quinta-feira, 10 de junho de 2010

O futebol ,paixões e ódios , os literatos , duas cidades


no Rio de Janeiro...
O futebol, todos sabemos, surgiu no limiar do século XX no Rio de Janeiro como “uma grande novidade”, mas por ser esporte de origem inglesa logo cairia no gosto das rodas elegantes da cidade ( que na época cultivavam quase que exclusivamente o remo ) — e de imediato, por suas próprias características , despertaria paixões acirradas, não apenas entre torcedores e admiradores dos clubes então formados ( Payssandu Cricket Club, Fluminense Foot-Ball Club, The Bangu Athletic Club, etc ).
O futebol, mais genericamente o esporte, na verdade constituiu um elemento dos modismos aos quais a sociedade da cidade do Rio de Janeiro, inclusive os literatos e intelectuais,aderiu, no afã de se integrar a um processo de modernização advindo e preconizado pela República, implantada em 1889 e que tinha entre seus projetos de afirmação ideológica e política revelar-se como meio e suporte de transformar um país “atrasado não só institucionalmente,porquanto monarquia até então, como também econômica, socialmente e até urbanisticamente” e mostrar ao concerto das nações mundiais ser o regime mais adequado a superar e sustentar as exigências de um processo capitalista de transformação e evolução.
Por essa época, nas principais cidades do Brasil começou a fervilhar entre seus jovens -- explicitamente por influência dos ingleses que aqui viviam -- as práticas esportivas mais variadas: o rowing (remo), o tênis, a luta greco-romana, o turfe, a pelota, o box, o ciclismo, a esgrima, o golfe, a patinação, o hipismo, além do tiro ao alvo, automobilismo, e notadamente do cricket:, modalidades que rapidamente espraiaram-se por setores da sociedade local.
Ainda que desde os tempos de Colônia persistisse no Brasil uma espécie de postura/ideologia ‘anti-esportiva’ por força da cultura escravocrata, que sedimentara entre brasileiros e portugueses o valor do ócio e a convicção de que o esforço físico “não era digno” (o que viria a ser revertido na década de 1910 pelo culto ao esporte e à educação física), e também por causa do medo da febre amarela que mantinha as pessoas afastadas de aglomerações (a epidemia de febre amarela assolou o País até 1906, quando foi debelada pelo médico sanitarista Oswaldo Cruz). .Não se praticava esportes também porque não havia, entre os brasileiros e portugueses, o hábito de freqüentar clubes -- somente por volta de 1860 começaram a surgir os primeiros embriões de agremiações esportivo-sociais, sempre graças à iniciativa de ingleses para efeito da prática do cricket: pois foi justamente um clube dessa modalidade que em 1901 deu origem ao primeiríssimo clube de futebol do Rio de Janeiro.
Pelos registros ‘oficiais’, o futebol teria surgido no Brasil -- mais precisamente no estado de São Paulo -- com Charles Miller, que retornando da Inglaterra em 1894, trouxe com ele as bolas e o sonho de ver o futebol crescer no país. Na capital paulista surgiram os clubes São Paulo Athletic (que só praticava o cricket), o Sport Club Internacional e o Club Atlético Paulistano. No Rio de Janeiro os pioneiros clubes especificamente de futebol, com tal denominação, foram o Fluminense Football Club , fundado em 1902, e o Botafogo de Foot-ball e Regatas, em 1904.
Mas informações de igual credibilidade histórica induzem a se admitir que as origens da prática do futebol no Brasil remontam a épocas, formas e locais outros que os ‘fields’ e os clubes elitistas do início do século XX : estariam também nas ruas e em colégios. Ainda no século anterior a esse, escravos e jovens pobres já procuravam imitar os marinheiros ingleses que corriam com uma bola no porto do Rio de Janeiro e , segundo fontes insuspeitas, seminaristas eram incentivados pelos jesuítas a praticar futebol como parte da educação física .
Justamente por ter vindo da “Old Albion” (assim era chamada a Inglaterra, ‘ na intimidade’, pelas elites) , em seus primeiros anos na cidade o futebol teve um caráter restrito, praticado preponderantemente por jovens ricos e bem-nascidos — mas já no final da década de 1910 alcançava uma popularidade nunca vista, logo fascinando um significativo contingente de jovens, primeiro atraídos pela praticidade — jogar futebol era tão possível quanto assisti-lo, ao contrário do remo, do turfe, do pólo — depois maravilhados com a dinamicidade e plasticidade que aliava ritmo e vibração, movimento e velocidade de maneira bastante peculiar — e ,tanto quanto os demais esportes trazidos por migrantes de boa estirpe do Velho Mundo , enquadrou-se naqueles anseios elitistas de transformar as cidades brasileiras segundo modelos das metrópoles européias.Nesse sentido, jogar futebol simbolizava estar sintonizado com um novo modelo de sociedade e inserção num padrão ‘civilizado’. Até porque as autoridades e dirigentes do País impuseram-se a tarefa de “organizar a sociedade” — a começar pela capital da República, modificando o traçado urbano, e atuando também no âmbito da saúde, do trabalho, da educação e do lazer. Uma atuação ‘pedagógica’ que contou com um forte aliado : o esporte.
Só que a incontrolável difusão veio a extrapolar esses primeiros limites sociais. Na segunda metade da década de 1910, por exemplo, já era o esporte “de maior número de praticantes e adeptos”, segundo a revista Época Sportiva ; a popularidade ímpar do futebol, além de obrigar a criação de seções especiais nos jornais de então — como O Paiz, Gazeta de Notícias, A Noite,Correio da Manhã — mas mantidos os tradicionais espaços para o remo e o turfe, fez nascer publicações especializadas, como a citada Época Sportiva, Sport Ilustrado, Sportmen (esta, de São Paulo ).O crescimento e o interesse desperto pelo jogo de bola não tardariam em ocupar maiores espaços nas páginas dos jornais.
Se em 1901 o público presente na primeira partida disputada no Rio de Janeiro era menor que o número de atletas em campo, em 1904 o futebol já atraía tanta gente que foi preciso a Federação Carioca das Sociedades de Remo oficiar aos clubes um apelo para que não fossem realizados jogos nos dias de regatas.E em 1906, no campo do Fluminense, cerca de mil e quinhentas pessoas aglutinaram-se para ver um “match” entre brasileiros e ingleses(estes, na verdade, ingleses residentes no Rio de Janeiro).
A extraordinária e avassaladora difusão do futebol nos primeiros anos do século XX, não apenas no seio das chamadas rodas elegantes da sociedade brasileira, encontrou também generosa guarida entre intelectuais e escritores — contingente social e profissional que passou a adquirir notável significância e papel de proa no contexto histórico de então : afinal, conferia-se uma nítida feição de elegância e distinção para o futebol — e o elitismo originário se manifestava tanto no fato de ser praticado pelas camadas ‘endinheiradas’ como notoriamente pela exclusiva utilização dos termos ingleses que faziam parte do vocabulário do chamado “jogo bretão”. Bastante apropriado para aquele tipo de ‘cultura belle èpoque’ então vigente...
João do Rio foi o primeiro cronista a detectar a importância do jogo para a cidade , assinando com o pseudônimo de José Antonio José (um de seus ‘disfarces’ jornalísticos : com esse nome, escreveu por exemplo Memórias de um rato de hotel) uma crônica intitulada “Pall Mall Rio – Foot-ball” em O Paiz de 4 de setembro de 1916, onde vaticinava :“Tenho assistido a meetings colossais em diversos países, mergulhei no povo de diversos países, nessas grandes festas da saúde, da força e do ar. Mas absolutamente nunca eu vi o fogo , o entusiasmo, a ebriez da multidão assim .”
Na esteira de João do Rio, impressionados com a avassaladora popularidade do futebol, os intelectuais, e notadamente os escritores, se entregaram à tentação e ao desafio de interpretá-lo,o futebol vindo a sensibilizar, em maior ou menor grau, a quase todos, como Olavo Bilac, Luis Edmundo, Afrânio Peixoto – a quem atribui-se participação decisiva nesse despertar de interesse pelo futebol entre os literatos : médico que também era, foi o primeiro a legitimar, sob argumentação científica,o futebol como atividade ‘respeitável’, ligando-o ao intelecto e à educação. Peixoto chegou a declarar ,em 1918 ,que “esse jogo de foot-ball, esses desportos que dão saúde e força, ensinam a disciplina e a ordem, fazem a cooperação e a solidariedade, me enternecem, porque são grandes escolas onde está se refazendo o caráter do Brasil (...) o futebol estará reformando, senão refazendo o caráter do Brasil ” (em “A educação nacional”, no livro Poeira de estrada, 1918)”.
Sob outro prisma, pode-se da mesma forma entender a notável receptividade que o futebol encontrou, de pronto, junto aos literatos por força do culto então vigente no seio da sociedade carioca a ‘traços e coisas da modernidade, à européia’.. Logo, escritores como Coelho Neto e Olavo Bilac, por exemplo — até mesmo por sua ‘índole estilística’ — não hesitaram em ‘literatizar’ o esporte, pincelando-o com tons e matizes da Grécia e da mitologia,dedicando-se integral e incondicionalmente à louvação — e, de certa forma, mitificação — do novo esporte, e apregoando as vantagens ‘filosóficas’ de sua prática e disseminação : o futebol enquanto prática de aprimoramento físico e instrumento de otimização social.A função do novo esporte seria “(...) criar no país uma “nova raça que deixasse definitivamente para trás a sua malfadada herança cultural(...)”. O modo pelo qual isso poderia ser conseguido era bastante claro: abrindo mão dos interesses pessoais, todos deveriam trabalhar por uma mesma causa, por um mesmo ideal — não por acaso uma das preocupações básicas dos defensores da melhoria da raça brasileira, que faziam da propaganda cívica uma das estratégias básicas de sua atuação. Era o ‘discurso eugênico’ que então permeava e prevalecia no meio científico brasileiro — e mundial — divulgando e enfatizando os ‘sentimentos nobres’ atribuídos as “raças superiores”, como o senso de disciplina, a harmonia social e o amor à Pátria.
De resto, a prática e aceitação do futebol se expandia entre todas as camadas da população, inclusive e notadamente entre trabalhadores e operários : os esportes seriam em geral uma lídima expressão de educação física, “saudável ao corpo e à mente”. Por considerá-los verdadeiras fontes de energia, cada vez mais intensificava-se uma campanha a favor dos esportes: assim, o futebol iria contribuir para a criação de uma sociedade “saudável, forte, altaneira, os de homens adestrados pelo exercício físico e preparados, em corpo e mente a fazer o progresso da Pátria”-- e justamente aí reside um elemento capital das excepcionais aceitação e admiração por parte de muitos intelectuais e literatos: viam no futebol, mercê de sua notável popularização e dotado de ‘sentido tão nobre’, “uma força de transformação sociológica”,adequado a alguns dos projetos de cunho político e social que sustentavam e se propunham a promover.
A par de ‘instrumento de regeneração social’, o esporte abrigava os princípios do ‘helenismo’ e do ‘espírito olímpico’ inerente a Atenas : o futebol derivava-se em linha reta dos jogos atléticos da Hélade (e por outro lado,como hoje interpretado, resgataria e expressaria a katarsis,individual e coletiva, almejada e idealizada originalmente pela filosofia grega — e se retirava dele o caráter ‘bretão’. Os praticantes do futebol e os jogadores dos clubes oficialmente constituídos seriam uma espécie de missionários de ‘uma causa nobre’, que dariam ao País exemplo de disciplina, solidariedade, energia, força... e civismo . Esporte e Nação, patriotismo e futebol ,eram conceitos e elementos inseparáveis.
Entre todos, um logo se notabilizou como o maior dos adeptos, o mais vibrante entusiasta do novo esporte, tornando-se em pouco tempo grande ideólogo do jogo, mergulhando obstinadamente na defesa apaixonada das vantagens de sua disseminação : Coelho Neto. A atração que o futebol logo exerceu sobre ele manifestou-se já em seu romance Esfinge, publicado em 1908 , em que o personagem James Marian, um inglês hóspede da pensão de miss Barkley, tinha o hábito de “aos domingos, sair cedo com seu material de tênis e com roupa para o foot-ball”. E o futebol passaria a ser, a partir daí, tema onipresente não só nas crônicas e discursos mas também -- e principalmente -- na vida pessoal de Coelho Neto.
Sócio do Fluminense, entregou-se cada vez mais à paixão -- pelo esporte e pelo clube. Tanto que chegava a assistir, no mesmo dia, quatro jogos diferentes do Fluminense, pois tinha filhos jogando em cada uma das categorias que o clube disputava ; tamanha paixão, que o levou a liderar a primeira invasão de campo do futebol carioca, inconformado com o juiz que marcara um pênalti a favor do Flamengo num movimentado Fla-Flu no campo da rua Paissandu, e que acabou provocando a anulação do jogo.Tamanha paixão que em 1915 escreveu a letra do primeiro hino do Fluminense ( “O Fluminense é um crisol / onde apuramos a energia / ao pleno ar, ao claro sol / lutando em justas de alegria / o nosso esforço se congraça / em torno do ideal viril / de avigorar a nossa raça / do nosso Brasil ...) ,onde fica evidente e bem mais nítida a campanha que ele começava a mover a favor do futebol.
Coelho Neto via o futebol “ajudando a criar uma sociedade na qual os homens , qual os esportistas, fossem adestrados pelo exercício físico, criando um tempo de paz e de