quarta-feira, 23 de abril de 2014

Shakespeare, Cervantes, Machado de Assis

 hoje, 23 abril, é data histórica – para muitos, a Data Magna – da Literatura : primeiro, em 1564 – há exatos 450 anos, portanto [e as comemorações estão todas concentradas nesse teor] – nascia William Shakespeare, muito mais do que o maior escritor da língua inglesa e o maior dramaturgo de todos os tempos : tão grandioso e incomparável que é, personaliza a própria essência da Cultura universal, do próprio pensamento intelectual do Ocidente- da literatura, da filosofia, da história, da política, da arte, das ciências humanas (vide o que dele definiu o crítico e ensaísta Harold Bloom); e  morreria na mesma data em 1616 – quando também morreu outro dos gigantes literários e culturais da História, Miguel de Cervantes, dado como o maior escritor espanhol e um dos maiores do mundo, autor da obra  consensualmente considerada pioneira e criadora  do  romance moderno, Dom Quixote de La Mancha.
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Em exercício de ilação absolutamente coerente e condizente com a magnitude de três verdadeiros gênios literários, desenvolvi e estabeleci em trabalhos  de distintas amplitudes e finalidades – mas tendo como denominador comum estudos de Literatura Comparada – as relações de Machado de Assis com Shakespeare e com Cervantes.

Machado de Assis e Shakespeare --- anotações de um estudo

Aqui, apenas algumas anotações. O estudo das relações  entre Shakespeare e Machado de Assis integram dois projetos de trabalho mais amplos : “Machado de Assis e os ingleses”, parte do programa “Machado de Assis e Literatura Comparada”(que inclui os franceses ;os portugueses; os alemães; os gregos; os espanhóis – preponderantemente Cervantes -- ,italianos e latinos; e “Machado de Assis : leitor, formador de leitores”.

O ‘bardo’ britânico  foi incomparavelmente a maior influência – e não apenas literária, mas sobretudo filosófica e até mesmo ‘ideológica’ – em Machado : inclusive, o  mais incidente nas citações,alusões ,referências e recorrências [ a propósito : melhor e mais apropriadamente devendo se consubstanciarem no moderno termo de intertextualidades; constituem-se os efetivos elementos bibliográficos transmitidos e ‘transferidos’ – apropriado seria dizer `transplantados’ --por Machado a seus leitores, com eles estabelecendo pontes e vias de interatividade e mesmo de  reciprocidade,  verdadeiras fontes de informação, conhecimento e formação literária, por extensão enriquecimento intelectual dos leitores. Machado fez das citações e alusões autorais e bibliográficas, meios, instrumentos  e caminhos  para, além de  informar e formar o leitor sobre esses autores e essas obras, ‘atiçá-lo’ e o induzir a encontrar importantes paralelos e significados nos textos que lhe são expostos.]
   □   os 5 autores de maior incidência
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 incid.
 quantit. \
          autores                          
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126 Shakespeare   [ou 174 vezes considerando  as 48 vezes (Malvolio, personagem de “Noite de Reis”) na série “Gazeta de Holanda”]
86  mitologia clássica                
66  Homero                                                                                      
62  Moliére                              
59  V. Hugo                                                                                                   
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e  tem  3 de suas obras entre as 10 mais citadas
86  mitologia clássica                                                                      
63  Bíblia   [---]                                                                                                                        
43  Os Lusíadas   [Camões ]                                   
35  Hamlet  [Shakespeare]                                                        .  
27  Ilíada [Homero]                                                            
20  Romeu e Julieta           
20 Divina Comédia  [Dante]                            
20 Dom Quixote  [Cervantes]              
18 Otelo [Shakespeare]             
17 Odisséia   [Homero] 

Além de compor a (dilapidada, post mortem...) biblioteca pessoal de Machado com Shakespeare  Oeuvres complétes. Tome premier-dixiéme ( Paris, Librairie Hachette, 1867), The handy volume. Vol.. I-XIII.(London, Bradbury, Evans, and Co, 1868), The beauties , by the Late Rev. William Dodd, L.L.D ( London C. Daly, 1839).

A marcante influência de Shakespeare em Machado,a par das diversas incidências quantitativas, revela-se especialmente no próprio tom\teor, essência temática shakespeariana – o hamletino ‘ser ou não ser’ ; o ciúme; até mesmo a insinuação (ou inevitabilidade) do adultério....
Se, p. ex., é comum – a partir do estudo de Helen Caldwell – considerar Otelo a maior,  preponderante, quase exclusiva[sic]  referência e recorrência em Dom Casmurro,  a meu juízo na verdade o âmago referencial  está essencialmente em  Hamlet – vale dizer, no exercício da dúvida (que afinal é o que o ‘ser ou não ser adúltera’ de Capitu,denunciado pelo ciumento Bentinho, ele o narrador, portanto não-confiável, é transmitido ao leitor, Machado instigando-o a praticar esse exercício...) , de resto – assim como em toda obra de Shakespeare --- o elemento capital na ficção machadiana: dúvida que alimentará e gerará a dificuldade da escolha,recorrente e permanente nas personagens de seus contos e romances, mormente na mulher 
 Machado e Shakespeare, ambos tratam dos problemas essenciais do ser humano – daí, a universalidade de suas obras. Em ambos, a exposição da fatuidade das paixões humanas, a precariedade do homem quanto ao conhecimento de si , em ambos o ceticismo,na mesma mesclagem do cômico e do trágico. Em comum, a perplexidade  diante da ambigüidade e da ambivalência do ser humano.                                                                    
Tanto um como no outro,  o tema principal pode ser uma história de amor, mas no fundo as condições sociais – e\ou políticas, ou econômicas – acabam por exercer função e efeito especiais na consecução ou irrealização do idílio. Nos contos e romances machadianos, nas peças shakesperianas embora o tema e a ação seja de um romance, há sempre elementos e vetores de ordem social política ou econômica..
Seus personagens e protagonistas são das classes mais elevadas, a classe trabalhadora e proletariado não compõem seus elencos (e ambos foram criticados por um suposto – e equivocado...- esnobismo).
Ambos viveram em sociedade aristocráticas, oligárquicas, de elites dominadoras, em Machado,  patriarcal e patrimonialista. Ambos criticavam e ironizavam abusos de riqueza e de  poder e privilégios. E eram conscientes das complexas interações sociais desses cenários.
Ambos compreendiam perfeitamente a verdadeira natureza do dinheiro.
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Cervantes, por sua vez, aparece na obra de Machado com incidência quantitativa mais modesta : tem  ele 24 citações e Dom Quixote aparece em 20 menções  – o que não significa necessariamente menos significância qualitativa[Em muitas das alusões e recorrências o que mais importa não é o registro propriamente dito, o informe da obra ou do texto em si, mas a leitura, a interpretação machadianas da obra ou do texto, e  então transmitida ao leitor – quer a nível macro-textual quer a nível micro-textual, quer  de ‘leituras oblíquas’ e  influências ‘subterrâneas’ (aqui tendo em mente  o que o crítico e ensaísta (norte-americano) Harold Bloom cunhou de ‘angústia da influência’, por força da qual  obras e autores embora pouco ou menos citados formal,explicita e quantitativamente exerceram marcante e decisiva importância no escritor que os cita, números importando pouco face às ações intertextuais de formação e influência exercidas por autores e obras ]  :




segunda-feira, 21 de abril de 2014

Tiradentes e Machado de Assis

Neste dia, vale a pena reportar à importante ilação que  o maior nome da literatura brasileira construiu com uma das figuras primordiais da história nacional – ilação retratada  em um significativo conjunto de crônicas  escritas a propósito do  21 de abril.
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Talvez nenhum dos escritores do século XIX admirassem, reverenciassem e cultuassem Tiradentes como Machado de Assis : um vínculo respeitoso ,que remonta à sua postura política durante a década de 1860 , pelo qual Machado investiu Tiradentes com algo semelhante “a aura cristã do martírio e sacrifício” . Só que justamente essa aura,de ‘martírio e sacrifício’, e a loa machadiana ao “homem do povo que sofrera por sua visão de um Brasil  independente”  foram os fatores, ou motes, determinantes ,cruciais para tornar Tiradentes um ‘símbolo republicano’ – suprema ironia : Machado de Assis, simpatizante da monarquia e crítico da República, foi quem no fundo provocou a assunção do inconfidente  a ícone anti-monarquista , dele ‘apropriando-se’ o novo regime e instituindo o dia 21 de abril  como feriado nacional.
 Machado fez de Tiradentes  tema em várias crônicas . A começar pelos ácidos comentários críticos à edificação da estátua de d. Pedro I  no Largo do Rocio (atual praça Tiradentes, no centro da cidade do Rio de Janeiro), que se constituiu em um dos maiores conflitos  políticos em torno da figura do alferes : no lugar onde fora enforcado ‘o mártir’, o governo imperial erguia uma estátua ao neto da rainha que o condenara à morte ; o líder liberal mineiro Teófilo Otoni  chamou a estátua de “mentira de bronze”, e Machado participou intensamente dos protestos.  

Na crônica de  1 abril de 1862, publicada no Diário do Rio de Janeiro, a propósito da festiva  inauguração da estátua, Machado escreveu :
 Está inaugurada a estátua eqüestre do primeiro imperador.
Os que a consideram como saldo de uma dívida nacional nadam hoje em júbilo e satisfação.
Os que, inquirindo a história, negam a esse bronze o caráter de uma legítima memória, filha da vontade nacional e do dever da posteridade, esses reconhecem-se vencidos, e, como o filósofo antigo, querem apanhar mas serem ouvidos.
Já é de mau agouro se à ereção de um monumento que se diz derivar dos desejos unânimes do país precedeu uma discussão renhida, acompanhada de adesões e aplausos.
O historiador futuro que quiser tirar dos debates da imprensa os elementos do seu estudo da história do império, há de vacilar sobre a expressão da memória que hoje domina a praça do Rocio.
A imprensa oficial, que parece haver arrematado para si toda a honestidade política, e que não consente aos cidadãos a discussão de uma obra que se levanta em nome da nação, caluniou a seu modo as intenções da imprensa oposicionista. Mas o país sabe o que valem as arengas pagas das colunas anônimas do Jornal do Comércio.
O que é fato, é que a estátua inaugurou-se, e o bronze lá se acha no Rocio, como uma pirâmide de época civilizada, desafiando a ira dos tempos.
O Rocio vestia anteontem galas e louçanias desusadas.
As ruas por onde passou o préstito estavam ornadas de bandeiras e colchas, e juncadas de folhas odoríferas, segundo as exigências oficiais.
Mas sabe o leitor quem teve grande influência na festa de anteontem? O adjetivo. Não ria, leitor, o adjetivo é uma grande força e um grande elemento . (......)
Foi o adjetivo quem fez as despesas das arengas escritas anteriormente em defesa da estátua.(.....)


Três anos depois, a 25 abril 1865, publicou também no Diário do Rio de Janeiro uma crônica que é uma verdadeira ode a Tiradentes , inclusive prenunciando e acabando por vir a formalizar,tempos depois,  a mitificação do inconfidente – logo por Machado – e fomentar, depois de 1889, sua construção como signo da República :
“Os povos devem ter os seus santos. Aquele que os tem merece o respeito da história, e está armado para a batalha do futuro.
Também o Brasil os tem e os venera; mas, para que a gratidão nacional assuma um caráter justo e solene, é preciso que não esqueça uns em proveito de outros; é preciso que todo aquele que tiver direito à santificação da história não se perca nas sombras da memória do povo.
É uma grande data 7 de setembro; a nação entusiasma-se com razão quando chega êsse aniversário da nossa independência. Mas a justiça e a gratidão pedem que, ao lado do dia 7 de setembro, se venere o dia 21 de abril. E quem se lembra do dia 21 de abril? Qual é a cerimônia, a manifestação pública?
Entretanto, foi nesse dia que, por sentença acordada entre os da alçada, o carrasco enforcou no Rocio, junto à rua dos Ciganos, o patriota Joaquim José da Silva Xavier, alcunhado o Tiradentes.
A sentença que o condenou dizia que, uma vez enforcado, lhe fosse cortada a cabeça e levada a Vila Rica, onde seria pregada em um poste alto, até que o tempo a consumisse; e que o corpo, dividido em quatro pedaços, fosse pregado em postes altos, pelo caminho de Minas.
Xavier foi declarado infame, e infames os seus netos; os seus bens (pelo sistema de latrocínio legal do antigo regime) passaram ao fisco e à câmara real.
A casa em que morava foi arrasada e salgada.
Ora, o crime de Tiradentes foi simplesmente o crime de Pedro I e José Bonifácio. Ele apenas queria apressar o relógio do tempo; queria que o século XVIII, data de tantas liberdades, não caísse nos abismos do nada, sem deixar de pé a liberdade brasileira.
O desígnio era filho de alma patriótica; mas Tiradentes pagou caro a sua generosa sofreguidão. A idéia que devia robustecer e enflorar daí a trinta anos, não estava ainda de vez; a metrópole venceu a colônia; Tiradentes expirou pelo baraço da tirania.
Entre os vencidos de 1792, e os vencedores de 1822, não há senão a diferença dos resultados. Mas o livro de uma nação não é o livro de um merceeiro; ela não deve contar só com os resultados práticos, os ganhos positivos; a idéia, vencida ou triunfante, cinge de uma auréola a cabeça em que ardeu. A justiça real podia lavrar essa sentença digna dos tempos sombrios de Tibério; a justiça nacional, o povo de 7 de setembro, devia resgatar a memória dos mártires e colocá-los no panteon dos heróis.
No sentido desta reparação falou um dos nossos ilustrados colegas, nestas mesmas colunas, há quatro anos. As palavras dele foram lidas e não atendidas; não ousamos esperar outra sorte às nossas palavras.
Entretanto, consignamos o fato: o dia 21 de abril passa despercebido para os brasileiros. Nem uma pedra, nem um hino, recordam a lutuosa tragédia do Rodo. A última brisa que beijou os cabelos de Xavier levou consigo a lembrança de tamanha imolação.
Pois bem, os brasileiros devem atender que este esquecimento é uma injustiça e uma ingratidão. Os deuses podem aprazer-se com as causas vencedoras: aos olhos do povo a vitória não deve ser o criterium da homenagem.
É certo que a geração atual tem uma desculpa na ausência da tradição; a geração passada legou-lhe o esquecimento dos mártires de 1792. Mas por que não resgata o êrro de tantos anos? Por que não faz datar de si o exemplo às gerações futuras?
Falando assim, não nos dirigimos ao povo, que carece de iniciativa.
Tampouco alimentamos a idéia de uma dissensão política; conservadores ou liberais, todos são filhos da terra que Tiradentes queria tornar independente. Todavia, há razão para perguntar ao partido liberal, ao partido dos impulsos generosos, se não era uma bela ação, tomar ele a iniciativa de uma reparação semelhante; em vez de preocupar-se com as questões de subdelegados de paróquia e de influências de campanário.
Em desespero de causa, não hesitamos em volver os olhos para o príncipe que ocupa o trono brasileiro.
Os aduladores hão de ter-lhe lembrado que Tiradentes queria a república; mas o imperador é um homem ilustrado, e há de ver como se distancia dos aduladores o heróico alferes de Minas. Se os ânimos recuam diante de uma idéia que julgam ofensiva à monarquia, cabe ao príncipe sufocar os escrúpulos, tomando êle próprio a iniciativa de um ato que seria uma das mais belas páginas do seu reinado. Um príncipe esclarecido e patriota não podia fazer uma ação mais nobre, nem dar uma lição mais severa.
Uma cerimônia anual, com a presença do chefe da nação, com assistência do povo e dos funcionários do Estado, - eis uma coisa simples de fazer-se, e necessária para desarmar a justiça da história.
Não sabemos até que ponto devemos confiar nesta esperança; mas, ao menos, deixamos consignada a idéia.
Morro pela liberdade! disse Tiradentes do alto da forca: estas palavras, se o Brasil não reparar a falta de tantos anos, serão um açoite inexorável para os filhos do Império.(......)

Em 1892, a propósito do centenário de morte de Tiradentes, Machado fez questão de marcar , o  início da importante série “A Semana”, publicadas na Gazeta de Notícias  de 1892 a 1900, escrevendo  em tom vibrante,pungente e patriótico no dia 24 abril  :
“(......)
Para não ir mais longe, Tiradentes. Aqui está um exemplo. Tivemos esta semana o centenário do grande mártir. A ,prisão do heróico alferes é das que devem ser comemoradas por todos os filhos deste país, se há nele patriotismo, ou se esse patriotismo é outra cousa mais que um simples motivo de palavras grossas e rotundas. A capital portou-se bem. Dos Estados estão vindo boas notícias. O instinto popular, de acordo com o exame da razão, fez da figura do alferes Xavier o principal dos Inconfidentes, e colocou os seus parceiros a meia ração de glória. Merecem, decerto, a nossa estima aqueles outros; eram patriotas. Mas o que se ofereceu a carregar com os pecados de Israel, o que chorou de alegria quando viu comutada a pena de morte dos seus companheiros, pena que só ia ser executada nêle, o enforcado, o esquartejado, o decapitado, esse tem de receber o prêmio na proporção do martírio, e ganhar por todos, visto que pagou por todos..
Um dos oradores do dia 21 observou que a Inconfidência tem vencido, os cargos iam. para os outros conjurados, não para o alferes.. Pois não é muito que, não tendo vencido, a história lhe dê a principal cadeira. A distribuição é justa. Os outros têm ainda um belo papel; formam, em torno de Tiradentes, um coro igual ao das Oceânides diante de Prometeu encadeado. Relede Ésquilo, amigo leitor. Escutai a linguagem compassiva das ninfas, escutai os gritos terríveis, quando o grande titão é envolvido na conflagração geral das coisas. Mas, principalmente ouvi as palavras de Prometeu narrando  os seus crimes às ninfas amadas : Dei o fogo aos homens; esse mestre lhes ensinará todas as artes". Foi o que nos fez  Tiradentes. .
Entretanto, o alferes Joaquim José tem ainda contra si uma cousa, a alcunha. Há pessoas que o amam, que o admiram, patrióticas e humanas, mas que não podem tolerar esse nome de Tiradentes. Certamente que o tempo trará a familiaridade do nome e a harmonia das sílabas; imaginemos, porém, que o alferes tem podido galgar pela imaginação um século e despachar-se cirurgião - dentista. Era o mesmo· herói, e o ofício era o mesmo; mas traria outra dignidade. Podia ser até que, com o tempo, viesse a perder a segunda parte, dentista, e quedar-se apenas cirurgião.(....)

Um mês depois, Machado torna a referir-se ao alferes ,  utilizando-se do tom mais irônico que sua contumaz verve satírica poderia conceber. Na crônica de 22 maio, estampada no mesmo jornal, o sarcasmo machadiano chega a criar uma fantasia – cheia de significados -- ao construir impagável narrativa, exemplar insofismável do alegórico,  acerca de um embuste imaginário :
“Este Tiradentes, se não toma cuidado emr si, acaba inimigo público. Pessoa, cuje nome ignoro, escreveu esta semana algumas linhas com o fim de retificar a opinião que vingou, durante um longo século, acerca do grande mártir da Inconfidência. "Parece (diz o artigo no fim) parece injustiça dar-se tanta importância a Tiradentes, porque morreu logo, e não prestar a menor consideração aos que morreram de moléstias e misérias na costa d'África." E logo em seguida chega a esta conclusão: "Não será possível imaginar que, se não fosse a indiscrição de Tiradentes, que causou o seu suplício, e o dos outros, que o empregaram, teria realidade o projeto ?"
Daqui a espião de polícia é um passo. Com outro passo chega-se à prova de que  ele nem mesmo morreu; o vice-rei mandou enforcar um furriel muito parecido com o alferes, e Tiradentes viveu até 1818 de uma pensão que lhe dava D. João VI. Morreu de um antraz, na antiga rua dos Latoeiros, entre as do Ouvidor e do Rosário, em uma loja de barbeiro, dentista e sangrador, que abriu em 1810, a conselho do próprio D. João, ainda príncipe regente, o qual lhe ·se (formais palavras):
- Xavier, já que não podes ser alferes, ,ma por ofício o que fazias antes por curioso ; vou mandar dar-te umas casas da rua ,os Latoeiros ...
- Oh ! meu senhor I
- Mas não digas quem és. Muda de nome, Xavier; chama-te Barbosa. Compreendes, não ? O meu fim é criar a lenda que tu é que foste o mártir e o herói da  Inconfidência, e diminuir assim a glória de João Alves Maciel.
- Príncipe sereníssimo, não há dúvida que esse é que foi o chefe da detestável conjuração.
- Bem sei, Barbosa, mas é do meu real agrado passá-lo ao segundo plano, para fazer crer que, apesar dos serviços que prestou, das qualidades que tinha e das cartas de Jefferson, pouco valeu, e que tu é que vales tudo. É um plano maquiavélico, para desmoralizar a conjuração. Compreendes agora ?
- Tudo, meu senhor.
- Assim é bem possível que, se algum dia, quiserem levantar um monumento à Inconfidência, vão buscar por símbolo o mártir, dando assim excessiva importância ao alferes indiscreto, que pôs tudo de pernas para o ar, e a pretexto de haver morrido logo. Não abanes a cabeça; tu não conheces os homens. Adeus; passa pela ucharia, que te dêem um caldo de vaca, e pede por Sua Real Majestade e por mim nas tuas orações, Consinto que também rezes pelo furriel Como se chamava ? Esquece-me sempre o nome.
- Marcolino.
- Reza pelo Marcolino.
- Ah! Senhor, os meus cruéis remorsos nunca terão fim!
- Barbosa, têm sempre fim os remorso! de um leal vassalo!
 E assim ficará retificada a história, antes de 1904 ou 1905, Tiradentes será apeadodo pedestal que lhe deu um sentimentalismo que se .lembra de glorificar um só porque morreu logo, como se não morresse sempre antes de outros, e demais, enforcado, que é morte Quanto ao esquartejamento e exposição da cabeça, está provado empírica cientificamente que cadáver não padece, e tanto faz cortar-lhe as pernas como dar-lhe calças. Mas ainda restará alguma coisa ao alferes ; pode-se-lhe expedir a patente de capitão honorário. Se está no céu, e se os mártires formam lá em cima, pode comandar uma companhia. Antes isso que nada. (.....)

E um ano depois, a 23 abril 1893,  menciona Tiradentes e sua coragem e disposição para sacrificar a vida –  ainda que graciosa e bem-humoradamente :
“(....)
 Para mistério, mistério e meio. Saí dali, corri à casa de um armeiro, onde comprei algumas espingardas e bastante cartuchame. Além disso, com o pretexto de saudar o dia 21 de abril, alcancei por empréstimo duas peças de artilharia. Assim armado, recolhi-me a 1 casa, jantei, digeri, e meti-me na cama. Naturalmente não dormi; mas também não vi a aurora, nem o sol de quinta-feira. Portas e janelas fechadas. Nenhum rumor em casa, comidas frias para não fazer fogo, que denunciasse pelo fumo a presença de refugiados. Ensinei à família a senha monástica; andávamos calados, interrompendo o silêncio de quando em quando para dizermos uns aos outros que era preciso morrer. Assim se passou a quinta-feira.
Na sexta-feira, pelas seis horas da manhã, ouvi tiros de artilharia. Ou é a salva de Tiradentes, disse à família, ou é a revolução que venceu. Saí à rua; era a salva. Perguntei pelos mortos. Que mortos ? Pelos acontecimentos. Que acontecimentos ? Nada houvera; toda a cidade vivera em paz. Assim se desvaneceram os sustos, filhos de boatos, filhos da imaginação. Assim se desvaneçam todos os demais ovos do marido de La Fontaine.
Só um fato se havia dado, como disse, o do coreto. Fui à praça ver os destroços, mas já não vi nada; achei a estátua e curiosos. Desandei, atravessei o largo de S. Francisco e desci pela rua do Ouvidor, ao encontro do préstito de Tiradentes. Soube que já não havia préstito. Era pena; esta cidade tem, para Tiradentes, não só a dívida geral da glorificação, como precursor da independência e mártir da liberdade, mas ainda a dívida  particular do resgate. Ela festejou com pompa a execução do infeliz patriota, no dia 21 de abril de 1792, vestindo-se de galas e ouvindo cantar um Te-Deum.
Espiando para casa , lembrei-me que esse dia 21 era ainda aniversário de outra tentativa política. O povo desta cidade e os eleitores convocados revolucionariamente pelo juiz da comarca, reuniram-se na praça do Comércio e pediram ao rei a constituição espanhola, interinamente. A constituição foi dada na mesma noite, contra a vontade de algumas pessoas, e retirada no dia seguinte, depois de alguns lances próprios de tais crises, não por ser constituição, - visto que, dois anos depois, tínhamos outra -- mas naturalmente por ser espanhola. De Espanha só mulheres, guitarras e pintores.(......)
As referências e menções a Tiradentes – como de resto os comentários e alusões feitas a diversas personalidades históricas, assim como a cobertura dos fatos políticos de sua época – constituem provas e exemplos eloqüentes do quanto Machado de Assis participava ativamente da história (política,institucional, econômica, social) e em nada – ao contrário da equivocada interpretação, que exige de uma vez por todas sua revisão – era alheio às questões de seu tempo.
Certamente pelo uso do subterfúgio, da dissimulação, da sutileza – e do disfarce e do enigma—Machado de Assis recebeu, indevidamente, a pecha de “despolitizado”, “alienado”, “alheio às questões políticas e sociais de seu tempo”.
Ledo e puro engano. Machado de Assis foi um crítico ‘avassalador’ da sociedade e das instituições brasileiras, e escreveu – ou a elas se referiu -- em crônicas e artigos, mesmo em  contos e romances e até na poesia. , sobre política (muito) [e,para surpresa de alguns, sobre economia (em menor monta)]. Machado de Assis tinha opiniões políticas — era um monarquista liberal, não apoiava a República, repudiava Floriano Peixoto (que ,apoiado em golpe de Estado em 1891, governava com poderes autoritários, levando o País à ditadura, à censura e à guerra civil) —  e por meio de sua obra é possível observar a política brasileira de sua época através do olhar literário. Raymundo Faoro (em A pirâmide e o trapézio ) sentenciou que pode-se vislumbrar toda a sociedade brasileira do século XIX na obra  de Machado : tanto na não-ficção quanto na ficção, arrancou da História a própria substância de suas narrativas e textos , utilizando uma série de categorias políticas - escravidão, liberdade, golpe de Estado, censura ,aparelho policial, autocracia absolutista,totalitarismo, etc – na elaboração,em sua  escritura literária, de uma  crítica da ideologia brasileira e de uma teoria política avançada,que no campo dos estudos literários não foi adequadamente percebida pelos especialistas.
As crônicas e artigos tratando de política são justamente aquelas que registram opiniões nunca expressadas por Machado com tanta clareza e coerência.

terça-feira, 1 de abril de 2014

125 anos do golpe militar

neste 1o. de abril em que se registram os 50 anos do golpe militar de 1964 [ não se iludam quanto à data exata : o 31 de março foi inventado pelos golpistas para fugir ao 'dia da mentira', 'dia do engodo' ] neste 10. de abril, dizia, vale reportar ao primeiro golpe militar anti-institucional imposto ao país -- no qual, ao contrário de 1964,quando postaram-se, e durante os 21 anos da ditadura, contrários, opositores, até mesmo militantes,  os intelectuais e literatos oitocentistas de um modo geral puseram de imediato em franco apoio, mas logo logo desiludiram-se.enquanto isso,  o povo "bestializado", cf. José Murilo de Carvalho, inerte e amorfo, indiferente -- ao passo que no segundo golpe militar parte da população, representada pela classe média, ilusoriamente aplaudiu e saiu às ruas...
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Os literatos e o golpe de 1889

Embora não tenha produzido correntes ideológicas próprias ou novas concepções estéticas, a geração de intelectuais, solidamente arraigados nas teorias cientificistas de 1870, e todo o espírito progressista da época pareciam estar com a República, apoiada pela maçonaria, pelo positivismo e pelas correntes que se julgavam “desassombradas de preconceitos”, as idéias circulando mais livremente num ambiente que Evaristo de Moraes  qualificou de “porre ideológico” , um verdadeiro  mosaico no qual era predominante o liberalismo,mas que abrigava  alguma voga de anarquismo e simpatias explícitas ao socialismo. Sob os  princípios genéricos do liberalismo, o grupo intelectual definira a tarefa que lhes cabia ; contribuir e propugnar por uma ampla, profunda ação conjunta  para construir a nação e remodelar e fortalecer  o Estado.
Já no 15 de novembro de 1889  registraram sua total adesão : numeroso grupo de republicanos,junto com gente da rua, tendo à frente José do Patrocínio,Aníbal Falcão,  João Clapp,Campos da Paz, Olavo Bilac, Luis Murat e Pardal Mallet - estes três pela primeira vez movidos à ação política concreta-- dirigiu-se à sede da Câmara, aos gritos de viva à República, e redigiram moção de apoio aos chefes da insurreição militar nestes termos :
           “Os abaixo assinados,órgãos espontâneos do povo do Rio de Janeiro, representam o governo provisório,instituído após gloriosa revolução que ipso facto extinguiu a monarquia no Brasil,a necessidade urgente da proclamação da República.
             Excelentíssimos srs. representantes supremos das classes militares do Brasil, marechal Deodoro da Fonseca,chefe de divisão Wandenkolk e tenente-coronel dr. Benjamin Constant.
            O povo do Rio de Janeiro, reunido em massa no edifício da Câmara Municipal, tem a honra de comunicar-vos que, por meio de diversos órgãos espontaneamente surgidos e pelo seu representante legal, proclamou  como nova forma de governo nacional a República.
            Esperam os abaixo assinados,representantes do povo do Rio de Janeiro, que o patriótico governo provisório sancione o ato pelo qual,instituindo a República, se pretende satisfazer a íntima aspiração do povo brasileiro. Viva a República Brasileira ! Vivam o Exército e a Armada nacionais ! Viva o povo do Brasil !
O entusiasmo adesista dos intelectuais era generalizado; em outro manifesto, dirigido ao Governo Provisório instalado a 16 de novembro, assinado por alguns homens de letras em 22 de novembro :
          “O povo, e quando dizemos povo referimo-nos àquela grande parte da nação que os aristocratas de todos os tempos chamaram desdenhosamente o terceiro e quarto estado, donde, reparai bem, em sua maioria saiu sempre o nosso glorioso Exército; os homens de letras, e quando dizemos os homens de letras referimo-nos a todos aqueles que tomando a si os encargos intelectuais da pátria foram, no curso de quatro séculos, os fatores  mais enérgicos e mais desinteressados de nosso progresso; plebe e pensadores, sempre estas duas forças caminharam aqui unidas !... Agora mesmo no fato extraordinário que é o espanto da Europa e o júbilo da América na proclamação da República,as duas grandes forças lá estão ungidas uma a outra... A era das grandes lutas da política responsável abriu-se definitivamente para os brasileiros... A pátria abriu as largas asas em direitura à região constelada do progresso; a literatura vai desprender também o vôo para acompanhá-la de perto. Ao futuro ! ao futuro,modeladores de povos,construtores de nações !
No clamor pela ampliação da atuação do Estado sobre a sociedade aliavam-se a homens públicos, políticos, jornalistas, até mesmo cafeicultores e industriais ,e a esse grupo juntar-se-ia  os grupos militares defensores e sequiosos de maior participação dos militares na política—  o que mais tarde não causaria surpresas quando do progressivo e acentuado  fortalecimento dos governos republicanos a partir de Floriano Peixoto.
As reformas que preconizavam, no entanto, perderam-se no processo político republicano. Na consolidação do novo regime ,dando-se por meio de um processo caótico e dramático, malograram-se seus esforços cientificistas ,reformadores, inovadores na criação daquele ‘saber sobre o brasil’. 
Cedo, muito cedo, já nos primeiros anos do século XX desiludiam-se  : “Está tudo mudado: Abolição, República... Como isso mudou ! Então, de uns tempos para cá parece que essa gente está doida”, vaticina Isaias Caminha , sob a pena de  Lima Barreto. José Veríssimo, em “Vida literária” (revista Kosmos, n. 7,1904) , descreve : “Todos se presumiam e diziam republicanos,na crença ingênua de que a República, para eles palavra mágica que bastava à solução de problemas de cuja dificuldade e complexidade não desconfiavam sequer, não fosse na prática perfeitamente compatível com todos os males da organização social, cuja injustiça os revoltava”. Ainda em outubro de 1890, antes do primeiro aniversário do 15 de novembro, desencantava-se Silva Jardim, lamentando em carta a Rangel Pestana : “Comunico-lhe que parto para a Europa, a demorar-me o tempo preciso a que esta País atravesse o período revolucionário de ditadura tirânica e de anarquia...” . “Esta não é a República de meus sonhos”. lamentou-se Lopes Trovão, um dos próceres do movimento republicano. “Foi para isso então que fizeram a República ?”, protestou Farias Brito.
 Difícil de manter uma convivência pacífica entre a República política e a ‘Republica das letras’, agravado pela crescente insatisfação popular com o novo regime, exposta  em agitações de rua,  episódios violentos, revoltas e movimentos de protesto – e mais ainda com os novos costumes e práticas de desenfreada especulação financeira, a busca  de enriquecimento a qualquer custo,o advento de um capitalismo predatório levando ao encilhamento, a escandalizar Taunay que via “uma degradação da alma nacional  e a decepcionar republicanos ardorosos como Raul Pompéia (“A república discute-se consubstanciada no Banco da República”).
No campo político, até que mantiveram-se passivos diante da “ditadura tirânica” e aceitaram as coligações de Deodoro da Fonseca com as forças mais conservadoras  do Brasil agrário, mas as esperanças esfacelaram-se diante da índole e prática repressoras do governo Floriano Peixoto , quando se deu um cisma profundo entre os literatos e alguns dos antigos entusiastas da República tiveram de fugir do Rio de Janeiro para evitar a prisão, como Olavo Bilac e Guimarães Passos. Passado o momento inicial de esperança, desfeito  o caminho almejado da democratização do País prometida em comícios, conferências públicas,na imprensa radical, consolidada a vitória da ideologia reforçadora do poder oligárquico, derrotados,desapontaram-se as elites, desapontaram-se os trabalhadores e o povo, desapontaram-se os  intelectuais , que desistiram da política militante e se concentraram na literatura.



quarta-feira, 26 de março de 2014

Machado de Assis, a mulher, o amor

ainda em pleno "mês da Mulher" -- não apenas março, mas que devem ser todos.
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Nenhum escritor de seu tempo  — Joaquim Manuel de Macedo (de A Moreninha e em inúmeros contos),  José de Alencar( notadamente na trilogia urbana Senhora, Diva e Lucíola, além das novelas  Cinco minutos e A viuvinha, e  A pata da gazela, Sonhos d'ouro, Encarnação), nem Taunay (em Inocência), Bernardo Guimarães (e sua Escrava Isaura), Domingos Olímpio ( com Luzia Homem), nem  Lima Barreto (de suas Clara e Castorina em Clara dos Anjos , Olga e Edgarda em Triste fim de Policarpo Quaresma , Efigênia em O cemitério dos vivos; Cecília de Diário íntimo , Cló, Adélia, Lívia em Histórias e sonhos; etc., das instigantes crônicas em torno do tema “Não as matem!”) — ‘edificou’ tanto a mulher como personagem capital e  elemento  básico de sua ficção  como Machado de Assis.
Tinha a mulher não apenas como principal, capital protagonista de seus romances e contos, muito mais que isso, verdadeiro leitmotiv --sempre chamando a  atenção, nas linhas e  entrelinhas de seus textos, para as necessidades e os direitos da vida afetivo-social, e mesmo sexual, da  mulher : argumentava que a mulher devia receber instrução e não ficar com­pletamente confinada à vida doméstica, tendo direito ao amor e à li­berdade.
Dava-a também como sua leitora predileta:  Machado sempre escreveu sobre mulheres e para as mulheres e não era segredo – pelo menos até 1881,quando consolidou a longa e profícua atuação nas páginas da Gazeta de Notícias -- preferir colaborar  em publicações cujo público predominante era feminino, primeiro no Jornal das Famílias  , de 1864 a 1876, e  de 1879 a 1885, e em 1892 e 1894 em A Estação.
Desde o primeiro livro publicado, Queda que as mulheres têm para os tolos, passando pelos primeiros romances na década de 1870, ,  na imensa maioria dos contos , na excepcional  novela Casa velha(1885),  chegando aos romances dos anos 1880 e 1900, sua obra, de modo geral, encena vários tipos feminino,  mulheres ficcionais,  orgulhosas ou tímidas, calculistas ou levianas, singelas ou complexas, “com seus contornos roliços, seus olhos onde a gente se perde como na escuridão da noite,  criaturas feitas de capricho e de carne, sobretudo de carne, tudo instinto, sem nenhum raciocínio”-- com histórias povoadas de muitas personagens e situações que mostram as alternativas com que as mulheres se defrontavam (e defrontam-se, quase sempre) na vida: assim é com  Lívia de Ressurreição,  Guiomar de A mão e a luva, Helena, Iaiá Garcia, Virgília e Marcela de Brás Cubas, Sofia de Quincas Borba, Capitolina de Dom Casmurro, Flora de Esaú e Jacó, Fidelia e Carmo de Memorial de Aires, além da profusão das protagonistas de inúmeros contos, como estes aqui expostos,  que abrigam vários tipos femininos e situações vivenciadas pelas  mulheres – fossem no século XIX sejam hoje (por certo, sob escalas distintas) -- podendo mesmo serem catalogados como  ‘estudos sobre a mulher”, ao revelarem  de forma soberba a mais aguda sensibilidade  de Machado no trato de questões que envolvem amor, ciúme, casamento, moral, ética, preconceito social, autoritarismo, patriarcado.
 O amor é o grande tema, central e capital, na contística de Machado  -- essencialmente, os  amores e frustrações femininos como temas constantes  -- o   amor visto, tido e exposto como a única comunicação possível entre pessoas,quaisquer que sejam suas natureza, caracteres, etnia,classe social, e o casamento– e seu derivativo mordaz, o ciúme – são os elementos  basilares de Machado, presentes sem exceção em todos os  contos, vez por outra inserindo assuntos difíceis de serem tratados à época ,mas sempre em defesa da base moral do amor -- como relações afetivas e conjugais entre pessoas de classes sociais diferentes, incompatibilidades e embustes sentimentais,dissimulações e disfarces , etc.
No privilegiar a mulher como personagem primordial de sua ficção, Machado trabalhou o psicológico como nenhum outro escritor de seu tempo, preocupado com climas, ambientes, situações existenciais sutis e delicadas: as mulheres surgem como personagens de grande densidade psicológica, alimentando de forma rica e sugestiva sua temática preferida.
Especialmente a partir do final da década de 1870, sua obra  traz,   para o centro das discussões, a questão da afetividade  feminina : na ficção  machadiana surge  uma mulher que aspira  poder escolher a forma de sentir e amar, apesar de, quase sempre , não poder dizer de seu desejo.
No assimilar e incorporar  à sua obra ficcional os elementos de sexualidade feminina e de desejo inconsciente , Machado  remete a Freud,  estabelecendo como nenhum outro escritor brasileiro de seu tempo vetores e  pontos de interseção entre a literatura e a psicanálise :  desde  o início de sua criação ficcional em prosa, Machado traçou caminhos próprios e peculiares para tratar das relações entre os homens e as mulheres,  indo  muito além da visão ingênua dos românticos, do discurso dos realistas e naturalistas, criando um estilo de literatura não apenas de observação das  pessoas mas sobretudo de  interpretação, expondo das  pequenas coisas, das passagens a princípio inocentes,  um outro lado , que  muitas vezes  aludia à presença, sempre insidiosa, do inconsciente. Como sentencia Roberto Schwarz  , “Machado é um autor que em 1880 está dizendo coisas que Freud diria 25 anos depois. Em Esaú e Jacó, por exemplo, antecipou-se a Freud no ‘complexo de Édipo’”. Machado de Assis é o grande  autor do romance psicológico brasileiro do século XIX e do início do século XX.
Trazendo para o centro das discussões a questão da sexualidade feminina, Machado faz surgir nos romances e na maior parte  dos contos  uma mulher que quer poder escolher a forma de sentir e amar, apesar de, algu­mas vezes, ao não poder dizer de seu desejo — a maioria das mulheres da época vivia reclusa, tinha pouco estudo, e sua principal meta era um casamento com o que se chamava ‘um bom partido’; se houvesse amor, melhor, mas não era o principal, pois a questão do amor era secundária, era um luxo que muitas mulheres não tinham .
Especialmente a partir do final da década de 1870, seguindo a linha da litera­tura psicológica , seus heróis e heroínas  com seus eternos conflitos, complexos, dúvidas e hesitações, na ficção  machadiana surge  uma mulher que aspira  poder escolher a forma de sentir e amar, apesar de, quase sempre , não poder dizer de seu desejo.
Importante notar, como que a reciclagem de um processo  desenvolvido por longos 36 anos (desde Ressurreição, em 1872), em seu último romance,sua obra conclusiva –  Memorial de Aires --  a par de continuar a privilegiá-las, valorizá-las e enaltecê-las, Machado como que ‘redime’ as mulheres : não mais a figura  impulsionada pela emoção, a ponto de preferirem os tolos ao invés dos homens de espírito , mas a mulher proba, que pode ser amada e admirada.
A tríade tolo -- mulher --homem de espírito, que  permeia a ficção machadiana, sob uma teia dramatúrgica presente em contos e romances ao longo do tempo e de sua  evolução literária,transportada para muitas das obras ficcionais posteriores a 'ideologia' da obra Queda que as mulheres têm para os tolos  --  seu primeiro livro publicado, em 1861, intensamente  gerador de controvérsias e especulações, de imediato quanto ao gênero indefinido, de resto propulsor de acentuada polêmica desde sempre quanto a ser tradução ou criação original de Machado (o que eu sempre sustentei, por fatores vários que apontei e discorri em ensaio que escrevi a respeito : “Machado de Assis,o subterfúgio,o feminino,a transcendência literária”), recentemente dada como tradução segundo Jean-Michel Massa com base no panfleto publicado anonimamente  em 1859,  com o título “De l'amour des femmes pour les sots”, atribuído depois ao belga Victor Henaux .
A trindade habita intensamente a maioria dos contos do ciclo 1860 -79 , está nos romances Ressurreição,  A mão e a luva e  Helena , anuncia-se em certa  metamorfose na transição representada por Iaiá Garcia, transmuta-se inteiramente em Memórias póstumas de Brás Cubas e em Quincas Borba , reaparece sob enfática perspectiva em Dom Casmurro), por fim chega a seu ocaso nos derradeiros romances Esaú e Jacó e Memorial de Aires, neste a seara  da redenção total da mulher machadiana(protagonizada por Carmo), definitivamente apartada da preferência pelo tolo ao invés e em vez do homem de espírito. os tolos – para quem as mulheres têm acentuada queda (pelo menos no início...) -- são, via de regra, estroínas, praticam as fórmulas socialmente estabelecidas, sua linguagem assemelha-se à retórica romântica dos folhetins, ostentam autoconfiança, são determinados e objetivos nas ações afetivas, até mesmo fingindo sentimentos e aparentando paixões com o fito exclusivo de conquistar a mulher. Exatamente ao contrário dos homens de espírito, que  fracassam e são excluídos  por não se coadunarem com os padrões de postura, convenções  e relacionamento sociais e por acreditarem numa vida  além e acima do jogo estratégico de aparências falsas e artificiais – mas saibam que , numa espécie de aprendizado pelo fracasso, irão amadurecer,assumir  uma atitude de reflexão sobre a "realidade aética da vida" vis-a- vis com a desilusão com as possibilidades da vida moral e  transmutar-se no cético. a transformação do homem de espírito se dá no cenário das metamorfoses processadas na criação ficcional machadiana.
Apesar do ‘aviso’ dado em Queda... , alertando para o insucesso do romanticismo, praticado em diferentes níveis e objetivos, Machado indica, nas obras iniciais, o amor romântico como solução —embora o narrador insinue ser um meio ingênuo – para depois trilhar caminhos mais audaciosos, o casamento por interesse ou conveniência como forma de ascensão social (tema presente nos três primeiros romances e na maioria dos contos no decênio 1860-70) passando a ser não apenas um empecilho à concretização desse amor romântico mas  a mola propulsora da destruição, o problema – mais do que inerente a relações de ordem social -- passando a ser encarado sob a ótica mais ampla e universal  da própria condição humana.
Não por acaso na marcante década de 1870, pressentindo os novos tempos,convencido da necessidade crucial de mudança,já  alterando seu enfoque, sua temática,sua linguagem,seu estilo, sua estética literária,  Machado começa a apontar para o superficialismo das relações humanas, as pessoas (homens e mulheres) tendo de viver sujeitos a valores sociais que lhes são impostos e dos quais somente poderão se libertar com mudanças radicais de consciência, de atitude e de atos, dando início a um processo de reflexão que será plenamente desenvolvido nas obras posteriores – processo que o autor\narrador protagoniza no homem de espírito-personagem, que passa do  alheamento e  distanciamento,da desesperança e da  desilusão  às gradativas adaptação e interação com a realidade , daí assumindo postura reflexiva e consciente, por fim transformando-se no cético ;  no entanto, se o homem de espírito muda, amadurece, recusando terminante e objetivamente as mulheress que fingem e ostentam, a ‘nova’ mulher machadiana deplora a frivolidade do tolo e passa a se inclinar para o homem de espírito , o tolo  continua com sua frivolidade e estoicismo, servil das convenções sociais e atado ainda à retórica romântica. 
Machado, como supremo criador, atento e obediente aos ditames sociais dos novos tempos,  convoca o leitor à acurada reflexão sobre a preferência da mulher – quer a antiga quer a atual – e deixa-lhe a  responsabilidade do julgamento conclusivo..
 Transformam-se protagonistas, transmutam-se narradores e leitores, alteram-se formas e ritmos narrativos -- mudanças da mesma forma se dão na ‘ideologia’ temática : antes de 1880, os contos e os romances de Machado se centravam no namoro,paixão e casamento  o casamento,feliz ou infeliz, consumado ou não, bem-sucedido ou não, por sentimento ou interesse , ao passo que no pós-1880 aparecem com mais nitidez formas e situações de fragmentação e diluição do casamento : há mulheres que flertam com a idéia da infidelidade, mas acabam não o consumando : o mais importante a observar é que intencionada ou não, fomentada ou não, incentivada ou não, quase sempre platônica, a infidelidade afetiva  feminina é sempre contraposta, e redimida,  na redenção pelo amor -- o grande e central  tema da ficção machadiana ; todos os sentimentos impuros e espúrios,proibidos e reprováveis, se idealizados , ou cogitados,em nome dele são no final  por ele  regenerados.

A aguda e profunda visão machadiana das “coisas deste mundo” o fez constatar o quanto a mulher na sociedade imperial brasileira—reclusa e dominada, doméstica e servil-- era ‘anulada’ por sua própria condição feminina : se o mundo da mulher era limitado pelas paredes do sobrado, tratou de retirar do ócio social da mulher de sua época a essência da matéria ontológica de suas personagens.

Sem se constituir propriamente em explícito ‘defensor dos direitos da mulher’ – muito menos um ‘dialético feminista’. Pretenderia Machado de Assis o matriarcado ?—indagam e especulam muitos dos estudiosos machadianos. Seria Machado, afinal,  um ‘feminista’ ? –eu, particularmente,  não chego a tanto.
O certo, porém, é que em todos os aspectos, a cada leitura de sua obra nos damos conta da sutileza e da abrangência, sob todos os sentidos, do feminino confirmando-se como uma verdadeira, real categoria literária.













domingo, 16 de março de 2014

José de Alencar e a Mulher: ode aos perfis femininos

ainda pelo "mês da Mulher" -- que não é apenas março, mas devem ser todos.
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 Ao lado de Coelho Neto e Olavo Bilac (e um tanto de Joaquim Manuel de Macedo), José de Alencar é um dos mais ‘injustiçados’ autores brasileiros , apesar de seu  excepcional valor literário ( inclusive quanto  à criação e defesa de uma “língua literária brasileira”, inserida no grande projeto de nacionalidade cultural dos românticos do século XIX).
Mas em tempos recentes, felizmente, denota-se um merecidíssimo, e obrigatório, reconhecimento. Importante que, inclusive – e essencialmente -- se reporte  a Alencar neste 2014 de seus 185 anos de nascimento (1.º maio 1829).

Nenhum escritor brasileiro foi (e é) tão versátil e eclético como Alencar, autor de romances (urbanos, indianistas, históricos, de costumes ), novelas, teatro, poesia, ensaios, artigos jornalísticos, memorialística. Nenhum escritor elevou o Romantismo literário brasileiro a  escalas  quantitativas e qualitativas como ele. E quase nenhum de seus contemporâneos (obviamente à exceção, preponderante, de Machado de Assis) soube, qual Alencar, captar e retratar tão bem o tempo histórico-político-social-cultural  do século XIX, no País.
A vasta obra ficcional de Alencar abarca toda a realidade brasileira : o indianismo , presente O guarani, Iracema e Ubirajara ; o urbanismo, retratado por A viuvinha, Cinco minutos, Lucíola, A pata da gazela, Diva, Sonhos d'ouro, Encarnação,  Senhora ; o regionalismo, expresso em O gaúcho, Tronco do ipê, Til , O sertanejo; o ao romance histórico, com As minas de prata, A guerra dos mascates, Alfarrábios.
Sobremodo a se destacar o quanto seus”perfis de mulher”,  em Cinco minutos e A Viuvinha -- suas primeiras obras ficcionais, publicadas respectivamente em 1856 e 1857 -- Lucíola, Diva, Senhora, A pata da gazela, Sonhos d'ouro — deram nova vida ao  romance urbano brasileiro.
Nas duas novelas iniciais Alencar põe mais alta a essência da feminilidade, mas  traçando o perfil da “mulher cordial,romântica, idílica”, distinto da “mulher cerebral”, depois desenhado em Lucíola e mais adiante  com rigor e plenitude em  Senhora --- para mim o melhor romance alencarino e uma das grandes obras da literatura brasileira.

Com Cinco minutos e A viuvinha, Alencar inaugurou a série de obras em que buscava retratar (e questionar) o modo de vida na Corte, construindo um painel da vida burguesa oitocentista -- costumes, moda, regras de etiqueta -- tudo entremeado por enredos onde amor e casamento são a tônica, neles circulando padrinhos interesseiros, agiotas, negociantes espertos, irmãs abnegadas e outros tipos coadjuvantes nos dramas de amor enfrentados pelo par amoroso central; em todos, a presença constante do dinheiro, provocando desequilíbrios que complicam a vida afetiva dos personagens e conduzindo basicamente a dois desfechos: a realização dos ideais românticos ou a desilusão, numa sociedade em que ter vale muito mais do que ser : em Senhora,  o exemplo perfeito e magistral , a heroína arrisca toda sua grande fortuna na compra de um marido; Emitia, a protagonista de Diva, busca incansavelmente um marido mais interessado em amor que em dinheiro; em Sonhos d'ouro, o dinheiro representa o instrumento que permitiria autonomia de Ricardo e seu casamento com Guida; em Lucíola,  a prostituição como tema e mote  mostra a degradação a que o dinheiro pode conduzir o ser humano.
 Também no teatro Alencar tratou da mulher – e no caso de modo polêmico: em 1858, três dias após a estréia, a peça “As asas de um anjo” foi proibida pela censura, que a considerou imoral : tendo como personagem central uma prostituta regenerada pelo amor [p.s.: no mesmo ano, mas três meses antes, Machado publicava no – importantíssimo ( sabem todos do meu estudo e pesquisa obstinada a respeito) – jornal O Parahyba, de Petrópolis, o histórico poema “Vem!”, pioneiro no presumir a regeneração da prostituição pelo amor], o enredo ofendeu a sociedade ainda provinciana de então. (o paradoxal é que o tema era popular e aplaudido no teatro da época, em muitas peças estrangeiras;  Alencar reagiu, acusando a censura de proibir sua obra pelo simples fato de ser ''. . . produção de um autor brasileiro. . .''-- mas sua reação mais concreta viria quatro anos mais tarde, com  Lucíola,em que o tema é retomado).
A reverência exigida por Alencar e sua obra expressam-se nas sábias  palavras de Machado de Assis :
"Quando entrei na adolescência, fulgiam os raios daquele grande engenho: vi-os depois em tanta cópia e com tal esplendor, que eram já um sol quando entrei na mocidade. Gonçalves Dias e os homens do seu tempo estavam feitos; Álvares de Azevedo, cujo livro era a Boa Nova dos poetas, falecera antes de revelado ao mundo. Todos eles influíam profundamente no ânimo juvenil, que apenas balbuciava alguma coisa; mas a ação crescente de Alencar dominava as outras. A sensação que recebi no primeiro encontro pessoal com ele foi extraordinária: creio ainda agora que não lhe disse nada, contentando-me de fitá-lo com os olhos assombrados do menino Oleine ao ver passar Napoleão. A fascinação não diminuiu com o trato do homem e do artista. Quem o lê agora, em dias e horas de escolha, e nos livros que mais lhe aprazem, não tem idéia da fecundidade extraordinária que revelou tão depressa entrou na vida.
 José de Alencar escreveu as páginas que todos lemos, e que há de ler a geração futura. O futuro não se engana.”


segunda-feira, 10 de março de 2014

Lima Barreto e a mulher

em pleno mês da Mulher -- que não é apenas março mas devem ser todos
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Feminista, emancipacionista; mas realista

Articulista, escritor, pensador, nunca silencioso sobre seu tempo, Lima Barreto  não poderia pois ficar alheio à situação da mulher na realidade social brasileira do início do século XX, época de tantas e profundas transformações na sociedade. Retratou e a fez personagem em contos e romances e escreveu sobre a mulher em artigos e crônicas, publicadas em jornais e revistas — sob um caráter de ambigüidade, ora a criticando, por vezes atacando, ora a defendendo, muitas vezes enaltecendo: diz-se “antifeminista”, põe-se abertamente contra os movimentos feministas, mas defende a necessidade de instrução para a mulher; repele o ingresso da mulher no serviço público (“.rendosos cargos para as mulheres das classes sociais mais favorecidas : e as reivindicações das operárias ?...”), mas defende o divórcio e  justifica com vigor o adultério feminino (ambos forma de revolta contra um homem opressor e uma concepção de  casamento instituída pela sociedade); imbuído da moral do seu tempo, retrata a mulher pela ótica comum, mas denuncia sua “absurda” situação de dependência aos homens.
Evidentemente que sua posição ‘pendular’ no enfoque da mulher brasileira do início do século XX é resultado e reflexo do momento histórico em que vivia, pleno de oscilações e mutações.
Longe, muito longe da falsa, equivocadissima acusação de misoginia, posicionava-se na realidade não contra a mulher em si, ou ao feminismo como movimento defensor e propugnador dos direitos da mulher, mas sim contra o feminismo então praticado por “lideranças medíocres e interesseiras”, um feminismo da moda, “feminismo bastardo, feminismo burocrático, feminismo de secretaria”, e sobretudo  contra os signos do progresso republicano : a rigor, insurge-se contra um feminismo de caráter elitista, que não propugnava por transformações sociais e visava apenas a interesses particulares dos setores privilegiados da sociedade. Lima Barreto  era, antes de tudo, crítico da mulher burguesa, esnobe, e ao contrário simpático à mulher proletária, suburbana.
Nesse sentido, um dos maiores enganos – para não dizer, bobagens -- que se possam cometer é considerar Lima Barreto como contrário aos movimentos e ações emancipacionistas da mulher – não foi em hipótese alguma , realçando que “(...) Não me move nenhum ódio às mulheres, mesmo porque não tenho fome de carne branca; mas o que quero é que essa coisa de emancipação da mulher se faça claramente, após um debate livre, e não clandestinamente, por meio de pareceres de consultores e auditores, acompanhados com os berreiros de dona Berta e os escândalos de dona Daltro. É preciso que isso se faça claramente, às escâncaras. Cada um, então, que dê sua opinião.(...)”[crônica “O nosso feminismo”]
Para ele o movimento feminista de então não propunha ou lutava pela defesa da mulher, era “frágil, inconsistente, inócuo, só se preocupava com perfumarias,acessórios  e inutilidades” ; desprezava a mulher operária e  reivindicações trabalhistas e sociais, divorciava-se da questão do ensino e da educação para a  mulher ; desvinculava-se dos problemas afetivos e conjugais da mulher e da  degradação do casamento imposto pelos homens e pela sociedade ;  mantinha-se completamente omisso diante do uxoricismo.
sexo forte,sexo frágil
Lima sempre conferiu  à mulher espaço significativo em sua obra ficcional e não-ficcional – retratando e  comentando a situação da mulher perante o casamento, a moral que lhe era  imposta pelo homem e pela sociedade, a desigualdade de julgamento do adultério masculino e do feminino,  a viuvez; as oportunidades educacionais e profissionais; a prostituição; o início do movimento feminista no Brasil.Se, de um lado, no conjunto de artigos e crônicas -- quer sobre feminismo, movimento feminino, voto feminino, direitos femininos, literatura feminina, quer em especial sobre mundanismo, moda, comportamento, hábitos femininos -- Lima destila permanente ironia crítica, de outro o retrato das mulheres elaborado em seus textos ficcionais mostra-as dependentes dos homens e submissas a ‘normas’ sociais da época, sim, mas em muitíssimas  vezes –  em outras, não -- com atitude e comportamento progressistas :  são elas superiores aos homens, exemplos de Olga em Triste fim de Policarpo Quaresma; Clara e Castorina em Clara dos Anjos;   Edgarda em Numa e a ninfa ,Efigênia em O cemitério dos vivos; Cecília de Diário íntimo , Cló, Adélia, Lívia e  outras em contos. .

“tema de Carmen”

Vale ressaltar, porém, que o suposto ‘antifeminismo’ barretiano tem sua contrapartida significativa: numa série de artigos e crônicas – a que ele denominou “tema de Carmen”[sic] -- a propósito de julgamentos de crimes ditos passionais : neles, Lima Barreto  defende veementemente a mulher e ataca os homens, os advogados e juízes que “se atribuem direitos sobre a vida das mulheres, direitos reconhecidos por júris que os absolvem”,   denunciando crimes de uxoricídio nos quais homens matavam “mulheres infiéis”— e pior eram absolvidos por “legítima defesa da honra” -- e alardeando  intransigentemente os direitos da mulher “que são,como todos nós, sujeitas, às influências várias que fazem flutuar as suas inclinações, as suas amizades, os seus gostos, os seus amores".
De modo geral, Lima interpretava, denunciando, a  atitude  violenta dos ho­mens  por força de eles se sentirem donos, proprietários das mulheres com as quais se rela­cionavam, não admitindo ser preteridos.Defendia com vigor a mulher e clamava  que as deixem amar à vontade, “não as matem, pelo amor de Deus !"(crônica “Não as matem”).
Incondicionalmente sustentava que devia-se,  isto sim, “condenar o matador conjugal”, que conforme a nefasta concepção dos crimes executados “em nome de uma honra familiar,lava- a matando a  mu­lher", a qual face à opressão de que via de regra era vítima,pelo homem e pelas ‘regras’ da sociedade, tem  todo o direito de não amá-lo mais. Repudiava  veementemente este tipo de crime --  crime muito mais grave do que o adultério era o do assassinato , ato premeditado, não movido por um impulso de momento -- pois "as constantes absolvições de uxoricidas dão a en­tender que a sociedade nacional, por um dos seus mais legíti­mos órgãos, a admite como normal e necessária" – em sessões nas quais era julgada não a atitude criminosa  do homem mas a conduta sexual da mulher, que de vítima tornava-se ré : defendia-se  o uxoricida atacando a  honra feminina,acu­sada a mulher  de “desavergonhada”.Acusava essa prática que além do mais funcionava  como um estímulo para que tais crimes continuassem ocorrendo: para ele, o julgamento de cri­mes de uxoricídio deveriam ser desvinculados da apreciação da conduta sexual feminina e da ideologia dominante que exi­gia do sexo feminino a fidelidade absoluta -- o que deveria ser sentenciado era o assassínio em si.

a mulher e a sociedade

A rigor, esses textos barretianos devem ser compreendidos a partir da posição de Lima face ao casamento e ao adultério – visto este como  forma de revolta da mulher contra a sociedade que lhe apresenta um homem como dotado de predicados excepcionais;  para ele, não proveniente de  motivação física, sexual, e sim originário da concepção de casamento instituída pela sociedade, cuja  única vítima é a mulher , impossibilitada de realizar nele a sua natureza sentimental, vendo-se obrigada, fora dos canais convencionais, a procurar o homem que deseja e a realize.
Lima Barreto, convém frisar,  respeitava o  casamento  e o entendia como o meio quase único de realização plena do sexo feminino – cita o alemão Krafft-Ebbing, “a profissão da mulher é o casamento”(crônica “A amanuense”): insistia na  imperiosidade da relação franca e elevada que deveria regular a vida matrimonial --“entre os dois só deve haver a máxima lealdade, todos os dois devem entrar na sociedade conjugal com a máxima boa vontade e admiração um pelo outro”-- em prol dos valores que caminhavam para o desaparecimento ou deterioração na sociedade burguesa da época.
Não deixava, contudo, de ater-se à realidade concreta do que era o casamento nessa sociedade republicana burguesa: para o homem, uma espécie de “transação comercial”, reduzindo a mulher, em última instância, a uma “escala para subir” – como Numa Pompílio de Castro, que só se casara com d. Edgarda Cogominho para  poder ascender na carreira política, já que o pai dela era um dos proeminentes políticos no meio nacional (novela Numa e a ninfa); em contrapartida, a mulher procuraria encontrar sua realização e dedicar-se a  um ‘homem superior’ – que a sociedade definia ser o  doutor, ela via de regra se deixando levar por essa equivocada conceituação, gerando,em certos casos, a decepção, que a induzia à busca de ‘alternativas’ : ao ter a revelação da face real do marido, desiludida no casamento, decepcionada, procurava fora do matrimônio alguém ‘superior’ a quem pudesse dedicar sua natureza sentimental  insatisfeita. -- caso de d. Laura (conto “O filho de Gabriela”), casada com o conselheiro Calaça.
Lima entendia ser o amor eterno praticamente impossível, sabia ser intrínseco à condição e natureza humanas a mutação dos  sentimentos – e em especial, responsável pelas transformações sentimentais, sensoriais e afetivas femininas. Daí enxergava a temporalidade do casamento, sua ‘não eternidade’, e preconizava o direito feminino de interrompê-lo, em ter  liberdade de escolha, buscar outro amor ao ter o casamento fracassado(ao contrário de d. Laura, quem vai encontrar no amante,dr. Benevenuto, “o que lhe exigiram a imaginação e a inteligência”, o homem superior que não há no marido é  justo Edgarda, em Numa e a ninfa) e com isso praticar o adultério – não aceito e punido pela sociedade, sem merecer no entanto vir a ser assassinada....
A defesa barretiana da mulher não se limitava à explicação da raiz do adultério: ia mais além, propondo a instituição do divórcio – como nas crônicas “No ajuste de contas”  e “Como budistas....” -- e uma reformulação jurídica da instituição do casamento , com propostas que, convertidas em lei, atingiriam no cerne todas as deformações implícitas no matrimônio, propiciariam a libertação da mulher do estado degradante que lhe era imposto e eliminariam o direito consuetudinário e quase legal de o marido poder praticar o uxoricídio em caso de adultério.
                               
feminismo

Casamento, adultério feminino, divórcio, uxoricídio constituem pressupostos à suposta - e equivocada - posição ‘anti-feminista’ de Lima Barreto. Opunha-se, isso sim, às forma,métodos,práticas e posturas do movimento feminista da época.
O movimento feminista brasileiro, iniciado no fim da década de dez séculos, antes de surgir como um bloco coeso, dividiu-se já em suas origens em algumas ramificações cada uma delas com líderes próprios e com algumas reivindicações idênticas e outras particulares, verdadeiras bandeiras das facções ou, como dizia  Lima Barreto, das “igrejas” ou “seitas”. Eram quatro: a de Mme Chrysanthème que “quer, para a mulher, a plena liberdade do seu coração, dos seus afetos, enfim dos seus sentimentos” (crônica “No ajuste de contas”); a liderada por Leolinda Daltro, denominada “Partido Republicano Feminino”, propugnando pelo direito da mulher; a de Berta Lutz, sob o nome de  “Liga pela Emancipação Intelectual da Mulher Brasileira” que tinha como bandeira a luta pelo ingresso da mulher na burocracia; e a facção conhecida por “Legião da Mulher Brasileira” que nomeara como presidente de honra a esposa do Presidente da República, d. Mary Saião Pessoa, contando também com o apoio da Igreja Católica. A principal reivindicação que as unia era a extensão do direito de voto à mulher.
Lima Barreto reduzia as facções a duas: o feminismo sufragista e o feminismo burocrático; o primeiro de “propriedade” de  Leolinda Daltro (que aparece como Deolinda nas crônicas; e na novela Numa e a ninfa, como a personagem  Florinda Seixas)  e o segundo de Berta Lutz ; à entidade de Mme Chrysanthème não dava muita importância e quanto à “Legião da Mulher Brasileira” se restringia a ironizar o caráter oficial da entidade.
Leolinda (ou Deolinda) Daltro e  Adalberta Lutz, que capitaneavam as posições feministas da época, eram os maiores objetos das críticas – contundentes, irreversíveis – de Lima. Com tais ‘lideranças’, dizia Lima,  as reivindicações feministas de sua entidade não estavam a propugnar por uma elevação da mulher, mas voltadas unicamente para elas,preocupadas apenas em  pleitear o direito de voto  para que uma faixa da elite pudesse usufruir das vantagens que estavam limitadas à cúpula política masculina. Até porque Lima não via no voto um elemento por meio do qual pudesse ser reformada a situação na Republica Velha – portanto o que as feministas pleiteavam pouco significava, era  mera acomodação ao sistema montado, ao qual ele nunca deixou de se opor. A denúncia de Lima contra o movimento feminista centrava-se em sua conivência com as práticas políticas de então, em termos de  corrupção, favorecimento, clientelismo, oportunismo.
Além do mais,e isso para Lima constituía questão crucial, o feminismo, como então praticado, esquecia-se totalmente da mulher pobre e da mulher negra – ambas, aliás, observava ele, tendo já conquistado lugar de operária, sem movimentos feminista, nas fábricas de tecidos e nas livrarias como empacotadoras de livros.(“Pergunto: esta mulher [uma velha negra] precisou do feminismo burocrata para trabalhar, e não trabalha ainda, apesar de sua adiantada velhice?”- crônica “Voto feminino”).
Neste particular, vale realçar que Lima  não só acatava a profissionalização da mulher -- mas causava-lhe  aversão ser ela realizada com intuitos interesseiros, circunscrita a benefícios para poucos e  no  proteger os já privilegiados; acusava “a maneira irregular e ilegal que tem presidido o provimento desses cargos,por moças e senhoras” (crônica “Voto feminino”)  -- não lhe negando  capacidade e condições de exercer um cargo público, por exemplo; como também propunha o aumento do número de Escolas Normais para que as mulheres tenham melhor educação e com isso pudessem  desempenhar papel importante na formação da criança, quer na escola, quer em casa (cf. crônicas do grupo “Educação feminina” e em “A poliantéia das burocratas”)..
Desse modo, segundo ele, as proposições profissionalizantes e eleitoreiras dos movimentos feministas apenas tinham em vista dar possibilidades de realização aos atributos menos importantes da mulher e  como bandeira a aspiração do menos elevado, fazendo a mulher simplesmente obter igualdade aos medíocres que compunham o sistema.Para Lima,  e sua concepção tão elevada da mulher, ela atuando junto ao homem, as exigências do feminismo só podiam ser encaradas como rebaixamento da condição feminina, portanto, censuráveis.
Em outro viés, enfatizando a deterioração do casamento como motivo do aviltamento da mulher, só reconheceria grandeza no movimento feminista da época se atacasse esse problema central: não o fazia,  ignorava-o. – “(...) contra tão desgraçada situação de nossa mulher, edificada com a estupidez burguesa e a superstição religiosa, não se insurgem os borra-botas feministas que há por aí (...).-crônica “Voto feminino”).
Lima Barreto  não via no movimento feminista nada de grandioso, de heróico, de superior, mas sim uma articulação feminina burguesa para meramente conseguir, por meios não legais, cargos públicos, onde a mulher, em lugar de realizar a sua natureza mais nobre, iria ter a possibilidade de exercitar o seu lado, segundo ele, mais vulgar. Via o movimento como eminentemente elitista, que nada mais buscava além de estender às mulheres os privilégios de que gozavam os medíocres que compunham o sistema. Sem o mínimo pendor social, limitava-se tão somente a reivindicar  direito a voto e a cargos públicos, constituía-se em aglutinação para tentar obter a extensão às mulheres das regalias de que gozavam os membros masculinos dos grupos dominantes.
De notável e inquestionável consciência social, avesso a qualquer forma de autoritarismo, intransigente  denunciante do drama das minorias no Brasil do final do século XIX --  negros e mestiços excluídos do mercado de trabalho no período pós-abolição, a exploração dos operários – Lima Barreto tratou com vigor a opressão contra as mulheres, não as que ele chamava “burguesa republicana alienada”,mas principalmente as humildes, pobres, algumas delas mulatas, submetidas a uma sociedade machista e injusta, submissas a pais ou padrastos ou irmãos, ou maridos ou noivos ou namorados dominadores e agressivos, a patrões e senhores exploradores,e em especial carentes de oportunidades de educação e limitadas a formação educacional e cultural insuficiente, alijadas de círculos sociais.

educação da mulher 

Especial era o olhar que Lima dedicava à  formação escolar da mulher e ao processo educativo a elas estabelecido. Foi acerbado crítico da carência de oportunidades educacionais às mulheres, e veemente defensor da obrigatoriedade de serem a elas conferidas melhores possibilidades de educação – o que, de resto, apenas confirmava a posição analítico-reflexiva que dispensava à mulher em sua ficção e nãoficção .
Na verdade, a maioria das mulheres do início do sécu­lo  via a educação simplesmente como um meio para se faze­rem mais agradáveis a seus companheiros ; não buscavam por uma emancipação intelectual – o que justamente levava  Lima a propugnar  por melhores oportunidades educacionais para o sexo feminino. As mulheres,via de regra, mantinham-se circunscritas à es­fera do lar, refletindo os padrões culturais da época:  predominava  o conceito de ser a mulher mais sentimental e amorosa do que intelectiva e filosófica. Segundo Lima, era essa essencialmente a causa de infelicidade existencial e conjugal da mulher. Além disso, estudavam ,em sua maioria, em colégios religiosos, o que era acentuadamente criticado por ele, sugerindo para as mulheres uma educação mais aberta, mais completa, mais eficiente.
Lima sustentava que somente por meio de uma instrução mais aprimorada a mulher, como ‘alicerce da família’, poderia abrir seus horizontes e dispor da  competência necessária para educar os filhos com discernimento. Para ele, a instrução feminina contribuía de forma decisiva para a do homem e seu engrandecimento enquanto ci­dadão: da educação dada aos filhos dependia o destino das gerações e conseqüentemente da sociedade.

mr