terça-feira, 30 de junho de 2015

A propósito da FLIP – e de feiras e festas literárias

Abre-se a  FLIP, em sua edição 2015 : tanto ela quanto as  diversas festas e feiras literárias regionais e específicas que se multiplicam pelo país a cada ano, constituem-se  claramente em  geradores de  elementos de reflexão acerca de eventos literários e de novos cenários, ou novas vertentes dos cenários editorial e livreiro do país – a proliferação de feiras de livros contrapostos  por suas estruturas,escopo,focos e enfoques, ‘conceitualmente’ à  bienal e seu formato tradicional.
Via de regra, todos transcendem o modelo comum de eventos de exposição e venda de livros para se constituírem em notáveis cenáculos temáticos, expressos em painéis, palestras, breves simpósios, mesas-redondas,oficinas, depoimentos – muitos voltados para a leitura,seus fomento,estímulo e prática.

Reporto-me de  imediato às discussões e análises que ora se dão,gradativamente com maior intensidade, com relação à Bienal do Livro -- cujas últimas edições mostraram-se  esvaziadas,’fisicamente’  por parte e no seio do próprio meio editorial-livreiro, haja vista p. ex. grandes editoras estarem  ausentes,sob argumentação de "custos exorbitantes" e "parcos resultados", e conceitualmente por força do crescente  pensamento crítico quanto ao tradicional "modelão”,ou "formatão" (assim são definidos pelos profissionais do ramo) da Bienal, ao mesmo tempo em que as atenções se voltam cada vez mais para os eventos regionais, essa profusão(benéfica,digo eu) de festas e feiras pelo país: Belém, Fortaleza,Recife,Ouro Preto, Paraty, Porto Alegre,Passo Fundo (esta,  excepcional, de longa data, lamentavelmente foi “suspensa” neste ano...).
Persiste mesmo o intento, entre editores, livreiros e profissionais do setor, de fortalecimento e incremento a esses eventos regionais , os quais -- tanto por suas próprias concepções como pelas efetivas programações realizadas até aqui --têm oferecido os elementos de uma presente reflexão conceitual sobre a Bienal : constituir-se menos em cenários de venda e exposição de livros e mais de  incentivo a leitura – certo é que nas últimas edições a bienal tem, embora de modo incipiente e algo disperso, incrementar certos painéis,mesas-redondas, debates, até mesmo ligeiras oficinas acerca de temas específicos, reflexões sobre literatura, promoção da leitura,etc. As feiras regionais com efeito oferecem,de resto, o que faz parte das proposições preconizadas pelos intentos de reformulação conceitual da Bienal : a proximidade – em agosto – da Bienal do Livro do Rio de Janeiro, conjugada com a realização da Flip,no momento, mostra-se propícia para o deslanchar de  reflexões,meditações amplas e profundas,reformulações de pensamentos e concepções,e sobretudo ações concretas de superação de incompreensões e distorções conceituais..

Em minha opinião,  ainda vejo extrema validade na Bienal -- mesmo sob as formas de seus  'modelão,formatão'; sendo como sempre frequentada pelos contingentes daqueles parcos e raros leitores para os quais todas as pesquisas apontam a média de leitura de ...  2 livros por ano (!); ainda que com as características de ‘feirão’,cenários circenses, etc  -- evidentemente admitindo, e concordando plenamente, com a necessidade de certas alterações, ajustes, como em especial o incentivo maior a realização de oficinas,painéis,debates, etc. A validade que sustento tem em vista o chamado 'grande público', por força do comprovado fato de a Bienal representar a contrapartida real,concreta, a um tipo de comportamento desse '(não)leitor comum': sua relação com a livraria, tida e vista por ele como uma espécie de 'templo sagrado', espaço de sacralização -- apesar de tudo em termos de atrativo,utilidade, conforto, etc que as livrarias oferecem hoje (café,poltronas,ambientes de leitura,etc) -- a inibi-lo e refrear sua possibilidade de chegar ao livro. Na Bienal, justamente por seu ‘modelão’ -- que de resto permite uma exposição mais abrangente quase completa, do conjunto dos acervos de editoras -- por seus cenários 'populares' e descontraídos[sic], propicia um sensível processo de dessacralização.Ainda mais se propostas,e tal tem ocorrido gradativamente (também incipiente),expandir alguns focos no temático,como de resto enfatizei.


       



sexta-feira, 26 de junho de 2015

MACHADO DE ASSIS, ‘PLAGIADOR’...

Vez Vez por outra – e o pior é que se repete – e ao mesmo tempo  tema de  diálogos com estudiosos literários[ ontem mesmo mantive um, via hangout, com interlocutores acadêmicos na Inglaterra], ressurge, qual uma ‘sombra das cinzas’, um assunto ou tópico que se não for devidamente esclarecido e repelido acaba tornando-se recorrente na apreciação da obra de Machado de Assis: o propalado (equivocado) ‘plágio literário’ que ele teria praticado em algumas de suas produções.
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Para começo de conversa : ‘plágio’ – com ou sem aspas –  é inerente ao próprio modus operandi do fazer literatura, comum a todo escritor, no sentido de apropriação de temas e de formas, estilos, linguagens, de uns por outros, apropriação (consentida, benfazeja, alvissareira – digo eu) de resto inserida, integrada e abrigada sob o moderno conceito de intertextualidade,  praticada no melhor de sua concepção teórica e prática e sua  essência, como ninguém na literatura brasileira oitocentista, por  Machado : reitero tal e não me canso de sustentar (em artigos, palestras, na obra ora finalizada “A  formação literária de Machado de Assis: fontes para biografia literária”). Em Machado, apropriações, ou – vá lá, ‘plágios’ [sic]-  se dão efetiva e concretamente, em especial com relação a obras, textos e autores estrangeiros, com os quais estabeleceu  relações, correlações,interações e interatividades, por eles influenciado e formado, incorporando-os em seus escritos, com eles estabelecendo e redimensionando intertextualidades,  poucas vezes anotadas na historiografia literária, e que constituíram-se  em  sólidos alicerces de sua formação literária e intelectual.
Só que... neste particular (qual antecipador da antropofagia modernista de 1922 : reporte-se a Oswald de Andrade et allii), Machado assimilou-os , ‘deglutiu-os’, ‘digeriu-os’ e os incorporou à sua obra, sua escrita e  sua linguagem literária,  dotando estas ao mesmo tempo (como sabemos) de brasilidade e universalidade, de localismo e universalismo – binômio sob o qual e com o qual  construiu sua obra.
E nessa  apropriação ‘antropofágica’ de autores e obras , quer brasileiros quer estrangeiros, Machado redimensionou a antiga técnica do aemulatio, em seu mais lídimo sentido, o de definir e passar a ter autores como mestres (os denominados auctoritas), retomando-a e atualizando-a com outras implicações e injunções, inclusive  sob os modernos conceitos de intertextualidade.
Em  Machado, o  aemulatio,,  simbiose  do imitatio e do creatio --  imitatio que não pode, em hipótese alguma, ser tratado como plágio  ou cópia : até porque tem  vínculo com o creatio, e  no caso de Machado com o recriar  -- revela-se e expressa-se  do mesmo modo em sua atividade de (notável, esmerado) tradutor (inclusive antecipador de contemporâneos e modernos conceitos e práticas de Teoria Literária e Literatura Comparada).

Então : a formação intelectual e  as constituição, produção e vida literárias  machadianas --  processada e realizada, mister observar, paralela e concomitantemente a notórias e inevitáveis referências brasileiras ( foi o primeiro e único, em sua época, a referenciar, aludir e refletir sobre os escritores nacionais seus contemporâneos) – deu-se  de modo e escala intensos e precípuos sob a órbita,  égide e approach de influências e orientações estrangeiras, a saber,    franceses, portugueses,  ingleses,  alemães,  gregos,  latinos, espanhóis e italianos  -- notadamente (como sempre enfatizo e difundo)  os portugueses, de marcante relevância,  por seus autores e obras lidos e consultados por Machado, aqueles que com ele conviveram no Rio de Janeiro, aqueles intensamente citados, referenciados em sua obra,  absolutamente decisivos na vida, quer pessoal, social e conjugal, quer intelectual, em suas formação e constituição literárias e em sua obra, na edificação de sua linguagem, sua escrita e estilo narrativo, e em seu embasamento político-ideológico-filosófico.
Todo o recolher, assimilar e incorporar de autores, obras e textos de outras nacionalidades, devidamente ‘deglutidos’, comungadas com a incorporação de  referências brasileiras assimilando-os à suas formação e produção literárias, perfeitamente  integrado aos mais lídimos conceitos de intertextualidade – e que não restem dúvidas ou restrições a respeito : abandone-se de vez essas ruminações acerca de ‘plágios’... – alicerçaram sua formação literária e intelectual, em decorrência desta e a ela integrada, sua notável ação informativa e formativa de leitores, de seu tempo, dos períodos sequentes, de hoje, de sempre, e  constitui-se inquestionavelmente nos sólidos alicerce e vetor de sua grandiosa obra literária.
M.R.


quinta-feira, 14 de maio de 2015

Machado de Assis e a escravidão

pelo 13 de maio
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Machado de Assis nunca deixou de exprimir seu mais absoluto horror à escravatura – fosse como  funcionário da Diretoria da Agricultura do Ministério da Agricultura (órgão que tratava da política de terras e da aplicação da Lei do Ventre Livre, de 1871), na qual  emitiu centenas de pareceres e réplicas no sentido de fazer cumprir a Lei e o preceito de liberdade para os filhos de escravos nascidos , fosse em muitos artigos e crônicas e,em especial, em romances e contos. Exatamente ao contrário da equivocada e distorcida interpretação --que ,como toda interpretação, é uma ‘leitura’,sujeita pois a melhor avaliação e até mesmo contestação --difundida ao longo dos anos,no sentido de não ter ele se integrado à causa abolicionista (sic) nem ter  inserido o negro, ou a negritude,ou a condição do negro, em seus escritos, nem ter nenhum ‘herói negro’ entre os protagonistas de sua ficção, como se isso fornecesse convincente e taxativo certificado de consciência política , como se fosse elemento imprescindível na construção de romances e contos de qualidade. Os detratores teimam em julgar o homem com base nos raramente compreendidos e assimilados artifícios do ficcionista e do cronista – ainda mais quando este utiliza ad nauseam os recursos da sutileza, do subterfúgio, da dissimulação.
Além de tudo, não se queira exigir de Machado uma postura – a mesma,p.ex., de  abolicionistas (muitos deles seus amigos) , de outra verve e atitude – de militância ativa, discursiva, panfletária : nada disso fazia parte de sua natureza,e discrição aliás foi o que sempre ostentou na vida e na própria escrita literária.
 Machado fez da escravatura objeto crítico – por vezes desenhada pelas ‘entrelinhas’, por vezes direta, nada oblíqua ou dissimulada -- de  crônicas, de poemas, de peças teatrais,  de contos, além de torná-la pano de fundo de alguns  romances, tanto os primeiros como aqueles pós-1880. Já é mais do que tempo de obrigatória releitura da equivocadissima omissão machadiana em relação à escravidão e às relações inter-raciais no Brasil do século XIX , de seu absurdamente propalado  “aburguesamento” e  de “denegação das origens” em sua obra.
A tese da ‘alienação’ machadiana desmorona ao se examinar o naipe de contos em que a “iníqua escravidão” é exibida criticamente, nas linhas e entrelinhas, com todos seus horrores; é solapada ao se ler, por exemplo, as crônicas de 18.07.1864, de 04.04.1865,01.10.1876,15.06.1877,14.07.1878,07.11.1883,23.111885,30.08.1887,27.09.1887,11.05.1888,19.05.1888,20\21.05.1888,27.05.1888,01.06.1888,26.06.1888,14.05.1893,04.11.1897 ; perde vigor ao conhecer os contos “Frei Simão”,“Virginius”,”Mariana”(que aborda a escravidão  de forma tão mais incisiva e realista que veio a ser publicado em duas versões,  em 1871 e em 1891), “O caso da vara”, “Pai contra mãe”; ao se deparar com os poemas “Sabina”(1875) e “13 de maio”(1888) , ou ao conhecer a crítica teatral à peça “Mãe”(1860), de José de Alencar, e o texto “O teatro de José de Alencar”(1866); além das referências,citações,comentários e verdadeiros libelos expostos na novela Casa Velha(1885) e  nos romances Ressurreição (1872),Helena(176),Iaiá Garcia(1878),Memórias póstumas de Brás Cubas(1881), Quincas Borba(1891),Dom Casmurro(1899) – observando-se o quanto o processo histórico que resultou da lei de 1871, assim como suas conseqüências,  encontra-se  no cerne da concepção desses seis  romances -- Esaú e Jacó(1904) e no derradeiro Memorial de Aires(1908) – este, além de retratar a decadência e extinção da própria escravocracia, personalizada no Barão de Santa-Pia,sob uma narrativa revestida de contundente historicidade e , como o condizente  grand finale da obra de um portentoso escritor, ressaltando o papel político da literatura como guardiã dos fatos passados e da memória coletiva de um país
 A crônica, até mesmo por sua própria natureza de dirigir-se  diretamente ao público-leitor, na verdade foi a seara onde Machado melhor e mais clara e veementemente   expressou sua implacável crítica ao escravagismo – mormente na série “Bons Dias!”, publicada na Gazeta de Notícias ininterruptamente de 05 abril de 1888 a 29 agosto de 1889 (per se como se sabe um período crucial da história brasileira, entre a concretização da Abolição e a emergência da República), de todos os conjuntos croniquescos de Machado aquele de mais contundente teor crítico,fosse à escravidão fosse ao novo regime , aquele que registra opiniões nunca expressadas por ele com tanta clareza e coerência, tanto que valeu-se ‘sensatamente’ do anonimato (somente descoberta autoria de Machado, por Galante de Souza, na década de 1950!),dada não só a explosiva complexidade do momento mas também ao risco,diante do delicado tema da  república , que um funcionário público graduado da monarquia pudesse correr.
Em algumas delas, escritas com sua peculiar ironia ácida e cortante , evidencia-se a crítica machadiana à hipocrisia política, manifesta naqueles parlamentares  que intitulavam-se abolicionistas mas votavam sempre a favor dos senhores – o que exibe,sob outro viés, a inquestionável atualidade de Machado [neste particular, aliás, convém saber  – como ressalta  o historiador José Murilo de Carvalho, in D. Pedro II,2007 – que os políticos de todos os partidos ,até mesmo os liberais e os republicanos, não  se opunham à escravidão].
 Na verdade, e sob o espectro mais geral, Machado foi um crítico contundente da sociedade e das instituições brasileiras, e escreveu muito sobre política, e até mesmo sobre economia. Tinha, sim, opiniões políticas — era um monarquista liberal, não apoiava a República --   e é possível observar a política brasileira de sua época através de seu olhar literário. Raymundo Faoro (em A pirâmide e o trapézio) sentencia que pode -- se vislumbrar toda a sociedade brasileira do século XIX na obra de  Machado : tanto na ficção quanto na não-ficção, arrancou da História a própria substância de suas narrativas e textos , utilizando uma série de elementos políticos -- escravidão, liberdade, golpe de Estado, censura,aparelho policial, autocracia absolutista,totalitarismo, etc – na elaboração,em sua  escritura literária, de uma  crítica da ideologia brasileira e de uma teoria política avançada, a qual  no campo dos estudos literários não foi adequadamente percebida pelos especialistas. Há de se enfatizar ainda que, a par de outros aspectos, uma das grandes preocupações de Machado, uma espécie de linha-mestra, fulcro e fio condutor de  sua produção não-ficcional centrava-se  na questão da identidade nacional — preocupação expressa claramente nos  ensaios “O passado, o presente e o futuro da literatura” (ainda em 1858), “Instinto de  nacionalidade”(de 1873) e “Nova geração”(1879) e na essência de seus artigos e crônicas.
Em outro viés, justamente os recursos da ficção literária, sempre propícia a esse fim, foram os instrumentos que lhe permitiram expressar com nitidez seu total e visceral repúdio ao sistema escravocrata do Brasil do século XIX. Por meio de alguns de seus contos, é possível observar as relações inter-raciais de sua época através do olhar literário, abordando  as tensas relações,inclusive as de ordem afetiva e sexual, entre os membros da família patriarcal típica do século XIX e seus criados negros e abrigando trama,ambiência, personagens e ‘ideologia’ inerentes à questão escravagista.

Ficção e realidade, ficção e história, ficção e sociedade brasileira constituem fulcros sempre presentes na obra machadiana. Em boa parte  de sua ficção e da não-ficção Machado oferece ao leitor uma interpretação satírica, por vezes alegórica,  desnudando mitos e certezas, aparências e disfarces, dilemas e mentiras -- sob o mesmo clamor crítico-satírico de seu olhar ,por vezes direto e transparente,por vezes machadianamente oblíquo e dissimulado, feito  testemunho incomparável  sobre a vida política e institucional brasileira  do século XIX.  






quinta-feira, 7 de maio de 2015

Machado de Assis: leitor, formador de leitores

 Se não o maior, um dos maiores e mais significativos da história da literatura brasileira. Um grande leitor, foi Machado : leitor formado  por  leituras e consultas feitas com pleno desvelo durante toda sua vida; um enorme, gigantesco formador de leitor, melhor dizendo : criador de leitores -- mais quantitativamente intenso e qualitativamente significativo do que qualquer outro escritor,  não apenas do século XIX, também do século XX, do século XXI, hoje, e para todo o sempre – por via de citações,referências e recorrências perpetradas por ele em seus textos, quais diálogos intertextuais com grandes autores de várias épocas e geografias culturais :  malgrado o ser numa sociedade  marcada por aterradores níveis de analfabetismo, escassez de público-leitor, indigência e aridez cultural.
Tais  cenários e elementos, no geral, constituem vetores essenciais  acerca da constituição literária machadiana – por extensão, de sua biografia intelectual.

Neste particular, subsiste implícita e explicitamente uma mensagem  : Machado de Assis tornou- se grande escritor, e  grande formador de leitores, porque muito leu e muito recolheu de autores e obras, entre clássicos antes dele e contemporâneos a ele, que informaram, influenciaram, formaram e moldaram sua magistral  obra literária.
Extrapolada e aplicada funcionalmente a círculos estudantis, acadêmicos, culturais, até mesmo profissionais, a mensagem emite seus significantes  e significados : “leiam, leiam muito, pois assim se tornarão grandes ledores de modo geral, e especificamente  conforme o caso e escolhas de cada um, grandes escritores, ou grandes profissionais, ou grandes especialistas -- grandes cidadãos em suma”.
                                                                                                                                            
Machado  ‘encontrou’, desde os primórdios de sua atividade literária,   um público leitor --- restrito e  incipiente, como o era o leitorado durante todo o século XIX, vivente e componente em uma sociedade de elevadíssimo  nível de analfabetismo, inserido num contexto cultural de prática de leitura quase que exclusivamente  em jornais, de resto baseada preponderantemente na oralidade ; quando dos primeiros anos do século XX, já ‘dispunha’ (pelos 8 anos em que viveu nos Novecentos) de leitores em maior número, melhor formados e instruídos (embora os índices de alfabetização e educacionais ainda se mostrassem bastante precários, absolutamente insatisfatórios.
                                                                  
Apesar de todas as deficiências estruturais e conjunturais, Machado sempre respeitou o leitor de seu tempo, moldando sua escrita, sua narrativa, seus textos (ficcionais e não-ficcionais) ao gosto, hábitos e expectativas do receptor de sua obra – apesar de sempre buscar [ele,Machado] promover certas variações e ‘subversões’, praticar  provocações e desafios,  com o intuito de cada vez mais fazer o leitor  integrar-se ao que lhe era posto diante dos olhos. Justamente por respeitá-lo, e empenhar-se em enredá-lo na narrativa e estimulá-lo a assumir interpretação própria dos elementos narrados, foi um excepcional formador desse leitor, oferecendo-lhe todas as possibilidades de informação, conhecimento e acesso a autores, obras e textos os mais representativos e expressivos da Literatura, brasileira e  sobremodo estrangeira.

Sob a égide e o ‘domínio’ do Romantismo-- cuja  grande contribuição para o país foi possibilitar a criação da idéia de cultura e de identidade nacionais, com a popularização das letras, por via  do aumento do número de periódicos, alguns com linha editorial exclusivamente artístico-literária – Machado, cronologicamente primeiro nos contos, em seguida  nos romances  dirigia- se (não poderia ser diferente)  ao leitor, que era do ‘público de jornal’, afeito aos folhetins estrangeiros,  ‘submisso’ aos elementos e parâmetros românticos – e assim moldava e construía suas tramas, sua narrativa e evocava citações e alusões a autores e obras basicamente românticos.
Quer nas narrativas curtas quer nos romances, Machado já apontava para um  certo afastamento do padrão literário romântico  vigente e  contrariava as  expectativas do leitor brasileiro de então – seduzido, acostumado e ‘treinado’ por histórias de forte apelo sentimental, ,inteiramente afeito aos folhetins estrangeiros. Esboçado,embora esparsa e incipientemente,  nos contos anteriores, incrementado em seguida nos romances – desde Ressurreição (1872), passando em graus diferentes e variados, por A mão e a luva (1874) Helena (1876) : o seguinte, Iaiá Garcia  já revela outros elementos e vieses(até por ser publicado em 1878, ano  crucial na evolução literária machadiana).  

De um modo geral, os leitores que Machado  figurou e formou nos  contos publicados até à década de 1870 e nos   primeiros romances caracterizam-se, a par de relativa não-homogeneidade entre eles, pelo plano machadiano de   prepará-los para receber inovações e variações na estética, na estilística, na narrativa romântica. Machado já apontava para um  certo afastamento do padrão romântico literariamente vigente e  contrariava as  expectativas do leitor brasileiro do início da década de 1870 , propondo-se  sobretudo – esboçado,embora esparsa e incipientemente,  nos contos anteriores e nos dois primeiros romances – a ‘criar’ e constituir um  novo leitor,distanciado da prosa convencional, ainda que  mantido sob as ‘balizas’ do gosto romântico, como não poderia deixar de ser : um “leitor perspicaz”, um “leitor arguto”, um leitor precursor das futuras obras.
Leitor que iria sofrer substancial, e quase radical,  transformação a partir de 1880, quando passa a ser  provocado, instado a descobrir significados ocultos e subjacentes, sub-reptícios nos textos machadianos – seja nos romances, a partir de Memórias póstumas de Brás Cubas, seja nos contos, notadamente naqueles enfeixados em Papéis avulsos, seja nas crônicas (o que já se iniciara em “Notas Semanais”, em O Cruzeiro, 1878, retificado em “Balas de Estalo”, na Gazeta de Notícias, 1883-86 , consolidado em “Bons Dias!”, Gazeta de Notícias, 1888-89, confirmado em “A Semana”,Gazeta de Notícias, 1892-1900)) – e estimulado a ter suas próprias opinião e posição. O leitor colocado como que num estado de alerta para as aparências das linhas narrativas – posto diante do conhecido ‘narrador enganoso, não-confiável ’ machadiano.
       Para quem os escritores brasileiros imaginavam escrever – e para quem de fato escreviam ?  Quem era o leitor a que se dirigiam? da (imensa) minoria alfabetizada(a contrapelo do analfabetismo elevado); adulto; preponderantemente mulher, no início; freqüentador de  cafés e confeitarias,  de teatros e casas de espetáculo, freqüentador de saraus e salões literários, freqüentador de livrarias.
        E o que liam esses leitores, especialmente os habitantes do Rio de Janeiro, sede da Corte Imperial,? Em primeiro lugar, vinha o gênero "romance", depois os manuais de utilidade prática, que ensinavam higiene, magia, como curar doenças com remédios caseiros, como acertar no jogo do bicho, como criar porcos etc. e, em seguida, os livros de histórias infantis. Em comum a todos esses livros, o preço: geralmente brochuras com valores que oscilavam entre cem a mil réis (o equivalente aproximadamente a um terço do ganho diário de um trabalhador -- sendo mil réis o preço mínimo do que se pagava por uma refeição barata no largo da Carioca...)
         Fossem romances ou livros práticos, a leitura ‘praticada’ durante o Império foi-se disseminando e sedimentando ao longo das décadas Oitocentistas, até a instauração da República – e daí incrementada(ainda que longe das escala e níveis desejáveis) -- por pequenos surtos de popularização do livro, porém sempre limitado majoritaria e geograficamente ao Rio de Janeiro.
        A rigor,  os leitores de livros brasileiros eram basicamente os habitantes das grandes cidades que trabalhavam no setor terciário. O mercado do livro brasileiro continuava concentrado no Rio de Janeiro  -- não ultrapassavam o número de algumas centenas em cada uma das principais cidades do Brasil: Recife, Salvador, São Luís, São Paulo, Ouro Preto, Belém, Porto Alegre.; e também nos centros urbanos das regiões prósperas.  
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Nada de repetitivo ou redundante  enfatizar :  no decorrer de todas as ‘fases’ e estágios de sua trajetória literária, no exercício dos  passos gradativos que a pontuaram e pautaram , Machado – quer na ficção quer na não-ficção -- alterou formas e ritmos narrativos, processou e consolidou mudanças na ‘ideologia’ temática de seus textos, transmutou narradores e vozes narrativas  --  sobremodo foi formando ,criando, ‘construindo’ um novo leitor – não a figura ‘vaga e vaporosa’, ‘volúvel’, pouco dado a leitura, não o leitor idealizado pelos primeiros românticos brasileiros como “público de arte(porque Povo)” [sic], educado pelo artista: mas sim um leitor mais integrado e condizente da realidade e sobretudo passando a ser um elemento fundamental para a almejada sedimentação, malgrado todos os fatores adversos (carência educacional, analfabetismo, exigüidade do leitorado, indigência do meio cultural,  “o gosto mal formado do público pelas artes estrangeiras”),  uma sociedade leitora no Brasil Oitocentista.

Inquestionável é que Machado de Assis prosseguiu por todo o século XX e continua neste século XXI a forjar leitores, de distintos tipos e distintas instâncias  -- nestas eras de  crescentes escalas e modos de aplicação de suas obras em programas curriculares, didáticos e paradidáticos, nos circuitos escolares de todos os níveis, o que enriquece a Educação brasileira (malgrado inaceitáveis carências e insuficiências ainda persistentes); eras de avanços nos hábitos e práticas de ler entre brasileiros, mas inda insuficientes (repete-se a cada ano o fraco índice de leitura de 2 livros por habitante) para uma efetiva sociedade de leitores no país ; eras de acentuado desenvolvimento de recursos e meios digitais incrementados, disponibilizados e postos a serviço da geração,difusão e circulação de matéria literária, matéria textual e matéria jornalística, sobremodo criando novos tipos e gamas de leitores; eras também de notável expansão do conhecimento e estudo de Machado de Assis e sua obra  no  Exterior, quer nos círculos acadêmicos  quer  nas esferas editoriais.
E assim será, ‘machadianamente’,  atraindo, formando, construindo novos  leitores,por todos os tempos, por meio e luzes de sua magnífica obra.
        
         


















quinta-feira, 30 de abril de 2015

o 1º. de Maio e Euclides da Cunha


Euclides da Cunha foi essencialmente um ser político – um pensador, a princípio convicto militante republicano, depois,desiludido com o regime, crítico vigoroso,por fim (em essência, depois de Canudos) presumivelmente socialista ( com efeito,se achegou,por influência do  amigo Francisco Escobar, ao grupo socialista de São José do Rio Pardo ,onde deu forma final ao texto de Os sertões ) --o que, na verdade, delineara-se,configurara-se e consolidara-se gradativamente  em todas as fases e  estágios de seu espectro político-ideológico. 
Haja vista, a expressar e comprovar com clareza absoluta a postura euclidiana face à questão social e ao socialismo, três  textos em três períodos distintos  todos datados de 1º. de maio : um artigo de 1892; o texto,de 1899, do programa de O Proletário, órgão do “Clube Internacional Os Filhos do Trabalho”,em São José do Rio Pardo; o artigo,de 1904, intitulado  “Um velho problema” – este, o mais avançado de sua lavra e um dos mais radicais de seu tempo.
[excertos de meu livro Escritos de Euclides da Cunha : política,ecopolítica,etnopolítica (PUC-Rio/Loyola, 2009)]
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o estado  de  S. Paulo,  1º. maio  1892

Extraordinário amanhecer o de hoje nas velhas capitais da Europa...
Como que assaltada por uma síncope, subitamente, se paralisa a complicadíssima vida da mais alta civilização; todo o movimento das grandes sociedades, toda a espantosa atividade de um século e a admirável continuidade dessa existência moderna tão poderosa e tão vasta, se extinguem, aparentemente, esvaindo-se em vinte e quatro horas de inatividade sistemática.
Abandonam o cérebro dos políticos os interesses nacionais mais urgentes; desaparecem por um dia todas as fronteiras; reconciliam-se incorrigíveis ódios seculares de governos - e aqueles exércitos formidáveis, que a todo o instante ameaçam abalar a civilização, num espantoso duelo, formam silenciosos, pela primeira vez, sob uma mesma bandeira...
Tudo isto porque o anônimo extraordinário que é o maior colaborador da história, o Povo que trabalha e que sofre - sempre obscuro - entende, nessa festiva entrada da primavera, deixar por momentos as ásperas ferramentas e sonhar também como os felizes, pensar, ele que só tem um passado, no futuro.
O escravo antigo, que ia nos circos romanos distrair o humor tigrino dos reis, num pugilato desigual e trágico com as feras; o servo da gleba, o vilão cobarde que atravessou a idade média, à sombra dos castelos sob a guante do feudalismo; que tem alimentado com o sangue a alma destruidora das guerras; ele - a matéria prima de todas as hecatombes, seguindo sempre acurvado a todos os jugos - transfigura-se realmente, alentado por uma aspiração grandiosa e apresenta esta novidade à história - pensa!
Deu todas as energias ao progresso humano, sempre inconsciente da própria força, e quando no fim do século XVIII, uma grande aura libertadora perpassou a terra, ele se alevantou, aparentemente apenas - para trazer às costas, até os nossos dias - a burguesia triunfante.
Cansado de escutar todas as teorias dos filósofos ou os devaneios dos sonhadores, que de há muito, intentam-lhe a regeneração - desde os exageros de Proudhon às utopias de Luis Blanc - ele inicia por si o próprio levantamento.
E para abalar a terra inteira basta-lhe um ato simplíssimo - cruzar os braços.
E que triste e desoladora perspectiva esta - de vastas oficinas e ruidosas fábricas desertas, sem mais a movimentação fecunda do trabalho - e as profundas minas, abandonadas, abrindo para os céus as gargantas escuras - num tenebroso bocejo...

*
Se entrarmos na análise dos cambiantes que tem assumido o socialismo, temo-lo como uma ideia vencedora.
O Quarto Estado adquirirá, por fim, um lugar bem definido na vida universal.
Nem se lhe faz para isto preciso agitar o horror da anarquia ou fazer saltar a burguesia a explosões de dinamite. Fala todas as línguas e é de todas as pátrias.
Toda a sua força está nessa notável arregimentação, que ora desponta à luz de uma aspiração comum; a anarquia é justamente o seu ponto vulnerável - quer se defina por um caso notável de histeria - Luiza Michel, ou por um caso vulgar de estupidez - Ravachol.
Não existe, talvez, um só político proeminente hoje, que se não tenha preocupado com esse grave problema - e o mais elevado deles, o menos inglês dos pensadores britânicos, Gladstone, cedendo à causa dos home-rulers o espírito robusto - é, verdadeiramente, um socialista de primeira ordem.
Realmente, a vitória do socialismo bem entendido, exprime a incorporação à felicidade humana dos que foram sempre dela afastados. Em nossa pátria - moça e rica - chegamos as vezes a não o compreender - transportando-nos porém aos grandes centros populosos, observando todas as dificuldades que assoberbam a vida ali, sentimos quão criminosa tem sido a exploração do trabalho. Ali, aonde o operário mal adquire para a base material da vida, a falsíssima lei de Malthus parece se exemplificar ampla e desoladora. Preso a longas horas de uma agitação automática e além disto cerceado da existência civil, o rude trabalhador é muito menos que um homem e pouco mais que uma máquina.
*
Os governos da Europa hão de transigir porém; hão de entabular os preliminares da paz, pelas concessões justas e inevitáveis que terão de fazer.
Nós assistimos ao espetáculo maravilhoso da grande regeneração humana.
Pela segunda vez se patenteia na História, o fato de povos que se fundem num sentimento comum - e não sabemos qual mais grandioso, se o quadro medieval das Cruzadas ou se esta admirável cruzada para o futuro.
Seja qual for este regime porvir, traduza-se ele pela proteção constante do indivíduo pela sociedade, como pensa Spencer ou pelas inúmeras repúblicas, em que se diferenciará o mundo, segundo acredita Augusto Comte - ele será, antes de tudo, perfeitamente civilizador.
Que se passe sem lutas este dia notável. O socialismo, que tem hoje uma tribuna em todos os parlamentos, não precisa de se despejar nas revoltas desmoralizadas da anarquia.
Que saia às ruas das grandes capitais a legião vencedora e pacífica; e levante altares à esperança, nessa entrada iluminada de primavera, sem que se torne preciso ao glorioso vencido - o Exército - abandonar a penumbra em que lentamente emerge à medida que sobe a consciência humana.
E.C.
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o proletário,1º. maio  1899

Programa
I. Proibição do trabalho das crianças de qualquer dos sexos até a idade de 14 ou 15 anos.
II. Escolas gratuitas, com o ensino leigo e obrigatório para todas as crianças, sem distinção de sexo, de cor e de nacionalidade, tendo as crianças pobres todo o necessário para freqüentar as escolas: roupa, comida, cuidados médicos, farmácias, etc, etc.
III. Estabelecimentos apropriados para recolher os inválidos do trabalho, pobres, velhos e defeituosos, dando-lhes com abundância roupa, comida, médico, farmácia, etc., para não irem morrer nas enxergas dos hospitais e nos adros das igrejas, ou nas calçadas das ruas, implorando aviltadora caridade, ministrada pelos ricos, e remédios.
IV. Emancipação da mulher, reconhecendo-se-lhes iguais direitos e iguais deveres: aos do homem, inclusive o de votar e ser votadas.
V. Impostos diretos e pesadíssimos sobre a renda.
VI.Substituição das Forças Armadas pelo povo armado.
VII. Organização do trabalho por ser o único fator de riqueza.
VIII. Estabelecimento de bolsas de trabalho.
 IX. Proporcionar a preços módicos a cada família uma casa confortável para sua residência.
X. Fornecer água e luz grátis a todos em geral.
XI. Tribunais arbitrais obrigatórios para as questões internacionais.
XII. Justiça gratuita para todos.
XIII. Supressão dos empréstimos internos e externos.
XIV. Tribunais arbitrais para decidir as questões entre patrões e operários.
XV. Decretar leis de oito horas de trabalho e a proibição do trabalho à noite para os assalariados.
XVI. Leis repressivas contra os usurários, estabelecendo uma só taxa de juros para todos os negócios.
XVII. Nacionalização do crédito.
XVIII. Leis reguladoras da venda de bebidas, para acabar com o alcoolismo.
XIX. Leis que estabeleçam o divórcio, dando à mulher as mesmas garantias que ao homem.
XX. Pensão aos inválidos do trabalho.
XXI. Reivindicação dos bens do clero para a comunhão social.
                                                     A mensagem
Festa  exclusivamente popular, ela se destina a preparar o advento da mais nobre e fecunda das aspirações humanas : a reabilitação do proletariado pela exata distribuição da justiça, cuja fórmula suprema consiste em dar cada um o que cada um merece. Daí a abolição dos privilégios derivados quer do nascimento, quer da fortuna, quer da força. Para esse fim é mister promover a solidariedade entre todos os que formam a imensa maioria dos oprimidos sobre que pesam as grandes injustiças das instituições e preconceitos sociais da atualidade, destinados a desaparecer para que reine a paz e felicidade entre os povos civilizados. Promovendo, entre nós, a comemoração de uma data tão notável, o Clube "Filhos do Trabalho" promoverá a divulgação dos princípios essenciais do programa socialista, empenhando –se em difundi-los entre todas as classes sociais.

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O estado de s. paulo,  1º. maio  1904

 

Um velho problema


Li há tempos alentada dissertação sobre um singularíssimo direito expresso em velhas leis consuetudinárias da Borgonha. Direito de roubos...
Recordo-me que, surpreendido com tal antinomia, tão revolucionária, sobretudo para aquela época, ainda mais alarmado fiquei notando que a patrocinava o maior dos teólogos, S. Thomaz de Aquino; e com tal brilho e cópia de argumentos, que a perigosa tese repontava com a estrutura inteiriça de um princípio positivo. Realmente a repassava uma nobre e incomparável piedade, fazendo que aquela extravagância resumisse e espelhasse um dos aspectos mais impressionadores da justiça.
Tratava-se, ao parecer, de um código da indigência; e os graves doutores, no avantajarem-se tanto, rompendo com nobre rebeldia as barreiras da moral comum, para advogarem a causa da enorme maioria de espoliados, chegavam à conclusão de que a opulência dos ricos se traduzia como um delitum legale, um crime legalizado. Impressionava-os o problema formidável da miséria na sua feição dupla - material e filosófica - pois é talvez menos doloroso refletido nos andrajos das populações vitimadas, que na triste inopia de elementos da civilização para o resolver.
E como lhes faleciam, mais do que hoje nos falecem, elementos para a extinção do mal, justificavam aos desvalidos num crudelíssimo título de posse a todos os bens - a fome.
O indigente tornava-se um privilegiado afrontando impune toda a ortodoxia econômica. O roubo transmudava-se, do mesmo passo, num direito natural de legítima defesa contra a Morte e num dever imperioso para com a Vida.
Mas não foram além deste expediente, e dessas declamações, os piedosos doutores. Tolhia-os, senão a situação mental da Idade Média imprópria a uma apreciação exata do conjunto do progresso humano, a mesma ditadura espiritual do catolicismo, na plenitude de força, e para o qual a miséria - eloqüentíssima expressão concreta do dogma do pecado original - era sempre um horroroso e necessário capital negativo, avolumando-se com as provações e com os martírios para a posse anelada da bem-aventurança, nos céus...
Por outro lado, os pensadores leigos do tempo, e os que os encalçaram até ao século XVIII, não partiram esta tonalidade sentimental Mais sonhadores que filósofos, o que os atraía era o lado estético do infortúnio, a visão empolgante do sofrimento humano, a que nos associamos sempre pela piedade. Os seus livros, pelos próprios títulos hiperbólicos, à maneira dos das novelas do tempo, retratam uma intervenção brilhante e imaginosa, mas inútil. São como títulos de poemas. De fato, na Utopia de Thomaz Morus, na Oceana de Hallis, ou na Basilidade de Morelly, a perspectiva de uma existência melhor, oriunda da riqueza eqüitativamente distribuída e dos privilégios extintos, irrompe :num fervor de ditirambos, aos quais não faltam, para maior destaque, prólogos arrepiadores de agruras e tormentas indescritíveis...
As medidas propostas raiam pelos exageros máximos da fantasia: do nivelamento absoluto de João Libburne, ao platonismo adorável de Fontenelle e ao niilismo religioso de Diderot; e para lhes não faltar grotesco, esse cruel e antilógico grotesco imanente às mais trágicas situações, culmina-as o desvairado comunismo de Campanella com os seus trezentos monges, trezentos ascetas barbudos e melancólicos, tentando uma república igualitária que seria o desabamento de todas as conquistas do progresso.
Ora, tudo isto caracteriza bem o completo desequilíbrio das almas rudemente trabalhadas pelas doutrinas opostas e de todo desapercebidas, então, de uma síntese filosófica que ao mesmo passo as emancipasse do apego tradicional ao catolicismo, cuja missão findara, e dos impulsos demolidores da metafísica triunfante.
Assim, ao arrebentar a crise decisiva de 1789, não é de estranhar ficasse inapercebido, e talvez sacrificado, o grande problema que desde Pitágoras e Platão vinha agitando os espíritos. E que a grande revolução, inspirada pela filosofia social do século XVIII, oferece o espetáculo singular de repudiar, desde os seus primeiros atos, os seus próprios criadores. A consideração de Guizot é profunda: nunca uma filosofia aspirou tanto ao governo do mundo e nunca foi tão despida do império.
Os filósofos foram, de pronto, suplantados, na agitação revolta dos panfletos e da retórica explosiva dessa literatura política sempre efêmera, com ser modelada pelos desvarios repentinos da multidão. A sólida estrutura mental de um d’Alembert antepôs-se o espírito imaginoso e pueril de um Vergniaud, e aos sonhos desmedidos de Mably e excesso de objetivismo do trágico casquilho que passeou pelas ruas de Paris :a deusa da Razão...
De sorte que a última pancada do antigo regime - já longamente solapado e prestes a cair por si mesmo - se fez com excesso de energias que atirou sobre os destroços da ordem antiga as ruínas da ordem nova planeada. Exclusivamente atraída pelo programa, que se lhe afigurava enorme e pouco valia, de derruir as classes privilegiadas, a Revolução firmou, nos "direito:; do homem", um duro individualismo que na ordem espiritual significava a negação dos seus melhores princípios e na ordem prática equivalia a destruir as corporações populares, isto é, a única criação democrática da Idade Média.
"Os direitos do homem... No entanto, a fórmula superior daquela filosofia, visava, de preferência, através da solidariedade humana crescente, exatamente o contrário - os deveres do homem". Mas era exigir muito à loucura política do momento. Fazia-se mister, antes de tudo, que as franquias recém-adquiridas tivessem um traço incisivamente antiaristocrático. Que o camponês, absolutamente livre, fosse absolutamente dono da quadra de terra onde nascera e onde tanto tempo jazera aguilhoado à gleba feudal; enquanto o burguês das cidades pudesse agir libérrimo, dispondo a bel-prazer de todos os seus bens, despeado do liame das jurandes.
E o trono vazio dos Capetos teve em roda a concorrência tumultuária de não sei quantos milhões de liliputinianos reis...
Despojados o clero e a aristocracia de suas propriedades (não raro precárias como privilégios sujeitos aos caprichos do poder monárquico) ficou em seu lugar - intangível, absoluta e sacratíssima - a propriedade burguesa, para a qual o ilustre Condorcet não encontrara limites no texto que forneceu à Convenção.
Por isto, a breve trecho, se patenteou a inanidade das reformas executadas; ao invés de um número restrito de privilegiados, nos quais o egoísmo se atenuava com as tradições cavalheirescas da nobreza, um outro, maior e formado pela burguesia vitoriosa, mais inapta ainda a compreender a missão social da propriedade,. .ávida por dominar na arena livre que se lhe abria, e tornando maior o contraste entre a sua opulência recente e a situação inalterável do proletariado sem voto naquele tumulto e destinada apenas a colaborar anonimamente na epopéia napoleônica, quando em breve, culminando a catástrofe revolucionária, o mais pequenino dos grandes homens surgisse, concretizando a reação disfarçada do antigo regime, e fosse restaurar, entre os fulgores de uma glória odiosa, o anacronismo da atividade militar.
Destruída desta maneira a obra memorável da Convenção, vê-se, contudo, que ela tinha latentes e aguardando apenas um meio propício, os princípios de uma distribuição mais eqüitativa da fortuna. Para o rígido Camus a propriedade "não era um direito natural, era um direito social"; acompanhava-o neste conceito o romântico Saint Just; e sobre todos, mais incisivamente, num dizer claríssimo que lhe dá as honras de um precursor do coletivismo moderno, o incomparável Mirabeau atirava na anarquia das assembléias estas palavras singularmente austeras: "Le proprietarie n’est lui-même que le premier des salariés. Ce que nous appelons vulgairement la proprieté n’est autre chose que le prix qui lui paye la societé pour les distribuitions qu’il est chergé de faire aux autres individus par ses consommations et ses depenses. Les proprietaires sont les agents, les economes du corps social".
Estas frases admiráveis, porém, que ainda hoje, transcorridos cento e tantos anos, são a síntese de todo o programa econômico de socialismo, ninguém as escutou. De modo que à massa infelicíssima do povo, a quem a revolução libertara para a morte despeando-a da gleba para jungi-la ao carro triunfal de um alucinado, restavam ainda, como nos velhos tempos, apenas as fórmulas enérgicas, mas inócuas, de alguns doutores canonizados; e em pleno repontar do século XIX - quando a filosofia natural já aparelhara o homem para transfigurar a terra um triste, um repugnante, um deplorável, e um horroroso direito: o direito do roubo
Mas esta filosofia natural, tão crescentemente revigorada e favorecendo tanto, no século que passou, o ascendente industrial, era por si mesma - isolada no campo das suas investigações - inapta à verdadeira solução do problema. Dizem-no os insucessos de todos os que o consideraram esteando-se nela, das estupendas utopias de Saint-Simon e dos seus extraordinários discípulos, às alienações de Proudhon, às tentativas bizarras de Fourier e ao soçobro completo da política de Luiz Blanc.
Fora logo acompanhá-los. Se o fizéssemos, veríamos que, malgrado todos os recursos das ciências, eles pouco se avantajaram aos sonhadores medievais: o mesmo agitar de medidas fantásticas, e tão radicais, algumas, abalando tanto os fundamentos da sociedade, a começar pela organização da família, que acarretavam ante novos elementos perturbadores e novas faces à questão, dando-lhe um caráter por igual revolucionário e complexo capaz de a tornar  perpetuamente insolúvel.
Assim ela chegou até meados do último século - até Karl Marx - pois foi, realmente, com este inflexível adversário de Proudhon que o socialismo científico começou a usar uma linguagem firme, compreensível e positiva.
Nada de idealizações: fatos; e induções inabaláveis resultantes de uma análise rigorosa dos materiais objetivos; e a experiência e a observação, adestradas em lúcido tirocínio ao través das ciências inferiores; e a lógica inflexível dos acontecimentos; e essa terrível argumentação terra-a-terra, sem tortuosidades de silogismos, sem o idiotismo transcendental da velha dialética, mas toda feita de axiomas, de verdadeiros truísmos, por maneira a não exigir dos espíritos o mínimo esforço para a alcançarem, porque ela é quem os alcança independentemente da vontade, e os domina e os arrasta com a fortaleza da própria simplicidade.

A fonte única da produção e do seu corolário imediato, o valor, é o trabalho. Nem a terra, nem as má quinas, nem o capital, ainda coligados, as produzem sem o braço do operário. Daí uma conclusão irredutível: a riqueza produzida deve pertencer toda aos que trabalham. E um conceito dedutivo: o capital é uma espoliação.
Não se pode negar a segurança do raciocínio.
De efeito, desbancada a lei de Malthus, ante a qual nem se explicaria a civilização, e demonstrada a que se lhe contrapõe consistindo em que "cada homem produz sempre mais do que consome persistindo os frutos do seu esforço além do tempo necessário à sua reprodução" - põe-se de manifesto o traço injusto da organização econômica do nosso tempo.
A exploração capitalista é assombrosamente clara, colocando o trabalhador num nível inferior ao da máquina. De fato, esta, na permanente passividade da matéria, é conservada pelo dono; impõe-lhe constantes resguardos no trazê-la íntegra e brunida, corrigindo-lhe os desarranjos; e quando morre - digamos assim - fulminada pela pletora de força de uma explosão ou debilitada pelas vibrações que lhe granulam a musculatura de ferro, origina a mágoa real de um desfalque, a tristeza de um decréscimo da fortuna, o luto inconsolável de um dano. Ao passo que o operário, adstrito a salários escassos demais à sua subsistência, é a máquina que se conserva por si, e mal; as suas dores recalca-as forçadamente estóico; as suas moléstias, que, por uma cruel ironia, crescem com o desenvolvimento industrial - o fosforismo, o saturnismo, o hidrargirismo, o oxicarborismo - cura-as como pode, quando pode; e quando morre, afinal, às vezes subitamente triturado nas engrenagens da sua sinistra sócia mais bem aquinhoada, ou lentamente- esverdinhado pelos sais de cobre e de zinco, paralítico delirante pelo chumbo, inchado pelos compostos de mercúrio, asfixiado pelo óxido de carbônico, ulcerado pelos cáusticos dos pós-arsenicais, devastado pela terrível embriaguez petrólica ou fulminado por um coup de plomb - quando se extingue, ninguém lhe dá pela falta na grande massa anônima e taciturna, que enxurra todas as manhãs à porta das oficinas.
Neste confronto se expõe a pecaminosa injustiça que o egoísmo capitalista agrava, não permitindo, mercê do salário insuficiente, que se conserve tão bem como os seus aparelhos metálicos, os seus aparelhos de músculos e nervos; e está em grande parte a justificativa dos socialistas no chegarem todos ao duplo princípio fundamental:
             Socialização dos meios de produção e circulação;
             Posse individual somente dos objetos de uso.

Este princípio,  unanimemente aceito, domina toda a heterodoxia socialista - de sorte que as cisões, e são numerosas, existentes entre eles, consistem apenas nos meios de atingir-se aquele objetivo. Para alguns, e citam-se apenas João Ligg e Ed. Vaillant, os privilégios econômicos e políticos devem cair ao choque de uma revolução violenta. É o socialismo demolidor que, entretanto, menos aterroriza a sociedade burguesa. Outros, como Emílio Vendervelde, se colocam numa atitude expectante: as reformas serão violentas ou não, segundo o grau de resistência da burguesia. Finalmente, outros ainda - os mais tranqüilos e mais perigosos - como Ferri e Colajanni, corretamente evolucionistas, reconhecendo a carência de um plano já feito de organização social capaz de substituir, em bloco, num dia, a ordem atual das coisas, relegam a segundo plano as medidas violentas, sempre infecundas e só aceitáveis transitoriamente, de passagem, num ou noutro ponto, para abrirem caminho à própria evolução.
Ferri, em belíssimo paralelo entre o desenvolvimento social e o terrestre, mostra como os imaginosos cataclismos de Cuvier, perturbaram, sem efeito, a geologia para explicarem transformações que se realizam sob o nosso olhar, sendo os grandes resultados, que mal compreendemos no estreito círculo da vida individual, uma soma de efeitos parcelados acumulando-se na amplitude das idades do globo. Deslocando à sociedade este conceito, aponta-nos o processo normal das reformas lentas, operando-se na consciência coletiva e refletindo-se pouco a pouco na prática, nos costumes e na legislação escrita, continuamente melhoradas.
Nada mais límpido. Realmente, as catástrofes sociais só podem provocá-las as próprias classes dominantes, as tímidas classes conservadoras, opondo-se a marcha das reformas - como a barragem contraposta a uma corrente tranqüila pode gerar a inundação. Mesmo nesse caso, porém, a convulsão é transitória; é um contrachoque ferindo a barreira governamental. Nada mais. Porque o caráter revolucionário do socialismo está apenas no seu programa radical. Revolução: transformação. Para a conseguir, basta-lhe erguer a consciência do proletário, e - conforme a norma traçada pelo Congresso Socialista de Paris, em 1900 - aviventar a arregimentação política e econômica dos trabalhadores.
Porque a revolução não é um meio, é um fim; embora, às vezes, lhe seja mister um meio, a revolta. Mas esta sem a forma dramática e ruidosa de outrora. As festas do primeiro de maio são, quanto a este último ponto, bem expressivas. Para abalar a terra inteira, basta que a grande legião em marcha pratique um ato simplíssimo: cruzar os braços...
 Porque o seu triunfo é inevitável.
Garantem-no as leis positivas da sociedade que criarão o reinado tranqüilo das ciências e das artes, fontes de um capital maior, indestrutível e crescente, formado pelas melhores conquistas do espírito e do coração...

      





terça-feira, 21 de abril de 2015

Machado de Assis e Tiradentes

Neste dia, vale a pena reportar à importante ilação que  o maior nome da literatura brasileira construiu com uma das figuras primordiais da história nacional – ilação retratada  em um significativo conjunto de crônicas  escritas a propósito do  21 de abril.
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Talvez nenhum dos escritores do século XIX admirassem, reverenciassem e cultuassem Tiradentes como Machado de Assis : um vínculo respeitoso ,que remonta à sua postura política durante a década de 1860 , pelo qual Machado investiu Tiradentes com algo semelhante “a aura cristã do martírio e sacrifício” . Só que justamente essa aura,de ‘martírio e sacrifício’, e a loa machadiana ao “homem do povo que sofrera por sua visão de um Brasil  independente”  foram os fatores, ou motes, determinantes ,cruciais para tornar Tiradentes um ‘símbolo republicano’ – suprema ironia : Machado de Assis, simpatizante da monarquia e crítico da República, foi quem no fundo provocou a assunção do inconfidente  a ícone anti-monarquista , dele ‘apropriando-se’ o novo regime e instituindo o dia 21 de abril  como feriado nacional.

Machado fez de Tiradentes  tema em várias crônicas . A começar pelos ácidos comentários críticos à edificação da estátua de d. Pedro I  no Largo do Rocio (atual praça Tiradentes, no centro da cidade do Rio de Janeiro), que se constituiu em um dos maiores conflitos  políticos em torno da figura do alferes : no lugar onde fora enforcado ‘o mártir’, o governo imperial erguia uma estátua ao neto da rainha que o condenara à morte ; o líder liberal mineiro Teófilo Otoni  chamou a estátua de “mentira de bronze”, e Machado participou intensamente dos protestos.  

Na crônica de  1 abril de 1862, publicada no Diário do Rio de Janeiro, a propósito da festiva  inauguração da estátua, Machado escreveu :
 
Está inaugurada a estátua eqüestre do primeiro imperador.
Os que a consideram como saldo de uma dívida nacional nadam hoje em júbilo e satisfação.
Os que, inquirindo a história, negam a esse bronze o caráter de uma legítima memória, filha da vontade nacional e do dever da posteridade, esses reconhecem-se vencidos, e, como o filósofo antigo, querem apanhar mas serem ouvidos.
Já é de mau agouro se à ereção de um monumento que se diz derivar dos desejos unânimes do país precedeu uma discussão renhida, acompanhada de adesões e aplausos.
O historiador futuro que quiser tirar dos debates da imprensa os elementos do seu estudo da história do império, há de vacilar sobre a expressão da memória que hoje domina a praça do Rocio.
A imprensa oficial, que parece haver arrematado para si toda a honestidade política, e que não consente aos cidadãos a discussão de uma obra que se levanta em nome da nação, caluniou a seu modo as intenções da imprensa oposicionista. Mas o país sabe o que valem as arengas pagas das colunas anônimas do Jornal do Comércio.
O que é fato, é que a estátua inaugurou-se, e o bronze lá se acha no Rocio, como uma pirâmide de época civilizada, desafiando a ira dos tempos.
O Rocio vestia anteontem galas e louçanias desusadas.
As ruas por onde passou o préstito estavam ornadas de bandeiras e colchas, e juncadas de folhas odoríferas, segundo as exigências oficiais.
Mas sabe o leitor quem teve grande influência na festa de anteontem? O adjetivo. Não ria, leitor, o adjetivo é uma grande força e um grande elemento . (......)
Foi o adjetivo quem fez as despesas das arengas escritas anteriormente em defesa da estátua.(.....)


Três anos depois, a 25 abril 1865, publicou também no Diário do Rio de Janeiro uma crônica que é uma verdadeira ode a Tiradentes , inclusive prenunciando e acabando por vir a formalizar,tempos depois,  a mitificação do inconfidente – logo por Machado – e fomentar, depois de 1889, sua construção como signo da República :

“Os povos devem ter os seus santos. Aquele que os tem merece o respeito da história, e está armado para a batalha do futuro.
Também o Brasil os tem e os venera; mas, para que a gratidão nacional assuma um caráter justo e solene, é preciso que não esqueça uns em proveito de outros; é preciso que todo aquele que tiver direito à santificação da história não se perca nas sombras da memória do povo.
É uma grande data 7 de setembro; a nação entusiasma-se com razão quando chega êsse aniversário da nossa independência. Mas a justiça e a gratidão pedem que, ao lado do dia 7 de setembro, se venere o dia 21 de abril. E quem se lembra do dia 21 de abril? Qual é a cerimônia, a manifestação pública?
Entretanto, foi nesse dia que, por sentença acordada entre os da alçada, o carrasco enforcou no Rocio, junto à rua dos Ciganos, o patriota Joaquim José da Silva Xavier, alcunhado o Tiradentes.
A sentença que o condenou dizia que, uma vez enforcado, lhe fosse cortada a cabeça e levada a Vila Rica, onde seria pregada em um poste alto, até que o tempo a consumisse; e que o corpo, dividido em quatro pedaços, fosse pregado em postes altos, pelo caminho de Minas.
Xavier foi declarado infame, e infames os seus netos; os seus bens (pelo sistema de latrocínio legal do antigo regime) passaram ao fisco e à câmara real.
A casa em que morava foi arrasada e salgada.
Ora, o crime de Tiradentes foi simplesmente o crime de Pedro I e José Bonifácio. Ele apenas queria apressar o relógio do tempo; queria que o século XVIII, data de tantas liberdades, não caísse nos abismos do nada, sem deixar de pé a liberdade brasileira.
O desígnio era filho de alma patriótica; mas Tiradentes pagou caro a sua generosa sofreguidão. A idéia que devia robustecer e enflorar daí a trinta anos, não estava ainda de vez; a metrópole venceu a colônia; Tiradentes expirou pelo baraço da tirania.
Entre os vencidos de 1792, e os vencedores de 1822, não há senão a diferença dos resultados. Mas o livro de uma nação não é o livro de um merceeiro; ela não deve contar só com os resultados práticos, os ganhos positivos; a idéia, vencida ou triunfante, cinge de uma auréola a cabeça em que ardeu. A justiça real podia lavrar essa sentença digna dos tempos sombrios de Tibério; a justiça nacional, o povo de 7 de setembro, devia resgatar a memória dos mártires e colocá-los no panteon dos heróis.
No sentido desta reparação falou um dos nossos ilustrados colegas, nestas mesmas colunas, há quatro anos. As palavras dele foram lidas e não atendidas; não ousamos esperar outra sorte às nossas palavras.
Entretanto, consignamos o fato: o dia 21 de abril passa despercebido para os brasileiros. Nem uma pedra, nem um hino, recordam a lutuosa tragédia do Rodo. A última brisa que beijou os cabelos de Xavier levou consigo a lembrança de tamanha imolação.
Pois bem, os brasileiros devem atender que este esquecimento é uma injustiça e uma ingratidão. Os deuses podem aprazer-se com as causas vencedoras: aos olhos do povo a vitória não deve ser o criterium da homenagem.
É certo que a geração atual tem uma desculpa na ausência da tradição; a geração passada legou-lhe o esquecimento dos mártires de 1792. Mas por que não resgata o êrro de tantos anos? Por que não faz datar de si o exemplo às gerações futuras?
Falando assim, não nos dirigimos ao povo, que carece de iniciativa.
Tampouco alimentamos a idéia de uma dissensão política; conservadores ou liberais, todos são filhos da terra que Tiradentes queria tornar independente. Todavia, há razão para perguntar ao partido liberal, ao partido dos impulsos generosos, se não era uma bela ação, tomar ele a iniciativa de uma reparação semelhante; em vez de preocupar-se com as questões de subdelegados de paróquia e de influências de campanário.
Em desespero de causa, não hesitamos em volver os olhos para o príncipe que ocupa o trono brasileiro.
Os aduladores hão de ter-lhe lembrado que Tiradentes queria a república; mas o imperador é um homem ilustrado, e há de ver como se distancia dos aduladores o heróico alferes de Minas. Se os ânimos recuam diante de uma idéia que julgam ofensiva à monarquia, cabe ao príncipe sufocar os escrúpulos, tomando êle próprio a iniciativa de um ato que seria uma das mais belas páginas do seu reinado. Um príncipe esclarecido e patriota não podia fazer uma ação mais nobre, nem dar uma lição mais severa.
Uma cerimônia anual, com a presença do chefe da nação, com assistência do povo e dos funcionários do Estado, - eis uma coisa simples de fazer-se, e necessária para desarmar a justiça da história.
Não sabemos até que ponto devemos confiar nesta esperança; mas, ao menos, deixamos consignada a idéia.
Morro pela liberdade! disse Tiradentes do alto da forca: estas palavras, se o Brasil não reparar a falta de tantos anos, serão um açoite inexorável para os filhos do império.(......)

Em 1892, a propósito do centenário de morte de Tiradentes, Machado fez questão de marcar , o  início da importante série “A Semana”, publicadas na Gazeta de Notícias  de 1892 a 1900, escrevendo  em tom vibrante,pungente e patriótico no dia 24 abril  :
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Para não ir mais longe, Tiradentes. Aqui está um exemplo. Tivemos esta semana o centenário do grande mártir. A ,prisão do heróico alferes é das que devem ser comemoradas por todos os filhos deste país, se há nele patriotismo, ou se esse patriotismo é outra cousa mais que um simples motivo de palavras grossas e rotundas. A capital portou-se bem. Dos Estados estão vindo boas notícias. O instinto popular, de acordo com o exame da razão, fez da figura do alferes Xavier o principal dos Inconfidentes, e colocou os seus parceiros a meia ração de glória. Merecem, decerto, a nossa estima aqueles outros; eram patriotas. Mas o que se ofereceu a carregar com os pecados de Israel, o que chorou de alegria quando viu comutada a pena de morte dos seus companheiros, pena que só ia ser executada nêle, o enforcado, o esquartejado, o decapitado, esse tem de receber o prêmio na proporção do martírio, e ganhar por todos, visto que pagou por todos..
Um dos oradores do dia 21 observou que a Inconfidência tem vencido, os cargos iam. para os outros conjurados, não para o alferes.. Pois não é muito que, não tendo vencido, a história lhe dê a principal cadeira. A distribuição é justa. Os outros têm ainda um belo papel; formam, em torno de Tiradentes, um coro igual ao das Oceânides diante de Prometeu encadeado. Relede Ésquilo, amigo leitor. Escutai a linguagem compassiva das ninfas, escutai os gritos terríveis, quando o grande titão é envolvido na conflagração geral das coisas. Mas, principalmente ouvi as palavras de Prometeu narrando  os seus crimes às ninfas amadas : Dei o fogo aos homens; esse mestre lhes ensinará todas as artes". Foi o que nos fez  Tiradentes. .
Entretanto, o alferes Joaquim José tem ainda contra si uma cousa, a alcunha. Há pessoas que o amam, que o admiram, patrióticas e humanas, mas que não podem tolerar esse nome de Tiradentes. Certamente que o tempo trará a familiaridade do nome e a harmonia das sílabas; imaginemos, porém, que o alferes tem podido galgar pela imaginação um século e despachar-se cirurgião - dentista. Era o mesmo· herói, e o ofício era o mesmo; mas traria outra dignidade. Podia ser até que, com o tempo, viesse a perder a segunda parte, dentista, e quedar-se apenas cirurgião.(....)

Um mês depois, Machado torna a referir-se ao alferes ,  utilizando-se do tom mais irônico que sua contumaz verve satírica poderia conceber. Na crônica de 22 maio, estampada no mesmo jornal, o sarcasmo machadiano chega a criar uma fantasia – cheia de significados -- ao construir impagável narrativa, exemplar insofismável do alegórico,  acerca de um embuste imaginário :
“Este Tiradentes, se não toma cuidado emr si, acaba inimigo público. Pessoa, cuje nome ignoro, escreveu esta semana algumas linhas com o fim de retificar a opinião que vingou, durante um longo século, acerca do grande mártir da Inconfidência. "Parece (diz o artigo no fim) parece injustiça dar-se tanta importância a Tiradentes, porque morreu logo, e não prestar a menor consideração aos que morreram de moléstias e misérias na costa d'África." E logo em seguida chega a esta conclusão: "Não será possível imaginar que, se não fosse a indiscrição de Tiradentes, que causou o seu suplício, e o dos outros, que o empregaram, teria realidade o projeto ?"
Daqui a espião de polícia é um passo. Com outro passo chega-se à prova de que  ele nem mesmo morreu; o vice-rei mandou enforcar um furriel muito parecido com o alferes, e Tiradentes viveu até 1818 de uma pensão que lhe dava D. João VI. Morreu de um antraz, na antiga rua dos Latoeiros, entre as do Ouvidor e do Rosário, em uma loja de barbeiro, dentista e sangrador, que abriu em 1810, a conselho do próprio D. João, ainda príncipe regente, o qual lhe ·se (formais palavras):
- Xavier, já que não podes ser alferes, ,ma por ofício o que fazias antes por curioso ; vou mandar dar-te umas casas da rua ,os Latoeiros ...
- Oh ! meu senhor I
- Mas não digas quem és. Muda de nome, Xavier; chama-te Barbosa. Compreendes, não ? O meu fim é criar a lenda que tu é que foste o mártir e o herói da  Inconfidência, e diminuir assim a glória de João Alves Maciel.
- Príncipe sereníssimo, não há dúvida que esse é que foi o chefe da detestável conjuração.
- Bem sei, Barbosa, mas é do meu real agrado passá-lo ao segundo plano, para fazer crer que, apesar dos serviços que prestou, das qualidades que tinha e das cartas de Jefferson, pouco valeu, e que tu é que vales tudo. É um plano maquiavélico, para desmoralizar a conjuração. Compreendes agora ?
- Tudo, meu senhor.
- Assim é bem possível que, se algum dia, quiserem levantar um monumento à Inconfidência, vão buscar por símbolo o mártir, dando assim excessiva importância ao alferes indiscreto, que pôs tudo de pernas para o ar, e a pretexto de haver morrido logo. Não abanes a cabeça; tu não conheces os homens. Adeus; passa pela ucharia, que te dêem um caldo de vaca, e pede por Sua Real Majestade e por mim nas tuas orações, Consinto que também rezes pelo furriel Como se chamava ? Esquece-me sempre o nome.
- Marcolino.
- Reza pelo Marcolino.
- Ah! Senhor, os meus cruéis remorsos nunca terão fim!
- Barbosa, têm sempre fim os remorso! de um leal vassalo!

E assim ficará retificada a história, antes de 1904 ou 1905, Tiradentes será apeadodo pedestal que lhe deu um sentimentalismo que se .lembra de glorificar um só porque morreu logo, como se não morresse sempre antes de outros, e demais, enforcado, que é morte Quanto ao esquartejamento e exposição da cabeça, está provado empírica cientificamente que cadáver não padece, e tanto faz cortar-lhe as pernas como dar-lhe calças. Mas ainda restará alguma coisa ao alferes ; pode-se-lhe expedir a patente de capitão honorário. Se está no céu, e se os mártires formam lá em cima, pode comandar uma companhia. Antes isso que nada. (.....)

E um ano depois, a 23 abril 1893,  menciona Tiradentes e sua coragem e disposição para sacrificar a vida –  ainda que graciosa e bem-humoradamente :
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Para mistério, mistério e meio. Saí dali, corri à casa de um armeiro, onde comprei algumas espingardas e bastante cartuchame. Além disso, com o pretexto de saudar o dia 21 de abril, alcancei por empréstimo duas peças de artilharia. Assim armado, recolhi-me a 1 casa, jantei, digeri, e meti-me na cama. Naturalmente não dormi; mas também não vi a aurora, nem o sol de quinta-feira. Portas e janelas fechadas. Nenhum rumor em casa, comidas frias para não fazer fogo, que denunciasse pelo fumo a presença de refugiados. Ensinei à família a senha monástica; andávamos calados, interrompendo o silêncio de quando em quando para dizermos uns aos outros que era preciso morrer. Assim se passou a quinta-feira.
Na sexta-feira, pelas seis horas da manhã, ouvi tiros de artilharia. Ou é a salva de Tiradentes, disse à família, ou é a revolução que venceu. Saí à rua; era a salva. Perguntei pelos mortos. Que mortos ? Pelos acontecimentos. Que acontecimentos ? Nada houvera; toda a cidade vivera em paz. Assim se desvaneceram os sustos, filhos de boatos, filhos da imaginação. Assim se desvaneçam todos os demais ovos do marido de La Fontaine.
Só um fato se havia dado, como disse, o do coreto. Fui à praça ver os destroços, mas já não vi nada; achei a estátua e curiosos. Desandei, atravessei o largo de S. Francisco e desci pela rua do Ouvidor, ao encontro do préstito de Tiradentes. Soube que já não havia préstito. Era pena; esta cidade tem, para Tiradentes, não só a dívida geral da glorificação, como precursor da independência e mártir da liberdade, mas ainda a dívida  particular do resgate. Ela festejou com pompa a execução do infeliz patriota, no dia 21 de abril de 1792, vestindo-se de galas e ouvindo cantar um Te-Deum.
Espiando para casa , lembrei-me que esse dia 21 era ainda aniversário de outra tentativa política. O povo desta cidade e os eleitores convocados revolucionariamente pelo juiz da comarca, reuniram-se na praça do Comércio e pediram ao rei a constituição espanhola, interinamente. A constituição foi dada na mesma noite, contra a vontade de algumas pessoas, e retirada no dia seguinte, depois de alguns lances próprios de tais crises, não por ser constituição, - visto que, dois anos depois, tínhamos outra -- mas naturalmente por ser espanhola. De Espanha só mulheres, guitarras e pintores.(......)

As referências e menções a Tiradentes – como de resto os comentários e alusões feitas a diversas personalidades históricas, assim como a cobertura dos fatos políticos de sua época – constituem provas e exemplos eloqüentes do quanto Machado de Assis participava ativamente da história (política,institucional, econômica, social) e em nada – ao contrário da equivocada interpretação, que exige de uma vez por todas sua revisão – era alheio às questões de seu tempo.
Certamente pelo uso do subterfúgio, da dissimulação, da sutileza – e do disfarce e do enigma—Machado de Assis recebeu, indevidamente, a pecha de “despolitizado”, “alienado”, “alheio às questões políticas e sociais de seu tempo”.
Ledo e puro engano. Machado de Assis foi um crítico ‘avassalador’ da sociedade e das instituições brasileiras, e escreveu – ou a elas se referiu -- em crônicas e artigos, mesmo em  contos e romances e até na poesia. , sobre política (muito) [e,para surpresa de alguns, sobre economia (em menor monta)]. Machado de Assis tinha opiniões políticas — era um monarquista liberal, não apoiava a República, repudiava Floriano Peixoto (que ,apoiado em golpe de Estado em 1891, governava com poderes autoritários, levando o País à ditadura, à censura e à guerra civil) —  e por meio de sua obra é possível observar a política brasileira de sua época através do olhar literário. Raymundo Faoro (em A pirâmide e o trapézio ) sentenciou que pode-se vislumbrar toda a sociedade brasileira do século XIX na obra  de Machado : tanto na não-ficção quanto na ficção, arrancou da História a própria substância de suas narrativas e textos , utilizando uma série de categorias políticas - escravidão, liberdade, golpe de Estado, censura ,aparelho policial, autocracia absolutista,totalitarismo, etc – na elaboração,em sua  escritura literária, de uma  crítica da ideologia brasileira e de uma teoria política avançada,que no campo dos estudos literários não foi adequadamente percebida pelos especialistas.
As crônicas e artigos tratando de política são justamente aquelas que registram opiniões nunca expressadas por Machado com tanta clareza e coerência.