Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

“nasci no 13 de maio ,por isso sou assim ,negro e marginalizado(...)”


a bem da justiça e da riqueza cultural de um país que se pretende civilizado, o Brasil não deve deixar de comemorar o nascimento, em 13 de maio,dia , de um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos – que não chegou a ser um virtuose, mas produziu pelo menos três dos maiores romances da literatura nacional , um número significativo de pequenas obras-primas do conto e um conjunto excepcional de crônicas que representam um retrato da cidade do Rio de Janeiro e do Brasil como nenhum outro construiu em seu tempo; além de memoráveis obras de sátira.

São de Afonso Henriques de Lima Barreto (13.05.1881/01.11.1922) os três romances ímpares – Recordações do escrivão Isaias Caminha (1909)-- no ano presente, centenário de sua publicação em livro -- Triste fim de Policarpo Quaresma (1911), Vida e morte de M.J. Gonzaga de Sá (1919); saíram de sua pena muitas obras-primas contísticas-- como “O homem que sabia javanês”, “A nova Califórnia”, “A sombra do Romariz”, “O moleque”, “O número da sepultura”, “A biblioteca”, a série (quase inédita) “contos argelinos”, um conjunto (também semi-inédito) ‘contos políticos’ -- e as vigorosas crônicas publicadas em inúmeros jornais e revistas -- abrigadas nas coletâneas póstumas Bagatelas (1923),Feiras e mafuás (1953), Marginalia (1953),Vida urbana (1953) ; além de duas marcantes novelas --Numa e a ninfa (1915) ; Clara dos Anjos(1948) -- memoráveis obras de sátira – Aventuras do dr. Bogoloff (1912), Os Bruzundangas (1922) e Coisas do Reino de Jambon (1952) – memorialística -- Diário íntimo (1953) e O cemitério dos vivos (1953) -- e de crítica literária --Impressões de leitura (1953).
Tanto na ficção quanto na obra não-ficcional, virtuose não podia ser, porquanto a par de outros aspectos — um deles, criticado que foi por alguns (incautos) por força de um “estilo desleixado” e um texto “cheio de erros gramaticais”(sic) — era conscientemente praticante de uma escrita diferenciada de seus pares, até porque ele mesmo diferenciado literária,ideológica e socialmente de seus contemporâneos. Seus textos são exemplos de relações e interações entre modos tradicionais de narrar e as especificidades da escrita moderna : com seu estilo simples, direto e objetivo, que feria o convencionalismo literário da época, impregnado de falsas concepções estéticas, floreios , etc ,impôs os prenúncios do Modernismo logo a seguir irrompante na cultura brasileira, cujos primeiros elementos e formas apareceram justamente pela linguagem típica da escrita barretiana -- tanto que foi reverenciado, à época, pelos modernistas e hoje consagrado como um renovador (revolucionário) e autêntico formulador da linguagem literária brasileira que atravessou o século XX e tem sua expressão contemporânea no que se faz hoje na ficção urbana.
A problemática existencial de Lima Barreto, marcada sobretudo pela origem negra e pobre e por dramas familiares, enfim pela marginalidade, formaram, sedimentaram e conduziram sem dúvida o espírito de intelectual combativo,engajado, consciente ,atuante, fazendo-o destoar do cenário literário de seu tempo e forjaram uma temática ficcional e uma forma literária que rompe com os cânones da escrita de então. O tom de denúncia conferido por ele à sua literatura emerge com muita intensidade e frequência em todos seus textos , seja nos romances e contos seja nas crônica --- tematizantes em sua essência da discriminação racial e social, o preconceito de cor, o vazio moral, intelectual e ético dos políticos, a ganância e a ambição, o arrivismo, o bovarismo, a miséria e a opressão social .
Nos artigos e crônicas,nos romances e nos contos, Lima Barreto é um dos mais profícuos e instigantes analistas da realidade brasileira. Sua obra ficcional e não-ficcional desenvolvem-se em torno de cinco eixos temáticos : a política; a mulher; o cotidiano da cidade; o subúrbio; a vida literária – mas com um tema nuclear : o poder e seus efeitos discricionários — o poder visto e descrito por ele como “o variado conjunto de elementos, vetores e procedimentos encadeados no interior da sociedade, compondo grandes e pequenas cadeias, visíveis e invisíveis, tendentes a restringir e constringir o pensamento dos homens, coibindo-lhes as possibilidades de afirmação, pessoal, cultural, profissional, social, e a justa inserção social”.
Na ficção ,poucos, na literatura brasileira – nem mesmo Machado de Assis-- criaram e apresentaram um elenco de personagens tão variado e vasto – homens e mulheres despojados pela sorte, políticos empenhados unicamente com o poder , pseudo- intelectuais abarrotados de retórica e voltados para a futilidade, militares crentes da própria infabilidade e “ignorantes das coisas da guerra”, os donos de jornais venais e corruptos, os magnatas, banqueiros, empresários, fazendeiros do café, os burocratas ,pequenos burgueses, arrivistas,charlatães,almofadinhas, melindrosas,aristocratas, gente do subúrbio, operários, artesãos, vadios, mendigos,bêbados, meliantes, prostitutas,mandriões,subempregados, artistas, coristas, alcoviteiras, funcionários, moças casadoiras, noivas, solteironas, loucos, adúlteros, agitadores, usurários, estrangeiros.Sobretudo procurando dar voz e vida aos “humilhados e ofendidos”, aos excluídos sociais ,em especial ao negro : falava sempre em escrever “a História da Escravidão Negra no Brasil e sua influência em nossa nacionalidade” – que no entanto ficou apenas no projeto ; pensou também num romance descrevendo “a vida e o trabalho dos negros numa fazenda... uma espécie de Germinal negro [ referência à famosa obra de Èmile Zola], com mais psicologia especial e maior sopro de epopéia”, sustentando que seria sua “obra-prima” com a qual introduziria na literatura brasileira uma nova escola, o “negrismo”—que não levou adiante; mas em 1903 escreveu uma peça teatral em um ato, “Os negros”, que permanece praticamente inédita [oportunamente a publicaremos neste espaço, o que se constituirá em empreendimento histórico]. Esses ideais e projetos na verdade iriam em parte consubstanciar-se no romance que começou a escrever em 1904, “Clara dos Anjos” – originado do conto com mesmo título – não concluído e que veio a ser publicado postumamente (1948) como novela inacabada : nela, expõe como tema a humilhação não apenas da mulher mas de toda a população negra do Brasil – exatamente no dia 13 de maio a mulata Clara é seduzida e deflorada por um rapaz branco que recusa casar e a abandona ...
A Lima Barreto cabe o mérito de ter introduzido na literatura brasileira, de forma contundente,incisiva, consistente – como nem os autores do Realismo o fizeram – a temática social de modo crítico. O caráter militante de sua literatura adquire funções revolucionárias –inclusive tendo ele,ideologicamente se manifestado como um “maximalista”,que equivalia à época ser um misto de anarquista e socialista (em algumas crônicas enalteceu a Revolução Russa de 1917 e o novo regime implantado) – sua escrita combativa utiliza-se da ficção como meio de expressar os problemas sociais que enxerga na sociedade brasileira, especialmente na ordem republicana.
A rigor e na essência, Lima Barreto sempre tratou mais de política do que qualquer outro tema: ninguém como ele, em seu tempo, escreveu tanto sobre o tema e,por extensão, sobre questões sociais . Sua ‘literatura militante’, assim por ele definida, determina o caráter marginal de sua obra ; sua visão crítica da sociedade o fez enveredar concreta e irreversivelmente no caminho da luta social; nos jornais e revistas investiu contra todos os signos do poder, nos textos ficcionais denunciou as profundas injustiças da sociedade brasileira. As colaborações para revistas e jornais ‘alternativos’ da época, oposicionistas -- O Debate, O Careta, A Lanterna,
Rio-Jornal,A .B . C., Hoje -- constituem o conjunto de maior teor explícito de crítica política e social aos problemas do País e à República, da qual se fez opositor irascível e irreversível, implacável e demolidor : utilizando os recursos da sátira, da ironia, da caricatura, da crítica contundente, desmontou todo o esquema de sustentação do regime republicano recém-implantado. Crítico intransigente dos presidentes republicanos, da intervenção dos militares na política , de formas de governo autoritário e ultracentralizado ,de todo e qualquer tipo de violência na sociedade, das ideologias intolerantes , não se cansou de causticar por toda sua obra as mazelas do governo republicano, o grau de corrupção política e econômica que empestava o regime .
Ao mesmo tempo, nunca silencioso sobre seu tempo, Lima Barreto não poderia pois ficar alheio à situação da mulher na realidade social brasileira do início do século XX, época de tantas e profundas transformações na sociedade. Sempre deu à mulher espaço significativo em sua obra não-ficcional e ficcional. Retratou-a e a fez protagonista nos romances e novelas — haja visto Olga e Edgarda em Triste fim de Policarpo Quaresma; Clara e Castorina em Clara dos Anjos; Efigênia em O cemitério dos vivos; Cecília em Diário íntimo , Edgard e Ângela em Numa e a ninfa — e em contos como “Um especialista”, “O filho da Gabriela”,”Um e outro”,”Miss Edith e seu tio”,”Cló”,”Adélia”,”Lívia”,”Clara dos Anjos”,”Uma vagabunda”,”Uma conversa vulgar”,”O número da sepultura”,”Quase ela deu o sim, mas...”,”Numa e a ninfa”,”A cartomante”,”O cemitério”,”Na janela”, “A mulher do Anacleto” : em todos, as mulheres têm sempre atitudes e comportamento progressista e são superiores aos maridos.Em artigos e crônicas ,apontamentos e notas, comenta a situação da mulher perante o casamento, a moral que lhe é imposta pelos códigos sociais, o mundo da prostituição , as oportunidades educacionais e profissionais,os direitos femininos, o feminismo e o início do movimento feminista no Brasil, o voto feminino,a literatura feminina, a desigualdade de julgamento nos casos de adultério (célebres – e vigorosos -- são seus textos de protesto contra a absolvição de homens em casos de crimes de uxoricídio nos quais eram evocados o indefectível ‘legítima defesa da honra’...).
Em outro viés, no cotidiano da cidade, estão suas tiritatibes ficcionais e não-ficcionais contra a modernização, a reforma urbana, o cinema, o carnaval e sobretudo futebol — visto por ele como ‘instrumento e meio de estrangeirismo’, de assimilação de elementos, valores e hábitos copiados em prol de uma “pretensa,falsa, artificial e detestável progresso bem a gosto desta República de bacharéis e aristocratas”.

Não mais fosse por outros argumentos, mormente por motivos ideológicos, foi criticado (por vezes e por alguns ainda é) pelas “imperfeições de estilo” e pelo “tom caricatural” com que retrata seus personagens . Os exemplos de “erros gramaticais” apontados em sua obra ficcional não caracterizam necessariamente um desconhecimento das regras do escrever, e sim o que filólogos configuram como “concordância ideológica” : segundo o professor e filólogo Silva Ramos defeitos e irregularidades em Lima Barreto decorrem não de uma ‘imperícia gramatical’ mas provêm de uma escolha feita pelo autor, dentre mais de um processo de expressão,que possibilita a tradução de seu pensamento ou sentimento : não são as palavras, a ordem em que são dispostas que valem, mas as idéias que exprimem, os sentimentos que fazem vibrar. O segundo elemento, que absolutamente implica em ‘superficialidade’ , encontra resposta à altura por parte de Lucia Miguel Pereira , segundo quem Lima Barreto, assim como Machado de Assis, tem sua escrita contística caracterizada por “explorações em profundidade, suas criaturas sempre indagando a existência”.( in Prosa de ficção: de 1870 a 1920 )
Marginalizado por suas origens e condição social, execrado por ser ‘passadista e contrário à modernização’, Lima Barreto enfrentou as marcas de seu tempo e da sociedade brasileira que lhe foi contemporânea .Seu projeto era um projeto para uma vida inteira de militância literária contra o preconceito, mas também “contra os falsos intelectuais, contra um academismo espelhado no modelo europeu, contra uma literatura só de deleite, como ornamento”. Para ele, a literatura era uma verdadeira missão – ideal expresso categoricamente no artigo “Amplius!”., publicado originalmente no primeiro número da Floreal, em 25.10.1907 , depois em A Época, em 18.02.1916, e incorporado como abertura da coletânea de contos Histórias e sonhos ), em que sentenciava : “(...)A literatura do nosso tempo (...)possa ela realizar, pela virtude da forma,(...) a comunhão dos homens de todas as raças e classes, fazendo que todos se compreendam, na infinita dor de serem homens, e se entendam sob o açoite da vida, para maiorglória e perfeição da humanidade. (...).” Conferiu à sua obra o sentido militante de uma “missão social, de contribuir para a felicidade de um povo,de uma nação, da humanidade” – conceito reflexivo de felicidade também exposto nas páginas do romance Vida e morte de M.J.Gonzaga de Sá quando o protagonista conversa com o personagem Augusto Machado :
“(...) Imaginas tu que Mme. Belasman, de Petr6polis, tem um grande joanete, um defeito hediondo, com o qual sobremaneira sofre ; e o operário Felismino, da Mortona, orgulha-se em possuir um filho com talento. ( ... ) à vista disso, poderás dizer que todas as damas de Petr6polis são felizes e os operários da fundição são desgraçados? Há média possível para a felicidade das classes? N6s, os modernos, nos vamos esquecendo que essas hist6rias de classe, de povos, de raças, são tipos de gabinete, fabricados para as necessidades de certos tipos de edifícios l6gicos, mas que fora deles desaparecem completamente ( ... )”

Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

Machado e a crise


há exatos 145 anos, uma crise econômico-financeira assolou a praça do Rio de Janeiro(a Corte), e Machado de Assis, claro, tratou dela em crônicas.


Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Livro , objeto do desejo do Leitor


As considerações aqui traçadas referem-se ao livro que circula e é comercializado no denominado ‘mercado livreiro’, excluídos desse cenário de comentários e observações os livros didáticos e paradidáticos, que têm mecânica e dinâmica próprias de circulação e difusão.


Não se pode pensar, falar, fazer, editar e publicar __ inclusive ler __ literatura, ficcional e não-ficcional, no Brasil sem se levar em consideração o fato de que é veiculada por meio de um objeto denominado Livro. O objeto-livro circula de maneira limitada e deficitária, numa média de 2 mil exemplares (cada edição) num país de 180 milhões de habitantes. No melhor dos casos, 10 a 12 mil exemplares ( cinco ou seis edições sucessivas) circulam pelo país no correr de quinze anos, podendo o total de leitores ser calculado na base otimista de 80 a 100 mil. A proporção de 100 mil leitores para 180 milhões de habitantes é deprimente e seria erro crasso e grosseiro imaginar e desejar que um texto literário atinja diferentes camadas sociais .
Por outro lado, constata-se por números e pela realidade do mercado que o leitor brasileiro mantém contato direto e permanente com obras estrangeiras, de quase todos os gêneros. Pesquisas e análises confirmam que o leitor brasileiro é pouco, ou quase nada, xenófobo e agrada-lhe uma certa generalidade/diversidade temática (muitos chamam de “globalismo”). Por essa ausência de xenofobia e exigência de universalismo , de um lado o livro estrangeiro tem melhor mercado que o nacional entre nós e, por outro, ainda não tivemos sucesso internacional com nossa produção — mesmo considerando primeiro José Mauro de Vasconcelos, depois Jorge Amado, e agora Paulo Coelho.
Pode-se dizer que o livro no Brasil é um “luxo” Objeto caro, por um lado; um tanto quanto "difícil" por circular num país de analfabetos ou semi-analfabetos; marginalizado numa nação onde tudo é feito para incrementar os meios de comunicação de massa e nada para incentivar a rede de bibliotecas, prejudicado (para uns, “sabotado” mesmo) quando ameaça expandir seus horizontes e searas e arrebanhar outros leitores que não os seus 80 ou 100 mil.
O autor não pode escolher seus leitores. Estes é que determinam que autores e obras vão escolher, comprar e ler. O escritor brasileiro faz o livro que vai ser escolhido (ou eleito) pelo leitor —e antes de mais nada terá de agradar ao gosto refinado, cosmopolita e auto-suficiente dos “incluídos e bem assentados”. O que existe é um público-leitor reduzidíssimo, ao mesmo tempo sofisticado, conservador , cosmopolita, imediatista e ‘avoado’ (o que leva os autores também a sê-lo, em seus textos,ficcionais ou não). Público-leitor que hoje vive predominantemente na grande metrópole de ritmo vertiginoso, tensa e trepidante, dedicando esse leitor muito maior aceitação, na ficção, às narrativas curtas (o conto, a crônica) e na não-ficção aos textos ligeiros, superficiais ( coletâneas de artigos antes vistos na imprensa, reportagens sucintas e incompletas, ensaios supérfluos e banais, manuais de “busca do prazer e onisciência e onipotência”) .
O público de literatura ficcional e não-ficcional , no Brasil, é formado por camadas mais ou menos previsíveis e semelhantes de leitores, reproduzindo-se identicamente de estado para estado. Leitores que vão desde o próprio escritor, passando pelo professor e aluno universitários (o professor indica e exige a leitura do aluno), esbarrando no crítico e no resenhista , e se espraiando aleatoriamente pelos muitos que necessitam obter uma espécie de compensação, ou bálsamo, às suas frustrações, angústias, imperfeições, a seu inconformismo individual , político e social — leitores que vivem dentro do (teoricamente) bem-estar e comodidades inerentes à classe média. O Livro é, pois, objeto de classe no Brasil, e como tal dirige-se a uma determinada e mesma classe, esperando dela aplauso e reconhecimento profundos.
Não podendo ser profissional numa sociedade em que seu produto não circula devidamente e não é rentável, em que tampouco pode crer em dispositivos estatais ou empresariais que o amparem economicamente e em que o produto estrangeiro e concorrente é adquirido com mais constância, o escritor brasileiro (claro que com raríssimas exceções, talvez só uma ou duas)dispõe apenas do que sua própria classe social lhe possibilite em termos de aceitação e vendagem de sua obra,e sobrevive apenas da remuneração de outras atividades profissionais . Auspicioso, todavia, é o fato de ser o leitor o agente decisório de uma opção pessoal, de um desejo próprio que não lhe é imposto, mesmo com uma eventual carga promocional e ‘marqueteira’ à sua volta na divulgação maciça de certas obras e certos autores.

Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

Machado de Assis e Tiradentes


Neste dia, vale a pena reportar à importante ilação que o maior nome da literatura brasileira construiu com uma das figuras primordiais da história nacional – ilação retratada em um significativo conjunto de crônicas escritas a propósito do 21 de abril.

Talvez nenhum dos escritores do século XIX admirassem, reverenciassem e cultuassem Tiradentes como Machado de Assis : um vínculo respeitoso ,que remonta à sua postura política durante a década de 1860 , pelo qual Machado investiu Tiradentes com algo semelhante “a aura cristã do martírio e sacrifício” . Só que justamente essa aura,de ‘martírio e sacrifício’, e a loa machadiana ao “homem do povo que sofrera por sua visão de um Brasil independente” foram os fatores, ou motes, determinantes ,cruciais para tornar Tiradentes um ‘símbolo republicano’ – suprema ironia : Machado de Assis, simpatizante da monarquia e crítico da República, foi quem no fundo provocou a assunção do inconfidente a ícone anti-monarquista , dele ‘apropriando-se’ o novo regime e instituindo o dia 21 de abril como feriado nacional.
Machado fez de Tiradentes tema em várias crônicas . A começar pelos ácidos comentários críticos à edificação da estátua de d. Pedro I no Largo do Rocio (atual praça Tiradentes, no centro da cidade do Rio de Janeiro), que se constituiu em um dos maiores conflitos políticos em torno da figura do alferes : no lugar onde fora enforcado ‘o mártir’, o governo imperial erguia uma estátua ao neto da rainha que o condenara à morte ; o líder liberal mineiro Teófilo Otoni chamou a estátua de “mentira de bronze”, e Machado participou intensamente dos protestos.
Na crônica de 1 abril de 1862, publicada no Diário do Rio de Janeiro, a propósito da festiva inauguração da estátua, Machado escreveu :
Está inaugurada a estátua eqüestre do primeiro imperador. Os que a consideram como saldo de uma dívida nacional nadam hoje em júbilo e satisfação. Os que, inquirindo a história, negam a esse bronze o caráter de uma legítima memória, filha da vontade nacional e do dever da posteridade, esses reconhecem-se vencidos, e, como o filósofo antigo, querem apanhar mas serem ouvidos. Já é de mau agouro se à ereção de um monumento que se diz derivar dos desejos unânimes do país precedeu uma discussão renhida, acompanhada de adesões e aplausos. O historiador futuro que quiser tirar dos debates da imprensa os elementos do seu estudo da história do império, há de vacilar sobre a expressão da memória que hoje domina a praça do Rocio.
A imprensa oficial, que parece haver arrematado para si toda a honestidade política, e que não consente aos cidadãos a discussão de uma obra que se levanta em nome da nação, caluniou a seu modo as intenções da imprensa oposicionista. Mas o país sabe o que valem as arengas pagas das colunas anônimas do Jornal do Comércio. O que é fato, é que a estátua inaugurou-se, e o bronze lá se acha no Rocio, como uma pirâmide de época civilizada, desafiando a ira dos tempos.

Três anos depois, a 25 abril 1865, publicou também no Diário do Rio de Janeiro uma crônica que é uma verdadeira ode a Tiradentes , inclusive prenunciando e acabando por vir a formalizar,tempos depois, a mitificação do inconfidente – logo por Machado – e fomentar, depois de 1889, sua construção como signo da República.

Em 1892, a propósito do centenário de morte de Tiradentes, Machado fez questão de marcar , o início da importante série “A Semana”, publicadas na Gazeta de Notícias de 1892 a 1900, escrevendo em tom vibrante,pungente e patriótico no dia 24 abril .

Um mês depois, Machado torna a referir-se ao alferes , utilizando-se do tom mais irônico que sua contumaz verve satírica poderia conceber. Na crônica de 22 maio, estampada no mesmo jornal, o sarcasmo machadiano chega a criar uma fantasia – cheia de significados -- ao construir impagável narrativa, exemplar insofismável do alegórico, acerca de um embuste imaginário.E um ano depois, a 23 abril 1893, menciona Tiradentes e sua coragem e disposição para sacrificar a vida – ainda que graciosa e bem-humoradamente .

As referências e menções a Tiradentes – como de resto os comentários e alusões feitas a diversas personalidades históricas, assim como a cobertura dos fatos políticos de sua época – constituem provas e exemplos eloqüentes do quanto Machado de Assis participava ativamente da história (política,institucional, econômica, social) e em nada – ao contrário da equivocada interpretação, que exige de uma vez por todas sua revisão – era alheio às questões de seu tempo.
Certamente pelo uso do subterfúgio, da dissimulação, da sutileza – e do disfarce e do enigma—Machado de Assis recebeu, indevidamente, a pecha de “despolitizado”, “alienado”, “alheio às questões políticas e sociais de seu tempo”.
Ledo e puro engano. Machado de Assis foi um crítico ‘avassalador’ da sociedade e das instituições brasileiras, e escreveu – ou a elas se referiu -- em crônicas e artigos, mesmo em contos e romances e até na poesia. , sobre política (muito) [e,para surpresa de alguns, sobre economia (em menor monta)]. Machado de Assis tinha opiniões políticas — era um monarquista liberal, não apoiava a República, repudiava Floriano Peixoto (que ,apoiado em golpe de Estado em 1891, governava com poderes autoritários, levando o País à ditadura, à censura e à guerra civil) — e por meio de sua obra é possível observar a política brasileira de sua época através do olhar literário. Raymundo Faoro (em A pirâmide e o trapézio ) sentenciou que pode-se vislumbrar toda a sociedade brasileira do século XIX na obra de Machado : tanto na não-ficção quanto na ficção, arrancou da História a própria substância de suas narrativas e textos , utilizando uma série de categorias políticas - escravidão, liberdade, golpe de Estado, censura ,aparelho policial, autocracia absolutista,totalitarismo, etc – na elaboração,em sua escritura literária, de uma crítica da ideologia brasileira e de uma teoria política avançada,que no campo dos estudos literários não foi adequadamente percebida pelos especialistas.
As crônicas e artigos tratando de política são justamente aquelas que registram opiniões nunca expressadas por Machado com tanta clareza e coerência.

Quinta-feira, 9 de Abril de 2009

Em tempos de Twitter


reflexo e realidade de nossa era, temos hoje cada vez mais (compulsoriamente ?) praticada,cultivada e incentivada , aí está o Twitter que não me desmente nem contradiz, a chamada leitura fragmentária – que segundo seus cultores e entusiastas poderá ser, ainda assim, uma experiência prazerosa e informativa. Parte-se da premissa – ou do pressuposto – de um texto por definição e natureza, funciona de maneira diferente para cada leitor.
então,absorva essa realidadee assuma seu papel de ...“leitor salteado”

Se vc. não consegue se concentrar muito tempo numa leitura , se quando entra na internet,p. ex., abre várias telas ao mesmo tempo e muda a direção de sua atenção freqüentemente , e isso lhe preocupa\angustia : não se desespere – ‘seus problemas acabaram...’. O fato de estar divagando entre diferentes universos não é necessariamente algo ruim. Para o escritor argentino e professor de literatura de Princeton, Ricardo Piglia , trata-se apenas de um novo momento da "experiência da leitura", ou melhor uma retomada de um conceito anterior : o leitor que assume a interrupção como parte da narrativa já foi antecipado por seu conterrâneo Macedonio Fernández (1874-1952), considerado principal inspirador do grande,incomparável Jorge Luiz Borges , com o conceito de "lector salteado" -um leitor intermitente, que pula de um assunto para outro ou se dispersa facilmente.
O conceito, criado por Macedonio nos anos 20, em um livro intitulado Museo de la Novela de la Eterna, estabelece uma série de categorias de leitores,entre as quais o "lector salteado". Que é um retrato do leitor atual, que não é mais aquele que se encontra isolado, concentrado e lutando contra a interrupção, mas que entra e sai do texto, se move, interage com o que está ao redor, vai de um livro a outro ou a outros textos mais rápidos que lhe surgem pela internet. É um leitor que assume a interrupção como parte da narrativa. Macedonio captou o processo que ia se desenvolver e que levaria à fragmentação da experiência da leitura, que supõe um corte com a lógica linear da significação. Isso não seria algo negativo, a princípio, mas um novo tipo de situação de leitura.
A professora Shirley Carreira, da Unigranrio-RJ, diz que, como o "lector salteado", o leitor contemporâneo vasculha a internet por links para textos que ampliem seu universo de leitura, "ou que possam conferir a quem lê significados mais amplos, que transcendam o texto".O professor Waldemar Ferreira Netto, da USP, que vê a si próprio como um leitor "salteado", sustenta que "o texto de ficção parece assumir o mesmo caráter do texto técnico, para o qual uma leitura linear não é bastante."O professor Biagio D'Angelo, da PUC-SP, observa que "o leitor "de" Borges é uma figura especial, disponível a saltos ficcionais incríveis, assim como o leitor "em" Borges, nesse caso um leitor que se perde em labirintos sem solução de continuidade e que reenviam de um livro ao outro, como na idéia de internet à qual estamos acostumados."

Sábado, 4 de Abril de 2009

Humor à carioca

abre-se o pano da lettera brasilis - in http://www.germinaliteratura.com.br/2009/lettera_brasilis_capa.htm : vá lá e veja,e leia, e deleite-se
Já se disse, e a vida , também por que não a própria História, confirma isso, que nada é ao mesmo tempo mais individual, cultural e universal do que o humor. Praticado em exemplos clássicos desde a Antiguidade , pelo grego Aristofanes ou pelo latinos Plauto e Terencio, na complexa Idade Média , do saxão Chaucer e do florentino Boccacio, no profícuo Renascimento ,do espanhol Cervantes, do francês Rabelais, do inglês Shakespeare, o riso acompanha o mundo e os homens nas formas,graus e jeitos mais variados , mesmo que seja (diria eu, principalmente que seja) para a humanidade gozar dela própria e sorrir, ou satirizar, ou pilheriar, ou debochar da eterna tragédia humana.
É preciso por outro lado ficar claro que o humor não se manifesta pela matriz básica da piada, da gargalhada,do deboche , mas se expressa por tantos matizes -- como por exemplo a irreverência, a paródia , a metáfora, a parábola, o tragicômico e o melodramático, ou a sátira política, a crítica social e comportamental -- quanto sejam adequados para retratar o ridículo,o patético . O humor, a História mais uma vez nos prova, muitas vezes é muito perigoso, inúmeros são os casos daqueles que, só para ficarmos no terreno da literatura, foram ‘retribuídos’ com prisão , ou exílio, ou desterro, ou morte : aliás, já que adentramos na seara literária, convém lembrar que o humor na literatura é feito desde que o mundo é mundo, por escritores, antigos, ocidentais, orientais, medievais, renascentistas, clássicos, modernos, contemporâneos ,pós-modernos – e até mesmo por aqueles tidos como sérios,sóbrios,sisudos,austeros, como se verá\lerá em um inusitado caso aqui. O que dizer então, nesse particular, do brasileiro,cuja proverbial natureza bem-humorada [sic] faz dele,ou fez dele, um estereótipo, aos olhos universais, da alegria em sua conceituação mais original. Verdade ou mito, o sorriso, a anedota, a ironia, o sarcasmo, a galhofa, a comicidade parece ter concedido uma espécie de ‘marca registrada’ ao nascido, ou habitante, destes trópicos – sob tal ótica, nada ‘levistraussianamente’ tristes.Embora, não nos esqueçamos, a Inglaterra seja considerada o país do humour por excelência.
E o cômico brasileiro, assevera ainda a cartilha, atinge sua mais perfeita tradução, ou expressão, no carioca, a cidade do Rio de Janeiro erigida à capital da gargalhada nacional -- respeitadas evidentemente outras searas geográficas,e antropológicas, onde também se pratica esse ‘esporte’ pátrio(como esquecer,por exemplo, Juó Bananére e Alcântara Machado em São Paulo: Bernardo Guimarães – sim , ele – em Minas Gerais:; Ascenso Ferreira,e até Gilberto Freyre – saibam todos ! -- em Pernambuco;QorpoSanto, no Rio Grande do Sul; Gregório de Mattos – irresistível “Boca do Inferno” -- na Bahia :.Dessa matriz da irreverência , extraímos cinco autores que a seu modo e feitio,estilo e tônica, concepção e circunstâncias, exerceram e externaram o humor numa literariamente carioca forma de ser.

Terça-feira, 31 de Março de 2009

Impasse no Le Monde Diplomatique Brasil


Demissão coletiva ameaça afastar do projeto instituição que lançou o jornal no Brasil, e toda a equipe que assegurou sua existência e ampliação nos últimos anos.
Antonio Martins
Uma série de fatos inesperados, cujo desfecho ainda é incerto, marcou a edição brasileira internet de Le Monde Diplomatique, nos últimos dias. Em 24 de março, a direção do Instituto Paulo Freire (IPF) dispensou, de uma só vez, a equipe que conduziu o jornal nos dois últimos anos. Fomos demitidos, além das redatoras Carolina Gutierrez e Marília Arantes, o editor, Antonio Martins, que introduziu o jornal no Brasil, em 1999. Um dia depois, quando a informação começou a circular, abriu-se uma possibilidade de negociação.
A demissão tem dois aspectos. O primeiro é interno ao IPF: embora traumático, está no âmbito da autonomia da instituição. O segundo implica o futuro de Le Monde Diplomatique no Brasil e, em seus desdobramentos, revelará bastante sobre os princípios e comportamento ético das instituições e pessoas envolvidas.
Lida a cada dia por cerca de 2 mil pessoas, que acessam 7 mil textos em média, a edição internet do Diplô é produto de uma parceria institucional e uma relação de trabalho, desde janeiro de 2007, Jornais nascem por meio de acordos, mas são feitos por gente em carne e osso. Embora reúna um número crescente de colaboradores, a versão digital de Le Monde Diplomatique é animada, há pelo menos um ano e meio, pela equipe que foi integralmente demitida, em 24/3. Carolina (que começou como estagiária), Marília (que atuou quase um ano como voluntária) e eu temos sido meio mambembes, meio visionários. Em outubro de 2007, cansados de apenas traduzir textos franceses e publicar eventualmente um ou outro artigo de lavra própria, bolamos o Caderno Brasil – que logo se transformou no centro de nosso trabalho. A intenção foi criar um espaço que, mantendo o mesmo espírito crítico e busca de profundidade característicos do jornal parisiense, fosse povoado... por brasileiros. O Caderno reúne hoje cerca de uma centena de colaboradores, que publicaram perto de mil artigos. O elenco inclui intelectuais renomados e pensadores emergentes, que a mídia conservadora oculta e a própria imprensa de esquerda tantas vezes não enxerga.
À mesma época, lançamos o
Blog da Redação. Alimentado desde então de forma às vezes errática (março marcou uma retomada, até o trauma do dia 24), ele visa abordar temas correntes, em que uma informação inédita, ou um ponto de vista incomum, fazem falta – e não podem esperar a elaboração de um artigo. Também precisa ser um canal para expressão dos colaboradores e dos próprios leitores ativos. Estamos trabalhando ativamente em sua reformulação, ao mesmo tempo em que apoiamos o lançamento de blogs sobre temas específicos. O primeiro vê a crise do capitalismo como oportunidade para questionar o sistema sob a qual vivemos, e intenficar a construção de novas lógicas sociais e relações entre o ser humano e o ambiente. O segundo será alimentado por quatro colaboradores que vivem em Paris, estão surpresos com a efervescência política (especialmente nas universidades) e querem narrá-la.

Que terá levado o Instituto Paulo Freire a demitir coletivamente a equipe que conduziu este trabalho? Questionados, os três diretores que participaram da reunião do dia 24 não apresentaram uma só razão política, editorial ou técnica. Alegaram que a Redação não se enquadrou nos métodos e normas do IPF. Neste aspecto, talvez estejam certos. Jamais aceitamos limitar nosso trabalho a um expediente das-nove-às-dezoito. Chegávamos e saíamos mais tarde; levávamos muito trabalho para casa e para a rua. Convidávamos, para dialogar e produzir conosco, pessoas não pertencentes aos quadros da instituição. Nos atrapalhávamos no preenchimento de inúmeros formulários e agendas.
O IPF, por seu lado, transformou-se numa organização de grande porte. Tem centenas de funcionários, em todo o país. Mantém convênios e parcerias com prefeituras e governos estaduais (diversos partidos), empresas e instituições de ensino, públicas e privadas. Em minha avaliação, o espírito criativo, que suas equipes conservam, choca-se crescentemente com uma estrutura que se assemelha à industrial, marcada por horários, disciplina e hierarquia cada vez mais rígidos.Os dirigentes do Instituto têm toda autoridade para julgar que práticas como as nossas destoam – ou mesmo perturbam – sua cultura institucional. Também podem, como consequência, não nos considerar desejáveis em seu quadro de funcionários. Só não tem o direito de usar estes fatos como pretexto para se apropriar unilateralmente do Le Monde Diplomatique e do Pontão de Cultura.