domingo, 18 de janeiro de 2015

OUI, CE SONT CHARLIE- II

"Humor te
m se ser crítico, senão vira 'secos e molhados'; Imprensa tem de ser oposição, senão é propaganda". [ Millor Fernandes]
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Nos jornais brasileiros do final do século XIX e início do século XX, os leitores encontravam crônicas sobre a cidade e ocorrências cotidianas, sobre os teatros e os eventos artísticos, críticas literárias sobre obras recém publicadas, e sobretudo o folhetim, estampado nos rodapés das folhas, contendo um romance, ou um conto, ou uma novela. A rigor, desde mais intensamente a década de 1870, todos os periódicos comportavam uma parte literária – a princípio, e sobremodo, essencialmente dirigida ao público feminino, mas que no decorrer do tempo ampliando sua audiência aos homens.
Paralelamente, a fim de atenuar as ‘seriedade e gravidade’ de notícias (de ordem política, social, do cotidiano da cidade, etc) e, ao mesmo tempo, quebrar um pouco da sisudez dos jornais -- típica da imprensa do século XIX -- ao arranjo gráfico uniforme, monótono e maçante dos jornais, as matérias dispostas em colunas corridas, com títulos discretos e sem muitos atrativos, começava a contrapor-se a tendência de tratamento jocoso e satírico às matérias e textos publicados, o que além de quebrar a austeridade editorial-gráfica, funcionava como chamariz para o leitor, em especial o menos escolarizado e não-letrado. Necessitando de encontrar recursos para atrair o leitor, as amenidades em forma de folhetins, poesias e contos, acompanhados de farto material iconográfico, quebravam a monotonia das linhas corridas.
Assim, os registros cômicos seriam uma das maneiras de representação de impasses e temporalidades diversas da história brasileira, a partir no período inaugurado pela abolição e pela República. Tais registros eram fruto de um círculo de humoristas concentrados no Rio de Janeiro, desde então a efetiva capital cultural do país -- utilizando-se do humor para problematizar questões urbanas, administrativas e sociais da capital do Império, satirizar instituições, ironizar fatos e personalidades, e até ridicularizar os próprios leitores.
Nesse contexto inseria-se O RIO-NU, periódico bissemanal, exemplarmente integrado ao elenco que então começara a sedimentar-se no jornalismo da recém-implementada República : a imprensa de cunho arrivista, galhofeira, de humor malicioso, cáustico, com tinturas de conotações sexuais e até mesmo pornográficas. Fundado em 1898, circulou até 1916, dirigido por J. Brito, redigido por jovens integrantes da denominada boemia literária da Belle époque, consolidou-se a partir de 1900 como o principal representante, exemplo e referência para diversas outras publicações do mesmo gênero coexistentes na época -- com farta matéria iconográfica, e sobretudo espírito satírico, sarcástico, debochado, iconoclasta.
[ Arthur Azevedo em O Rio –Nu do ano de 1903 – apenas publicado originalmente no jornal -- estará no livro que preparei “ Contos e crônicas inéditos de Arthur Azevedo em O Rio-Nu” (a publicar pelos 450 anos do Rio)

O RIO-NU, 'frére hebdomaidaire' do CHARLIE HEBDO

OUI, CE SONT CHARLIE - I

 "Humor tem se ser crítico, senão vira 'secos e molhados'; Imprensa tem de ser oposição, senão é propaganda". [
 Millor Fernandes] 
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 Já se disse, e a vida , também por que não a própria História, confirma isso, que nada é ao mesmo tempo mais individual, cultural e universal do que o humor. Praticado em exemplos clássicos desde a Antiguidade , pelo grego Aristofanes ou pelo latinos Plauto e Terencio, na complexa Idade Média , do saxão Chaucer e do florentino Boccacio, no profícuo Renascimento ,do espanhol Cervantes, do francês Rabelais, do inglês Shakespeare, o riso acompanha o mundo e os homens nas formas,graus e jeitos mais variados , mesmo que seja (diria eu, principalmente que seja) para a humanidade gozar dela própria e sorrir, ou satirizar, ou pilheriar, ou debochar da eterna tragédia humana.
É preciso por outro lado ficar claro que o humor não se manifesta pela matriz básica da piada, da gargalhada,do deboche , mas se expressa por tantos matizes -- como por exemplo a irreverência, a paródia , a metáfora, a parábola, o tragicômico e o melodramático, ou a sátira política, a crítica social e comportamental -- quanto sejam adequados para retratar o ridículo,o patético . O humor, a História mais uma vez nos prova, muitas vezes é muito perigoso, inúmeros são os casos daqueles que, só para ficarmos no terreno da literatura, foram ‘retribuídos’ com prisão , ou exílio, ou desterro, ou morte : aliás, já que adentramos na seara literária, convém lembrar que o humor na literatura é feito desde que o mundo é mundo, por escritores, antigos, ocidentais, orientais, medievais, renascentistas, clássicos, modernos, contemporâneos ,pós-modernos – e até mesmo por aqueles tidos como sérios,sóbrios,sisudos,austeros, como se verá\lerá em um inusitado caso aqui.
O que dizer então, nesse particular, do brasileiro,cuja proverbial natureza bem-humorada [sic] faz dele,ou fez dele, um estereótipo, aos olhos universais, da alegria em sua conceituação mais original. Verdade ou mito, o sorriso, a anedota, a ironia, o sarcasmo, a galhofa, a comicidade parece ter concedido uma espécie de ‘marca registrada’ ao nascido, ou habitante, destes trópicos – sob tal ótica, nada ‘levistraussianamente’ tristes.
E o cômico brasileiro, assevera ainda a cartilha, atinge sua mais perfeita tradução, ou expressão, no carioca, a cidade do Rio de Janeiro erigida à capital da gargalhada nacional -- respeitadas evidentemente outras searas geográficas,e antropológicas, onde também se pratica esse ‘esporte’ pátrio(como esquecer,por exemplo, Juó Bananére e Alcântara Machado em São Paulo: Bernardo Guimarães em Minas Gerais:; Ascenso Ferreira,e até Gilberto Freyre – sim ! -- em Pernambuco;QorpoSanto, no Rio Grande do Sul; Gregório de Mattos – o irresistível “Boca do Inferno” -- na Bahia :.
Mais : dessa matriz da irreverência , extrai-se a inevitável vertente fescenina, dito o fescenino como licencioso, lascivo, devasso, obsceno, ou pornográfico mesmo , por vezes escatológico, grotesco -- todos clandestinos no nascedouro e primeiros tempos de existência, muitos deles de autoria anônima, somente depois identificados seus autores verdadeiros, ‘não publicáveis’,escondidos e guardados a ‘setenta mil chaves’, mantidos ou destruídos sob ação censória oficial,institucional ou particular.
fesceninos -- creio aqui muitos, senão todos saberem --compõem o conjunto para livro que finalizo.
´Charlie fescenino' é por exemplo Bob -- pseudônimo de renomado, consagrado, canônico, clássico , e tido como comportado, escritor brasileiro.
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O pecado
Bob
A Anacleta ia caminho da igreja, muito atrapalhada, pensando no modo porque havia de dizer ao confessor os seus pecados... Teria a coragem de tudo? E a pobre Anacleta tremia só com a idéia de contar a menor daquelas cousas ao severo padre Roxo, um padre terrível, cujo olhar de coruja punha um frio na alma da gente. E a desventurada ia quase chorando de desespero, quando, já perto da igreja, encontrou a comadre Rita.
Abraços, beijos... E lá ficam as duas, no meio da praça, ao sol, conversando.
— Venho da igreja, comadre Anacleta, venho da igreja... Lá me confessei com o padre Roxo, que é um santo homem...
— Ai! comadre! — gemeu a Anacleta — também para lá vou... e se soubesse com que medo! Nem sei se terei a ousadia de dizer os meus pecados... Aquele padre é tão rigoroso...
— Histórias, comadre, histórias! — exclamou a Rita — vá com confiança e verá que o padre Roxo não é tão mal como se diz...
— Mas é que meus pecados são grandes...
— E os meus então, filha? Olhe: disse-os todos e o Sr. padre Roxo me ouviu com toda a indulgência...
— Comadre Rita, todo o meu medo é da penitência que ele me há de impor, comadre Rita...
— Qual penitência, comadre?! — diz a outra, rindo — as penitências que ele impõe são tão brandas!... Quer saber? contei-lhe que ontem o José Ferrador me deu um beijo na boca... um grande pecado, não é verdade? Pois sabe a penitência que o padre Roxo me deu?... mandou-me ficar com a boca de molho na pia de água benta durante cinco minutos...
— Ai! que estou perdida, senhora comadre, ai! que estou perdida! — desata a gritar a Anacleta, rompendo num pranto convulsivo — Ai! que estou perdida!
A comadre Rita, espantada, tenta em vão sossegar a outra:
— Vamos, comadre! que tem? então que é isso? sossegue! tenha modos! que é isso que tem?
E a Anacleta, chorando sempre:
— Ai, comadre! é que, se ele me dá a mesma penitência que deu á senhora, — não sei o que hei de fazer!
— Porque, filha? porque?

— Porque... porque... afinal de contas... eu não sei como é que... hei de tomar um banho de assento na pia!..

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

2014, um ano de ‘entradas na posteridade’— IV

significativo, histórico este ano – nele se dá o 175º. aniversário de nascimento da maior figura da literatura brasileira. predestinado foi Machado de Assis naquele 21 junho 1839 quando vindo ao mundo dos homens, na chácara do Livramento no Rio de Janeiro, abria as portas da posteridade que se configuraria pelo supremo quilate de sua obra. 
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Machado de Assis,  esfinge de transcendência literária

“Decifra-me – mas não te devoro”[sic] : parece dizer Machado de Assis, dirigindo-se ao leitor.  Brincadeira,  talvez... – mas expressa uma espécie de lema machadiano a pautar as relações com aquele que o lê.; Machado, na verdade, ‘brinca’ (no bom sentido), essencialmente na crônica,no conto, até no romance, com aquele que o lê. Em seus  textos, às  características de leveza de tom , fluência textual e estilística muito próxima da oralidade, ironia satírica e pilhéria, metáfora e paródia, alia-se a presença incisiva dos admiráveis elementos machadianos do disfarce, da dissimulação, do subterfúgio, da sutileza, postos como desafios ao leitor..
A nem sempre linear narrativa, ficcional ou não-ficcional – na crônica, por exemplo, nela predominante a “arte das transições”, levada a extremos no unir tópicos aparentemente distintos, um parecendo não ter nada a ver com outro, mas que justapostos oferecem um resultado  surpreendente; no conto, oferecidas explícitas ou veladas armadilhas retóricas e  significados ocultos  -- tem seu  trajeto  ‘amenizado’ para o leitor , primeiro desviando-o do tema principal, depois retornando e reintegrando-o,numa espiral de circularidade muitas vezes nem percebida de todo. Machado  esconde ou disfarça uma parte da verdade e desafia o leitor a descobri-la e fazê-la emergir -- o conhecido narrador machadiano, o ‘narrador volúvel’, presente tanto na ficção quanto na não-ficção..
Sua obra parece sempre ‘pronta’  a oferecer e revelar surpresas – não fosse ele autêntico mestre do subterfúgio, da dissimulação, da sutileza, do disfarce e do enigma, inclusive por meio de outras de suas peculiaridades, o uso do anonimato e do pseudônimo: foram quase 40 assinaturas em contos (como eram publicados em folhetins, por vezes uma assinatura diferente para cada capítulo) e em crônicas.
Um, ou o,  Machado ‘misterioso’ fez seu debut literário, por assim dizer, logo em seu primeiro livro publicado, Queda que as mulheres têm pelos tolos, em 1861  (antes, nesse mesmo ano, veiculado em folhetins em A Marmota). Obra de extrema representatividade histórico-literária na produção machadiana, revestida de características especiais de definição genérica, conotação autoral, geradora de polêmica entre machadianos e de fundamental, crucial relevância pelo que contém, e projeta, de elementos e concepções que pautariam toda sua ficção literária.
Além de abrigar um conjunto de peculiaridades que a fazem única e diferenciada.A primeira de suas peculiaridades refere-se ao fato de  ter despertado ao longo do tempo – não tanto quando de sua publicação – dúvidas, daí uma salutar (culturalmente falando) polêmica, quanto à sua condição de criação original ou tradução de Machado de Assis,contendo em si, portanto, uma conotação de mistério,dúvida e polêmica, que de resto apenas corroboram, por assim dizer, o ‘espírito’ machadiano de fazer literatura.
Outra das particularidades --que se percebe de imediato – reside em  não constituir-se em um gênero definido, difícil de classificar nos moldes tradicionais, aproximando-se mais de uma sátira e menos de um ensaio, muito longe de ser um romance,uma novela, um conto ou uma crônica.
Sobretudo a  multiplicidade da representatividade histórica de Queda que as mulheres têm para os tolos expressa-se em especial por deflagrar  um elo de interações, afinidades e intertextualidades , prenunciando,anunciando, antecipando e consubstanciando em sua forma,linguagem,estilo e conteúdo muito  do que viria a seguir na lavra ficcional do autor. Que elos de intertextualização são esses ? a) como suposta tradução,  inserida na produção machadiana, constitui manifestação pioneira do conceito da tradução, a incorporar a célebre “teoria do molho”  , reaplicada e reutilizada numa perspectiva das teorias do comparatismo elaboradas por ele  próprio, em muitos aspectos antecipadora da vertente atual dos estudos de Literatura Comparada ; b) a ‘teoria amorosa’ desenvolvida  em “Desencantos”, em Ressurreição, e chegando a Dom Casmurro – o  livro inaugural interagindo com a primeira peça teatral, com o primeiro romance e  com a  opera-mater : em todas elas, a ‘ideologia’ da  dubiedade, da  ambigüidade, da dicotomia ; c) a mulher como protagonista primordial da ficção machadiana ,que  traz para o centro das discussões, o feminino  e a questão da sexualidade feminina  : nenhum escritor de seu tempo  ‘edificou’ tanto a mulher como personagem capital e leitmotiv básico de seus textos como Machado ,que escrevia sobre mulheres e para mulher  ; d) a tríade  tolo -- mulher -- homem de espírito , que permeia toda a ficção machadiana, sob uma teia dramatúrgica presente em contos e romances ao longo do tempo e da evolução literária de Machado ,transportando a 'ideologia' de Queda que as mulheres têm para os tolos  para muitas das obras posteriores.
Em se tratando de Machado, sabemos tudo ser possível – o feito pelo não-feito, o criado pelo traduzido, o escrito pelo não-escrito. A  alimentarem especulações, ilações e interpretações em torno não apenas de Queda que as mulheres têm pelos tolos, a rigor, um prenúncio do que se desenrolaria na produção literária de Machado,  mas de várias outras obras, entre  dúvidas , sutilezas e enigmas, disfarces e subterfúgios -- que não faltam na obra e na carreira literária machadiana.
‘Mistérios’, subterfúgios, disfarces, ‘jogos com o leitor’  à parte, na verdade, sempre existiu em Machado um notável e meticuloso experimentador --  mutável na utilização de formas,estilos e modelos --  mas absolutamente seguro,determinado e consciente.. Ao longo do tempo,  sempre preocupou-se  com configurações para sua obra – essencialmente, tanto o conto quanto a crônica foram notáveis e eficazes terrenos de experimentações narrativas, nelas se revelando uma seqüência notável de exercícios formais,estilísticos, de linguagem e de enfoque ao longo de sua produção e evolução literárias..
Evolução literária machadiana que desenvolveu-se  ao longo de sua vida literária (e pessoal) como um todo coerente e consistente – obediente a escalas e estágios – mediado  por um período  de marcante inflexão que antecede o que se convencionou denominar ‘o grande salto’, a grande mudança -- que tanto instiga estudiosos, pesquisadores,historiadores, críticos ; e leitores, claro. Inflexão que, a par de contribuir positivamente para a análise e interpretação adequadas da trajetória machadiana, em  contrapartida serve para sedimentar um conceito, ou avaliação, de muitas formas discutível :  a divisão da obra -- ficcional e não-ficcional -- de Machado em duas fases ,o ‘aprendizado’ versus a ‘maturidade’, a ‘formação’  versus  a ‘radicalização’.
Para de uma vez por todas reformular o conceito estabelecido sobre tal  dicotomia :  a obra machadiana submete-se a estruturas básicas que se superpõem, se interligam e se renovam “como um todo coerentemente organizado(...) à medida que seus textos se sucedem cronologicamente certas estruturas primárias e primeiras se desarticulam e se rearticulam sob forma de estruturas diferentes,mais complexas e mais sofisticadas”, sentencia Silviano Santiago. Na verdade, a estética ficcional e não-ficcional e  o pensamento literário machadianos não podem nem devem ser tão facilmente  encaixados nesses dois blocos  distintos, até porque se desenvolvem e se coadunam concomitantemente,seguindo, ambos, vis a vis,a mesma linha no decorrer de toda sua carreira,apenas sedimentando-se e amadurecendo consistentemente pós-1880 e nas obras seqüentes -- o romance Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) e  a coletânea de contos Papéis avulsos (1882),  como incontestáveis epígonos da transformação.
Nítida e lídima é  a relação-interação entre a mudança do contexto político-social do Brasil do século XIX – notadamente a partir de 1871 -- e as transformações formais e de conteúdo da obra machadiana, em cujo cerne encontrava-se o pensamento político-histórico sobre o Brasil -- haja vista a extrema ‘presença’ da política,e do lúcido olhar para ela -- que permeou e sedimentou a totalidade quer da  ficção quer  da não-ficção,  numa espécie de espinha-dorsal, no decorrer de todas as ‘fases’ e estágios de sua trajetória literária.Machado percebeu nitidamente a necessidade de fazer algo mais diferenciado –  no plano estritamente literário, tanto do   Romantismo  ainda vigente (para ele, já “acabado”) quanto do  Realismo-Naturalismo, que então impunha narrativas e descrições ao mesmo tempo minuciosas e contundentes da vida real ( via de regra surpreendendo,e muitas vezes ‘assustando’, o público-leitor);   no plano histórico,  em função da própria mutação política e social que o país  experimentava .
‘Dinâmico’ na construção e sedimentação de sua vida  literária, obediente a um consciente,coerente  e consistente processo evolutivo, de  ‘camadas’ superpostas, interligadas e re-articuladas ; ‘misterioso’, ‘enigmático’, disfarces e subterfúgios postos a serviço e uso da criação ficcional e não-ficcional – sempre ‘pronta’ a revelar surpresas(e inéditos...)-- Machado de Assis e sua magnífica obra exemplificam e emblematizam à perfeição a sentença do crítico e ensaísta Alcides Villaça: “é papel da Literatura dar expressão ao que não a tem, revelar disfarçadamente o que se disfarça de fato”. A relativização de valores constituía-se numa estratégica de Machado para levar adiante seu projeto literário, e certa contundência de suas relativizações, não  conclusivas em si  mesmas, propicia e estimula de resto reflexões e interpretações que servem para valorizar e enriquecer mais e mais,através dos tempos,  sua grandiosa obra literária.
Na qual evidencia-se e sedimenta-se o vaticínio que ele mesmo formulou:
        “A literatura, como Proteu, troca de formas, e nisso está a condição de  sua vitalidade.



domingo, 21 de dezembro de 2014

2014, UM ANO DE ‘ENTRADAS NA POSTERIDADE’—III

As outras facetas de Coelho Neto
Coelho Neto (1864-1934) abriga duas marcas de efemérides, neste 2014 : sesquicentenário de seu nascimento (1864), 80 anos de morte (1934).
* [por essa dupla significância, publico pela Academia Brasileira de Letras a coletânea de contos , na verdade quase crônicas, A cidade maravilhosa, rigorosamente a última obra ficcional do escritor, de edição original pode-se dizer rara pois publicada apenas em 1928; do mesmo modo, algo inusitada, pois revela em Coelho Neto um afastamento definitivo das linhas do naturalismo e do regionalismo que conferiu e com as quais pautou e pontuou os contos escritos em períodos e fases imediatamente anteriores a estes: nos contos denotam-se nitidamente, uns mais outros menos, claros vieses e cunhos essencialmente reflexivos, mais discursivos e dialéticos e menos descritivos, sob um fluxo algo filosófico de expressão e formalização de pensamentos, interpretações, especulações intelectuais -- ainda que exibam e sejam permeados por manifestações do ‘parnasianismo’ marcantes genericamente de sua escrita , desde sempre ].

Ao pesquisar e estudar Coelho Neto para o livro que publiquei em 2010, acerca do antagonismo com Lima Barreto, já tivera a atenção despertada – sem poder então dedicar-me e aprofundar-me nisso – para as crônicas do escritor, bem mais conhecido (e pouco valorizado) por romances,contos,teatro e mesmo artigos na imprensa pautados, pelos estilo e escrita que tão ‘ácidos’ comentários críticos,desairosos mesmo, provocaram p. ex. em Lima Barreto durante a ‘convivência’ dos dois – década de 1910 (e os dois primeiros anos dos 20,uma vez Lima ter morrido em 1922) – nos modernistas,a partir da década de 1920, e nos analistas e leitores de hoje.

O que pouco, muito pouco se conhece – até porque raramente divulgado e estudado—é justamente o Coelho Neto cronista, ‘fértil’ cronista diga-se, pois bastante alentado o acervo de sua produção em jornais e revistas ao longo de quase 50 anos.
E o que menos,muito menos ainda se sabe, é o quanto ,e como, Coelho Neto tratou, em determinadas séries de crônicas, da... política de seu tempo. Registrou e legou importante testemunho textual sobre momentos e processos de grande importância na história brasileira do final do século XIX e primeiras décadas do século XX – e relevante observar : face a seu grande poder de comunicação,por via de uma linguagem assimilável pelo leitor e mercê do prestígio que foi angariando no decorrer dos anos, procurou levar a camadas de público normalmente distantes dos fatos políticos não apenas registros e retratos mas sobretudo comentários pessoais sobre a realidade então vigente. Coelho Neto, a propósito, expressou em entrelinhas logo na primeira das séries seu entendimento de que somente pela crônica – deixava então de se dedicar apenas à ficção (antes, publicara alguns contos no mesmo veículo no qual se iniciaria na crônica) poderia levar a literatura a “um meio despreparado para recebê-la e entendê-la,face ao atraso e ignorância de um público distante das letras” [sic], ao mesmo tempo fazendo da crônica um canal direto de intervenção social. .

Basicamente, são quatro os conjuntos cronísticos nos quais Coelho Neto tratou de temas e questões políticas poemas e contos de verdadeiros libelos contra a escravidão e a favor da República: a par de muitas considerações e apreciações passíveis – e necessárias – de a eles se fazerem, esses conjuntos cronísticos , com seus respectivos enfoques político e social , afastam-se sensivelmente das características mais marcantes da prosa de Coelho Neto.

De um modo geral, os estudiosos da literatura brasileira concordam em que ninguém como Coelho Neto encarnou “mais dramaticamente” o problema da forma. Romântico por inclinação e formação natural, realista em algumas obras, simbolista em outras, sobretudo parnasiano na essência da maioria de seus escritos, a Coelho Neto na verdade nunca faltou capacidade criadora, mas ele próprio a relegou a segundo plano em sua obsessão da escrita de efeito, obsessão que o levou a procurar seguir todas as correntes literárias das épocas em que viveu : somente no fim da vida rebelou-se contra a moda e os modismos.
Coelho Neto incorporou e personificou como nenhum outro múltiplas, e indubitavelmente conflitantes, características e propósitos , “querendo ser primitivo e heleno, colher motivos em lendas nórdicas e orientais, exprimir a natureza de sua terra e a gente contemporânea, fazendo isso tudo menos por curiosidade intelectual do que pelo prazer de ouvir soarem vocábulos exóticos ou onamotopaicos”, sentenciou Lúcia Miguel Pereira.
Por força do culto ao virtuosismo, “deixou-se dominar pela palavra, em lugar de dominá-la”,observou ela em artigo publicado na Gazeta de Notícias, de 9 de dezembro de 1934, exatos 10 dias depois da morte do escritor : “Sua obra visava à fruição estética e, mesmo quando incluía um conteúdo social pendia para o artificialismo, porque tomou o meio pelo fim, confundiu expressão e idéia; suas fases prolixas, difusas, onde a função do adjetivo é muito mais importante que a do substantivo, revelam a tendência a impressionar-se excessivamente com os detalhes, a sentir mais o aspecto exterior das coisas que a sua essência, ao mesmo tempo em que seus vocábulos raros traduzem o gosto pelo bonito, pelo brilhante; a força interior, a obedecer enfim a todas as exigências da moda”.

2014, UM ANO DE ‘ENTRADAS NA POSTERIDADE’—II

Laurindo Rabello: ultra-romântico; “poeta lagartixa”; “o Bocage brasileiro”

“Que homem é esse?” assim exclamou, surpreendido, Antônio Álvares da Silva ao ver Laurindo Rabello pela primeira vez. E então observou : “língua desempeçada a cortar pelo mundo com um desembaraço ; com o maior sangue frio saltava por cima de certos respeitos e deferências, em uma linguagem que eu nunca tinha ouvido. O mais é que eu, tal era a minha comoção, não podia deixar de ouvi-lo, preso, encadeado, como me achava, a uma palavra rápida, correta, fluentíssima e cáustica que fascinava. “
Quem foi, enfim, Laurindo Rabello ?
Foi renomado poeta romântico -- embora no delineamento dos autores e obras representativos do romantismo literário brasileiro, normalmente não está incluído como dos grandes nomes, ao lado de Gonçalves Dias, Gonçalves Magalhães, Fagundes Varela, Casimiro de Abreu, Castro Alves, por exemplo; mas deveria, sob todos os aspectos,sentidos e pontos de vista ter lugar honroso nos manuais canônicos de Literatura brasileira.
Laurindo foi dos mais famosos e estimados poetas brasileiros do seu tempo, mercê de acentuado teor de crítica social e diversidade temática nos variados estilos lírico, burlesco, épico, satírico, presentes em suas composições; notabilizando-se também pela habilidade para atacar e satirizar poeticamente as autoridades, e pelos exercícios poéticos de cunho obsceno -- nos “Poemas livres”, editados postumamente em 1882 , daí cognominado "o Bocage brasileiro", assim designado pela fértil acervo poético de cunho obsceno, erótico, pornográfico, fescenino, produzido mesmo em pleno romantismo literário brasileiro, de resto ‘púdico’, ‘sisudo’, rigorosamente balizado pela moral oitocentista.O autor desses impactantes poemas, vítima de leituras no mínimo incompletas de sua produção literária, teve esse grupo sumariamente expurgado das sucessivas edições de suas obras.
A par do próprio quilate de sua poética romântica, de grande , e qualitativa, diversidade temática nos variados estilos lírico, burlesco, épico, satírico, e erótico e obsceno , aliada a acentuado teor de crítica social, presentes em suas composições, o atributo que mais impressionava seus contemporâneos fosse o talento para os improvisos – repentista, compositor e cantor de modinhas e lundus , bem recebido e aclamado em todos os salões, “o desejado de todas as reuniões sociais e musicais”.
Laurindo Rabello tocava piano e violão, repentista, compositor e cantor de modinhas e lundus, sua popularidade estendendo-se por toda a cidade do Rio de Janeiro, era a figura principal da época, em torno de quem por cerca de 20 anos “girou o movimento harmonioso de nossas canções”.Daí carinhosamente apelidado “o poeta lagartixa”, pela maneira espontânea e alegre de viver, o jeito desengonçado de se trajar, andar e comportar.
Tamanha sua importância literária e intelectual que foi profunda e intensamente comentado por críticos proeminentes entre outros como Silvio Romero, José Veríssimo, Alfredo Bosi, Antonio Candido .Tal sua relevância bibliográfica, formidável é o volume de sua produção poética , seja assim propriamente dita, seja em composições musicais, publicadas, notadamente pos-mortem : são 13 obras poéticas, 11 antologias específicas, 1 seleta e 16 coletâneas de modinhas,lundus e canções -- além do conjunto fescenino , reunido nos “Poemas livres”.
Depois de morrer – em 1864, estamos pois no sesquicentenário de sua morte -- pouco a pouco, o nome de Laurindo Rabello embaçou-se e caiu no esquecimento, por vezes recebendo apenas menção de um estudioso, ou crítico, ou historiador da literatura brasileira.
* [ justamente por tal sesquicentenário, preparei duas obras (ainda a editar e publicar) : “Inéditos de Laurindo Rabello”, abrigando cinco poemas, um folhetim, uma modinha e um lundu, e “Laurindo Rabello fescenino”( este, na verdade o 1º. volume de um conjunto de obras e textos de mesmos teor, timbre e tom, escritos por renomados, consagrados, canônicos, ‘comportados’ escritores brasileiros clássicos), expondo 38 poemas “licenciosos, voluptuosos, obscenos”.
dupla homenagem,portanto : de um lado sejam dados ao conhecimento público os textos, até então inéditos em livro ou outro suporte, apenas publicados originalmente em periódicos de época; de outro, faça-se conhecer – e entreter -- os “Poemas livres”,publicados postumamente (1882) e de imediato colocada esta até então única e restrita edição no limbo das obras proibidas, censuradas, escondidas, confinadas aos porões do esquecimento literário.].
                                                                 
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Eu possuo uma bengala

Eu possuo uma bengala
Da maior estimação,
É feita da melhor cana
E tem o melhor castão.

A minha bela caseira
Toda inteira se arrepia
Quando três vezes por dia
Dou bengaladas nela.
remate (refrão : Lhe ficando a bengalada...
-- lundu composto e cantado por Laurindo Rabello – e sempre pedido em suas apresentações e participações em salões, festas,eventos,etc; o remate, qual refrão, provocava na platéia “apartes picantes, imaginação lasciva e muita hilariedade...”

sábado, 6 de dezembro de 2014

Humberto de Campos -- 80 anos depois

neste 05 dezembro, em 1934, morria Humberto de Campos, um dos mais ativos e profícuos escritores de seu tempo -- inclusive dono de uma verve satírica demolidora ,até mesmo contra seus pares e amigos literatos, e em especial de uma 'veia' fescenina (que na verdade era do Conselheiro XX, presente estará em meu livro com os fesceninos)
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As cruzes
                        
As senhores grazinavam, como periquitos em roçado, em torno da mesa do chá, quando Mme. Gama Simpson se curvou, rindo com alarido, sobre a toalha de linho bordada de cegonhas vermelhas, numa escandalosa explosão de alegria.
Segurando em uma das mãos a taça de porcelana e na outra, fechadinha como um botão de rosa, uma torradinha cor de ouro, a linda criatura ria despreocupadamente, agitando-se na cadeira, quando, com o movimento do corpo, lhe saltou do colo de neve e rosa, pela janela de seda do decote, a sua custosa cruz de brilhante, fugindo-lhe para o ombro, com o risco de perder-se.
— Cuidado com a cruz, madame! — avisou, atencioso, do outro lado da mesa, o conselheiro Atanásio, que observava, sem perder um movimento do solo, as ondulações do Calvário e os arredores da Jerusalém.
D. Lisete olhou o decote, apanhou a cruz fugitiva, e, aconchegando-a à carnem rosada, queixou-se, risonha:
— Também, que idéia esta, de inventar cruzes para o colo da gente!
— Vossa Excelência não sabe, então, o que elas significam, na opinião de Tabarin?
As senhoras mostraram-se curiosas de conhecer a origem daquele costume, e o antigo palaciano começou, medindo as palavras:
— Na Idade Média, quando eram deficientes os meios de comunicação de cidade para cidade, de aldeia para aldeia, de um castelo para outro castelo, os monges, que dominavam nos países barbarizados da Europa tomaram a si a incumbência de marcar os caminhos, cujas direções eram assinaladas por meio de cruzes. Ao deparar, na mata ou na montanha, um destes símbolos da cristandade, o viajante já sabia que não errara o seu roteiro, e que a estrada era, mesmo, por ali...
— Mas... - interrompeu, impaciente, Mme. Souza Batista.
— Espere... - implorou o conselheiro.
E continuou:
— Mais tarde, com o advento das modas femininas, e com o aproveitamento, por parte das mulheres, de todas as conquistas do homem, entenderam elas de utilizar o mesmo símbolo, com a mesma significação.
— A cruz no colo das mulheres quer dizer, então, alguma coisa? — interrompeu, franzindo a testa, Mme. Werther.
— Evidentemente, minha senhora! — tornou o conselheiro.
E explicou:
— Elas estão dizendo, como nas montanhas antigas, que... o caminho é por ali!
Quando o conselheiro terminou a sua narrativa, Mme. Simpson procurou a sua cruz de brilhantes, e tomou um susto. Com os seus modos estabanados, a cruz havia, de novo, abandonado o decote, e fugido para trás...
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Ferrabrás

O coronel Otaviano de Meireles, comandante de um batalhão da Guarda Nacional aquartelado em Niterói, era conhecido em toda a cidade pela sua valentia, e, em especial, pela sua intransigência em questões de honra. Casado com uma das senhoras mais formosas do bairro, era tal o pavor infundido pelo seu nome, que ninguém se atrevia, sequer, a levantar os olhos para a sua cara metade. Aquele que tal fizesse, era, na opinião de toda a gente, um homem liquidado.
Foi por esse tempo, e quando mais se acentuava, em toda a praia de Icaraí, a fama da coragem do coronel, que passou a residir na vizinha capital o jovem advogado Dr. Otacílio Fernandes, que não era coronel, nem major, nem capitão, nem tenente, mas fora, sempre, um dos mais famosos namoradores de Niterói.
Proprietário do prédio em que o coronel residia, não foi necessário grande esforço da parte do moço para travar amizade com o inquilino; e esta foi tão rápida, e tão  sincera, que, uma semana depois, era o Dr. Otacílio convidado para um almoço, no primeiro domingo, na residência do brioso militar.
Chegado o dia, lá estava, na praia de Icaraí, o jovem capitalista. Risonho, amável, dissimulando com um sorriso gentil a austeridade da sua fisionomia marcial, correu o dono da casa ao portão, para receber o convidado e fazê-lo subir até à sala, onde madame já o esperava, obsequiosa e linda, com o rosto a emergir, como uma grande rosa, das espumas de neve do seu elegantíssimo "peignoir" de linho e renda.
— O Dr. Otacílio Fernandes — apresentou o coronel.
E ao recém-chegado:
— Minha esposa...
Minutos depois, sentados à mesa redonda, em que havia apenas três talheres, a palestra corria jovial, feliz, entre petiscos saborosos e sorrisos significativos, quando o telefone tilintou. Era o procurador do coronel que reclamava a sua presença, urgente, na estação das barcas, para ultimação de um negócio inadiável.
— Diabo! — exclamou o bravo militar. Tenho de ir, não há remédio!
E virando-se para o capitalista, enquanto desamarrava o guardanapo:
— Esteja à vontade, doutor. É questão de meia hora. Fique por aí; eu não demoro!
E para a esposa:
— Orminda, faze as honras da casa; eu venho já!
Mal o coronel tomou o bonde, duas taças se chocavam no ar, por cima da mesa, festejando ruidosamente aquele encontro, há tanto desejado. E de tal forma foi a saudação, que, ao reentrar em casa, o coronel foi encontrar os dois no seu gabinete, num colóquio de excessiva intimidade. Apanhado em flagrante, o advogado pôs-se de pé, lívido. Apoiado na porta, que empurrara, o coronel encarou-o trovejando:
— Sim, senhor, Sr. Dr. Fernandes!
Pálido, trêmulo, o advogado lembrou-se da fama do coronel, e sentiu que chegara a última hora da sua vida.
— Sim, senhor! — tornou o militar.
E abrandando a voz:
— Você não tem medo de uma congestão?
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Resposta difícil

Rosto em fogo, cabelos em desalinho, Dr. Atanásio, que acaba de entrar da rua, passeia nervosamente de um lado para outro no seu gabinete de trabalho, agitando nas mãos crispadas uma carta que acabara de receber no escritório, e que fora, para ele, uma punhalada no coração. À sua frente, no canapé de couro escuro, tauxiado de prata polida, a jovem D. Eleonora esconde a face lavada de lágrimas nas duas conchas das mãos cor de neve, soluçando de vergonha e de susto no horror daquela situação.
-- E dizer-se que eu confiava em ti, tua honra, no teu amor, e que estava em S. Paulo tranqüilo, sereno, na certeza de que procedias, aqui, com seriedade. com dignidade, com a correção que me havias jurado, de joelhos, diante de Deus!... - geme, quase chorando, o pobre esposo desesperado.

Madame procura, como um náufrago na tormenta, uma frase com que inicie a desculpa impossível, mas o marido atalha, agitado, com os olhos em chama, forçando-a a esconder, de novo, a cabeça entre as mãos:
-- Que vergonha, meu Deus! que vergonha, agora, para mim!... Nunca mais, na minha vida, poderei levantar o rosto diante desta sociedade, que conhece, que sabe, que testemunhou, impassível, o teu crime, a lama que atiraste sobre o meu nome!...
Enfiando os dedos na cabeleira grisalha, passadas largas, o notável advogado mede, cada vez mais nervoso, a extensão do gabinete, cujos tapetes lhe abafam os passos, quando, de repente, pára, e reclama, cerrando os punhos:
-- Confessa-me. afinal: quando foi que aquele miserável, abusando da tua fraqueza, e aproveitando a minha ausência, penetrou nesta casa?
Adivinhando nessa pergunta um caminho para a reconciliação, D. Eleonora levanta o lindo rosto ensopado de lágrimas, e, fixando os grandes olhos úmidos nos olhos ardentes do marido, indaga, apenas, pronta para uma explicação:
-- Qual?
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Obediência

Mal saída do colégio, para onde entrara ainda criança, isto é, desde que o pai, o comendador Anacleto, enviuvara, foi a encantadora Maria Lúcia residir no palacete recentemente alugado pelo velho capitalista em uma das ruas menos movimentadas de Botafogo. Deslumbrada com a liberdade conquistada à força de estudo, de uma aplicação que lhe granjeara o primeiro lugar na sua turma, apenas uma coisa a desgostou: foi a recomendação que lhe fez o pai, severo e prudente:
-- Olha, minha filha; esta casa é tua; governa-a como se fosses a dona. Uma coisa, apenas, eu te peço: vive isolada, sem relações de amizade, e nunca, em hipótese alguma, incomodes os vizinhos.
E beijando-lhe a testa clara. coroada por uns lindos cabelos castanhos:
-- Muito juizinho; ouviu?
Duas semanas não se tinham passado sobre a libertação de Maria Lúcia, quando uma quadrilha de ladrões, vendo, uma tarde, sair as criadas, que a jovem patroa indultara naquele dia, resolveu assaltar, pulando o muro dos fundos, o palacete do comendador. Descalços, em mangas de camisa, chapéu em cima dos olhos, os miseráveis penetraram na casa e, desrespeitando a fraqueza da moça, praticaram toda a sorte de depredações, esvaziando as gavetas, arrombando os cofres de jóias, carregando, enfim, com todas as coisas de valor que havia na residência do honrado capitalista.
À noite, ao abrir a porta, de regresso ao lar, o comendador teve um pressentimento triste, ao ver a casa às escuras. Abertas, porém, as lâmpadas, recuou, horrorizado, para, em seguida, precipitar-se, de compartimento em compartimento, chamando, aflito, pela menina:
-- Maria Lúcia? Maria Lúcia? Onde estás, minha filha?
No último quarto da casa, esperava-o uma surpresa maior: sentada no leito, desgrenhada pálida, com as vestes em desalinho, Maria Lúcia chorava, com a cabeça nas mãos.
-- Minha filha da minh'alma! - gemeu o velho, atirando-se para ela. - Que foi isso?
-- Os ladrões!... - explicou a moça, num gemido.
E enxugando os olhos;
-- Levaram tudo: as roupas, as jóias, a louça, tudo, enfim. Depois...
-- Depois?... - rugiu o velho, com os olhos esbugalhados.
-- Desgraçaram-me!... - concluiu a moça, prorrompendo em soluços.
-- Desgraçaram-te?... - gritou o velho, de dentes e punhos cerrados, com um rugido soturno, cavo, de fera atingida no coração.
E após um instante de silencio desesperado:
-- E como foi? Amarraram-te?
-- Não, senhor.
-- Subjugaram-te?
-- Não, senhor.
-- Taparam-te a boca?
-- Não, senhor.
-- E por que não gritaste? - berrou o ancião, parando, de súbito, no meio do quarto.
E a moça, levantando para ele, num soluço, os lindos olhos machucados de lágrimas:
-- Papai não disse que eu não incomodasse os vizinhos?

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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

2014, um ano de ‘entradas na posteridade’—i


Gonçalves Dias : mais do que romantismo poético, etnia e alteridade, erotismo e sátira.

Dele, sabe-se ser considerado ícone do romantismo poético brasileiro, quem aliás o inaugurou temática e efetivamente :  o poeta, ensaísta e intelectual Antonio Carlos Secchin sentencia que “Canção do exílio” é o “documento de identidade da história literária do Brasil”(segundo ele, a carta de Caminha seria a “certidão de nascimento da história institucional brasileira”).

Gonçalves Dias teve vida curta: morreu aos 41 anos, a 03.11.1864, vítima de naufrágio, já em águas brasileiras,próximo à costa, quando voltava da Europa—mas o suficiente para merecer, com todas as honrarias, um posto no Olimpo literário do país, ainda que com poucas obras, produzidas entre seus 23 e 29 anos : Primeiros cantos, Leonor de Mendonça (teatro), Segundos cantos, Meditação, Últimos cantos, Os Timbiras (inacabado) , Dicionário da Língua Tupi..
O que pouco se conhece, e talvez muitos não sabem, é o quanto em Gonçalves Dias existe o “alterofilista”[sem o h...] , na expressão de Secchin, no sentido de sua dedicação, extremamente relevantes para a historiografia literária brasileira,em estudos, reflexões e produção poética e em prosa,inclusive em discursos e depoimentos,  às questões de alteridade e  de etnia, ele mesmo mestiço, filho de um português com uma índia – apondo-as e expressando-as, sempre fazendo do índio o elemento da  identidade fundadora do Brasil,  nos poemas “Marabá”, em “I-Juca Pirama”-  em que inaugura, por assim dizer, o ethnoslogos da literatura e da cultura brasileiras -e em diversos outros, não fosse Dias o indianista por excelência, e  precursor, na literatura brasileira.

Assim como, e do mesmo modo provavelmente menos conhecida, duas outras facetas, também importantes historiograficamente e literariamente : o erotismo e a sátira – o primeiro presente, p. ex.,  em “Leito de folhas verdes”,em “Marabá”, em “O canto do índio”; o Gonçalves Dias satírico  em “Sextilhas de Frei Antão” e em  “Que coisa é um ministro?” – apondo-se  aqui, uma observação pertinente : na linha/via reversa, o indianismo gonçalviano,  teria sido satirizado, ou parodiado, por Bernardo Guimarães no “Elixir do Pajé”(de resto, peça ‘clássica’ fescenina do romantismo brasileiro); e por Múcio Teixeira em “Canto da bugra”, paródia a “O canto do tamoio”.

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                                                             Leito de Folhas Verdes
                                                                                                 Gonçalves Dias

Por que tardas, Jatir, que tanto a custo
À voz do meu amor moves teus passos?
À voz do meu amor moves teus passos?
Da noite a viração, movendo as folhas,

Já nos cimos do bosque rumoreja.
Eu, sob a copa da mangueira altiva
Nosso leito gentil cobri zelosa
Com mimoso tapiz de folhas brandas,

Onde o frouxo luar brinca entre flores.
Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco,
Já solta o bogari mais doce aroma!
Como prece de amor, como estas preces,

No silêncio da noite o bosque exala.
Brilha a lua no céu, brilham estrelas,
Correm perfumes no correr da brisa,
A cujo influxo mágico respira-se

Um quebranto de amor, melhor que a vida!
A flor que desabrocha ao romper d`alva
Um só giro do sol, não mais, vegeta:
Eu sou aquela flor que espero ainda

Doce raio do sol que me dê vida.
Sejam vales ou montes, lago ou terra,
Onde quer que tu vás, ou dia ou noite,
Vai seguindo após ti meu pensamento;

Outro amor nunca tive: és meu, sou tua!
Meus olhos outros olhos nunca viram,
Não sentiram meus lábios outros lábios,
Nem outras mãos, Jatir, que não as tuas

A arazóia na cinta me apertaram
Do tamarindo a flor jaz entreaberta,
Já solta o bogari mais doce aroma;
Também meu coração, como estas flores,

Melhor perfume ao pé da noite exala!
Não me escutas, Jatir! nem tardo acodes
À voz do meu amor, que em vão te chama!
Tupã! lá rompe o sol! do leito inútil
A brisa da manhã sacuda as folhas!