Em essência, Lima Barreto sempre tratou mais de política do que qualquer outro tema. Ninguém como ele, em seu tempo, escreveu tanto sobre o tema e, por extensão, sobre  questões sociais. Sua ‘literatura militante’, assim por ele definida, determina o caráter marginal de sua obra: sua visão crítica da sociedade o fez enveredar concreta e irreversivelmente no caminho da luta social; nos jornais e revistas investiu contra todos os signos do poder, nos textos ficcionais denunciou as profundas injustiças da sociedade brasileira.
Toda a obra barretiana desenvolve-se a partir  e em torno de um tema nuclear: o poder e seus efeitos discricionários — o poder  visto e descrito por ele como “o variado conjunto de elementos, vetores e procedimentos encadeados no interior da sociedade, compondo grandes e pequenas cadeias, visíveis e invisíveis, tendentes a restringir e constringir o pensamento dos homens, coibindo-lhes as possibilidades de afirmação, pessoal, cultural, profissional, social, e a justa inserção social”. Tinha a visão verticalizada, analisando desde as estruturas políticas como o governo e as ideologias, e as instituições culturais como a imprensa e a ciência, até os modelos determinantes do comportamento coletivo e do relacionamento cotidiano. Lima Barreto era, acima de tudo, um anti-patrimonialista.
Crítico implacável da pretensa modernidade que se queria implementar com a República, avesso a todas as formas de assimilação de valores estrangeiros (no bojo, p. ex. de sua resistência ao futebol, ao cinema e à cultura importada ), defensor ,por vezes intransigente, de uma brasilidade que sustentava devia permear a “autêntica língua nacional”, foi no entanto opositor ativo do  nacionalismo ufanista surgido no final do séc. XIX e início do XX,a começar por  questionar as imagens errôneas que o Brasil fazia de si mesmo, levando ad absurdum os clichês e mitos nacionalistas e os desmascarando um a um.(no romance Triste fim de Policarpo Quaresma  parodia implicitamente o opúsculo patrioteiro de Afonso Celso, filho de seu protetor, intitulado Por que me ufano do meu país (1901), livro muito popular no começo do século XX, que deu origem ao termo ufanismo e foi traduzido para diversas línguas na época, inclusive o alemão. Lima Barreto inclusive alertava para o que denominava “um dos mitos mais perigosos,o do patriotismo : no fundo, os patriotas grandiloqüentes de plantão não passam de traidores da pátria, pois a usam para a sua própria autopromoção e enriquecimento (...), a sociedade de classes e o Estado  a instrumentalizarem o patriotismo e o nacionalismo em favor do interesse das elites.”. Na contrapartida, procurou esboçar um patriotismo social, com consciência histórica e respeito pela cidadania, ancorado na cultura própria, resistente ao cosmopolitismo e de reconhecimento da mestiçagem – étnica,social e cultural --no Brasil.
 Para ele, a nova sociedade ,caracterizada  pelo binômio cosmopolitismo, inspirador das ações da elite do país , e bovarismo[1], “atitude mistificatória de o homem se conceber outro que não é, entre o que é e o que acredita ser”, era um sistema que premiava o egoísmo, o banal, a decadência dos costumes, o preconceito, lastreada nos valores máximos da elite – a fruição do conforto material, os privilégios, a superioridade, gerando discriminação e sectarismo.  “A nossa República se transformou no domínio de um feroz sindicato de argentários cúpidos, com os quais só se pode lutar com armas na mão. Deles saem todas as autoridades, deles são os grandes jornais, deles saem as graças e os privilégios; e sobre a Nação eles teceram uma rede de malhas estreitas, por onde não passa senão aquilo que lhes convém[2]
Lima Barreto,em sua fértil produção contística, publicou 46 contos de teor explicitamente político – ainda que em alguns deles, caso específico do conjunto de 13 textos que ele próprio batizou de “contos argelinos”, se utilize da alegoria e do simulacro. Exemplares insofismáveis de veemente oposição à República, da ferrenha crítica aos governos republicanos ,notoriamente o ‘florianismo’ (referente a  Floriano Peixoto) e o ‘hermismo’ ( a Hermes da Fonseca)[3] -- já objetos de críticas exacerbadas em inúmeros artigos e crônicas e também na novela Numa e a ninfa e no memorialístico Diário íntimo -- expressão do  intransigente e obstinado repúdio  para as coisas da política, aos políticos, aos conchavos partidários,às oligarquias ,  Lima Barreto os “contos argelinos”   têm  em seu cerne paródico a ascensão dos militares, com sua crescente  participação  na política, e o militarismo —  importando notar que, em outro viés de leitura e interpretação, trazem em si a  emblematização ficcional do patrimonialismo, contra o qual  Lima Barreto  se colocava na própria essência  de sua ideologia.
A criação, confecção e publicação desses 46 contos deram-se em período histórico conturbado, durante os sucessivos governos de Hermes da Fonseca, Venceslau Brás e Epitácio Pessoa, em sete dos mais cruciais anos de plena sedimentação do regime republicano  — de resto um processo  de altíssima ebulição política, convulsionante e transformadora.
 Por essa época , apenas  Lima Barreto (Euclydes da Cunha morrera em 1909) mantinha , entre os escritores, uma postura participativa – de natureza crítica -- nas coisas da política , uma vez que os demais literatos se afastaram  do envolvimento e da militância a que se entregaram ainda durante as campanhas abolicionista e republicana, nas últimas décadas do século XIX e início do século XX : frustrados a expectativa e o entusiasmo iniciais despertados pela República , os intelectuais desistiram da participação política ativa, militante, que muitos tiveram no advento do novo regime e passaram a se concentrar na literatura e em parte no jornalismo ‘croniquesco’, dedicando-se  a produzir uma literatura de  linguagem empolada, o ‘clássico’ calcado em expressões cediças e de figuras de efeito, cheia de arabescos estilísticos — uma literatura  impregnada de vocábulos garimpados do virtuosismo lingüístico e verborrágico,expressão da frivolidade dominante. Uma literatura como “o sorriso da sociedade” de que falava Afrânio Peixoto e contra a qual Lima Barreto lutava com denodo.
No lado oposto, além da ferrenha oposição à escrita aristocrática predominante , destoando e substancialmente contrário aos estilos vigentes, Lima Barreto por essa época já era respeitado como articulista e cronista e reconhecido como excepcional escritor mercê dos elogiados romances publicados Recordações do escrivão Isaias Caminha(1909) e Triste fim de Policarpo Quaresma (1915)—que rejeitava terminantemente fazer de tanto de seu trabalho jornalístico como de sua obra literária, fosse ficcional ou não-ficcional, “instrumento de propaganda do sonho republicano de falso progresso e falsa civilização”. Sustentava ele que fazia “uma literatura militante, de obras que se ocupam com o debate das questões da época (...), por oposição às letras que, limitando-se às preocupações da forma, dos casos sentimentais e amorosos e da idealização da natureza”.
Na contrapartida ao aristocratismo da escrita de então , aos nefelibatas da linguagem, tinha-se em Lima Barreto um registro da  língua ‘brasileira’ do início do século XX e um ritmo genuinamente nacional  que prenunciava a linguagem modernista. 
Contrariamente à maioria de seus contemporâneos,  Lima Barreto conferia à sua obra ficcional o sentido militante de uma “missão social, de contribuir para a felicidade de um povo ,de uma nação, da humanidade” Em sua concepção, a literatura tinha de ser “militante”, com objetivo concreto e definido, como sentencia em entrevista a A Época,18.02.1916 : “(...)não desejamos mais uma literatura contemplativa, cheia de ênfase e arrebiques ,falsa e sem finalidade, o que raramente ela foi; não é mais uma literatura plástica que queremos, a encontrar beleza em deuses para sempre mortos, manequins atualmente, pois a alma que os animava já se evolou com a morte dos que os adoravam; digamos não a uma  literatura puramente contemplativa, estilizante sem cogitações outras que não as da arte poética, consagrada no círculo dos grandes burgueses embotados pelo dinheiro, de amplo emprego por pretensos intelectuais,bacharéis e políticos”  (...) “a obra de arte tem por fim dizer o que os simples fatos não dizem. Este é meu escopo. Vim para a literatura com todo o desinteresse e toda coragem. As letras são o fim da minha vida. Eu não peço delas senão aquilo que elas me podem dar: glória!”
 Dono de obra ficcional e não-ficcional com vigoroso fulcro ideológico, Lima Barreto buscava na politização da literatura um sentido sobretudo ético.Na única conferência literária que faria, mas não o fez — “O destino da Literatura” [publicada na Revista Souza Cruz,Rio de Janeiro, 1921 , em cujo número também apareceu trecho do romance O cemitério dos vivos ], em Rio Preto, São Paulo, em fevereiro de 1921 — foi explícito :“A Beleza não está na forma, no encanto plástico, na proporção e harmonia das partes, como querem os helenizantes de última hora . A importância da obra literária que se quer bela sem desprezar os atributos externos de perfeição de forma, de estilo, deve residir na exteriorização de um certo e determinado pensamento de interesse humano(...) E o destino da literatura é tornar sensível, assimilável, vulgar esse grande ideal de fraternidade e de justiça entre os homens para que ela cumpra ainda uma vez sua missão quase divina. Mais do que qualquer outra atividade espiritual da nossa espécie, a Arte, especialmente a Literatura, a que me dediquei e com quem me casei; mais do que ela, nenhum outro qualquer meio de comunicação entre os homens, em virtude mesmo do seu poder de contágio, teve, tem e terá um grande destino em nossa triste humanidade.”
 Marginalizado por suas origens e condição social, execrado por ser ‘passadista e contrário à modernização’, Lima Barreto enfrentou as marcas de seu tempo e da sociedade brasileira que lhe foi contemporânea. Seu projeto era um projeto para uma vida inteira de militância literária contra o preconceito, mas também “contra os falsos intelectuais, contra um academismo espelhado no modelo europeu, contra uma literatura só de deleite, como ornamento”. Para ele, a literatura era uma verdadeira missão. A pretensa beleza estilística, os atributos externos formais de perfeição, de forma, de estilo, de vocabulário, não poderiam prescindir da “exteriorização de um certo e determinado pensamento de interesse humano, que fale do problema angustioso do nosso destino em face do Infinito e do Mistério que nos cerca, e aluda às questões de nossa conduta na vida” [Bagatelas ; Empresa de Romances Populares, Rio de Janeiro,1923].
Tanto nos romances e contos como nas crônicas e artigos, Lima Barreto  exerceu sempre uma crítica à cultura da modernidade contra a opressão social e a hipocrisia política — tal como se revelaram na implementação da República . A opção por uma literatura militante determinou o caráter marginal (e ‘revolucionário’, para muitos estudiosos) de sua obra : sua visão crítica da sociedade, da política e da cultura, renderam-lhe frutos amargos — desprezo do público, penúria econômica, alcoolismo e doença, internação em manicômio — mas nada o fez submeter-se aos ditames da moda e dos valores culturais da República. 
A “esperança” mencionada por Lima Barreto na entrevista de 1916 alimentava-se na verdade da recusa impassível em transigir com o que demandava popularidade — o aburguesamento do escritor, por via da adesão aos temas da moda, que fortaleciam os interesses políticos, econômicos, sociais e culturais da República. Nada porém o fez submeter-se a esses valores.







[1] bovarismo, conceito cunhado  pelo filósofo francês Jules de Gaultier em sua obra  Le Bovarysme, em 1892, advindo de Gustave Flaubert e sua Madame Bovary, seja em relação à figura do artista ‘sonhador irresponsável’ seja a um  comportamento artificial simbolizando um falseamento da vida,um desejo irreal de fuga –  o abismo que se abre entre as duas escalas, a da realidade e a do imaginário, conferindo-lhe  uma dimensão ao mesmo tempo trágica e irônica ; o termo é especialmente empregado também com o sentido da alienação intelectual que precede a construção de uma identidade cultural própria. Lima Barreto -- para quem o bovarismo era uma atitude mistificatória típica da nova elite, extremamente prejudicial para o país, “o  poder partilhado no homem de se conceber outro que não é, o afastamento entre o indivíduo real e o imaginário,entre o que é e o que acredita ser” -- aplicou esse conceito tanto literariamente – no romance Triste fim de Policarpo Quaresma e  nos contos “A biblioteca”, “Lívia” e “Na janela” aparece como a  própria essência dos textos – quanto socialmente : segundo ele, a República estava toda imersa em atitudes bovaristas e ,pior,  os próprios intelectuais, teoricamente dotados de maior capacidade e lucidez críticas, mergulharam desde o início numa militância ufanista,destemperada, de otimismo ingênuo ; e esse ufanismo bovarista era uma forma terrível de se alienarem dos graves problemas do  país.
[2] Sobre a carestia”, in O Debate, 15.09.1917.
[3] em dezembro de 1909,Lima Barreto editara com Antônio Noronha Santos (o maior de seus amigos) um panfleto contra a candidatura Hermes da Fonseca à presidência da República, intitulado “O Papão – semanário dos bastidores da política,das artes e... das candidaturas”.