<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-5121148060136346781</id><updated>2012-01-25T02:58:00.214-08:00</updated><title type='text'>Caixa de Pandora</title><subtitle type='html'>Caixa de Pandora(mulher criada por Zeus como punição aos homens pela ousadia de Prometeu em roubar aos céus o segredo do fogo), uma expressão originalmente utilizada para designar qualquer coisa que incita a curiosidade , aqui tem o intuito nada misterioso ou secreto de ,aberta a urna, fazer aflorar os mais instigantes temas culturais.
                    a)Mauro Rosso</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://pandorawiki.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pandorawiki.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>Caixa de Pandora</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13780187324490495166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TOXBy1EVxVI/AAAAAAAAAic/POmRMcX667A/S220/foto%2B1.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>161</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5121148060136346781.post-1291714796210085521</id><published>2012-01-23T02:11:00.000-08:00</published><updated>2012-01-23T02:24:57.460-08:00</updated><title type='text'>e viva os 458 anos; vida longa a São Paulo !.</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-6KSpyvVwpvo/Tx01WaqNxRI/AAAAAAAAAo8/jGTPm0OzqUA/s1600/funda%25C3%25A7%25C3%25A3o%2Bcidade%2BSP%2BParreiras.jpg"&gt;&lt;img style="MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 200px; FLOAT: right; HEIGHT: 97px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5700771362550695186" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/-6KSpyvVwpvo/Tx01WaqNxRI/AAAAAAAAAo8/jGTPm0OzqUA/s200/funda%25C3%25A7%25C3%25A3o%2Bcidade%2BSP%2BParreiras.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#993300;"&gt;São Paulo, genuína cidade literária&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;[este texto é inerente ao livro &lt;em&gt;São Paulo, a cidade literária&lt;/em&gt; (2004), ora em processo de edição atualizada(que se quer publicada em 2012 ]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#cc6600;"&gt;“Há uma história da literatura que se projeta na cidade de São Paulo; e há uma história da cidade de São Paulo que se projeta na literatura”&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;span style="color:#cc6600;"&gt;Antonio Candido&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;A cidade de São Paulo sempre foi pólo fundamental da literatura brasileira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a aura do pioneirismo sempre a acompanhou, desde seus primórdios. Não surpreende pois que em São Paulo tenha nascido e se manifestado um dos momentos fundamentais da história cultural brasileira , o Modernismo.A cidade , já natural e sequencialmente pioneira em diversas manifestações literárias — desde os jesuítas, fundadores da Vila São Paulo de Piratininga, a 25 de janeiro de 1554 (não se pode esquecer que o Diálogo sobre a conversão do gentio, de Manuel da Nóbrega, é o primeirissimo documento literário do Brasil, e o Auto da Pregação Universal, de José de Anchieta, a primeira peça encenatória) — o foi também , por exemplo, na precursora expressão poética do ‘indianismo’ no poema “Nênia” de Firmino Rodrigues Silva ; nela se deram ainda as realizações literárias iniciais de autores não paulistanos como José de Alencar, com seu “Como e por que me tornei romancista”, Castro Alves e seu “Navio negreiro”, Raimundo Corrêa com “Primavera”; nela ocorreu o primeiro movimento literário de vulto não apenas em relação à cidade mas ao próprio País ,em torno da Revista da Sociedade Filomática,em 1830,constituída na então recém-criada Faculdade de Direito — a primeira manifestação de brasilidade literária por sua consciência de fins e coesão de esforços renovadores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;A cidade pioneira e precursora&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O retrato da História exibe a importância capital da Faculdade de Direito, a partir de 1827, na congregação de homens e idéias por meio da convivência acadêmica que propiciou a formação de agrupamentos de estudantes, com idéias estéticas, manifestações literárias e expressões próprias — deflagrando um processo vigoroso de efervescência intelectual que passou a agitar intensamente a pequena cidade de então. Ainda que se reconheça as limitações quantitativa e qualitativa da produção desses estudantes, não há como negar que estabeleceram a literatura como atividade presente na comunidade paulistana.&lt;br /&gt;Deu-se por ela a primeira manifestação de uma vertente poética considerada “o início da escola brasileira” : o indianismo, desenvolvido na obra de Gonçalves Dias, mas praticado pioneiramente no poema “Nênia”, de Firmino Rodrigues Silva, composto entre as arcádias da Faculdade de Direito. E exercido ainda de forma pioneira em 1844, três anos antes do Primeiros cantos , de Gonçalves Dias, em “Cântico do tupi”, “Imprecação do índio” e “Prisioneiro índio”, do Barão de Paranapiacaba. Evidencia-se pois que quando Dias dominou o meio literário brasileiro, a poesia indianista -- base da obra do maranhense -- já existia e era praticada em São Paulo.Em 1845, com a fundação da Sociedade Epicuréia, consolida-se um processo de produção literária estudantil, embora de qualidade reduzida mas que viria a receber um influxo importante com a estadia de Castro Alves, em 1868 — foi em evento da Faculdade de Direito que declamou pela primeira vez o antológico poema “Navio negreiro” -- quem incutiu um teor social ao tipo de obra, sobretudo poética, que se fazia&lt;br /&gt;Por essa época, o ‘corpo acadêmico’ já constitui um grupo social diferenciado da comunidade paulistana, a boemia e a literatura como manifestações mais características de um segmento com consciência grupal própria.Artistas criadores e ao mesmo tempo críticos, nas revistas e jornais , são os estudantes, entre os naturais da cidade e os migrantes e radicados, autores de denúncias e protestos contra a corrupção, a hipocrisia, as injustiças da sociedade . Na década de 1880 São Paulo acolhe também um grupo de jovens inflamados pelo verbo eloqüente de José Bonifácio o moço , uma geração empenhada numa luta em prol das idéias liberalistas e republicanas : Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, Afonso Pena, Rodrigues Alves .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;A cidade modernizada e mutante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;O desenrolar e desdobrar de percursos literários que culminariam com o Modernismo foi coincidente e conseqüente de um vigoroso processo de evolução econômica, social e urbana da cidade, e há de obrigatoriamente levar em conta determinados ‘símbolos’ da época : o modus literário que passou a ser atuante deve necessariamente ser visto e analisado a partir do desenho dos cenários e ambientes em que veio a se desenrolar , que são representações significativas da própria literatura brasileira na passagem do século XIX para o século XX.&lt;br /&gt;O declínio do Império coincidiu com a ascensão das classes médias urbanas por força do processo da gradativa metamorfose de uma sociedade rural para urbana.Em sua luta pela aquisição de status, segmentos da classe média passaram a prestigiar valores essencialmente burgueses, como o saber e agilidade intelectual -- até porque já era uma tradição,no mundo,a valorização de virtudes intelectuais, o escritor passando a ser objeto de grande consideração social e atividade cobiçada por muitos filhos da classe média. A valorização da inteligência -- a par de possibilitar uma “profissionalização da literatura” --com a ascensão social por via da literatura, fez com que o escritor absorvesse valores aristocráticos, desprovidos de visão crítica do real -- com raríssimas exceções— e veio a comprometer, na imensa maioria dos autores , a vitalidade do estilo, em troca do emprego de linguagem, digamos, ‘ornamental’.&lt;br /&gt;No caso particular de São Paulo — então com cerca de 240 mil habitantes na passagem do século XIX para XX, em radical mudança de perfil demográfico, com a maciça chegada de imigrantes, já um importante centro ferroviário, comercial, político, a indústria se implementando — o extraordinário desenvolvimento da cidade acentua uma significativa diferenciação social e evidencia um novo perfil de estrutura sócio-cultural, em que a produção literária antes deflagrada pelos estudantes, passa a ser executada por outro estamento —tornando-se manifestação de uma classe : a nova burguesia, mais urbana e ‘industrializante’, da mesma forma que em outras partes do País incorporando costumes segundo o modelo europeu, eivada de academicismo art-nouveau.&lt;br /&gt;Expressa-se sobretudo um certo aristocratismo intelectual, que agrada em cheio àquela burguesia ascendente : cristaliza-se pois um padrão estético-literário-cultural definido pela elite social, retirados do contingente inicial dos estudantes os valores e parâmetros da produção literária. Constitui-se, numa sociedade de classes, uma literatura ‘classista’, elitista, convencional, integrada aos padrões de refinamento da classe dominante. Acentuam-se então os teores de sentimentalismo e romantismo,privilegiando a ‘pureza’ da língua, a escrita correta, o ‘apuro’, a limpidez, a sonoridade, a ‘riqueza do vocabulário’. A literatura como meio e degrau de ascensão social incorpora-se à sociedade paulistana por meio dos padrões de suas classes dominantes.&lt;br /&gt;Contrária a essa vertente — personificada pelos “corifeus da bela escrita”, precipuamente, no Rio de Janeiro, Coelho Neto, Olavo Bilac, os membros da chamada “geração boêmia” ; em São Paulo, Francisca Julia, Vicente de Carvalho ,Julio Ribeiro, Silvio de Almeida — poucas vozes (ou melhor escritas ) se colocaram : notadamente Lima Barreto ,no Rio de Janeiro, e Alcântara Machado, em São Paulo (há de se considerar também Amadeu Amaral, Sylvio Floreal, em especial Juó Bananére, e anos depois João Antonio) — que adotaram e assumiram temática, ambientação, personagens, trama, linguagem e estilo eminentemente populares e ‘anti-aristocráticas’.&lt;br /&gt;Vale ainda considerar a tese do historiador e ensaísta José Murilo de Carvalho a distinguir cidades ortogenéticas -- caso do Rio do Janeiro, por exemplo -- e cidades heterogenéticas -- São Paulo como o maior exemplo, e que veio a marcar o tipo de intelectual e modo de produção cultural gerados pelas duas cidades .A ortogenética é caracterizada pela função política e administrativa, com grande peso do governo e do poder público, cidade de consumidores e não de produtores , baseada no comércio e na escravidão .Carvalho sustenta que a proclamação da República teria reforçado ainda mais essa função política do Rio de Janeiro, com mais intensa ainda presença do poder público, fazendo com que grande parte da intelectualidade se vinculasse de alguma forma à burocracia pública, em geral como funcionários do governo federal : e se tal fato não “introduzia necessariamente uma perspectiva governista na obra desses autores”, frisa ele, “certamente constituía limitação à sua liberdade de criação”. De outro lado, a quase obrigação que se impunha ao Rio de passar a imagem civilizada do país fazia com que seus intelectuais tivessem grande dificuldade em compreender perfeitamente a realidade do País e da cidade — daí as contradições e bloqueios que se interpunham no caminho da criatividade dos intelectuais, a cidade não conseguindo produzir uma cultura moderna/modernista. Diferente de São Paulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cidade heterogenética, que São Paulo exemplifica, estava fora do centro do poder político, caracterizada como cidade de produtores, com maior liberdade de criação, maior iniciativa cultural, com predomínio da atividade econômica e comercial e não política e administrativa — somado ao fato de que nunca teve grande presença escrava Em contrapartida, a intelectualidade paulista era muito menos vinculada ao Estado, e era na verdade patrocinada pela própria oligarquia local -- muitos dos intelectuais eram aliás eles mesmos membros da oligarquia. A independência em relação ao Estado lhes dava maior liberdade de criação Além disso, havia maior homogeneidade social entre a intelectualidade paulista, e isso propiciou a São Paulo maior possibilidade do que o Rio de Janeiro de desenvolver um projeto cultural ,mais consistente e ‘autônomo’ : na Paulicéia, houve “melhor condição de um trabalho intelectual em cima da realidade social concreta”.&lt;br /&gt;O Modernismo de 1922 expressou um esforço para retirar à literatura o caráter de classe -- dado pela elite social e cultural pós -1890 -- transformando-a em bem comum a todos. Como o Romantismo, o Modernismo é de todas as correntes literárias brasileiras a que adquiriu tonalidades especificamente paulistanas. Antonio Candido sentencia que “se em São Paulo não tivesse havido os escritores do período clássico, do Naturalismo, do Parnasianismo, do Simbolismo, a literatura brasileira teria perdido um ou outro bom autor, mas nada de irremediável. Se tal acontecesse no Romantismo e no Modernismo, o Brasil ficaria mutilado de algumas de suas mais altas realizações artísticas, de obras culminantes como Macário e Macunaíma, por exemplo. Dois momentos paulistanos, dois momentos em que a cidade se projeta sobre o País”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Modernismo , destruidor”e criador&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Nos primeiros anos do século XX, quando novas correntes artísticas começaram a circular pela Europa, a maior parte do mundo ocidental encontrava-se em meio a transformações sociais, políticas, econômicas, tecnológicas e culturais que alteraram radicalmente a forma de viver e de sentir o mundo. Invenções revolucionárias como o rádio, o telefone, o automóvel e o cinema passaram a fazer parte do cotidiano das grandes cidades, cada vez mais urbanizadas. A industrialização modificara a economia das potências, e os lucros acumulados pela produção em larga escala de artigos manufaturados garantiam tamanha sensação de conforto, segurança e otimismo em relação ao futuro, que o período ficou conhecido como belle époque — uma época de efervescência artística sem precedentes. Mas no extremo oposto,para as classes trabalhadoras o tempo era de lutas por melhores condições de vida e, no plano internacional um conjunto de fatores econômicos e políticos levaram à eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914. O Brasil vivia então período de grandes mudanças, com a urbanização e a adoção de novas tecnologias que transformavam o ritmo de vida e o cenário das grandes cidades, e que pareciam alterar a percepção do mundo. O intenso crescimento urbano e industrial, acelerado desde o começo do século, e a chegada em massa de imigrantes, principalmente italianos, muitos dos quais haviam vivido a experiência da luta de classes em seus países, propiciando inclusive a difusão de idéias anarquistas e socialistas, fizeram com que o proletariado crescesse e se organizasse : nas primeiras décadas do século XX ocorreram várias greves em São Paulo, a maior delas em 1917 - mesmo ano da Revolução Russa. Nos primeiros anos do século XX vieram radicais transformações políticas, com acontecimentos decisivos para a vida nacional, como as revoltas deflagradas pelo movimento tenentista ( julho de 1922 no Rio de Janeiro; julho de 1924 em São Paulo),a Coluna Prestes, a fundação do Partido Comunista, a derrocada da República Velha, das oligarquias rurais e da "política café-com-leite", o início da Era Vargas.&lt;br /&gt;É nesse contexto de crises e incertezas que surgiram as correntes de vanguarda (do francês avant-garde, "o que marcha à frente"), entre elas o Futurismo, o Cubismo, o Dadaísmo, o Expressionismo, o Surrealismo, recebidas com entusiasmo por escritores que procuravam renovar as formas de expressão artística. Muito antes de 1922 os artistas participantes da Semana já produziam obras influenciadas pelas novas correntes européias, como a publicação, em 1917, de diversos livros de poemas em que jovens autores buscavam uma nova linguagem, ainda não bem realizada., em Nós, de Guilherme de Almeida; Juca Mulato, de Menotti del Picchia; Há uma gota de sangue em cada poema, de Mário de Andrade — e a célebre exposição de Anita Malfatti, em 1917, duramente criticada por Monteiro Lobato no famoso artigo “Paranóia ou mistificação ?”&lt;br /&gt;A Semana de Arte Moderna de 1922 foi o fato concreto que definitivamente integrava o Brasil no contexto filosófico-estético-cultural do século XX e levava-o a inserir-se nas coordenadas culturais, políticas e socioeconômicas dos novos tempos —o mundo da técnica, o mundo mecânico e mecanizado. A partir dela caminha o movimento modernista em busca de padrões autônomos e formas autênticas para a criação estética nacional -- e não somente no âmbito artístico : da mesma forma no campo do pensamento social, os intelectuais procuravam estabelecer novos modos de se tratar e compreender a cultura e a história do Brasil, estabelecendo novas interpretações e valores para a identidade nacional e dando início à consolidação institucional do pensamento sociológico brasileiro. Gerou sobretudo um estado permanente, latente , criativo, estimulante, instigante, de inquietação intelectual, e iniciou um processo de unificação cultural sem precedentes no Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fica para a História o depoimento de Mário de Andrade:&lt;br /&gt;"&lt;em&gt;A Semana de Arte Moderna dava um primeiro golpe na pureza do nosso aristocracismo espiritual. Consagrado o movimento pela aristocracia paulista, si ainda sofreríamos algum tempo ataques por vezes cruéis, a nobreza regional nos dava mão forte e... nos dissolvia nos favores da vida. Está claro que não agia de caso pensado, e si nos dissolvia era pela própria natureza e o seu estado de decadência. Numa fase em que ela não tinha mais nenhuma realidade vital, como certos reis de agora, a nobreza rural paulista só podia nos transmitir a sua gratuidade. Principiou-se o movimento dos salões. E vivemos uns oito anos até perto de 1930, na maior orgia intelectual que a história do país registra. (...) se alastrou pelo Brasil o espírito destruidor do movimento modernista. Isto é, o seu sentido verdadeiramente específico. Porque, embora lançando inúmeros processos e idéias novas, o movimento modernista foi essencialmente destruidor&lt;/em&gt;.".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A "destruição" tinha como objetivo, em um primeiro momento, o rompimento com estéticas passadas, especialmente a parnasiana — em oposição ao rigor gramatical e ao preciosismo lingüístico parnasianos, os poetas modernistas valorizavam a incorporação de gírias e de sintaxe irregular, e a aproximação da linguagem oral de vários segmentos da sociedade brasileira— e mais: a preparação de um terreno onde se pudesse reconstruir a a cultura brasileira, sobre bases nacionais, a realização de uma revisão crítica da história e das tradições culturais do país. Os autores do Modernismo procuraram no índio e no negro os elementos primordiais da cultura brasileira que proporcionariam a reconstrução da realidade nacional, e procuraram retratar a mistura de culturas e raças existente no país.&lt;br /&gt;Porém, o nacionalismo, a mais marcante característica do Modernismo, iria separar ideologicamente os adeptos do movimento, opondo os grupos “Pau-Brasil”,e depois “Antropofágico”(que incorporva o comunismo, o freudianismo e o matriarcalismo), de Oswald de Andrade , Raul Bopp e Tarsila do Amaral , e o “Verde-Amarelismo , de Menotti del Picchia, Plínio Salgado e Cassiano Ricardo. Estudiosos sustentam que a verdadeira ‘revolução’ modernista se deu mesmo em 1924, ano do rompimento de Graça Aranha com a Academia Brasileira de Letras, ano do “Manifesto Pau-Brasil”, de Oswald de Andrade, anos de dois textos fundamentais de Mario de Andrade : A escrava que não é Isaura — a ‘teoria’ do modernismo compendiada - e seu livro mais ousado, em termos formais, Losango caqui.&lt;br /&gt;Em seguida, 1928 marca a publicação de Macunaíma, de Mario de Andrade, máxima obra literária do movimento, excepcional romance-retrato do Brasil de grande miscigenação cultural — as tradições culturais indígenas dos primórdios ao lado da modernidade europeizada dos centros urbanos brasileiros da época — e de Retrato do Brasil, de Paulo Prado, inaugurando o ensaio de cunho ao mesmo tempo histórico e sociológico que abriria caminho para o grande ciclo de “interpretações do Brasil”.À renovação estética modernista,na década de 1920, alia-se no decênio seguinte o ensaio de interpretação e crítica social, que tenta recontar o processo de formação histórica do país: a procura da identidade social passa igualmente pela busca premente de uma ponte entre uma completa renovação cultural e a reforma da sociedade, uma ponte entre a modernidade e a modernização do país .&lt;br /&gt;O ano de 1930 é a época de instauração do Estado Novo, que se ‘apropria’ ideológica e retoricamente do Modernismo — Getulio Vargas declarava em seu discurso de posse: “As forças coletivas que provocaram o movimento revolucionário do Modernismo na literatura brasileira foram as mesmas que precipitaram no campo social e político a Revolução de 1930” (seguindo uma sugestão formulada por Cassiano Ricardo) — mas inicia um período de intensa fermentação política, social e cultural. É na primeira metade dessa década que nascem as primeiras tentativas de interpretação de conjunto da história, da economia e da sociedade brasileira.Sobretudo a prosa literária se desenvolve, ficcionalmente no romance e no conto, que retratam decadência da aristocracia rural, a formação do proletariado urbano, a luta do trabalhador, o êxodo rural, as cidades em rápida transformação — os cenários para a expansão e proliferação dos ensaios de interpretação do País, de Gilberto Freyre , Paulo Prado (Retrato do Brasil), Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil) ,Caio Prado Júnior (Formação do Brasil contemporâneo), todos lastreados pela ‘índole’ modernista em busca da síntese explicativa dos múltiplos aspectos da vida social brasileira e de seu desenvolvimento histórico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acima de tudo um processo de mudança cultural geral, em direção a uma nova reconstrução sócio-política da identidade nacional, o Modernismo “difunde-se no tempo, balizando grande parte dos sequentes debates intelectuais, espalha-se no espaço, o poderoso ímã da literatura interferindo com a tendência sociológica, dando origem àquele gênero misto de ensaio, construído na confluência da história com a economia, a filosofia ou a arte, que é uma forma bem brasileira de investigação e descoberta do Brasil”, sentencia Antonio Candido. Irradiante , difuso e difusor, o Modernismo modelou substancialmente a literatura brasileira no século XX e desdobrou-se pelas décadas seguintes em irreversível processo de amadurecimento : uma terceira fase do movimento,na busca de uma nova linguagem, que expressasse os anseios de renovação do pós-guerra, veio na denominada “geração de 1945”, depois, na Poesia Concreta, da mesma forma na Poesia-Práxis , na atual narrativa em prosa — caracterizada esta por novas formas de linguagem , ora intensa e ágil, ‘cinematográfica’ , ora densa e introspectiva, ‘filosófica’,e pela preponderante ambiência urbana retratando “a vivência vertiginosa nas grandes cidades”, confluiu no último decênio do século XX e no despontar deste Terceiro Milênio para o irreversível despontar de uma nova geração de escritores, que abre espaço na literatura brasileira com uma marcante característica vetorial : o deslocamento maciço do eixo principal da nova criação literária para São Paulo.&lt;br /&gt;Na cidade, os novos e novíssimos ficcionistas exercem sua prosa “de estrutura desconstrutivista , subversiva da linearidade, de narrativa fragmentada, quebradiça, de temática citadina, com os elementos da urbanidade pós-moderna , as tensões sociais e os conflitos individuais, o envolvimento pela violência urbana , os impasses existenciais — fomentando uma produção literária como não é feita em nenhuma outra cidade do País.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A São Paulo heterogenética continua abrigando escritores, naturais ou imigrantes, paulistas ou radicados, que produzem uma literatura ímpar, diferenciada, atualizada com os elementos da realidade, afinada com a modernidade, determinante — hoje como ontem, e desde sempre — da própria cultura brasileira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São Paulo, genuína cidade literária&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Há uma história da literatura que se projeta na cidade de São Paulo; e há uma história da cidade de São Paulo que se projeta na literatura”&lt;br /&gt;Antonio Candido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cidade de São Paulo sempre foi pólo fundamental da literatura brasileira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a aura do pioneirismo sempre a acompanhou, desde seus primórdios. Não surpreende pois que em São Paulo tenha nascido e se manifestado um dos momentos fundamentais da história cultural brasileira , o Modernismo.A cidade , já natural e sequencialmente pioneira em diversas manifestações literárias — desde os jesuítas, fundadores da Vila São Paulo de Piratininga, a 25 de janeiro de 1554 (não se pode esquecer que o Diálogo sobre a conversão do gentio, de Manuel da Nóbrega, é o primeirissimo documento literário do Brasil, e o Auto da Pregação Universal, de José de Anchieta, a primeira peça encenatória) — o foi também , por exemplo, na precursora expressão poética do ‘indianismo’ no poema “Nênia” de Firmino Rodrigues Silva ; nela se deram ainda as realizações literárias iniciais de autores não paulistanos como José de Alencar, com seu “Como e por que me tornei romancista”, Castro Alves e seu “Navio negreiro”, Raimundo Corrêa com “Primavera”; nela ocorreu o primeiro movimento literário de vulto não apenas em relação à cidade mas ao próprio País ,em torno da Revista da Sociedade Filomática,em 1830,constituída na então recém-criada Faculdade de Direito — a primeira manifestação de brasilidade literária por sua consciência de fins e coesão de esforços renovadores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cidade pioneira e precursora&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O retrato da História exibe a importância capital da Faculdade de Direito, a partir de 1827, na congregação de homens e idéias por meio da convivência acadêmica que propiciou a formação de agrupamentos de estudantes, com idéias estéticas, manifestações literárias e expressões próprias — deflagrando um processo vigoroso de efervescência intelectual que passou a agitar intensamente a pequena cidade de então. Ainda que se reconheça as limitações quantitativa e qualitativa da produção desses estudantes, não há como negar que estabeleceram a literatura como atividade presente na comunidade paulistana.&lt;br /&gt;Deu-se por ela a primeira manifestação de uma vertente poética considerada “o início da escola brasileira” : o indianismo, desenvolvido na obra de Gonçalves Dias, mas praticado pioneiramente no poema “Nênia”, de Firmino Rodrigues Silva, composto entre as arcádias da Faculdade de Direito. E exercido ainda de forma pioneira em 1844, três anos antes do Primeiros cantos , de Gonçalves Dias, em “Cântico do tupi”, “Imprecação do índio” e “Prisioneiro índio”, do Barão de Paranapiacaba. Evidencia-se pois que quando Dias dominou o meio literário brasileiro, a poesia indianista -- base da obra do maranhense -- já existia e era praticada em São Paulo.Em 1845, com a fundação da Sociedade Epicuréia, consolida-se um processo de produção literária estudantil, embora de qualidade reduzida mas que viria a receber um influxo importante com a estadia de Castro Alves, em 1868 — foi em evento da Faculdade de Direito que declamou pela primeira vez o antológico poema “Navio negreiro” -- quem incutiu um teor social ao tipo de obra, sobretudo poética, que se fazia&lt;br /&gt;Por essa época, o ‘corpo acadêmico’ já constitui um grupo social diferenciado da comunidade paulistana, a boemia e a literatura como manifestações mais características de um segmento com consciência grupal própria.Artistas criadores e ao mesmo tempo críticos, nas revistas e jornais , são os estudantes, entre os naturais da cidade e os migrantes e radicados, autores de denúncias e protestos contra a corrupção, a hipocrisia, as injustiças da sociedade . Na década de 1880 São Paulo acolhe também um grupo de jovens inflamados pelo verbo eloqüente de José Bonifácio o moço , uma geração empenhada numa luta em prol das idéias liberalistas e republicanas : Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, Afonso Pena, Rodrigues Alves .&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;A cidade modernizada e mutante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O desenrolar e desdobrar de percursos literários que culminariam com o Modernismo foi coincidente e conseqüente de um vigoroso processo de evolução econômica, social e urbana da cidade, e há de obrigatoriamente levar em conta determinados ‘símbolos’ da época : o modus literário que passou a ser atuante deve necessariamente ser visto e analisado a partir do desenho dos cenários e ambientes em que veio a se desenrolar , que são representações significativas da própria literatura brasileira na passagem do século XIX para o século XX.&lt;br /&gt;O declínio do Império coincidiu com a ascensão das classes médias urbanas por força do processo da gradativa metamorfose de uma sociedade rural para urbana.Em sua luta pela aquisição de status, segmentos da classe média passaram a prestigiar valores essencialmente burgueses, como o saber e agilidade intelectual -- até porque já era uma tradição,no mundo,a valorização de virtudes intelectuais, o escritor passando a ser objeto de grande consideração social e atividade cobiçada por muitos filhos da classe média. A valorização da inteligência -- a par de possibilitar uma “profissionalização da literatura” --com a ascensão social por via da literatura, fez com que o escritor absorvesse valores aristocráticos, desprovidos de visão crítica do real -- com raríssimas exceções— e veio a comprometer, na imensa maioria dos autores , a vitalidade do estilo, em troca do emprego de linguagem, digamos, ‘ornamental’.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caso particular de São Paulo — então com cerca de 240 mil habitantes na passagem do século XIX para XX, em radical mudança de perfil demográfico, com a maciça chegada de imigrantes, já um importante centro ferroviário, comercial, político, a indústria se implementando — o extraordinário desenvolvimento da cidade acentua uma significativa diferenciação social e evidencia um novo perfil de estrutura sócio-cultural, em que a produção literária antes deflagrada pelos estudantes, passa a ser executada por outro estamento —tornando-se manifestação de uma classe : a nova burguesia, mais urbana e ‘industrializante’, da mesma forma que em outras partes do País incorporando costumes segundo o modelo europeu, eivada de academicismo art-nouveau.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Expressa-se sobretudo um certo aristocratismo intelectual, que agrada em cheio àquela burguesia ascendente : cristaliza-se pois um padrão estético-literário-cultural definido pela elite social, retirados do contingente inicial dos estudantes os valores e parâmetros da produção literária. Constitui-se, numa sociedade de classes, uma literatura ‘classista’, elitista, convencional, integrada aos padrões de refinamento da classe dominante. Acentuam-se então os teores de sentimentalismo e romantismo,privilegiando a ‘pureza’ da língua, a escrita correta, o ‘apuro’, a limpidez, a sonoridade, a ‘riqueza do vocabulário’. A literatura como meio e degrau de ascensão social incorpora-se à sociedade paulistana por meio dos padrões de suas classes dominantes.&lt;br /&gt;Contrária a essa vertente — personificada pelos “corifeus da bela escrita”, precipuamente, no Rio de Janeiro, Coelho Neto, Olavo Bilac, os membros da chamada “geração boêmia” ; em São Paulo, Francisca Julia, Vicente de Carvalho ,Julio Ribeiro, Silvio de Almeida — poucas vozes (ou melhor escritas ) se colocaram : notadamente Lima Barreto ,no Rio de Janeiro, e Alcântara Machado, em São Paulo (há de se considerar também Amadeu Amaral, Sylvio Floreal, em especial Juó Bananére, e anos depois João Antonio) — que adotaram e assumiram temática, ambientação, personagens, trama, linguagem e estilo eminentemente populares e ‘anti-aristocráticas’.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vale ainda considerar a tese do historiador e ensaísta José Murilo de Carvalho a distinguir cidades ortogenéticas -- caso do Rio do Janeiro, por exemplo -- e cidades heterogenéticas -- São Paulo como o maior exemplo, e que veio a marcar o tipo de intelectual e modo de produção cultural gerados pelas duas cidades .A ortogenética é caracterizada pela função política e administrativa, com grande peso do governo e do poder público, cidade de consumidores e não de produtores , baseada no comércio e na escravidão .Carvalho sustenta que a proclamação da República teria reforçado ainda mais essa função política do Rio de Janeiro, com mais intensa ainda presença do poder público, fazendo com que grande parte da intelectualidade se vinculasse de alguma forma à burocracia pública, em geral como funcionários do governo federal : e se tal fato não “introduzia necessariamente uma perspectiva governista na obra desses autores”, frisa ele, “certamente constituía limitação à sua liberdade de criação”. De outro lado, a quase obrigação que se impunha ao Rio de passar a imagem civilizada do país fazia com que seus intelectuais tivessem grande dificuldade em compreender perfeitamente a realidade do País e da cidade — daí as contradições e bloqueios que se interpunham no caminho da criatividade dos intelectuais, a cidade não conseguindo produzir uma cultura moderna/modernista. Diferente de São Paulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cidade heterogenética, que São Paulo exemplifica, estava fora do centro do poder político, caracterizada como cidade de produtores, com maior liberdade de criação, maior iniciativa cultural, com predomínio da atividade econômica e comercial e não política e administrativa — somado ao fato de que nunca teve grande presença escrava Em contrapartida, a intelectualidade paulista era muito menos vinculada ao Estado, e era na verdade patrocinada pela própria oligarquia local -- muitos dos intelectuais eram aliás eles mesmos membros da oligarquia. A independência em relação ao Estado lhes dava maior liberdade de criação Além disso, havia maior homogeneidade social entre a intelectualidade paulista, e isso propiciou a São Paulo maior possibilidade do que o Rio de Janeiro de desenvolver um projeto cultural ,mais consistente e ‘autônomo’ : na Paulicéia, houve “melhor condição de um trabalho intelectual em cima da realidade social concreta”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Modernismo de 1922 expressou um esforço para retirar à literatura o caráter de classe -- dado pela elite social e cultural pós -1890 -- transformando-a em bem comum a todos. Como o Romantismo, o Modernismo é de todas as correntes literárias brasileiras a que adquiriu tonalidades especificamente paulistanas. Antonio Candido sentencia que “se em São Paulo não tivesse havido os escritores do período clássico, do Naturalismo, do Parnasianismo, do Simbolismo, a literatura brasileira teria perdido um ou outro bom autor, mas nada de irremediável. Se tal acontecesse no Romantismo e no Modernismo, o Brasil ficaria mutilado de algumas de suas mais altas realizações artísticas, de obras culminantes como Macário e Macunaíma, por exemplo. Dois momentos paulistanos, dois momentos em que a cidade se projeta sobre o País”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Modernismo , destruidor”e criador&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos primeiros anos do século XX, quando novas correntes artísticas começaram a circular pela Europa, a maior parte do mundo ocidental encontrava-se em meio a transformações sociais, políticas, econômicas, tecnológicas e culturais que alteraram radicalmente a forma de viver e de sentir o mundo. Invenções revolucionárias como o rádio, o telefone, o automóvel e o cinema passaram a fazer parte do cotidiano das grandes cidades, cada vez mais urbanizadas. A industrialização modificara a economia das potências, e os lucros acumulados pela produção em larga escala de artigos manufaturados garantiam tamanha sensação de conforto, segurança e otimismo em relação ao futuro, que o período ficou conhecido como belle époque — uma época de efervescência artística sem precedentes. Mas no extremo oposto,para as classes trabalhadoras o tempo era de lutas por melhores condições de vida e, no plano internacional um conjunto de fatores econômicos e políticos levaram à eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914. O Brasil vivia então período de grandes mudanças, com a urbanização e a adoção de novas tecnologias que transformavam o ritmo de vida e o cenário das grandes cidades, e que pareciam alterar a percepção do mundo. O intenso crescimento urbano e industrial, acelerado desde o começo do século, e a chegada em massa de imigrantes, principalmente italianos, muitos dos quais haviam vivido a experiência da luta de classes em seus países, propiciando inclusive a difusão de idéias anarquistas e socialistas, fizeram com que o proletariado crescesse e se organizasse : nas primeiras décadas do século XX ocorreram várias greves em São Paulo, a maior delas em 1917 - mesmo ano da Revolução Russa. Nos primeiros anos do século XX vieram radicais transformações políticas, com acontecimentos decisivos para a vida nacional, como as revoltas deflagradas pelo movimento tenentista ( julho de 1922 no Rio de Janeiro; julho de 1924 em São Paulo),a Coluna Prestes, a fundação do Partido Comunista, a derrocada da República Velha, das oligarquias rurais e da "política café-com-leite", o início da Era Vargas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É nesse contexto de crises e incertezas que surgiram as correntes de vanguarda (do francês avant-garde, "o que marcha à frente"), entre elas o Futurismo, o Cubismo, o Dadaísmo, o Expressionismo, o Surrealismo, recebidas com entusiasmo por escritores que procuravam renovar as formas de expressão artística. Muito antes de 1922 os artistas participantes da Semana já produziam obras influenciadas pelas novas correntes européias, como a publicação, em 1917, de diversos livros de poemas em que jovens autores buscavam uma nova linguagem, ainda não bem realizada., em Nós, de Guilherme de Almeida; Juca Mulato, de Menotti del Picchia; Há uma gota de sangue em cada poema, de Mário de Andrade — e a célebre exposição de Anita Malfatti, em 1917, duramente criticada por Monteiro Lobato no famoso artigo “Paranóia ou mistificação ?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Semana de Arte Moderna de 1922 foi o fato concreto que definitivamente integrava o Brasil no contexto filosófico-estético-cultural do século XX e levava-o a inserir-se nas coordenadas culturais, políticas e socioeconômicas dos novos tempos —o mundo da técnica, o mundo mecânico e mecanizado. A partir dela caminha o movimento modernista em busca de padrões autônomos e formas autênticas para a criação estética nacional -- e não somente no âmbito artístico : da mesma forma no campo do pensamento social, os intelectuais procuravam estabelecer novos modos de se tratar e compreender a cultura e a história do Brasil, estabelecendo novas interpretações e valores para a identidade nacional e dando início à consolidação institucional do pensamento sociológico brasileiro. Gerou sobretudo um estado permanente, latente , criativo, estimulante, instigante, de inquietação intelectual, e iniciou um processo de unificação cultural sem precedentes no Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fica para a História o depoimento de Mário de Andrade:&lt;br /&gt;"A Semana de Arte Moderna dava um primeiro golpe na pureza do nosso aristocracismo espiritual. Consagrado o movimento pela aristocracia paulista, si ainda sofreríamos algum tempo ataques por vezes cruéis, a nobreza regional nos dava mão forte e... nos dissolvia nos favores da vida. Está claro que não agia de caso pensado, e si nos dissolvia era pela própria natureza e o seu estado de decadência. Numa fase em que ela não tinha mais nenhuma realidade vital, como certos reis de agora, a nobreza rural paulista só podia nos transmitir a sua gratuidade. Principiou-se o movimento dos salões. E vivemos uns oito anos até perto de 1930, na maior orgia intelectual que a história do país registra. (...) se alastrou pelo Brasil o espírito destruidor do movimento modernista. Isto é, o seu sentido verdadeiramente específico. Porque, embora lançando inúmeros processos e idéias novas, o movimento modernista foi essencialmente destruidor.".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A "destruição" tinha como objetivo, em um primeiro momento, o rompimento com estéticas passadas, especialmente a parnasiana — em oposição ao rigor gramatical e ao preciosismo lingüístico parnasianos, os poetas modernistas valorizavam a incorporação de gírias e de sintaxe irregular, e a aproximação da linguagem oral de vários segmentos da sociedade brasileira— e mais: a preparação de um terreno onde se pudesse reconstruir a a cultura brasileira, sobre bases nacionais, a realização de uma revisão crítica da história e das tradições culturais do país. Os autores do Modernismo procuraram no índio e no negro os elementos primordiais da cultura brasileira que proporcionariam a reconstrução da realidade nacional, e procuraram retratar a mistura de culturas e raças existente no país.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, o nacionalismo, a mais marcante característica do Modernismo, iria separar ideologicamente os adeptos do movimento, opondo os grupos “Pau-Brasil”,e depois “Antropofágico”(que incorporva o comunismo, o freudianismo e o matriarcalismo), de Oswald de Andrade , Raul Bopp e Tarsila do Amaral , e o “Verde-Amarelismo , de Menotti del Picchia, Plínio Salgado e Cassiano Ricardo. Estudiosos sustentam que a verdadeira ‘revolução’ modernista se deu mesmo em 1924, ano do rompimento de Graça Aranha com a Academia Brasileira de Letras, ano do “Manifesto Pau-Brasil”, de Oswald de Andrade, anos de dois textos fundamentais de Mario de Andrade : A escrava que não é Isaura — a ‘teoria’ do modernismo compendiada - e seu livro mais ousado, em termos formais, Losango caqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seguida, 1928 marca a publicação de Macunaíma, de Mario de Andrade, máxima obra literária do movimento, excepcional romance-retrato do Brasil de grande miscigenação cultural — as tradições culturais indígenas dos primórdios ao lado da modernidade europeizada dos centros urbanos brasileiros da época — e de Retrato do Brasil, de Paulo Prado, inaugurando o ensaio de cunho ao mesmo tempo histórico e sociológico que abriria caminho para o grande ciclo de “interpretações do Brasil”.À renovação estética modernista,na década de 1920, alia-se no decênio seguinte o ensaio de interpretação e crítica social, que tenta recontar o processo de formação histórica do país: a procura da identidade social passa igualmente pela busca premente de uma ponte entre uma completa renovação cultural e a reforma da sociedade, uma ponte entre a modernidade e a modernização do país .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ano de 1930 é a época de instauração do Estado Novo, que se ‘apropria’ ideológica e retoricamente do Modernismo — Getulio Vargas declarava em seu discurso de posse: “As forças coletivas que provocaram o movimento revolucionário do Modernismo na literatura brasileira foram as mesmas que precipitaram no campo social e político a Revolução de 1930” (seguindo uma sugestão formulada por Cassiano Ricardo) — mas inicia um período de intensa fermentação política, social e cultural. É na primeira metade dessa década que nascem as primeiras tentativas de interpretação de conjunto da história, da economia e da sociedade brasileira.Sobretudo a prosa literária se desenvolve, ficcionalmente no romance e no conto, que retratam decadência da aristocracia rural, a formação do proletariado urbano, a luta do trabalhador, o êxodo rural, as cidades em rápida transformação — os cenários para a expansão e proliferação dos ensaios de interpretação do País, de Gilberto Freyre , Paulo Prado (Retrato do Brasil), Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil) ,Caio Prado Júnior (Formação do Brasil contemporâneo), todos lastreados pela ‘índole’ modernista em busca da síntese explicativa dos múltiplos aspectos da vida social brasileira e de seu desenvolvimento histórico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acima de tudo um processo de mudança cultural geral, em direção a uma nova reconstrução sócio-política da identidade nacional, o Modernismo “difunde-se no tempo, balizando grande parte dos sequentes debates intelectuais, espalha-se no espaço, o poderoso ímã da literatura interferindo com a tendência sociológica, dando origem àquele gênero misto de ensaio, construído na confluência da história com a economia, a filosofia ou a arte, que é uma forma bem brasileira de investigação e descoberta do Brasil”, sentencia Antonio Candido. Irradiante , difuso e difusor, o Modernismo modelou substancialmente a literatura brasileira no século XX e desdobrou-se pelas décadas seguintes em irreversível processo de amadurecimento : uma terceira fase do movimento,na busca de uma nova linguagem, que expressasse os anseios de renovação do pós-guerra, veio na denominada “geração de 1945”, depois, na Poesia Concreta, da mesma forma na Poesia-Práxis , na atual narrativa em prosa — caracterizada esta por novas formas de linguagem , ora intensa e ágil, ‘cinematográfica’ , ora densa e introspectiva, ‘filosófica’,e pela preponderante ambiência urbana retratando “a vivência vertiginosa nas grandes cidades”, confluiu no último decênio do século XX e no despontar deste Terceiro Milênio para o irreversível despontar de uma nova geração de escritores, que abre espaço na literatura brasileira com uma marcante característica vetorial : o deslocamento maciço do eixo principal da nova criação literária para São Paulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na cidade, os novos e novíssimos ficcionistas exercem sua prosa “de estrutura desconstrutivista , subversiva da linearidade, de narrativa fragmentada, quebradiça, de temática citadina, com os elementos da urbanidade pós-moderna , as tensões sociais e os conflitos individuais, o envolvimento pela violência urbana , os impasses existenciais — fomentando uma produção literária como não é feita em nenhuma outra cidade do País.&lt;br /&gt;A São Paulo heterogenética continua abrigando escritores, naturais ou imigrantes, paulistas ou radicados, que produzem uma literatura ímpar, diferenciada, atualizada com os elementos da realidade, afinada com a modernidade, determinante — hoje como ontem, e desde sempre — da própria cultura brasileira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5121148060136346781-1291714796210085521?l=pandorawiki.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pandorawiki.blogspot.com/feeds/1291714796210085521/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5121148060136346781&amp;postID=1291714796210085521&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/1291714796210085521'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/1291714796210085521'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pandorawiki.blogspot.com/2012/01/e-viva-os-458-anos-vida-longa-sao-paulo.html' title='e viva os 458 anos; vida longa a São Paulo !.'/><author><name>Caixa de Pandora</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13780187324490495166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TOXBy1EVxVI/AAAAAAAAAic/POmRMcX667A/S220/foto%2B1.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-6KSpyvVwpvo/Tx01WaqNxRI/AAAAAAAAAo8/jGTPm0OzqUA/s72-c/funda%25C3%25A7%25C3%25A3o%2Bcidade%2BSP%2BParreiras.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5121148060136346781.post-5931627853657578707</id><published>2012-01-14T10:25:00.000-08:00</published><updated>2012-01-14T10:46:32.976-08:00</updated><title type='text'>diálogos   de  lima  barreto  com  machado de  assis</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-PGoUn85dONs/TxHNAFkrHcI/AAAAAAAAAow/1xzONe5wb2A/s1600/Machado%2BA..jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 87px; height: 124px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-PGoUn85dONs/TxHNAFkrHcI/AAAAAAAAAow/1xzONe5wb2A/s200/Machado%2BA..jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5697560404980080066" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-HxKuggSgwqE/TxHM_wssmHI/AAAAAAAAAog/pQ5ITDy3el4/s1600/Lima%2BBarreto.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 79px; height: 122px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-HxKuggSgwqE/TxHM_wssmHI/AAAAAAAAAog/pQ5ITDy3el4/s200/Lima%2BBarreto.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5697560399376586866" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align: left;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span &gt;&lt;span style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 11pt; text-align: justify; "&gt;A&lt;/span&gt;&lt;span &gt;&lt;span style="font-family: 'Palatino Linotype'; text-align: justify; "&gt;mbos &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; text-align: justify; "&gt;cases  &lt;/i&gt;&lt;span style="font-family: 'Palatino Linotype'; text-align: justify; "&gt;primordiais de meus estudos literários, Machado de Assis e Lima Barreto trocam instigantes diálogos, em sucessivos encontros em diversos locais, num&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: 'Palatino Linotype'; text-align: justify; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: 'Palatino Linotype'; text-align: justify; "&gt;exercício ‘híbrido’ de ficção – nãoficção&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: 'Palatino Linotype'; text-align: justify; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: 'Palatino Linotype'; text-align: justify; "&gt;que ando a idealizar (quem sabe, torne-se uma obra...).&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align: left;"&gt;&lt;span &gt;&lt;span style="font-family: 'Palatino Linotype'; text-align: justify; "&gt;Iniciados ficticiamente na rua do Ouvidor no ano de 1906,desdobrados em sequência em outros momentos (até 1908: ano da morte de Machado) e locais,&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: 'Palatino Linotype'; text-align: justify; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: 'Palatino Linotype'; text-align: justify; "&gt;com interferência descritiva e comentada&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: 'Palatino Linotype'; text-align: justify; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: 'Palatino Linotype'; text-align: justify; "&gt;de um narrador (em primeira pessoa – no caso, eu), os diálogos ‘ganham vida’ como resultante de estudos e investigações acerca das relações entre os dois grandes&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: 'Palatino Linotype'; text-align: justify; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: 'Palatino Linotype'; text-align: justify; "&gt;autores,não propriamente pessoais porquanto nunca se encontraram nem se falaram muito menos trocaram correspondência ou debates&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: 'Palatino Linotype'; text-align: justify; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: 'Palatino Linotype'; text-align: justify; "&gt;– relações perfeitamente existentes na ‘seara comum da literatura’, ambos verdadeiros ‘parentes literários’, nas quais é possível detectar , por certo predominantes, diferenças e divergências , mas também muitos elementos comuns e pontos de contato[escrevi artigo a respeito,já veiculado aqui]&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: 'Palatino Linotype'; text-align: justify; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: 'Palatino Linotype'; text-align: justify; "&gt;– ambos de comum origem étnica e social, ambos valendo-se da literatura como manifestação mais legítima para expressar suas respectivas posições perante a vida, ambos críticos vigorosos da República, ambos satíricos,sarcásticos, alegóricos -- inclusive muito respeito, admiração e elogios por parte de Lima para com Machado.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align: left;"&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span  &gt;os diálogos&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" align="center" style="text-align: left;"&gt;&lt;span style="text-align: justify; "&gt;&lt;span &gt;---- como vai, mestre Machado ? prazer em encontrá-lo...só poderia mesmo ser aqui em plena rua do Ouvidor... veio da Garnier? [do ‘herdeiro’ do “Bom Ladrão Garnier”?...]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;--meu caro Afonso Henriques, malgrado sua pilhéria, tão contumaz quanto desnecessária, [com relação ao livreiro], acreditaria fosse verdade  o prazer  que menciona se tivesse eu a mente alterada ou em estado de certo desequilíbrio; mas sinto satisfação em vê-lo aqui, um tanto surpreso, é claro, pois raríssimas vezes o vi e muito menos cá na Ouvidor, que sabemos não é o comum em sua freqüência  ou trânsito..&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;-- ...se a mente alterada, emérito mestre, ou se deixasse de lado, pelo menos por um instante, seu já proverbial ceticismo, no caso com relação a um real sentimento que externo em sua presença.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;- solicito o obséquio de dispensar esse detestável tratamento de “mestre”,que soa bastante irônico, assim creio.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;        &lt;span style="font-style: italic; font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;Tinha plena consciência de que tudo isso que me ponho a escrever possa parecer algo onírico ou fantasioso, até mesmo delirante; poderia mesmo formulá-lo qual  um sonho, um curioso sonho, um  esplendoroso sonho, a  que por certo todo escritor, estudioso e pesquisador,ou quem lida nas letras –  ainda mais  quando se idealiza ensaios sobre Machado, Lima (e Alencar, Euclides, etc ) – está propenso, quiçá desejoso,a isso. Mas confiro a estes escritos as forma e formato de ficção, de exercício ficcional : o  que me inspira e leva a tal ? serei bem sucedido ? Bem, de qualquer modo registro-o por inteiro, em seus vários desdobramentos – a quem interessar possa...  &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;-- não tenho a tenção de lhe desagradar, prezado confrade , permita-me chamar-lhe assim, pois afinal o somos pela atividade comum na imprensa, eu um ainda iniciante, aprendiz, discípulo por certo do senhor, consagrado cronista de tantas e tantas décadas e tantas e tantas  memoráveis páginas em nossas folhas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;-- mas pelo que sei, e li, o senhor  já possui uma razoável, e peculiar a meu gosto, trajetória na imprensa, iniciada há seis  anos, não é isso ? naquele jornalzinho, perdoe-me o diminutivo, não é depreciativo, meramente ilustrativo de seu formato e  característica, de estudantes...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;-- sim, e guardo ótimas recordações daquele tempo... o senhor conheceu meu primeiro artigo, dirijo-me ao maestro Francisco Braga, seu dileto amigo,estou certo ? que inclusive apresentava-se com frequência, e sucesso, no Club Beethoven, de sua especial predileção e assiduidade, não ? lá, me lembro de uma  crônica sua,  de 5 abril 1888, o  Ferreira Vianna, então ministro da Justiça no Gabinete João Alfredo, discursara em 24 março  já anunciando a inevitável abolição, que viria em maio, estou correto ?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;        &lt;span style="font-style: italic; font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;Em meio ao diálogo dos dois, que dava-se em 1906, numa tarde ensolarada de agosto no ameno inverno  carioca, lembrei-me de que Lima, com efeito, iniciara-se como jornalista há apenas seis anos ,no modesto &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;A Lanterna,&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic; font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt; pequeno jornal de estudantes(à época,  ainda estudava na Escola Politécnica)  --"órgão oficioso da mocidade de nossas escolas superiores” -- fundado por Júlio Pompeu de Castro e Albuquerque, onde também colaborava Bastos Tigre.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;&lt;span &gt;O artigo debutante  a que Lima se refere, publicado em dezembro de 1900 , reporta a “um magnífico e interessante concerto sinfônico”, o primeiro de Francisco Braga, e enaltece a formação erudita  do maestro e o saúda como “um formoso talento musical que se evidencia, à força de extraordinária cultura, e honrará a pátria”.                  &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: small; "&gt;-- inclusive eu acabei por assumir o posto de bibliotecário do saudoso Clube, e sempre me encontrava, com imenso prazer, com o Braga : que belas conversas tínhamos,e foi lá que ele pela primeira vez me falou do desejo de vir a musicar meu poema “Lágrimas de cera”, o que veio a fazer em 1893. e pensar que três anos depois o Beethoven fecharia de vez suas portas&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;-- lembro que o senhor publicou uma crônica,em 5 julho 1896, na &lt;i&gt;Gazeta de Notícias&lt;/i&gt;, tratando de música em geral, na qual menciona com emoção o Club. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;-- pois então, recordo agora de um fato muito importante :muito lutei para que as mulheres pudessem freqüentar o Club. Sabe o senhor que musas ou virtuosas, aqueles anos não eram fáceis para as mulheres talentosas e nem para as sedentas de cultura e informação. . Era o caso de Luisa Leonardo, bisneta da Viscondessa de Nassau e o próprio imperador Pedro I custeou seus estudos musicais  em Paris, tamanho o vituosismo e a precocidade  dela , se apresentara ao piano aos 8 anos de idade e em 1880 tornou-se pianista oficial da Real Câmara de Luis I &lt;st1:personname productid="em Lisboa. De" st="on"&gt;em Lisboa. De&lt;/st1:personname&gt; volta ao Brasil, foi prestigiada pela intelectualidade da época, mas não encontrou espaço como musicista. Por isso passou a dedicar-se ao teatro musicado, ao lado de Chiquinha Gonzaga, e a contribuir para &lt;i&gt;A Gazetinha&lt;/i&gt; com o pseudônimo de Vítor Luis.  onde  pretendo chegar: para ela, escrevi "paroles françaises" a compor sua canção  "Inocência", com  letra em português do Louis Guimarães Junior .&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;        &lt;i&gt;&lt;span lang="EN-US"&gt;Ton âmeau ciel&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;i&gt;&lt;span lang="EN-US"&gt;&lt;span &gt;        Au sein dans ton sein&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;i&gt;&lt;span &gt;&lt;span lang="EN-US"&gt;        &lt;/span&gt;Ma bien aimé&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;i&gt;&lt;span &gt;        Tu as la sainte&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;&lt;i&gt;         La sainte pudeur&lt;/i&gt;...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;-- e também me consta que  “inocência”, aliás acoplado a “culpa” parecem-me tema capital em boa parte de sua ficção, não ? e vieram inclusive ‘moldar’ a magnífica, assim penso, Capitu, mas esse binômio digamos veio inspirar essa sua parceria com o maestro Braga no  "Lágrimas de cera", pois não ?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span &gt;&lt;o:p&gt;       &lt;/o:p&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;Citam o poema, e me vem aos ouvidos a letra  machadiana e a música criada por Braga, cantadas pela mezzosoprano brasileira Anna Maria Kieffer., registradas numa primorosa edição sonora que não deixo de costumeiramente ouvir, gratificado, embevecido.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;Por outro lado, à referência feita  por Machado acerca das “paroles françaises” sinto  quase um sobressalto – pois ainda não  logrei fazer publicar (apesar de  as Universidade do Porto, Université de Rennes e University of Bristol terem se interessado...) -- meu trabalho  sobre “Machado de Assis e os franceses”, na verdade um estudo de Literatura Comparada machadiana a compor um conjunto com as influências,citações, referências e recorrências portuguesas, inglesas, saxônicas, alemães e russas em sua obra.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small; text-align: left; "&gt;--&lt;/span&gt;&lt;span style="text-align: left; "&gt;&lt;span &gt; mas vejo que o senhor me conhece bem, e apesar de muitas diferenças, notórias, essenciais, eu diria até orgânicas, entre nós, interessa-se, ou interessou-se em algu&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small; text-align: left; "&gt;ns momentos, por minhas criações...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;span &gt;--- por isso o chamo de mestre... oh, desculpe-me, um lapso ...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;span &gt;-- o senhor sempre preferiu essa, digamos, ‘imprensa menor’, não ? ... haja vista o que fez depois desse início. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;span &gt;-- ah, sim,vieram ainda em 1902(nesse ano fui reprovado em Mecânica na Escola Politécnica) &lt;i&gt;A Quinzena Alegre&lt;/i&gt;, do Bastos Tigre de efêmera duração,depois em 1903 no &lt;i&gt;Tagarela,&lt;/i&gt; jornal humorístico de Raul Klixto, onde usei meu primeiro pseudônimo, também os tive , e muitos, como aliás o senhor, Rui de Pina , e &lt;st1:personname productid="em O Diabo" st="on"&gt;em &lt;i&gt;O  Diabo&lt;/i&gt;&lt;/st1:personname&gt;, semanário do Bastos Tigre,que só durou quatro números...e meu plano é vir a criar minha própria  publicação, saiba o senhor. a propósito : nunca pensou em algo assim ?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;span &gt;-- ah, certa feita o Ferreira de Araújo, lá na própria Gazeta de Notícias, começou a insistir comigo , repetidas vezes, para tal, mas eu sempre recusei. Voltemos ao senhor : idealista como é; tranqüilize-se que não vou dizê-lo ‘sonhador’, quando muito proclamo-o ‘visionário’... mas em 1905 o senhor escrevia no grande &lt;i&gt;Correio da Manhã&lt;/i&gt;, no qual a proposto nunca tive vontade de publicar , ainda mais depois da experiência de meu dileto amigo e companheiro no Ministério [da Viação,Indústria e Obras Públicas],e também um de meus mais severos,embora amigável, críticos...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt;        &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;i style="font-size: small; "&gt;&lt;span style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;À medida que aquela conversa magicamente onírica se desdobrava, eu lembrava e incorporava, a cada palavra deles, registros e mais registros biográficos, bibliográficos, literários, etc de um e de outro Veio-me a recordação\referência ao episódio, bastante significativo diga-se, tanto do  Correio da Manhã,  como do cronista,poeta,contista,criador de teatro  : o conto “A viúva” foi enviado por Arthur Azevedo  ao jornal, onde escrevia aos domingos, para concorrer a um prêmio em dinheiro e à vaga aberta , devido à decisão da direção do jornal de substituí-lo por outro colaborador, instituindo um concurso ; assinado por pseudônimo, o conto foi dado como vencedor e publicado, mas então Arthur revelou o estratagema à direção, deixando claro que interesses subalternos ou julgamentos equivocados estavam por trás da decisão de defenestrá-lo da redação; devolveu o prêmio e  pediu demissão “irrevogável”.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;span style="font-size: small; "&gt;-- fui para o &lt;/span&gt;&lt;i style="font-size: small; "&gt;Correio&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: small; "&gt; levado pelo Pausílipo da Fonseca, grande amigo do Edmundo Bittencourt, mas atraído, até com entusiasmo e esperança, pela linha de então do jornal, em contraste com a passividade e covardia das outras folhas, denunciador das falcatruas e negociatas&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small; "&gt;dos poderosos, crítico mordaz dos políticos corruptos ; logo depois,já neste ano de 1906, me decepcionei , me desiludi, por perceber que no fundo não era muito diferente dos outros, veja o exemplo de sua atitude com o Azevedo, convenci-me da inutilidade do esforço de procurar o caminho da imprensa burguesa.... mas o fato é que exatamente em 28 abril iniciei uma série de reportagens, sem assinatura – atitude de cautela,para não correr riscos : tocaria em certas,até então, ‘verdades históricas’ – com o título “Os subterrâneos do morro do Castelo”, que se deram a público até 3 junho; se o senhor as conheceu deve ter notado que intencionalmente dei um tom romanceado, o título original é quilométrico, nem vou aqui lhe dizer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;span &gt;--.ah, sim, recordo-me que provocaram grande repercussão na época, eu me interessei muito, gostei mesmo e lhe parabenizo pelo  ótimo trabalho. o Veríssimo elogiava muito seus textos, sempre que nos encontrávamos lá na livraria.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;span &gt;-- obrigado, senhor. não sabia dos comentários do Veríssimo, nem que ele tenha escrito algo a respeito. mas ,e isso para mim é importante, desconheço que o senhor o saiba, nesse mesmo ano de 1905 comecei a escrever  meu primeiro romance, que concebo ‘&lt;i&gt;a clef’&lt;/i&gt; , e imagino talvez venha a ser bastante revelador, bastante impactante . a propósito, tenho aqui comigo o prefácio que vou levar mais tarde para o Noronha [Antonio Noronha Santos]...mas deixe-me confidenciar-lhe algo : penso em criar romances desde antes até no esboço nos “Subterrâneos...”, em fevereiro 1904 publiquei um texto,informando ser “capítulo de romance inédito”, &lt;st1:personname productid="em A Lanterna" st="on"&gt;em &lt;i&gt;A  Lanterna&lt;/i&gt;&lt;/st1:personname&gt;, com o título de “Chez Madame da Costa”...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;span style="font-size: small; "&gt;        &lt;span style="font-style: italic; font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;Ativo a memória para registrar que José Veríssimo estampou uma referência, amável, quando do terceiro número da  Floreal -- revista criada por Lima em  1907,realizando o intento comentado com Machado, após demitir-se,em junho, da Fon-Fon,de Mario Pederneiras, onde começara a colaborar em abril, levado pelo “insuportável desagrado,humilhante para meu orgulho, com a atitude de superioridade para comigo dos donos da revista –  e que só vingou por quatro números, de 25 outubro a 31 dezembro --  em sua coluna do Jornal do Commercio, em dezembro 1907 -- de que parte Lima transcreveria no prefácio da 2ª. edição do romance  &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small; font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;Recordações do escrivão Isaias Caminha&lt;i&gt;, de 1917&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small; font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;:&lt;/span&gt;&lt;i style="font-size: small; "&gt;"&lt;/i&gt;&lt;span &gt;Ai de mim, se fosse a 'revistar' aqui quanta revistinha por aí aparece com presunção de literária, artística e científica.Não teria mãos a medir e descontentaria a quase todos; pois a máxima parte delas me parecem sem o menor valor, por qualquer lado que as encaremos. Abro uma justa exceção, que não desejo fique como precedente, para uma magra brochurazinha que com o nome esperançoso de Floreal veio ultimamente a público, e onde li um artigo "Spencerismo e Anarquia", do Senhor M. Ribeiro de Almeida, e o começo de uma novela Recordações do Escrivão Isaías Caminha, pelo Senhor Lima Barreto, nos quais creio descobrir alguma cousa. E escritos com uma simplicidade e sobriedade, e já tal qual sentimento de estilo que corroboram essa impressão."&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;span &gt;             &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: small; "&gt;A&lt;/i&gt; &lt;span style="font-size: small; font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;Floreal,&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small; font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt; &lt;/span&gt;&lt;i style="font-size: small; "&gt;&lt;span style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;embora efêmera, de certo modo marcou presença no panorama jornalístico e mesmo literário de então, no que contrastava com o espírito da época e em especial tornava pública, de forma expressa, o pensamento,concepção e postura de Lima com relação à literatura e sua “missão” . O artigo de apresentação – cujo teor e essência estariam também no texto “Amplius” que abre a coletânea de contos Histórias e sonhos, em 1920 (a única publicada em vida por Lima) -- representava,com efeito, uma espécie de ‘profissão de fé’ de escritor: “(...) a grandeza da literatura não reside em ‘rutilantes crônicas duvidosamente impressionistas ou no desenvolvimento em contos de anedotas das folhinhas Laemmert(...)”.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;&lt;span &gt;           Antonio Noronha Santos,jornalista,escritor,veio a se tornar melhor e maior amigo de Lima : conheceram-se em 1903, no Café Java, ponto predileto dos estudantes da Politécnica, localizada em frente, no largo de São Francisco, a sólida amizade se formando em vários encontros subseqüentes, nas mesas da Americana ou do Jeremias, na Avenida Central – sabemos o quanto de separação, e mesmo ‘rivalidade’, existia entre os grupos de literatos freqüentadores dos bares e cafés,  o de Bastos Tigre, Domingos Ribeiro Filho,Noronha Santos,Curvelo de Mendonça, Fabio Luz,Lima Barreto no Java, na Americana, no Jeremias, ou no  Café Papagaio – neles inclusive foram feitos os planos para o lançamento da Floreal – opondo-se ao de  Olavo Bilac, Elisio de Carvalho, Coelho Neto, Medeiros e Albuquerque,e outros a que os primeiros denominavam “nefelibatas”(e assentando mais ainda sua rejeição ao grupo liderado justamente por Machado de Assis, que freqüentava a Garnier e dominava a Academia). &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: small; font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;&lt;i&gt;Em fevereiro 1909 Noronha viajaria a Lisboa para entregar os originais do romance de Lima ao editor português A.M. Teixeira , que os publicaria em livro no mês de dezembro. Lima, no entanto, começara a publicar em folhetins na&lt;/i&gt; Floreal. &lt;i&gt;Em fins desse ano, Noronha Santos edita com Lima um panfleto contra a candidatura de Hermes da Fonseca à presidência da República, intitulado &lt;/i&gt;O Papão, “&lt;i&gt;semanário dos bastidores da política, das artes e...das&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;i style="font-size: small; "&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: small; font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;candidaturas”,anunciado em boletins distribuídos nas ruas centrais da cidade : circulou apenas uma vez.. Hermes da Fonseca, como se sabe, foi um dos alvos capitais de - mais do que críticas - verdadeira repulsa por parte de Lima,sob o forte sentimento antimilitarista desde a juventude, exposta em crônicas e vários contos, em especial, sob simulacros e alegorias, nos célebres “contos argelinos”,que Lima publicou entre 1915 e 1922.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;span style="font-size: small; "&gt;-- ora, uma surpresa, e uma deferência , agradeço muito pela gentileza da confiança em me revelar seu projeto, que vejo ser genuíno de sua parte, em me dar a conhecer tanto o fato com relação ao romance,que diz vir a ser “&lt;/span&gt;&lt;i style="font-size: small; "&gt;a clef&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: small; "&gt;” como das tentativas anteriores.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;span &gt;-- não quero nem vou fazê-lo, abandonar o jornalismo, mas faço-lhe aqui uma revelação: vou ser escritor, sim: tenho grandes ambições, aspiro à ‘glória literária’, sim. alguns contos já estão prontos, inclusive há cerca de dois anos escrevi um para o qual dedico especiais atenção e carinho , até mesmo para torna-lo um dia uma novela : tem o título com o nome da protagonista, “Clara dos Anjos”, que para mim simboliza, emblematiza a mulher brasileira, não a mulher rica, burguesa, ‘republicana’, fútil, fugaz, mas a moça humilde, pobre, mestiça e, no conto, iludida, traída, manipulada sentimentalmente pelo homem, deflorada por um pseudo noivo que lhe aparecera para turvar seus sonhos de amor...essa mulher,para mim a verdadeira brasileira, é motivo de dois outros contos, “Um especialista”, também de 1904 , aliás ano de seu esplêndido &lt;i&gt;Esaú e Jacó&lt;/i&gt;, não imagina como admiro esse romance, pelo que ,permita-me, coloca a República em seus devidos termos, e “O filho da Gabriela”, que acabei de escrever: nenhum deles publicado ainda...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;span &gt;-- pois então o senhor também se incorpora, permita-me dizê-lo, à preocupação, a rigor ‘dedicação’, com a mulher, à defesa intransigente de seus direitos, afetivos, conjugais, sociais, culturais. temos muito a dialogar sobre  tão relevante tema.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;span &gt;-- além da mulher, a que se refere, permita-me  dizer-lhe que temos outros dois temas principais em comum, digamos; deles fizemos, tanto eu como o senhor, clave para crônicas e contos : a política e a escravidão – desde 1900,eu ainda estudante na Politécnica, passava a maior parte do tempo na biblioteca lendo filosofia e &lt;st1:personname productid="em especial Condorcet" st="on"&gt;em especial Condorcet&lt;/st1:personname&gt; e sua &lt;i&gt;Reflexions sur l’esclavage des nègres&lt;/i&gt;, que me inspirou acalentar o ideal de escrever uma “História da escravidão negra no Brasil”.na verdade,  tenho idéias em profusão para muitos contos, assim como para romances. e um dia candidato-me à Academia, de sua idealização,criação e que o senhor preside desde sempre e &lt;i&gt;ad eternum&lt;/i&gt;, ao que parece...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;span &gt;-- terei redobrado prazer em ouvi-lo, caro senhor Barreto, redobrado agora por sabê-lo tão afável e receptivo  ao diálogo : tinha o senhor como pessoa de trato difícil, amargo e irrascível. mas no momento tenho de me despedir pois compromissos inadiáveis me esperam. sugiro, proponho nos reencontremos...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;span &gt;--- ... em data,hora e local que o senhor, prezado Assis, sugerir. o prazer será todo meu.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;span style="font-size: small; "&gt;(........)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;div&gt;&lt;!--[if !supportFootnotes]--&gt;&lt;span &gt;&lt;br clear="all"&gt;  &lt;/span&gt;&lt;hr align="left"  width="33%"&gt;  &lt;!--[endif]--&gt;  &lt;div id="ftn1"&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;span &gt;&lt;a href="file:///E:/LB%20e%20MA/di%C3%A1logos%20%20%20de%20%20LB%20com%20MA.doc#_ftnref1" name="_ftn1" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-family: 'Times New Roman'; "&gt;&lt;!--[if !supportFootnotes]--&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: 'Times New Roman'; "&gt; Francisco Braga (Rio de Janeiro, 1868 – 1945), músico, maestro e professor , logo destacou-se por seu talento, pelo que  o governo republicano concedeu-lhe uma bolsa de estudos no exterior : em 1890, obtém o primeiro lugar no concurso para admissão ao Conservatório de Paris, tornando-se aluno de Massenet; viveu por dez anos na Europa, fixando residência em Dresden.Como compositor abordou todos os gêneros musicais, da ópera à música de câmara, da música orquestral à música instrumental e vocal, da música sacra à banda e à musica de caráter popular.Escreveu mais de 30 canções, nem todas de cunho erudito –  todas marcadas por acentuado teor de nacionalismo, então emergente na seara musical. O Teatro Municipal do Rio de Janeiro foi inaugurado em 1909 com sua composição “Insônia”, com orquestra sinfônica regida por ele ; foi também o  compositor do "Hino à Bandeira”.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: left;"&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoCommentText"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span &gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoFootnoteText"&gt;&lt;/p&gt;  &lt;/div&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5121148060136346781-5931627853657578707?l=pandorawiki.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pandorawiki.blogspot.com/feeds/5931627853657578707/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5121148060136346781&amp;postID=5931627853657578707&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/5931627853657578707'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/5931627853657578707'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pandorawiki.blogspot.com/2012/01/dialogos-de-lima-barreto-com-machado-de.html' title='diálogos   de  lima  barreto  com  machado de  assis'/><author><name>Caixa de Pandora</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13780187324490495166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TOXBy1EVxVI/AAAAAAAAAic/POmRMcX667A/S220/foto%2B1.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-PGoUn85dONs/TxHNAFkrHcI/AAAAAAAAAow/1xzONe5wb2A/s72-c/Machado%2BA..jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5121148060136346781.post-1574015186693541875</id><published>2012-01-13T15:59:00.000-08:00</published><updated>2012-01-13T16:04:11.547-08:00</updated><title type='text'>Freud não explica -- complica</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-HkvNA5pZaRk/TxDGb1kEH-I/AAAAAAAAAoU/_aLT03uXSJs/s1600/Pandora%2Bcab..JPG"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 100px; height: 143px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-HkvNA5pZaRk/TxDGb1kEH-I/AAAAAAAAAoU/_aLT03uXSJs/s200/Pandora%2Bcab..JPG" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5697271710160789474" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: 'lucida grande', tahoma, verdana, arial, sans-serif; font-size: 11px; line-height: 14px; background-color: rgb(255, 255, 255); "&gt;‎"Freud explica", comentavam na festa de aniversário a que compareci no sábado. mas,retruco e sustento eu, Freud está longe de explicar, ao contrário está para complicar,isto sim. complicar no sentido de questionar,induzir à reflexão, incitar o debate, fazer prevalecer a livre,e lúcida,intensa, circulação - não em uníssonom, mas em troca,contraposição -- de ideias. assim foi por ele concebido e conceituado nas origens, assim tem sido com os postulados,teses e teorias freudianas (um dos pilares culturais-filosóficos-literári&lt;/span&gt;&lt;wbr style="font-family: 'lucida grande', tahoma, verdana, arial, sans-serif; font-size: 11px; line-height: 14px; background-color: rgb(255, 255, 255); "&gt;&lt;span class="word_break" style="display: inline-block; font-family: 'lucida grande', tahoma, verdana, arial, sans-serif; font-size: 11px; line-height: 14px; background-color: rgb(255, 255, 255); "&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: 'lucida grande', tahoma, verdana, arial, sans-serif; font-size: 11px; line-height: 14px; background-color: rgb(255, 255, 255); "&gt;os da civilização ocidental) há mais de 100 anos tanto que se debate,discute,discorda,polemi&lt;/span&gt;&lt;wbr style="font-family: 'lucida grande', tahoma, verdana, arial, sans-serif; font-size: 11px; line-height: 14px; background-color: rgb(255, 255, 255); "&gt;&lt;span class="word_break" style="display: inline-block; font-family: 'lucida grande', tahoma, verdana, arial, sans-serif; font-size: 11px; line-height: 14px; background-color: rgb(255, 255, 255); "&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: 'lucida grande', tahoma, verdana, arial, sans-serif; font-size: 11px; line-height: 14px; background-color: rgb(255, 255, 255); "&gt;za,etc, assim será até o fim dos tempos. o que só confirma sua majestade eterna.&lt;/span&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family: 'lucida grande', tahoma, verdana, arial, sans-serif; font-size: 11px; line-height: 14px; background-color: rgb(255, 255, 255); "&gt;e sobre Freud, ex-alunas minhas e outras pessoas então ouvintes de curso e palestras minhas sobre "Machado de Assis,Freud e as mulheres" instaram-me a postar, aqui, algo dessas minhas 'perorações' (aliás, tb. um artigo já veiculado na www). então: &lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: 'lucida grande', tahoma, verdana, arial, sans-serif; font-size: 11px; line-height: 14px; background-color: rgb(255, 255, 255); "&gt;&lt;span style="font-family: 'lucida grande', tahoma, verdana, arial, sans-serif; font-size: 11px; line-height: 14px; background-color: rgb(255, 255, 255); "&gt;&lt;i&gt;&lt;b&gt;&lt;span &gt;Machado, Freud, as mulheres&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: 'lucida grande', tahoma, verdana, arial, sans-serif; font-size: 11px; line-height: 14px; background-color: rgb(255, 255, 255); "&gt;&lt;span style="font-family: 'lucida grande', tahoma, verdana, arial, sans-serif; font-size: 11px; line-height: 14px; background-color: rgb(255, 255, 255); "&gt;Machado sempre foi um autor interessado em prospectar as paixões dos homens, em dissecar-l&lt;/span&gt;&lt;span class="text_exposed_show" style="display: inline; font-family: 'lucida grande', tahoma, verdana, arial, sans-serif; font-size: 11px; line-height: 14px; background-color: rgb(255, 255, 255); "&gt;hes as intimidades, em levantar ques¬tões e em torná-las públicas pela voz de seus personagens; sobretudo percebia, com clareza, o lado trágico das relações humanas. Este lado trági¬co passa pelo permanente mal-entendido dos encontros humanos, de um ser humano permanentemente acossado pelo outro, num processo originado,determinado e materializado pelo ciúme e a desconfiança implícita, pela traição e pela infidelidade, de resto temas constantes na quase totalidade de sua obra ficcional. Muito da temática e da tramática machadianas gira em torno do ciúme e do perdão -- presente e atuante em romances como Ressurreição, A mão e a luva, sobretudo em Dom Casmurro, e em inúmeros contos – binômio que remete a ... Freud, de quem Machado consubstanciou – sem o conhecer...—os elementos e conceitos do inconsciente, do psiquismo humano, da sexualidade feminina, estabelecendo como nenhum outro escritor brasileiro de seu tempo vetores e pontos de interseção entre a literatura e a psicanálise, desde as primeiras obras, mesmo as da ‘fase de aprendizado’ e atingindo seu clímax na denominada ‘fase de maturidade’. Como sentencia Roberto Schwarz , “Machado é um autor que em 1880 está dizendo coisas que Freud diria 25 anos depois. Em Esaú e Jacó (1904), por exemplo, antecipou-se a Freud no ‘complexo de Édipo’”. Foi ele o autor brasileiro que introduziu a perspectiva crítica, fazendo da dúvida, do questionamento e da argumentação, ‘a la Freud’, uma constante em sua obra.&lt;br /&gt;A literatura de Machado traz, juntamente com Freud, para o centro das discussões, a questão da sexualidade feminina. Nenhum escritor de seu tempo ‘edificou’ tanto a mulher como personagem capital e leitmotiv básico de seus textos como Machado de Assis : escrevia sobre mulheres e para mulheres : são elas as protagonistas, as personagens primordiais, o elemento central em torno das quais desenrola-se a trama e a narrativa. Na ficção machadianas surge uma mulher que almeja poder escolher a forma de sentir e amar, apesar de, algu¬mas vezes, ao não poder dizer de seu desejo — a maioria das mulheres da época vivia reclusa, tinha pouco estudo, e sua principal meta era um casamento com o que se chamava ‘um bom partido’; se houvesse amor, melhor, mas não era o principal, pois a questão do amor era secundária, era um luxo que muitas mulheres não tinham : Machado,fiel à ‘ideologia’ das décadas de 1850-60, assim o trata em Ressurreição , em A mão e luva, mas redime o amor em Memorial de Aires, numa “recomposição com a vida” — fazer convergir para o corpo o protesto da sua sexualidade insatisfeita .&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5121148060136346781-1574015186693541875?l=pandorawiki.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pandorawiki.blogspot.com/feeds/1574015186693541875/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5121148060136346781&amp;postID=1574015186693541875&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/1574015186693541875'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/1574015186693541875'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pandorawiki.blogspot.com/2012/01/freud-nao-explica-complica.html' title='Freud não explica -- complica'/><author><name>Caixa de Pandora</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13780187324490495166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TOXBy1EVxVI/AAAAAAAAAic/POmRMcX667A/S220/foto%2B1.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-HkvNA5pZaRk/TxDGb1kEH-I/AAAAAAAAAoU/_aLT03uXSJs/s72-c/Pandora%2Bcab..JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5121148060136346781.post-1415199455406693547</id><published>2011-12-26T06:35:00.000-08:00</published><updated>2011-12-26T07:10:49.062-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>como em todos meus estudos,projetos e obras , os cortes temáticos e os focos diferenciados a escritores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-ea4e0e53057d8bd" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" 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bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v16.nonxt5.googlevideo.com/videoplayback?id%3D0ea4e0e53057d8bd%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1330188059%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D1C42EAF07FDEDBA8FC8B78CEF601F25B81E8FF4E.28A6E83532B47CB49FC9F19A532AC89AE57044F0%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3Dea4e0e53057d8bd%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DnQ60V9bXFf3DJBASi6Xz_YhmYIw&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5121148060136346781-1415199455406693547?l=pandorawiki.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pandorawiki.blogspot.com/feeds/1415199455406693547/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5121148060136346781&amp;postID=1415199455406693547&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/1415199455406693547'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/1415199455406693547'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pandorawiki.blogspot.com/2011/12/como-em-todos-meus-estudosprojetos-e.html' title=''/><author><name>Caixa de Pandora</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13780187324490495166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TOXBy1EVxVI/AAAAAAAAAic/POmRMcX667A/S220/foto%2B1.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5121148060136346781.post-9216334731103548182</id><published>2011-11-19T12:12:00.000-08:00</published><updated>2011-11-19T12:17:34.661-08:00</updated><title type='text'>Machado de Assis  e a “consciência negra”</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-xI8lHBhnpQA/TsgO0hYD6TI/AAAAAAAAAn4/pDmJ58jYfiI/s1600/MA%2B1890.jpg" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 149px; height: 200px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-xI8lHBhnpQA/TsgO0hYD6TI/AAAAAAAAAn4/pDmJ58jYfiI/s200/MA%2B1890.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5676803625775786290" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt; &lt;/span&gt;&lt;b style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" &gt;para dirimir todos os equívocos acerca de uma suposta,absurda ‘alienação’  à questão da negritude&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;Machado de Assis nunca deixou de exprimir seu mais absoluto horror à escravatura – fosse como&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;funcionário da Diretoria da Agricultura do Ministério da Agricultura (órgão que tratava da política de terras e da aplicação da Lei do Ventre Livre, de 1871), na qual&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;emitiu centenas de pareceres e réplicas no sentido de fazer cumprir a Lei e o preceito de liberdade para os filhos de escravos nascidos , fosse em muitos artigos e crônicas e,em especial, em romances e contos. Exatamente ao contrário da equivocada e distorcida interpretação --que ,como toda interpretação, é uma ‘leitura’,sujeita pois a melhor avaliação e até mesmo contestação --difundida ao longo dos anos,no sentido de não ter ele se integrado à causa abolicionista &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;(sic&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;) nem ter&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;inserido o negro, ou a negritude,ou a condição do negro, em seus escritos, nem ter nenhum ‘herói negro’ entre os protagonistas de sua ficção, como se isso fornecesse convincente e taxativo certificado de consciência política , como se fosse elemento imprescindível na construção de romances e contos de qualidade. Os detratores teimam em julgar o homem com base nos raramente compreendidos e assimilados artifícios do ficcionista e do cronista – ainda mais quando este utiliza &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;ad nauseam&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt; os recursos da sutileza, do subterfúgio, da dissimulação.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;"&gt;Além de tudo, não se queira exigir de Machado uma postura – a mesma,p.ex., de  abolicionistas (muitos deles seus amigos) , de outra verve e atitude – de militância ativa, discursiva, panfletária : nada disso fazia parte de sua natureza,e discrição aliás foi o que sempre ostentou na vida e na própria escrita literária.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;Machado fez da escravatura objeto crítico – por vezes desenhada pelas ‘entrelinhas’, por vezes direta, nada oblíqua ou dissimulada -- de&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;crônicas, de poemas, de peças teatrais,&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;de contos, além de torná-la pano de fundo de alguns&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;romances, tanto os primeiros como aqueles pós-1880. Já é mais do que tempo de obrigatória releitura da equivocadissima omissão machadiana em relação à escravidão e às relações inter-raciais no Brasil do século XIX , de seu absurdamente propalado&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;“aburguesamento” e&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;de “denegação das origens” em sua obra.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;"&gt;A tese da ‘alienação’ machadiana desmorona ao se examinar o naipe de contos em que a “iníqua escravidão” é exibida criticamente, nas linhas e entrelinhas, com todos seus horrores ; é solapada ao se ler,por exemplo, as crônicas de 18.07.1864, de 04.04.1865,01.10.1876,15.06.1877,14.07.1878,07.11.1883,23.111885,30.08.1887,27.09.1887,11.05.1888,19.05.1888,20-21.05.1888,27.05.1888,01.06.1888,26.06.1888,14.05.1893,04.11.1897 ; perde vigor ao se deparar com os poemas “Sabina”(1875) e “13 de maio”(1888) , ou ao conhecer a crítica teatral à peça “Mãe”(1860), de José de Alencar, e o texto “O teatro de José de Alencar”(1866); além das referências,citações,comentários e verdadeiros libelos expostos na antológica novela &lt;i&gt;Casa Velha&lt;/i&gt;(1885) e  nos romances &lt;i&gt;Ressurreição&lt;/i&gt; (1872),&lt;i&gt;Helena&lt;/i&gt;(176),&lt;i&gt;Iaiá Garcia&lt;/i&gt;(1878),&lt;i&gt;Memórias póstumas de Brás Cubas&lt;/i&gt;(1881), &lt;i&gt;Quincas Borba&lt;/i&gt;(1891),&lt;i&gt;Dom Casmurro&lt;/i&gt;(1899) – observando-se o quanto o processo histórico que resultou da lei de 1871, assim como suas conseqüências,  encontra-se  no cerne da concepção desses seis  romances -- &lt;i&gt;Esaú e Jacó&lt;/i&gt;(1904) e no derradeiro &lt;i&gt;Memorial de Aires&lt;/i&gt;(1908) – cujo centenário de publicação deve constituir em imperdível oportunidade de ,primeiro, conhecer uma obra-prima, das maiores que a literatura brasileira já produziu , além de  acompanhar a encenação da decadência e extinção da própria escravocracia, personalizada no Barão de Santa-Pia,sob uma narrativa revestida de contundente historicidade e , como o condizente  &lt;i&gt;grand finale&lt;/i&gt; da obra de um portentoso escritor, finalizada pela mensagem ressaltando o papel político da literatura como guardiã dos fatos passados e da memória coletiva de um país&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;A crônica, até mesmo por sua própria natureza de dirigir-se&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;diretamente ao público-leitor, na verdade foi a seara onde Machado melhor e mais clara e veementemente&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;   &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;expressou sua implacável crítica ao escravagismo – mormente na série “Bons Dias!”, publicada na &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;Gazeta de Notícias&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt; ininterruptamente de 05 abril de &lt;/span&gt;&lt;st1:metricconverter productid="1888 a" st="on" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;1888 a&lt;/st1:metricconverter&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt; 29 agosto de 1889 (&lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;per se&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt; como se sabe um período crucial da história brasileira, entre a concretização da Abolição e a emergência da República), de todos os conjuntos croniquescos de Machado aquele de mais contundente teor crítico,fosse à escravidão fosse ao novo regime , aquele que registra opiniões nunca expressadas por ele com tanta clareza e coerência, tanto que valeu-se ‘sensatamente’ do anonimato (somente descoberta autoria de Machado, por Galante de Souza, na década de 1950!),dada não só a explosiva complexidade do momento mas também ao risco,diante do delicado tema da&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;república , que um funcionário público graduado da monarquia pudesse correr.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;"&gt;Em algumas delas, escritas com sua peculiar ironia ácida e cortante , evidencia-se a crítica machadiana à hipocrisia política, manifesta naqueles parlamentares  que intitulavam-se abolicionistas mas votavam sempre a favor dos senhores – o que exibe,sob outro viés, a inquestionável atualidade de Machado [neste particular, aliás, convém saber  – como ressalta  o historiador José Murilo de Carvalho, in &lt;i&gt;D. Pedro II&lt;/i&gt;,2007 – que os políticos de todos os partidos ,até mesmo os liberais e os republicanos, não  se opunham à escravidão].&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;Na verdade, e sob o espectro mais geral, Machado foi um crítico contundente da sociedade e das instituições brasileiras, e escreveu muito sobre política, e até mesmo sobre economia.Tinha,sim senhor,&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;opiniões políticas — era um monarquista liberal, não apoiava a República --&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;   &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;e é possível observar a política brasileira de sua época através de seu olhar literário. Raymundo Faoro (em &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;A pirâmide e o trapézio&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;) sentencia que pode -se vislumbrar toda a sociedade brasileira do século XIX na obra de&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;Machado : tanto na ficção quanto na não-ficção, arrancou da História a própria substância de suas narrativas e textos , utilizando uma série de elementos políticos -- escravidão, liberdade, golpe de Estado, censura,aparelho policial, autocracia absolutista,totalitarismo, etc – na elaboração,em sua&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;escritura literária, de uma&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;crítica da ideologia brasileira e de uma teoria política avançada, a qual&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;no campo dos estudos literários não foi adequadamente percebida pelos especialistas. Há de se enfatizar ainda que, a par de outros aspectos, uma das grandes preocupações de Machado, uma espécie de linha-mestra, fulcro e fio condutor de&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;sua produção não-ficcional centrava-se&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;na questão da identidade nacional — preocupação expressa claramente nos&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;ensaios “O passado, o presente e o futuro da literatura” (ainda em 1858), “Instinto de&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;nacionalidade”(de 1873) e “Nova geração”(1879) e na essência de seus artigos e crônicas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;Em outro viés, justamente os &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;recursos da ficção literária, sempre propícia a esse fim, foram os instrumentos que lhe permitiram expressar com nitidez seu total e visceral repúdio ao sistema escravocrata do Brasil do século XIX. Por meio de alguns de seus contos, &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;é possível observar as relações inter-raciais de sua época através do olhar literário, abordando&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;as tensas relações,inclusive as de ordem afetiva e sexual, entre os membros da família patriarcal típica do século XIX e seus criados negros e abrigando trama,ambiência, personagens e ‘ideologia’ inerentes à questão escravagista.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;"&gt;Importante notar que se o tema é pouco, ou apenas ‘tangencialmente’ e superficialmente tratado nas obras do período pré-Abolição, depois adquire tamanho vigor temático, tramático ,narrativo e de linguagem , que induzem a considerar uma espécie de ‘desforra’ de Machado  quanto a uma questão que não pudera até então abordar como merecia, e como ele almejava. Com efeito, no período pós-1888,vale dizer já implementada a Abolição,  as coisas podiam ser ditas mais clara e contundentemente, e a  tal,  Machado – com sua plena consciência histórica,política e ideológica -- não se furtou.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;O primeiro dos contos desse naipe, “Frei Simão” - publicado originalmente no &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;Jornal das Famílias&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt; em 1864 - se nas linhas narra uma história de amor,traçada em termos melodramáticos&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;– um jovem de família rica que se apaixona pela&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;criada,negra – traz as tinturas subjacentes do comentário machadiano ás relações entre indivíduos ,mais que de classes sociais, de etnias diferentes, e mais: a aparente simplicidade da narrativa embute um teor de modernidade (isso em 1864 !) expressa no expediente da fragmentação das memórias inéditas de Simão, a revelar&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;uma história verdadeira, até então oculta nas linhas – como que significando a impossibilidade do autor ma em utilizar a linguagem adequada para&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;exprimir o autoritarismo patriarcal do pai de Simão e a crueza\crueldade da condição do escravo(Helena).&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;“Virginius” – também publicado originalmente no &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;Jornal das Famílias&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt; em 1864 - encarna com sutileza a dificuldade – quase impossibilidade – de expressão literária de tema tão delicado, mas exibe com todas as tintas a brutalidade e desumanidade do regime escravista, personificadas na violência e covardia de Carlos, ironicamente filho do pai de todos, um dono de escravos bondoso. Machado expõe com todas as letras e tintas a representação da crueldade inerente a relações inter-raciais de seu tempo—inclusive deixando implícito o entendimento do estupro&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;como formas de escravidão."&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;Mariana” abriga , de modo mais incisivo, o assunto escravidão – e de forma tão mais realista que veio a ser publicado em duas versões – a primeira, em 1871- no&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;Jornal das Famílias&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt; - na qual&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;Machado utiliza muito mais contundência no tratamento do tema “perigoso” que nas obras anteriores ( afinal, o ano é o da publicação da Lei do Ventre Livre, a permitir talvez que algo mais pudesse ser dito...), mas aliado,esse tom mais contundente, à contumaz estratégia da dissimulação,aqui temperada de&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;sarcasmo: o homem branco tem a palavra para&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;ele mesmo expor sua insensibilidade e descaso com relação aos negros, o autor (Machado) denunciando explicitamente a má consciência dos senhores no momento de uma crise “histórica” que mobilizava toda a nação – inclusive a protagonista,assim como a personagem Elisa, personificando a submissão tanto feminina quanto étnica ; a segunda versão, em 1891 – na &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;Gazeta de Notícias&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt; - com o texto totalmente reelaborado , expressando a maior liberdade então concedida&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;a se escrever sobre o assunto (além do fato de ser publicado no jornal que ,por todos os motivos e aspectos, permitia maior ‘autonomia’ a Machado).&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;“O caso da vara”, publicado originalmente na &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;Gazeta de Notícias&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt; , 1891,&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;não fosse por seus próprios atributos temáticos e narrativos , constitui&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;uma das obras mais notáveis , porque emerge com toda sua contundência em um período digamos pouco fecundo de produção contística de Machado. O conto pode ser lido não só como uma história irônica, cuidadosamente estruturada, de conflitos internos versus ações reais – que são vencidas pela torrente dos seus pensamentos, medos, crueldades e dramas, conduzindo a narrativa até um desfecho enigmático--&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;mas sobretudo como uma perturbadora peça dramática com todas as&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;características da tragédia clássica. Tal como esta,&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;evidencia-se a predileção de Machado de Assis por situações universais que revelam a feição trágico-cômica do comportamento humano, numa narrativa&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;carregada de implicações morais.&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;“Pai contra mãe”, não publicado em periódico mas sim na coletânea &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;Relíquias de casa velha&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;,1906, abre-se&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;com&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;palavras extremamente frias e objetivas, raríssimas vezes empregadas por Machado em sua ficção. É um dos&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;contos mais perturbadores, um grito contra a escravatura, ainda que – e nisso reside &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt; &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;sua profunda dramaticidade – seja um grito&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;abafado,&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;amordaçado, mas carregado de emoção : um tipo de emoção estritamente pessoal,diga-se, porquanto parece Machado intentar nele exprimir sua própria condição original de mestiço , uma&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;dramática ambiguidade que se o perseguiu,segundo algumas interpretações,&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;durante toda a vida , quase nunca&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;transpareceu&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;na&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;obra literária.&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;É um texto arrepiante na sua violência controlada, na sua perfeita construção da estrutura literária ;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;quer ensinar-nos o que é o horror da escravatura, mas para chegar a isso utiliza o que há de mais chocante para o leitor: a apresentação do horror como ‘normalidade’.Machado avisa desde o primeiro parágrafo, quando interrompe a fria descrição dos instrumentos de tortura, para se dirigir diretamente ao leitor e lembrar que “era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco e alguma vez o cruel.”&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoFootnoteText" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" &gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5121148060136346781-9216334731103548182?l=pandorawiki.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pandorawiki.blogspot.com/feeds/9216334731103548182/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5121148060136346781&amp;postID=9216334731103548182&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/9216334731103548182'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/9216334731103548182'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pandorawiki.blogspot.com/2011/11/machado-de-assis-e-consciencia-negra.html' title='Machado de Assis  e a “consciência negra”'/><author><name>Caixa de Pandora</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13780187324490495166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TOXBy1EVxVI/AAAAAAAAAic/POmRMcX667A/S220/foto%2B1.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-xI8lHBhnpQA/TsgO0hYD6TI/AAAAAAAAAn4/pDmJ58jYfiI/s72-c/MA%2B1890.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5121148060136346781.post-1128969437023082805</id><published>2011-11-15T05:13:00.000-08:00</published><updated>2011-11-15T05:23:38.086-08:00</updated><title type='text'>A República, os intelectuais, o jornalismo e a literatura militante de Lima  Barreto</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-J6hAcZMtUaQ/TsJnuwOLrYI/AAAAAAAAAno/4cNxhy4e_kk/s1600/LB%2Bmarg..jpg" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 91px; height: 130px;" src="http://3.bp.blogspot.com/-J6hAcZMtUaQ/TsJnuwOLrYI/AAAAAAAAAno/4cNxhy4e_kk/s200/LB%2Bmarg..jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5675212533356277122" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoBodyText2"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span" &gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt;font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;;mso-bidi-font-weight: bold"&gt;este mês de novembro registra duas efemérides dignas de registro – no dia &lt;st1:metricconverter productid="15, a" st="on"&gt;15, a&lt;/st1:metricconverter&gt; instalação da República, fato de fundamental importância política, institucional e social na história brasileira,em 1889 ; e no dia 1º.,em &lt;st1:metricconverter productid="1922, a" st="on"&gt;1922, a&lt;/st1:metricconverter&gt; morte de Lima Barreto, um dos maiores escritores que o País já teve em seu cenário cultural.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt;font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;;mso-bidi-font-weight: bold"&gt;Dois acontecimentos extremamente significativos, separados por 33 anos, mas irremediavelmente entrelaçados e integrados – até porque Lima Barreto, ao contrário dos intelectuais da época, foi o mais veemente e intransigente crítico do novo regime e da pretensa ‘modernização’ anunciada.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt;font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;;mso-bidi-font-weight: bold"&gt;Cento e vinte e dois  anos de república e 89 anos sem Lima Barreto s, ambos os eventos propiciam estimulantes reflexões , não apenas sobre a política e a literatura brasileiras mas em especial sobre a  própria institucionalidade do País.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText2"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-size:12.0pt;font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;; mso-bidi-font-weight:bold"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="text-align: justify; font-size: 11pt; font-family: 'Palatino Linotype'; "&gt;Embora não tenha produzido correntes ideológicas próprias ou novas concepções estéticas, a geração de intelectuais solidamente arraigada nas teorias cientificistas de 1870 e no espírito progressista da época parecia estar com a República, apoiada pela maçonaria, pelo positivismo e pelas correntes que se julgavam “desassombradas de preconceitos”:  as idéias circulavam então  mais livremente, num ambiente que Evaristo de Moraes &lt;a href="file:///E:/m%20extos%20e%20ensaios/Republica,intelectuais,jornalismo%20Sy%20Petr.doc#_ftn1" name="_ftnref1" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; "&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; qualificou de “porre ideológico”, um verdadeiro  mosaico no qual era predominante o liberalismo - manifestando-se especialmente entre os republicanos ‘históricos’ como Benjamin Constant, José do Patrocínio, Silva Jardim, Lopes Trovão, Alberto Sales, Joaquim Serra – mas que abrigava  alguma voga de anarquismo em  Elisio de Carvalho (até escrever o &lt;i&gt;Five o’clock&lt;/i&gt;), Curvelo de Mendonça,Fabio Luz, Afonso Schmidt, simpatias explícitas ao socialismo &lt;st1:personname productid="em Martins Fontes" st="on"&gt;em  Martins Fontes&lt;/st1:personname&gt;, Olavo Bilac, e até  anti-racismo declarado &lt;st1:personname productid="em Alberto Torres" st="on"&gt;em Alberto Torres&lt;/st1:personname&gt; e Manuel Bonfim.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt; font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;"&gt;Sob os princípios genéricos do liberalismo, o grupo intelectual definira a tarefa que lhes cabia: contribuir e propugnar por uma ampla, profunda ação conjunta para construir a nação — no campo da produção intelectual  intensificaram estudos da realidade brasileira (as obras de Euclides da Cunha, Alberto Torres, Manuel Bonfim,Oliveira Vianna são documentos exemplares) e se empenharam no ‘criar um saber próprio sobre o Brasil’( enfatizava José Veríssimo em “Um estudioso pernambucano”, artigo na revista &lt;i&gt;Kosmos&lt;/i&gt;,n.1,Rio de Janeiro,1907) — e remodelar e fortalecer  o Estado (o que obviamente punha em confrontação a ambigüidade de sua ideologia baseada no liberalismo....).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt; font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;"&gt;Já no dia 15 de novembro de 1889 os intelectuais registraram sua total adesão : numeroso grupo de republicanos,junto com gente da rua, tendo à frente José do Patrocínio,Aníbal Falcão,  João Clapp,Campos da Paz, Olavo Bilac, Luis Murat e Pardal Mallet -- estes três pela primeira vez movidos à ação política concreta-- dirigiu-se à sede da Câmara, aos gritos de viva à República, e redigiram moção de apoio aos chefes da insurreição militar nestes termos :&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;   &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;“Os abaixo-assinados ,órgãos espontâneos do povo do Rio de Janeiro, representam o governo provisório,instituído após gloriosa revolução que ipso facto extinguiu a monarquia no Brasil,a necessidade urgente da proclamação da República.&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt; font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;"&gt;             Excelentíssimos srs. representantes supremos das classes militares do Brasil, marechal Deodoro da Fonseca,chefe de divisão Wandenkolk e tenente-coronel dr. Benjamin Constant.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt; font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;"&gt;O povo do Rio de Janeiro, reunido em massa no edifício da Câmara Municipal, tem a honra de comunicar-vos que, por meio de diversos órgãos espontaneamente surgidos e pelo seu representante legal, proclamou  como nova forma de governo nacional a República.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt; font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;"&gt;Esperam os abaixo assinados , representantes do povo do Rio de Janeiro, que o patriótico governo provisório sancione o ato pelo qual,instituindo a República, se pretende satisfazer a íntima aspiração do povo brasileiro. Viva a República  Brasileira ! Vivam o Exército e a Armada  nacionais ! Viva o povo do  Brasil !”&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;O entusiasmo adesista dos intelectuais era generalizado; em outro manifesto, dirigido ao Governo Provisório instalado a 16 de novembro, assinado por alguns homens de letras em 22 de &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt; &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;novembro &lt;/span&gt;&lt;b style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;:&lt;/b&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt; &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;“O povo, e quando dizemos povo referimo-nos àquela grande parte da nação que os aristocratas de todos os tempos chamaram desdenhosamente o terceiro e quarto estado, donde, reparai bem, em sua maioria saiu sempre o nosso glorioso Exército; os homens de letras, e quando dizemos os homens de letras referimo-nos a todos aqueles que tomando a si os encargos intelectuais da pátria foram, no curso de quatro séculos, os fatores  mais enérgicos e mais desinteressados de nosso progresso; plebe e pensadores, sempre estas duas forças caminharam aqui unidas !... Agora mesmo no fato extraordinário que é o espanto da Europa e o júbilo da América na proclamação da República,as duas grandes forças lá estão ungidas uma a outra... A era das grandes lutas da política responsável abriu-se definitivamente para os brasileiros... A pátria abriu as largas asas em direitura à região constelada do progresso; a literatura vai desprender também o vôo para acompanhá-la de perto. Ao futuro ! ao futuro,modeladores de povos,construtores de nações !&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;”&lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt; &lt;/i&gt;&lt;a href="file:///E:/m%20extos%20e%20ensaios/Republica,intelectuais,jornalismo%20Sy%20Petr.doc#_ftn2" name="_ftnref2" title="" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; "&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt;font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;"&gt;No clamor pela ampliação da atuação do Estado sobre a sociedade aliavam-se a homens públicos, políticos, jornalistas, até mesmo cafeicultores e industriais ,e a esse grupo juntar-se-ia os grupos militares defensores e sequiosos de maior participação  na política—  o que mais tarde não causaria surpresas quando do progressivo e acentuado  fortalecimento dos governos republicanos a partir de Floriano Peixoto. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt; font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;"&gt;As reformas que preconizavam, no entanto, perderam-se no processo político republicano. Na consolidação do novo regime , que se deu  por meio de um processo caótico e dramático, malograram-se seus esforços cientificistas,reformadores, inovadores na criação daquele ‘saber sobre o Brasil’. Cedo, muito cedo, já nos primeiros anos do século XX desiludiam-se: &lt;i&gt;“Está tudo mudado: Abolição, República... Como isso mudou ! Então, de uns tempos para cá parece que essa gente está doida”,&lt;/i&gt; vaticina Isaias Caminha , sob a pena de  Lima Barreto. José Veríssimo, no artigo“Vida literária” (revista &lt;i&gt;Kosmos&lt;/i&gt;, n. 7,1904), descreve: &lt;i&gt;“Todos se presumiam e diziam republicanos,na crença ingênua de que a República, para eles palavra mágica que bastava à solução de problemas de cuja dificuldade e complexidade não desconfiavam sequer, não fosse na prática perfeitamente compatível com todos os males da organização social, cuja injustiça os revoltava&lt;/i&gt;”. Ainda em outubro de 1890, antes do primeiro aniversário do15 de novembro, desencantava-se Silva Jardim, lamentando em carta a Rangel Pestana: “&lt;i&gt;Comunico-lhe que parto para a Europa, a demorar-me o tempo preciso a que este País atravesse o período revolucionário de ditadura tirânica e de anarquia...&lt;/i&gt;” . “&lt;i&gt;Esta não é a República de meus sonhos&lt;/i&gt;”, lamentou-se Lopes Trovão, um dos próceres do movimento republicano. “&lt;i&gt;Foi para isso então que fizeram a República  ?&lt;/i&gt;”, protestou Farias Brito. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt; font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;"&gt; No campo político, os intelectuais mantiveram-se passivos diante da “ditadura tirânica” e aceitaram as coligações de Deodoro da Fonseca com as forças mais conservadoras  do Brasil agrário, mas as esperanças esfacelaram-se diante da índole e prática repressoras do governo Floriano Peixoto , quando  e alguns dos antigos entusiastas da República tiveram de fugir do Rio de Janeiro para evitar a prisão, como Olavo Bilac e Guimarães Passos.&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;Passado o momento inicial de esperança, desfeito o caminho almejado da democratização do País prometida em comícios, conferências públicas, na imprensa radical, consolidada a vitória da ideologia reforçadora do poder oligárquico, derrotados ,desapontaram-se as elites, desapontaram-se os trabalhadores e o povo, desapontaram-se os&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;intelectuais , que desistiram da política militante e se concentraram na literatura,aceitando postos ,mesmo decorativos, na burocracia especialmente no Itamaraty de Rio Branco, que atraíra em torno de si -- eficiente Rui Barbosa nesse trabalho de&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;‘cooptação’ -- o grupo de intelectuais, representantes da &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;intelligentsia &lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;do novo regime , constituindo o que à época se auto-denominaram “República dos Conselheiros”.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoFootnoteText" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt; font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;"&gt;Difícil de manter uma convivência pacífica entre a República política e a ‘Republica das letras’, agravado pela crescente insatisfação popular com o novo regime, exposta em agitações de rua , episódios violentos, revoltas e movimentos de protesto – e mais ainda com os novos costumes e práticas de desenfreada especulação financeira, a busca  de enriquecimento a qualquer custo,o advento de um capitalismo predatório levando ao Encilhamento, a escandalizar Taunay que via “uma degradação da alma nacional”&lt;a href="file:///E:/m%20extos%20e%20ensaios/Republica,intelectuais,jornalismo%20Sy%20Petr.doc#_ftn3" name="_ftnref3" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;b&gt;&lt;!--[if !supportFootnotes]--&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; "&gt;[3]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;  e  decepcionar republicanos ardorosos como Raul Pompéia ( “&lt;i&gt;A república discute-se consubstanciada no Banco da República&lt;/i&gt;” ).A par do afastamento repressor promovido pelo poder, viram-se compelidos a submeter sua produção literária ao “valor do mercado” — (...) &lt;i&gt;neste século de danação social, em que o Dinheiro logrou a tiara de pontífice ubíquo, para reinar discricionariamente sobre todas as coisas&lt;/i&gt;..”, registrava Augusto dos Anjos em palestra pública.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoFootnoteText" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;Mas paradoxalmente foi o processo de arrivismo&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;bursátil e de especulação mercantil -- gerando&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;incremento de vultosos recursos , provocando a modernização da cidade, urdindo o que se denominou Regeneração, construindo a imagem de “uma sociedade ilustre e elevada” -- que propiciou aos&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;intelectuais malogrados uma espécie de atavio : passaram a ser vistos pela sociedade como ‘símbolos de ilustração’, ‘expoentes da cultura’, propiciando, entre outros aspectos, o desenvolvimento do ‘novo jornalismo’, ao qual os literatos se entregaram de corpo e alma . A adesão maciça dos escritores ao jornalismo, exercendo inevitavelmente efeitos negativos sobre a criação artística—falou-se em “vazio de idéias”—obrigou-os&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;a uma redefinição de suas posições intelectuais e uma clivagem em seu&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;universo social. Deflagrava-se com todas as letras e tintas a &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;belle époque&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt; cultural, com o conseqüente processo de banalização e neutralização da força cultural da literatura, o intelectual descaracterizado e ‘dissolvido’ em meio à sociedade, às facilidades da nova vida social tendentes a extinguir o engajamento dos intelectuais que haviam feito a República. O novo espírito “agitado e trêfego” que tomou conta da cidade produziu “o recolhimento dos autores em estéticas e poéticas evasivas”, no entender de José Veríssimo, os intelectuais irreversivelmente assimilados pela nova sociedade construída pela República abrindo espaços para a mercantilização e banalização da própria literatura – vista agora como “o sorriso da sociedade” de que falava Afrânio Peixoto : “(...)A&lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt; literatura é o sorriso da sociedade. Quando ela é feliz, a sociedade, o espírito se lhe compraz nas artes e, na arte literária, com ficção e com poesias, as mais graciosas expressões da imaginação.&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;” &lt;/span&gt;&lt;a href="file:///E:/m%20extos%20e%20ensaios/Republica,intelectuais,jornalismo%20Sy%20Petr.doc#_ftn4" name="_ftnref4" title="" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; "&gt;[4]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt; font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;"&gt;Entrou-se de cheio no espírito mundano da &lt;i&gt;belle époque&lt;/i&gt;, atingindo seu auge na primeira década do século, cuja literatura típica, porém, era estéril em termos nacionais, ainda que seu modelo cosmopolita europeu se coadunasse com a própria fachada da época: era uma literatura articulada com o modo de vida das elites urbanas europeizadas, fomentador do consumo, do excesso,da sensualidade,do aristocratismo; de extrema superficialidade e caráter preciosístico , uma coligação de alta sociedade e alta cultura.(nesse aspecto,Lima Barreto tinha a chave para entender e interpretar o Rio de 1900 : o  bovarismo&lt;b&gt;&lt;sup&gt; &lt;/sup&gt;&lt;/b&gt;, que apontava para as fantasias centrais que compunham o significado dessa época).&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt; font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;"&gt;O certo é que a decepção com a República e o ‘espírito’ inerente ao novo século, “o século da modernização e do progresso”, trouxeram novas formas e modos de o escritor se relacionar com a literatura, sob um processo algo ‘compulsório’ de aburguesamento e ‘mundanismo’, acarretando, por uma razão ou outra, a necessidade de adesão quase maciça dos literatos ao jornalismo — que se constituiu no fenômeno cultural mais marcante dos primeiros tempos do século XX. O significativo desenvolvimento dos meios técnicos da imprensa, iniciado na verdade em meados do século XIX, permitiu o crescimento e melhoria qualitativa dos jornais e o nascimento de muitas revistas ilustradas, ambos incluindo matérias literárias.           &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;Por essa época, tanto os jornais como as revistas buscaram mais intensa e concretamente atingir a classe média urbana que então ia se formando e consolidando com o advento da República. Jornais e revistas, além do compromisso de informar e divertir, estavam engajadas num movimento de ‘democratização’ cultural: periódicos como &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;Gazeta de Notícias&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;, &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;Diário do Rio de Janeiro&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;,&lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;O Paiz&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;, &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;Diário Mercantil&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt; ,&lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;Correio da Manhã&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;, &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;Jornal do Commercio&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;,&lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;Jornal do&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt; &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;Brasil&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;, &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;Rio-Jornal&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;, &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;A.B.C.&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt; e as revistas &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;O Malho&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt; , &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;Revista da Semana, Kosmos&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;,&lt;/span&gt;&lt;b style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt; &lt;/b&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;A Renascença&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt; , &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;FonFon!&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt; ,&lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;Revista Contemporânea&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt; (essas duas caracterizadas como “simbolistas”), &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;Careta&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt; , &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;Ilustração&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt; &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;Brasileira&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;, &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;A Cigarra&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;, &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;Revista do Brasil&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;, &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;Dom Quixote&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;, &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;Paratodos&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;, &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;O Cruzeiro&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;, incluíam muita matéria cultural, como reportagens sobre exposições de artes plásticas, crítica literária, música, contos, crônicas, poesia, teatro e cinema . Quase todas as revistas não conseguiram sobreviver por muito tempo e ter vida longa — exceção apenas a &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;FonFon!&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt; e a &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;Careta&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;, que chegaram, não ininterruptamente, até à década de 1950.A maioria dos jornais e revistas (tanto do Rio de Janeiro quanto de São Paulo) acolhia , e&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;pagava , colaboração literária&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;o que propiciou a escritores e literatos terem publicados seus trabalhos e ter uma fonte de recursos — para muitos, a única — e um chamado “&lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;second métier&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;” condigno . Vale registrar que a imprensa propiciou a mudança para a metrópole de muitos intelectuais que não&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;logravam realizar-se literariamente em suas cidades e regiões de origem&lt;/span&gt;&lt;b style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;.&lt;a href="file:///E:/m%20extos%20e%20ensaios/Republica,intelectuais,jornalismo%20Sy%20Petr.doc#_ftn5" name="_ftnref5" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; "&gt;[5]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt; font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;"&gt;A rigor, quer no âmbito do jornalismo quer mormente  da literatura, os escritores, sob pena de caírem em ostracismo cultural e profissional e financeiro tiveram de em maior ou menor grau se submeter à preferência ou gosto dos leitores da época : a necessidade de se expressaram no mesmo diapasão da cidade contagiada pelos anseios de modernização e marcada pela ânsia do enriquecimento rápido fizeram-no adotar estilo, linguagem , forma e conteúdo mais superficiais e mesmo descartáveis, “adequados ao gosto do consumidor pequeno-burguês formado pela República”.&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;No lado oposto, além da ferrenha oposição à escrita aristocrática predominante , destoando e substancialmente contrário aos estilos vigentes, estava Lima Barreto – por essa época já respeitado como articulista e cronista e reconhecido como excepcional escritor mercê dos elogiados romances publicados &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;Recordações do escrivão Isaias Caminha&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;(1909) e &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;Triste fim de Policarpo Quaresma&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt; (1915)—que rejeitava terminantemente fazer de tanto de seu trabalho jornalístico como de sua obra literária, fosse ficcional ou não-ficcional, “instrumento de propaganda do sonho republicano de falso progresso e falsa civilização”. Sustentava ele que fazia “&lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;uma literatura militante, de obras que se ocupam com o debate das questões da época &lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;(...)&lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;, por oposição às letras que, limitando-se às preocupações da forma, dos casos sentimentais e amorosos e da idealização da natureza” &lt;/i&gt;&lt;a href="file:///E:/m%20extos%20e%20ensaios/Republica,intelectuais,jornalismo%20Sy%20Petr.doc#_ftn6" name="_ftnref6" title="" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; "&gt;[6]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText3" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt; font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;"&gt;Lima Barreto impôs — com sua escrita simples, direta e objetiva , que feria o convencionalismo literário da época, impregnado de falsas concepções estéticas, floreios , etc  — os prenúncios do Modernismo logo depois  rompante na cultura brasileira [curioso notar que Lima Barreto morreu no mesmo ano de 1922, nove meses depois do fevereiro em que eclodiu o movimento,&lt;st1:personname productid="em S￣o Paulo" st="on"&gt;em  São Paulo&lt;/st1:personname&gt;], cujos primeiros elementos e formas apareceram justamente pela linguagem típica da escrita barretiana. Não à toa despertou interesse e respeito por parte de Mario de Andrade, do alto de sua ‘autoridade’ de contista e teórico da construção ficcional, e levou p.ex.   Sergio Milliet a escrever  “(...) &lt;i&gt;Lembro-me da grande admiração que tinha por Lima Barreto o grupo paulista de 22. Alguns entre nós, como Alcântara Machado, andavam obcecados .O que mais nos espantava então era o estilo direto, a precisão descritiva da frase, a atitude antiliterária, a limpeza de sua prosa, objetivos que os modernistas também visavam. Mas admirávamos por outro lado sua irreverência fria, a quase crueldade científica com que analisava uma personagem, a ironia mordaz, a agudeza que revelava na marcação dos caracteres&lt;/i&gt;” &lt;a href="file:///E:/m%20extos%20e%20ensaios/Republica,intelectuais,jornalismo%20Sy%20Petr.doc#_ftn7" name="_ftnref7" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;b&gt;&lt;!--[if !supportFootnotes]--&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; "&gt;[7]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; : nas páginas da então incipiente revista &lt;i&gt;Klaxon&lt;/i&gt; (1921), os modernistas paulistas se propunham também a ‘descoelhonetizar’ [ref. a Coelho Neto,então epígono da escrita rebuscada e cheia de floreios retóricos] a literatura brasileira, rompendo com os cânones acadêmicos., objetivos bastante semelhantes da  revista &lt;i&gt;Floreal&lt;/i&gt;, que Lima criara em 1907 e só durou quatro números. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText3" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt; font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;"&gt;Assim, na contrapartida ao aristocratismo da escrita de então, aos nefelibatas da linguagem, tinha-se &lt;st1:personname productid="em Lima Barreto" st="on"&gt;em Lima Barreto&lt;/st1:personname&gt; um registro da língua ‘brasileira’ do início do século XX e um ritmo genuinamente nacional que prenunciava a linguagem modernista. Segundo o historiador e ensaísta Nicolau Sevcenko &lt;a href="file:///E:/m%20extos%20e%20ensaios/Republica,intelectuais,jornalismo%20Sy%20Petr.doc#_ftn8" name="_ftnref8" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;b&gt;&lt;!--[if !supportFootnotes]--&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; "&gt;[8]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; , “chama muito à atenção quando se lê a obra do Lima Barreto, a atualidade dessa obra não só em termos de linguagem — uma linguagem bastante acessível, bastante próxima até da oralidade — pela qual foi muito criticado pelos seus pares e intelectuais da época. Mas não só por essa linguagem mas também pelos temas de que ele trata e pelo modo como os trata  Pode-se  ir além porque muitos problemas de Brasil que ele pensa naquela época, que ele critica, e que ele, enfim, desenvolve como reflexão, permanecem absolutamente atuais”&lt;b&gt;&lt;sup&gt; .&lt;/sup&gt;&lt;/b&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt; font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;"&gt;Contrariamente à maioria de seus contemporâneos, praticantes da escrita floreada e vazia, aristocrática e fútil, verdadeiros instrumentos literários do “sorriso da sociedade” apregoado por Afrânio Peixoto, Lima Barreto conferia à sua obra ficcional o sentido militante de uma “missão social, de contribuir para a felicidade de um povo, de uma nação, da humanidade”. Em sua concepção, a literatura tinha de ser “militante”, com objetivo concreto e definido, como sentencia em entrevista a&lt;i&gt; A Época,&lt;/i&gt;18.02.1916 : “(...)&lt;i&gt;não desejamos mais uma literatura contemplativa, cheia de ênfase e arrebiques ,falsa e sem finalidade, o que raramente ela foi; não é mais uma literatura plástica que queremos, a encontrar beleza em deuses para sempre mortos, manequins atualmente, pois a alma que os animava já se evolou com a morte dos que os adoravam; digamos não a uma  literatura puramente contemplativa, estilizante sem cogitações outras que não as da arte poética, consagrada no círculo dos grandes burgueses embotados pelo dinheiro, de amplo emprego por pretensos intelectuais,bacharéis e políticos”&lt;/i&gt;&lt;b&gt; &lt;/b&gt;&lt;i&gt; (...) “a obra de arte tem por fim dizer o que os simples fatos não dizem. Este é meu escopo. Vim para a literatura com todo o desinteresse e toda coragem. As letras são o fim da minha vida. Eu não peço delas senão aquilo que elas me podem dar: glória!”&lt;/i&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoBodyText2"&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt;font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;"&gt;Dono de obra ficcional e não-ficcional com vigoroso fulcro ideológico, Lima Barreto buscava na politização da literatura um sentido sobretudo  ético.Na única conferência literária que faria, mas não o fez — “O destino da Literatura”&lt;a href="file:///E:/m%20extos%20e%20ensaios/Republica,intelectuais,jornalismo%20Sy%20Petr.doc#_ftn9" name="_ftnref9" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;b&gt;&lt;!--[if !supportFootnotes]--&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; "&gt;[9]&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;, &lt;st1:personname productid="em Rio Preto" st="on"&gt;em Rio Preto&lt;/st1:personname&gt;, São Paulo, em fevereiro de 1921 — foi explícito :“&lt;i&gt;A Beleza não está na forma, no encanto plástico, na proporção e harmonia das partes, como querem os helenizantes de última hora&lt;/i&gt; &lt;b&gt;.&lt;/b&gt; &lt;i&gt;A importância da obra literária que se quer bela sem desprezar os atributos externos de perfeição de forma, de estilo, deve residir na exteriorização de um certo e determinado pensamento de interesse humano(...) E o destino da literatura é tornar sensível, assimilável, vulgar esse grande ideal de fraternidade e de justiça entre os homens para que ela cumpra ainda uma vez sua missão quase divina. Mais do que qualquer outra atividade espiritual da nossa espécie, a Arte, especialmente a Literatura, a que me dediquei e com quem me casei; mais do que ela, nenhum outro qualquer meio de comunicação entre os homens, em virtude mesmo do seu poder de contágio, teve, tem e terá um grande destino em nossa triste humanidade&lt;/i&gt;.”&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;Marginalizado por suas origens e condição social, execrado por ser ‘passadista e contrário à modernização’, Lima Barreto enfrentou as marcas de seu tempo e da sociedade brasileira que lhe foi contemporânea. Seu projeto era um projeto para uma vida inteira de militância literária contra o preconceito, mas também “contra os falsos intelectuais, contra um academismo espelhado no modelo europeu, contra uma literatura só de deleite, como ornamento”. Para ele, a literatura era uma verdadeira missão. A pretensa beleza estilística, os atributos externos formais de perfeição, de forma, de estilo, de vocabulário, não poderiam prescindir da “&lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;exteriorização de um certo e determinado pensamento de interesse humano, que fale do problema angustioso do nosso destino em face do Infinito e do Mistério que nos cerca, e aluda às questões de nossa conduta na vida&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;” &lt;/span&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: 11pt; "&gt;&lt;a href="file:///E:/m%20extos%20e%20ensaios/Republica,intelectuais,jornalismo%20Sy%20Petr.doc#_ftn10" name="_ftnref10" title="" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;[10]&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoBodyText2"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;Esse ideal, entendia ser impossível cumprir sob a égide acadêmica , como expõe taxativamente naquela&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; text-align: justify; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; text-align: justify; "&gt;entrevista à&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; text-align: justify; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; text-align: justify; "&gt;A Época&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; text-align: justify; "&gt;, em fevereiro de 1916 : &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; text-align: justify; "&gt;“Vim para a literatura com todo o interesse e com toda coragem... Não quero ser deputado, não quero ser senador, não quero ser mais nada senão literato. Não peço às letras conquistas fáceis, não lhes peço glorías, peço-lhes coisa sólida e duradoura... Eu abandonei tudo por elas; e a minha esperança é que elas vão me dar muita coisa...”&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt; font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;"&gt;Tanto nos romances e contos como nas crônicas e artigos, Lima Barreto  exerceu sempre uma crítica à cultura da modernidade contra a opressão social e a hipocrisia política — tal como se revelaram na implementação da República . A opção por uma literatura militante determinou o caráter marginal (e ‘revolucionário’, para muitos estudiosos) de sua obra:  sua visão crítica da sociedade, da política e da cultura, renderam-lhe frutos amargos — desprezo do público, penúria econômica, alcoolismo e doença, internação em manicômio — mas nada o fez submeter-se aos ditames da moda e dos valores culturais da República. A “esperança” mencionada por ele na entrevista de 1916 alimentava-se na verdade da recusa impassível em transigir com o que demandava popularidade — o aburguesamento do escritor, por via da adesão aos temas da moda, que fortaleciam os interesses políticos, econômicos, sociais e culturais da República. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt; font-family:&amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;"&gt;Nada  porém o fez submeter-se a esses valores.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Palatino Linotype'; font-size: 15px; "&gt;___________ &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;a href="file:///E:/m%20extos%20e%20ensaios/Republica,intelectuais,jornalismo%20Sy%20Petr.doc#_ftnref1" name="_ftn1" title="" style="text-align: left; "&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-size: 11.0pt"&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt;font-family:Garamond; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;mso-bidi-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-ansi-language:PT-BR;mso-fareast-language:PT-BR;mso-bidi-language:AR-SA"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="text-align: left; font-size: 11pt; "&gt; E. de Moraes , &lt;i&gt;Da Monarquia para a República &lt;/i&gt;; s.ed., Rio de Janeiro, 1936 ;p.36&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div&gt;  &lt;div id="ftn2"&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;a href="file:///E:/m%20extos%20e%20ensaios/Republica,intelectuais,jornalismo%20Sy%20Petr.doc#_ftnref2" name="_ftn2" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt"&gt;&lt;!--[if !supportFootnotes]--&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt;font-family:Garamond; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;mso-bidi-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-ansi-language:PT-BR;mso-fareast-language:PT-BR;mso-bidi-language:AR-SA"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt"&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt;font-family: &amp;quot;Palatino Linotype&amp;quot;;mso-bidi-font-style:italic"&gt;cf.&lt;i&gt; &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt;mso-bidi-font-style:italic"&gt;Silvio Romero&lt;i&gt;,Novos estudos de literatura contemporânea&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt"&gt;s ; s.ed., Rio de Janeiro, 1898;p.46 .&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;a href="file:///E:/m%20extos%20e%20ensaios/Republica,intelectuais,jornalismo%20Sy%20Petr.doc#_ftnref3" name="_ftn3" title="" style="text-align: left; "&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:Garamond;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-bidi-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;mso-ansi-language:PT-BR;mso-fareast-language: PT-BR;mso-bidi-language:AR-SA"&gt;[3]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; &lt;span style="text-align: left; font-size: 11pt; "&gt;Visconde de Taunay, &lt;i&gt;O Encilhamento&lt;/i&gt; ; editora Itatiaia, Belo Horizonte, 1971; p.18&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;  &lt;div id="ftn4"&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;a href="file:///E:/m%20extos%20e%20ensaios/Republica,intelectuais,jornalismo%20Sy%20Petr.doc#_ftnref4" name="_ftn4" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt"&gt;&lt;!--[if !supportFootnotes]--&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt;font-family:Garamond; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;mso-bidi-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-ansi-language:PT-BR;mso-fareast-language:PT-BR;mso-bidi-language:AR-SA"&gt;[4]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt"&gt; A. Peixoto,&lt;i&gt;Panorama da literatura brasileira&lt;/i&gt; ; Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1940 ; p.79.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;/div&gt;  &lt;div id="ftn5"&gt;  &lt;p class="MsoFootnoteText"&gt;&lt;a href="file:///E:/m%20extos%20e%20ensaios/Republica,intelectuais,jornalismo%20Sy%20Petr.doc#_ftnref5" name="_ftn5" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-size: 11.0pt"&gt;&lt;!--[if !supportFootnotes]--&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt;font-family:Garamond; mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;mso-bidi-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-ansi-language:PT-BR;mso-fareast-language:PT-BR;mso-bidi-language:AR-SA"&gt;[5]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt"&gt; Em &lt;i&gt;O momento literário&lt;/i&gt;, de 1905, João do Rio indagava aos escritores brasileiros, entre outras questões, se “o jornalismo é um fator bom ou mal para a arte literária ?”(p. 61) — e nem todos os entrevistados interpretaram e responderam da mesma maneira : inteiramente contrários se mostraram por exemplo Luiz Edmundo, Elisio de Carvalho, Pedro do Couto, Inglês de Souza,, mas a maioria ,caso de Olavo Bilac, Silvio Romero, Afrânio Peixoto, Medeiros e Albuquerque, José de Alencar  via no jornalismo uma “face bastante favorável ”, que podia ser praticado sem nenhum prejuízo para a arte literária ­—  e exemplos expressivos estão em Machado de Assis, Alencar ,Bilac, José Veríssimo, , João do Rio, Lima Barreto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;/div&gt;  &lt;div id="ftn6"&gt;  &lt;p class="MsoFootnoteText"&gt;&lt;a href="file:///E:/m%20extos%20e%20ensaios/Republica,intelectuais,jornalismo%20Sy%20Petr.doc#_ftnref6" name="_ftn6" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;!--[if !supportFootnotes]--&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:Garamond;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-bidi-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;mso-ansi-language:PT-BR;mso-fareast-language: PT-BR;mso-bidi-language:AR-SA"&gt;[6]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; In &lt;i&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt"&gt;Impressões de leitura&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size:11.0pt"&gt;  ; ed. Mérito ,Rio de Janeiro, 1953; p. 32.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;/div&gt;  &lt;div id="ftn7"&gt;  &lt;p class="MsoFootnoteText"&gt;&lt;a href="file:///E:/m%20extos%20e%20ensaios/Republica,intelectuais,jornalismo%20Sy%20Petr.doc#_ftnref7" name="_ftn7" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;!--[if !supportFootnotes]--&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:Garamond;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-bidi-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;mso-ansi-language:PT-BR;mso-fareast-language: PT-BR;mso-bidi-language:AR-SA"&gt;[7]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; &lt;span style="font-size:11.0pt"&gt;artigo “Noticiário’, in &lt;i&gt;O Estado de S. Paulo&lt;/i&gt;, São Paulo,  11.11.1948; p. D- 5&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;/div&gt;  &lt;div id="ftn8"&gt;  &lt;p class="MsoFootnoteText"&gt;&lt;a href="file:///E:/m%20extos%20e%20ensaios/Republica,intelectuais,jornalismo%20Sy%20Petr.doc#_ftnref8" name="_ftn8" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;!--[if !supportFootnotes]--&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:Garamond;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-bidi-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;mso-ansi-language:PT-BR;mso-fareast-language: PT-BR;mso-bidi-language:AR-SA"&gt;[8]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; &lt;span style="font-size:11.0pt"&gt;N. Sevcenko,&lt;i&gt;Literatura como missão:tensões sociais e criação cultural na Primeira República;&lt;/i&gt;ed. Brasiliense, São Paulo, 1983; p. 217.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;/div&gt;  &lt;div id="ftn9"&gt;  &lt;p class="MsoFootnoteText"&gt;&lt;a href="file:///E:/m%20extos%20e%20ensaios/Republica,intelectuais,jornalismo%20Sy%20Petr.doc#_ftnref9" name="_ftn9" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;!--[if !supportFootnotes]--&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:Garamond;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-bidi-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;mso-ansi-language:PT-BR;mso-fareast-language: PT-BR;mso-bidi-language:AR-SA"&gt;[9]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; &lt;span style="font-size:11.0pt"&gt;publicada na &lt;i&gt;Revista Souza Cruz&lt;/i&gt;,Rio de Janeiro, 1921 , em cujo número também apareceu trecho do romance &lt;i&gt;O cemitério dos vivos.&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;/div&gt;  &lt;div id="ftn10"&gt;  &lt;p class="MsoFootnoteText"&gt;&lt;a href="file:///E:/m%20extos%20e%20ensaios/Republica,intelectuais,jornalismo%20Sy%20Petr.doc#_ftnref10" name="_ftn10" title=""&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;!--[if !supportFootnotes]--&gt;&lt;span class="MsoFootnoteReference"&gt;&lt;span style="font-size:10.0pt;font-family:Garamond;mso-fareast-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; mso-bidi-font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;mso-ansi-language:PT-BR;mso-fareast-language: PT-BR;mso-bidi-language:AR-SA"&gt;[10]&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;!--[endif]--&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; &lt;span style="font-size:11.0pt"&gt;in &lt;i&gt;Bagatelas&lt;/i&gt; ; Empresa de Romances Populares, Rio de Janeiro,1923&lt;i&gt;.&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5121148060136346781-1128969437023082805?l=pandorawiki.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pandorawiki.blogspot.com/feeds/1128969437023082805/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5121148060136346781&amp;postID=1128969437023082805&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/1128969437023082805'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/1128969437023082805'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pandorawiki.blogspot.com/2011/11/republica-os-intelectuais-o-jornalismo.html' title='A República, os intelectuais, o jornalismo e a literatura militante de Lima  Barreto'/><author><name>Caixa de Pandora</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13780187324490495166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TOXBy1EVxVI/AAAAAAAAAic/POmRMcX667A/S220/foto%2B1.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-J6hAcZMtUaQ/TsJnuwOLrYI/AAAAAAAAAno/4cNxhy4e_kk/s72-c/LB%2Bmarg..jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5121148060136346781.post-7913421148687086543</id><published>2011-11-08T04:20:00.000-08:00</published><updated>2011-11-08T04:25:12.498-08:00</updated><title type='text'>"Clara dos Anjos", obra fundamental em Lima Barreto</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-LObbGqfB6v4/TrkffUtLOwI/AAAAAAAAAnc/DiBcApeJPGw/s1600/Cl%2BAj%2Bquadrinhos.bmp" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 200px; height: 136px;" src="http://4.bp.blogspot.com/-LObbGqfB6v4/TrkffUtLOwI/AAAAAAAAAnc/DiBcApeJPGw/s200/Cl%2BAj%2Bquadrinhos.bmp" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5672599828644444930" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;"Clara dos Anjos", de Lima Barreto, agora em quadrinhos (roteiro de Wander Antunes e ilustrações de Marcelo Lelis).&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;Uma das mais importantes obras de Lima, de relevância ímpar – não (apenas) por ser sua primeira obra ficcional, mas por simplesmente representar, emblematizar e sintetizar a &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt; &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;própria evolução literária barretiana (&lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: Garamond; "&gt;também o há em Lima—‘a la’ Machado,- nada sendo estanque ou isolado em sua  produção ficcional, uma obra se sucedendo e integrando a outra,temática e tramaticamente :no caso específico, “Clara dos Anjos” no epicentro,em torno dela gravitando os romances seguintes&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;) e constituir &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: Garamond; "&gt;per se&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt; um marco a determinar o rumo imprimido à sua ficção .&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;“Clara dos Anjos” aparece na obra ficcional de Lima Barreto, sob o mesmo título, em três versões, defasadas no tempo, e distintas entre si,nem tanto pelo enredo em si,este &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt; &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;mantido essencialmente o mesmo (a mulata, de família humilde, no subúrbio do Rio de Janeiro,seduzida pelo homem branco e depois abandonada) mas pelos focos e enfoques temáticos que Lima imprimiu ao longo do tempo. A primeira versão é de 1904, um romance inacabado, com apenas quatro capítulos, inserido em &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: Garamond; "&gt;Diário íntimo&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt; (depois da sedução, Clara,desonrada, é explorada por vários homens); a segunda, um conto publicado em 1919 e incluído na coletânea &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: Garamond; "&gt;Histórias e sonhos&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt; (depois de seduzida, Clara assume sua desonra e leva a vida melancólica e pobre); a terceira, um romance ‘acabado’ (a narrativa centraliza-se &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt; &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;nos mínimos detalhes da sedução), escrito entre dezembro 1921 (&lt;/span&gt;&lt;u style="font-family: Garamond; "&gt;há exatos 90 anos&lt;/u&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;, portanto) e janeiro 1922, veiculado postumamente em 1923-34, em folhetins na &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: Garamond; "&gt;Revista Souza Cruz&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;.e publicado em livro somente em 1947 &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt; &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;– sua derradeira obra fechando assim o ciclo ficcional do escritor.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;As diferenças marcantes e importantes de uma versão para outra residem nos desvios de enfoques adotados por Lima – o que aponta mudanças em seu pensamento e sua ‘estética literária’ no decorrer dos anos: do foco sobre a situação dos negros na cidade do Rio,em 1904, ao foco menos projetado sobre&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;a questão racial&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;e mais enfático à miséria e injustiça social como um todo,independente de raça, sob cunho ‘romanesco’, o autor ressaltando os aspectos e o teor trágico que aflige indistintamente homens e mulheres desgraçados pela miséria, em 1921-22 – valendo observar,nesse sentido,&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;uma diferença no tratamento dado por Lima ao trágico, sempre recusado por ele ,e assumido na obra derradeira. Da conotação eminentemente social-racial do primeiro texto a múltiplas conotações &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;   &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;social,econômico e psicológico no último -- ainda que discriminação e preconceito raciais sejam elementos constantes em toda sua ficção.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;“Clara dos Anjos” em suas três versões expressa crucial desvio de uma intenção inicial de enfoque temático nas questões de negritude e situação do negro no país – a concepção inicial da novela&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;e o projeto historicista de elaboração de uma “História da escravidão no Brasil” -- para o romanesco,mas de cunho político,com foco no cenário institucional e na sociedade brasileiros (assim foi nos romances que vieram depois e nos contos). Guinada que já se manifesta, de resto, em &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: Garamond; "&gt;Recordações do escrivão Isaias Caminha&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;, também elaborado em 1904,e finalizado em 1905 : o romance inacabado de 1904 como que prepara o romance de 1905 – neste, da idéia inicial de obra sobre preconceito racial a obra psicológica,existencial, de obra denunciadora de discriminação social-racial a obra crítica-satírica ao mundo jornalístico e literário (trata-se na verdade de exemplo típico da “falácia intencional”,conforme o conceito cunhado pelo crítico francês Pierre Macherey em sua obra &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: Garamond; "&gt;Pour une théorie de la production littéraire&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt; : intenções e decisões preliminares e apriorísticas do autor ao conceber uma obra podem não prevalecerem e serem alteradas na confecção mesma da narrativa – como que o autor ‘descobrisse’ sua história ; na construção ficcional tanto de “Clara dos Anjos”, em suas três versões, &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt; &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;como de &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: Garamond; "&gt;Isaias Caminha&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;, Lima ‘descobriu’ o caminho a seguir em sua ficção.)&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;O desvio da concepção original de “Clara dos Anjos para a narrativa que iria preponderar &lt;/span&gt;&lt;st1:personname productid="em Isaias Caminha" st="on" style="font-family: Garamond; "&gt;em &lt;i&gt;Isaias Caminha&lt;/i&gt;&lt;/st1:personname&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt; &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt; &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;forma o caminho que seguiria a partir daí até o fim da (curta) vida literária.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;“Clara dos Anjos”,mais do que a evolução literária&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;sintetiza a própria evolução filosófico-ideológica de Lima Barreto -- &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt; &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;e aqui, essencialmente no desvio&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;do foco étnico em favor do mundo romanesco,sem no entanto valer-se da superficialidade ou da “palavra oca,inócua”, deve-se apor a esse processo a insofismável conotação tolstoiana (de Tolstoi,e seu célebre ensaio &lt;/span&gt;&lt;i style="font-family: Garamond; "&gt;O que é a Arte ?,&lt;/i&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt; e&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;“percepção religiosa da arte”), de resto a maior,e crucial,&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;influência absorvida por Lima do começo ao fim de&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;sua obra,em especial no que tange à&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;transformação de&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;  &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;ideais literários e o imprimir de um novo rumo à sua temática ficcional, e a seus conceito e pregação da “literatura como missão” &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt; &lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Garamond; "&gt;: mas isso faz parte de outra história...ou artigo).&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:Garamond"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span style="font-family:Garamond"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5121148060136346781-7913421148687086543?l=pandorawiki.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pandorawiki.blogspot.com/feeds/7913421148687086543/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5121148060136346781&amp;postID=7913421148687086543&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/7913421148687086543'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/7913421148687086543'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pandorawiki.blogspot.com/2011/11/clara-dos-anjos-obra-fundamental-em.html' title='&quot;Clara dos Anjos&quot;, obra fundamental em Lima Barreto'/><author><name>Caixa de Pandora</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13780187324490495166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TOXBy1EVxVI/AAAAAAAAAic/POmRMcX667A/S220/foto%2B1.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-LObbGqfB6v4/TrkffUtLOwI/AAAAAAAAAnc/DiBcApeJPGw/s72-c/Cl%2BAj%2Bquadrinhos.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5121148060136346781.post-1252161685049034420</id><published>2011-05-13T10:47:00.000-07:00</published><updated>2011-05-13T10:55:49.000-07:00</updated><title type='text'>Diferentes,divergentes -- mas próximos, muito próximos</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-8-4ECwNFcJg/Tc1wlTHjxxI/AAAAAAAAAlA/6romQf7W0KA/s1600/LB.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5606260897235584786" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 81px; CURSOR: hand; HEIGHT: 120px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/-8-4ECwNFcJg/Tc1wlTHjxxI/AAAAAAAAAlA/6romQf7W0KA/s200/LB.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#993300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;pelo 13 maio ! &lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#993300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;neste 2011, 130 anos nascimento Lima Barreto (1881). &lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#993300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Lima Barreto e Machado de Assis , verdadeiros,natos, parentes literários. Po-los ‘frente a frente’, vis a vis, qual espelhos paralelos, .exibir seus elementos em comum – que existem,e significativos -- mas também e em especial suas diferenças – que são marcantes -- é o que se propõe neste estudo.&lt;br /&gt;Mais do que dois grandes escritores, dois epígonos da literatura brasileira, essencialmente semelhantes em concepções filosóficas, temas, influências, pontos de vista – ainda que sob formas,modos e discursos distintos. De modo convergente, mas de forma e modo divergentes, analisaram os cenários políticos, históricos,institucionais,sociais,culturais de suas épocas e a existência do homem – importando menos o tipo diverso de sociedade em que viveram do que a similitude de seus procedimentos e o modo de observar as reações dos indivíduos entre si.: Machado, privilegiando as nuances, dissecando-o em sua essência ,revelando sutilezas, contradições e ambigüidades psicológicas; Lima, sem linhas e focos enviezados, desnudando suas fraquezas, insuficiências, submissões, condições sociais.&lt;br /&gt;Ambos muito próximos de várias maneiras – ainda que bastante diferentes. Resisto (mas não de todo, até porque bastante sedutora...) à tentação de insinuar uma especulação literária-filosófica-ideológica a partir de suas similares origens – étnicas e sociais – face ao mundo em que viveram, almejaram e que Machado conquistou, Lima não. Simetria e paralelismo social os criaram em ambientes que não os dominantes, os colocaram em situação inicial desfavorável e os elevaram, não sem esforços e afinco idealístico, ambiciosos, plena e lucidamente conscientes de seus talentos e méritos, desejosos de superação e ascensão – muito mais em Machado do que em Lima -- mas gradativamente tomados, ambos em igual teor, pelo ceticismo, pelo desencanto,pela desilusão , progressivamente se afastando das convivências, do ambiente social dominante , se isolando, a observarem, cada um a seu tempo e modo, a dissolvência de mundos vinculados e correlatos – Machado, com serenidade e conciliação; Lima, com a consciência convulsiva da ‘automarginalização’.&lt;br /&gt;Claro que aproximar o criador de Policarpo Quaresma do autor de Dom Casmurro é tarefa audaciosa, a exigir cuidados especiais e um trabalho de profundidade. A começar por tentar estabelecer paralelismos e confrontos entre um escritor do século XIX e outro do século XX, como que o transplantar (ou ‘transcorrer’ temporalmente) -- mas com a certeza de que,em se tratando de Machado, seria\é possível , tão lúcido,anunciador, antecipador como era, desconfiando e denunciando ainda nos oitocentos a sociedade fragmentada, desequilibrada, injusta, que existia e,pior, se projetava para o século seguinte – na qual Lima viveria e se debateria, com sofrimento e agressividade, veemente e vigoroso no discurso militante. Nessa linha e raciocínio, não temo errar : Machado de Assis precursor de Lima Barreto – unidos historica e indissoluvelmente, escritores do fim de um século e do começo de outro, da passagem do XIX ao XX. Ambos pouco,ou quase nada, crédulos do progresso, da ciência, da razão, descrentes das transformações e das reformas, anunciadas e nunca efetivamente realizadas; ambos denunciando as formas vigentes e futuras de dominação e injustiça.&lt;br /&gt;Tidos como viventes de dois mundos quase que distintos, distantes, opostos – mas não é tão verdade assim. Sob muitos aspectos não há tanta distância entre as sociedades imperial e republicana do Rio de Janeiro, por extensão do Brasil, entre o boêmio de Todos os Santos e o recluso do Cosme Velho.&lt;br /&gt;Praticamente nada contemporâneos: Machado nascido em 1839, Lima em 1881, só viveram ‘em comum’ por cerca 27 anos; Machado morre em 1908, Lima em 1922 – a considerável diferença no nascimento já não é tanta na morte. Não coincidem os respectivos períodos de vida literária , mas o projeto literário, muito -- tantos os temas em comum: o indivíduo, a vida, a morte, o amor, a mulher, a sociedade, o poder, a injustiça. Porque, assim como Lima, Machado, embora em outras forma, formato, estilo, linguagem e foco, também fez, a seu modo, da literatura “missão”.&lt;br /&gt;Por trás das aparências distintas encontram-se afinidades significativas. Socialmente, o ambiente refinado a que Machado se esforçou para ascender espelha-se e é revertido no ambiente rude em que Lima cresceu e optou conscientemente por viver. Cultural, filosófica e ideologicamente, Machado ‘infiltrado’ no estamento social e político dominante para dissecá-lo, denunciá-lo, miná-lo pela ironia menipéica, pela sátira sarcástica, retrata os poderosos,os esnobes, os inúteis,os ociosos, os tolos; Lima, ‘automarginalizado’ do sistema social e econômico para criticá-lo,rejeitá-lo,repudiá-lo pelo discurso militante, pelo grito panfletário, mas da mesma forma pela ironia satírica, pela alegoria sarcástica, desenha os dominadores,os títeres, os opressores, os oprimidos,os ridículos.&lt;br /&gt;Machado, testemunha do crepúsculo do Império e o estertor da escravidão, bem como o alvorecer da República – conservado,imune, o patriarcalismo; Lima, vivente do ascenso de um novo regime, a sedimentação do patrimonialismo, o fortalecimento do poder – mantido,intocável,o patriarcalismo. Em Machado, a dissolução de um mundo já esvaziado das formas de prestígio tradicionais, receptáculo de forças novas e estranhas, uma dinâmica desconhecida e inquietante; em Lima, a formação de um mundo carregado de novas relações e padrões, pleno de forças avassaladoras, a eclosão de uma opressiva dinâmica.&lt;br /&gt;Em Lima Barreto, a tirania republicana-aristocrática-burguesa assoma nos ideais de modernização e progresso, do mesmo modo que em Machado de Assis a violência escravocrata se infiltra capilarmente na elegância e nos bons modos da sociedade oitocentista – provocando em ambos a necessidade, obrigatoriedade de uma espécie de desagravo, que um procura camuflar com o tom ameno e prosaico de sua escrita, o outro ao contrário, denuncia incondicionalmente com vigor e acidez.&lt;br /&gt;Machado, retratista dos proprietários, dos que vivem de renda, dos senhores e patrões, dos elegantes e aristocratas, dos fúteis e fugazes poetas, literatos e artistas,também dos serviçais, dos agregados, dos inquilinos; Lima, desenhista dos bovaristas, dos arrivistas, dos despossuídos, dos espoliados, dos destituídos, dos doutores, dos falsos sábios, dos nefelibatas. Ambos, acima de tudo,dois grandes comentaristas da espécie e da condição humanas : não tanto o indíviduo isolado, mas sua conduta social e sobretudo a sociedade que os abrigava.&lt;br /&gt;Como a literatura capta muito – ou tudo -- da realidade social, tanto em Lima como em Machado é possível encontrar manifestações de um mesmo processo com efeitos diversos e característicos - um denominador comum, uma linha de continuidade, nos contos e nos romances, nas crônicas e nos artigos. Em contato, ou em confronto, as respectivas obras exibem processos similares e relacionados, cada um se revelando e desdobrando no outro, como espelhos que se refletissem. Os elementos, vetores e forças que atuam nas obras de Lima e de Machado exprimem e expõem um mesmo movimento recorrente, um ritmo cíclico, o percurso da realidade à fantasia, e vice-versa, da ilusão à desilusão, por via da política e da história, do amor e do sentimento, da memória e da reflexão, com os recursos do humor e da ironia (crítica).&lt;br /&gt;Ambos perceberam nitidamente que os efeitos nunca se desvinculam das causas, e isso presente e atuante em suas obras, coerente com suas respectivas origens, vivência e estratificação social. No universo autoral de Lima e Machado, política, história e sociedade estão intensamente presentes -- intimamente entranhadas em muitas situações ficcionais e em praticamente todas nãoficcionais, a impulsionarem enredos, monitorarem a escrita, situarem-nos em seus respectivos contextos históricos.&lt;br /&gt;Três esferas que se integram, se intertextualizam, se interativam e desdobram-se,fragmentam-se em correlações estruturais, conferem o tom geral a suas obras e suas linhas narrativas e temáticas mais intensas. Esferas capitais que condicionam e determinam a existência do indivíduo no ambiente social de suas épocas, inclusive fazendo-o ter de utilizar artifícios de compensação para superar as adversidades que lhe são impostas. Esferas tão dominantes, quase onipresentes, indispensáveis, inevitáveis, imprescindíveis para as próprias essências, viços e grandiosidade das respectivas obras. Desde o início, a experiência autoral forneceu a Lima e a Machado a percepção da correlação estrutural dessas esferas e da sua funcionalidade histórica e literária, perceberam como uma se prolongava na outra, como se articulavam em um equilíbrio dinâmico e renovável., nelas se dando exemplarmente as interações entre indivíduo e sociedade.&lt;br /&gt;Ao dotarem suas obras desses elementos, nitidamente compatíveis e associados, nada mais fizeram do que esclarecer no plano da literatura as exigências que as sociedades em crise de seus respectivos tempos demandavam às condutas interior e exterior dos indivíduos e ao modo como estes reagiam. Ambos se tornaram mestres em construir, flagrar e analisar a complementaridade e a intercambialidade intrínseca desse processo – a política reflexo da história, uma e outra determinante dos rumos da sociedade.&lt;br /&gt;Sob tais esferas, em Lima o estilo e linguagem vibrantes, pulsantes, irregulares em seu ritmo discursivo, contra os padrões, as normas, as convenções,destoante do ambiente cultural de seu tempo, atentória à prática textual aristocrática de então, sem subterfúgios ou camuflagens. Contraposto a Machado, de escrita fina, equilibrada, a prosa elegante, algo refinada, sob os ritos do respeitável e por todos aceita, obedecendo aparentemente as convenções da sociedade – algo aqui e ali sutilmente desobediente, ‘subversivo’ -- mas feita também de silêncios e cesuras, de não-ditos e reticências.&lt;br /&gt;Por meio dessas esferas que se explicam de forma recíproca, Lima e Machado puderam observar a grande mutação histórica do país de um século para outro e suas ação e conseqüências na existência, vida e interioridade, do indivíduo. Diferentes, nos dois, os enfoques, ou focos, ou oscilações, entre mundo exterior e interior – mas em comum ambos retratam o exterior (o meio, a sociedade, a realidade), a partir do interior (o indivíduo, a pessoa,a mulher).&lt;br /&gt;Em ambos, malgrado os subterfúgios machadianos, a obra dotada e fadada a ostentar sólidas conotações política e social.: Lima, colocado literariamente sob um regime autoritário, a aristocracia em relativo declínio integrada a uma ascendente burguesia, despótica, que se diz progressista,.utiliza o discurso franco e forte, algo panfletário, acoplado ao alegórico a que se liga o simulacro; Machado, posto literariamente no horizonte do mundo patriarcal , familial e escravocrata, vale-se do ceticismo e da ironia, do subterfúgio, de disfarces e dissimulações.&lt;br /&gt;Na seara ficcional, mister observar a figura feminina em um e em outro. Em ambos, irrestritos defensores dos direitos femininos de toda ordem, aparecem mulheres notáveis; em ambos, quase todas elas superiores aos homens : em Lima, se dependentes dos homens e submissas ao casamento e à moral que lhe era imposta pela sociedade, carentes de educação e oportunidades profissionais, são muito mais fortes, em sua maioria ostentam atitude e comportamento progressistas,avançados; em Machado, sem serem propriamente heróicas, edificantes ou modelares, são marcantes, mesmo quando fúteis,frívolas, volúveis.&lt;br /&gt;Entre elas, e entre personagens masculinos, diálogos e relações possíveis, bastante plausível uma conversibilidade entre personagens – a ficção de um e de outro, em confronto, permitem especular: Olga e Capitu, Clara dos Anjos e Virginia, Edgarda e Sofia, Cló e Flora, Adélia e Marcela, a Lívia barretiana e a Lívia machadiana. Tudo indica que Gonzaga de Sá, por exemplo, veria Aires; Policarpo Quaresma ficaria satisfeito em conversar com Quincas Borba; Numa e Brás Cubas,parceiros e cúmplices, trocariam confidências indiscretas, compartilhariam amantes, tramariam ações escusas. .&lt;br /&gt;De modo geral, os personagens de Lima e Machado se não freqüentam, em tempos diferentes, os mesmos tipos de ambientes sociais – é claro poder-se afirmar que transitam pela seara comum da ficção literária – circulam, nas respectivas em épocas distintas, por um mesmo cenário urbano : a cidade do Rio de Janeiro, Lima e seus “amados subúrbios” (crítico das áreas nobres,em especial Botafogo) , Machado e o Centro e certos bairros da hoje zona sul. A cidade carioca, espaço geográfico inerente a um e a outro autor, revelando semelhanças e similaridades, convergências e confluências, identificabilidades e igualações.&lt;br /&gt;Incontestável, que a par do parentesco literário, de pontos e elementos em comum, persistem neles diferenças e divergências, contrastes e confrontos – os quais, reflitamos, poderiam menos desmentir um Lima oposto de Machado, e vice-versa, e mais uma complementaridade. Sob tal ótica e lente, procurei encontrar em Lima e Machado possíveis e plausíveis conexões dessa complementaridade lastreada na convergência das divergências – ou valendo-se da expressão do compositor popular, nos reflexos ‘do avesso do avesso do avesso’.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5121148060136346781-1252161685049034420?l=pandorawiki.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pandorawiki.blogspot.com/feeds/1252161685049034420/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5121148060136346781&amp;postID=1252161685049034420&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/1252161685049034420'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/1252161685049034420'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pandorawiki.blogspot.com/2011/05/diferentesdivergentes-mas-proximos.html' title='Diferentes,divergentes -- mas próximos, muito próximos'/><author><name>Caixa de Pandora</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13780187324490495166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TOXBy1EVxVI/AAAAAAAAAic/POmRMcX667A/S220/foto%2B1.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-8-4ECwNFcJg/Tc1wlTHjxxI/AAAAAAAAAlA/6romQf7W0KA/s72-c/LB.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5121148060136346781.post-8969509154349861730</id><published>2011-03-02T12:14:00.000-08:00</published><updated>2011-03-02T12:18:46.077-08:00</updated><title type='text'>Quem tem medo da literatura feminina / feminista ?</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-EgwbMqXWws4/TW6mFD15liI/AAAAAAAAAkw/FJgeRyX3hXk/s1600/leitor+III.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5579579594219558434" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 101px; CURSOR: hand; HEIGHT: 124px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/-EgwbMqXWws4/TW6mFD15liI/AAAAAAAAAkw/FJgeRyX3hXk/s200/leitor%2BIII.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#993300;"&gt;pelo 8 de março !&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preconizada por Virginia Woolf, na década de 1930 [Virginia, irônica e realista, em conferência para jovens universitárias inglesas no Giron College, estabelecia as condições mínimas para que as mulheres atravessassem a fronteira física e psíquica da criação literária, ao declarar : “tendo um quarto para si e renda própria” -- ditames abrigados no livro A Room of One’s Own (Um quarto todo seu.) ], defendida pelas feministas européias de 1970, uma ‘escrita feminina’ ganhou corpo (e forma) na literatura. Mulheres escritoras (ficcionais e não-ficcionais) têm voz própria, estilo próprio, linguagem própria, temática própria, longe de “simplesmente reproduzirem modelos falocêntricos, caracterizados por racionalismos e pragmatismos” acentua a ensaísta Luce Irigaray.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Qual seria afinal uma ‘linguagem feminina’, como se expressa um discurso essencialmente ‘feminino’? existe afinal uma voz especificamente feminina ?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Apesar das (para alguns, incontornáveis) dificuldades para uma definição precisa, entendo existir uma ‘linguagem literária feminina’ com elementos, valores e vetores próprios, nitidamente percebidos na prosa ficcional, na poesia e no teatro, e que só fazem acrescentar e enriquecer a Literatura (e a Cultura, em geral) – linguagem marcada pela subjetividade, por uma escrita mais sensorial e sensível, mais poética, lírica , uma escritura com ‘o corpo e a alma’.&lt;br /&gt;A meu juízo, na ficção feminina, o amor -- condimentado pelo erotismo, por vezes intenso -- deixa de ser tema absoluto para ceder espaço a sondagens existenciais, e até ao questionamento político e filosófico. Tudo isso traduzido e materializado em experiências formais e estilísticas : fragmentação narrativa, o ritmo ‘labiríntico’ no lugar da estrutura linear, intertextualidade, tendência a impregnar a escrita com elementos de oralidade, foco narrativo múltiplo, intenso fluxo-de-consciência..&lt;br /&gt;Certamente pode-se encontrar desses elementos na denominada ‘literatura masculina’– e efetivamente encontra-se : como negar ser a linguagem literária, o estilo, a escrita de Marcel Proust, ou muitas passagens de Tolstoi, e mesmo de Shakespeare, para citar três gigantes da literatura universal, essencialmente ‘femininas’ – o que,de algum modo, desmistificaria esse tipo de distinção acentuada, da qual, enfatizo, não sou partidário. Gratifica-me bastante acentuar que a escrita feminina, marcante como é, ostenta suas características próprias, peculiares, plena de,digamos, ‘personalidade literária’, assim como a possui,em sua devida proporção, a ‘literatura masculina’.&lt;br /&gt;_______________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;uma escrita feminina brasileira, sim&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Muitos constataram — e comprovaram — a influência negativa da literatura em relação à posição da mulher na sociedade, "os literatos, romancistas e poetas explorando a concuspicência, a imoralidade e a luxúria que chamam amor; e naturalmente como nas relações entre senhor e escrava só pode haver obscenidade, os homens de talento produziram montanhas de livros onde a patologia mundana do amor é rebuscada ao mais íntimo e profundo limite." Com o tempo e a evolução dos conceitos sociais, almejada uma efetiva mudança na sociedade, tornou-se imperativo repensar a condição feminina, enxergando a mulher, não como um complemento da família, mas como importante agente de mudanças pela função que exerce na sociedade.&lt;br /&gt;No Brasil, o surgimento de mulheres escritoras ocorre principalmente a partir do século XIX, no contexto da crescente importância da imprensa e do início de movimentos em prol dos direitos das mulheres. Quando as questões relativas à emancipação feminina começaram a aparecer na imprensa, as mulheres se organizavam associativamente e passaram a reivindicar maior participação na sociedade em mudança. Ocorreram entao os primeiros movimentos organizados tendo como principal objetivo a melhoria das condições de vida da mulher — desde que orientada pela ótica masculina. [afinal, na constituição da família brasileira sempre imperou o pater familias, ou seja, o poder nas mãos do homem, responsável não só por seus escravos e agregados como também por sua mulher, filhos e netos — a família patriarcal como a célula mais importante da formação da sociedade; este poder social do homem advinha do direito consuetudinário e as próprias leis brasileiras asseguravam-lhe autoridade : os direitos civis no Brasil, basicamente, até 1890, eram uma extensão dos de Portugal, isto é, eram regidos pelas Ordenações Filipinas — o primeiro Código Civil Brasileiro só vigorou a partir de 1917. Na família monogâmica, criada para preservar o poderio econômico dentro de um mesmo grupo sangüíneo, exigia-se que a sexualidade feminina fosse rigorosamente controlada, pois era a única forma de que o homem dispunha para assegurar a paternidade e a herança familiar. ]&lt;br /&gt;O que não impediu, porem, a formação de uma linhagem de mulheres militantes dentro da literatura (como personagens ou como autoras) e da sociedade (na militância política, por meio sobretudo do veículo jornalístico) que desenvolveram trabalho emancipatório preparador das condições que propiciariam, no século XX, a implementação e solidificação de um movimento que se poderia chamar de estética feminista.&lt;br /&gt;Na literatura brasileira, considera-se o romance &lt;em&gt;Úrsula &lt;/em&gt;(1859), da maranhense Maria Firmina dos Reis, a primeira narrativa de autoria feminina. O romance reduplica os valores patriarcais, construindo um universo onde a donzela frágil e desvalida é disputada pelo bom mocinho e pelo vilão da história. Contrariando os finais felizes, a narrativa termina com a morte da protagonista, vítima da sanha do cruel perseguidor.&lt;br /&gt;No entanto, de modo geral a escrita praticada por mulheres esteve ausente dos anos decisivos para a formação da literatura brasileira durante o século XIX , na vigência do Romantismo – o que soa algo inusitado, porquanto justamente a mulher como leitora foi o grande,crucial, basilar elemento,primeiro pela prática de leitura no país, responsável pela existência e proliferação de escritores e da própria literatura brasileira. Se não totalmente ausente do mercado, restrita a colaborações em periódicos de vida curta ou de público definido pela circulação no espaço doméstico (o que, de resto, significa em meados dos 1800 uma confirmação antecessora à interpretação de Virgina Woolf, da década de 1930).. As primeiras manifestações de escrita feminina levadas oficial e intensamente ao público externo vieram no final do século XIX, já na ‘vigência’ do Realismo na literatura brasileira [paradoxal ? seria o Romantismo ‘mais apropriado’ para a expressão da écriture féminine?, reflito...]&lt;br /&gt;Loas, todas as loas, portanto, para as pioneirissimas Rita Joana de Souza, Ângela do Amaral Rangel, Barbara Heliodora, Maria Josefa Barreto, Beatriz Francisca de Assis Brandão, Maria Clemência Silveira, Delfina Benigna da Cunha, Ildefonsa Laura Cesar, Ana Euridice de Barandas, Nisia Floresta, Violante de Bivar e Velasco, Alta de Souza, Clarinda da Costa Siqueira, Joana Paula de Noronha, Ana Luisa de Azevedo Castro, Maria Firmina dos Reis, Adelia Fonseca, Maria Benedita de Oliveira Barbosa (Zaira Americana), Maria Angélica Ribeiro, Isabel Gondim, Maria do Carmo de Melo Rego, Rita Barém de Melo, Joaquina Meneses de Lacerda, Ana Ribeiro, Julia da Costa, Amália Figueiroa, Luciana de Abreu, Serafina Rosa Pontes, Adelina Vieira, Josefina Álvares de Azevedo, Carmem Dolores, Narcisa Amália, Gabriela de Andrada, Maria Benedita Bormann, Inês Sabino, Anália Franco, Delminda Silveira, Adelaide de Castro Guimarães, Honorata Carneiro de Mendonça, Carmen Freire, Emilia Freitas, Vitalina de Camargo Queirós, Ana Facó, Francisca Izidora da Rocha, Maria Carolina Corcoroca de Souza, Ana Autran, Corina Coaraci, Luísa Leonardo, Alexandrina Couto dos Santos, Ana Aurora do Amaral Lisboa, Revocata Heliosa de Melo, Anna Alexandrina Cavalcanti de Albuquerque. Até entrarmos o século XX com Júlia Lopes de Almeida, chegar a Gilka Machado e Maria Lacerda de Moura.&lt;br /&gt;Contemporaneamente, a escrita feminina brasileira encontra expoentes, entre outras, em: Clarice Lispector, Cecilia Meireles, Maria Alice Barroso, Maria Helena Cardoso,Rachel de Queiroz, Lygia Fagundes Teles, Nélida Piñon, Sonia Coutinho, Ana Cristina César ,Hilda Hist, Adélia Prado, Lya Luft,Zelia Gattai, Ana Miranda, Marina Colasanti, Lygia Bojunga Nunes, Nilma Gonçalves Lacerda, Maria Adelaide Amaral, Luzilá Gonçalves Ferreira, Myriam Campelo. E entre as mais novas, Heloisa Seixas, Patricia Melo, Fernanda Young ; e nas novissimas, Carmen Oliveira, Adriana Lisboa, Maria Conceição Góes, Clarah Averbuck, Cíntia Moscovich , Leticia Wierzchowski. O ensaísmo abriga Flora Sussekind, Heloisa Buarque de Holanda, Leyla Perrone-Moisés, Walnice Nogueira Galvão, Lucia Abreu, Regina Zilbermann, Nelly Novaes Coelho, Marisa Lajolo, Marilena Chuaí, Marilene Felinto, Eliane Vasconcelos, Beatriz Resende.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;os homens e as mulheres&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Naquele século XIX e na primeira quadra do século XX, no entanto, não foram apenas elas que escreveram ‘sobre elas ou para elas’: quatro escritores-homens se destacaram por voltar-se, em graus e enfoques diferentes, para as mulheres.: Joaquim Manuel de Macedo descreveu-a e tratou-a como “donzela de irrepreensíveis pendores” em especial em A Moreninha e em inúmeros contos. José de Alencar traçou o mais completo retrato da mulher ‘urbana’ da corte, no Brasil pós-Independência, no auge do romantismo, notadamente na trilogia Senhora, Diva e Lucíola, além de nas novelas Cinco minutos e A viuvinha ,e nos romances A pata da gazela, Sonhos d'ouro, Encarnação.&lt;br /&gt;Há de se destacar, porém, Lima Barreto: debruçou-se como ninguém sobre a mulher ‘republicana’ : primeiro na década de 1910, ao desenvolver o “tema de Carmen” , uma série de artigos e crônicas em jornais e revistas nas quais a propósito de crimes ou julgamentos, ataca os homens “que se atribuem direitos sobre a vida das mulheres”, denunciando crimes de uxoricídio, nos quais homens matavam “mulheres infiéis”— e pior eram absolvidos nos julgamentos por “legítima defesa da honra”; e ao longo de toda sua produção croniquesca em jornais e revistas tratar de questões como movimento feminino, voto feminino, direitos femininos.&lt;br /&gt;A rigor, Lima Barreto , que nunca silenciou sobre seu tempo, não poderia mesmo ficar alheio à situação da mulher na realidade social brasileira do início do século XX, época de tantas e profundas transformações na sociedade. Retratou e a fez personagem em contos e romances, escreveu sobre a mulher em artigos e crônicas, publicadas em jornais e revistas — sob um caráter de ambigüidade,ora a criticando, por vezes atacando, ora a defendendo, muitas vezes enaltecendo : diz-se “antifeminista”, põe-se abertamente contra os movimentos feministas, mas defende a necessidade de instrução para a mulher ; repele o ingresso da mulher no serviço público (“... rendosos cargos para as mulheres das classes sociais mais favorecidas : e as reivindicações das operárias ?...”), mas defende o divórcio ; imbuído da moral do seu tempo, retrata a mulher pela ótica comum, Lima destila sua ácida ironia crítica sobre a mulher ,mas denuncia sua “absurda” situação de dependência aos homens . Longe, muito longe da falsa, equivocada acusação de misoginia, posicionado na realidade contra o movimento feminista brasileiro — o que ele denominava “feminismo bastardo, burocrata”— não contra as mulheres,e sim como ojeriza aos signos do progresso republicano, Lima Barreto sempre dá à mulher espaço significativo em sua obra ficcional e não-ficcional : nos romances, contos, artigos e crônicas, apontamentos e notas, comenta a situação da mulher perante o casamento; a viuvez; as oportunidades educacionais e profissionais; a moral que lhe é imposta pelo duplo valor; a desigualdade de julgamento do adultério masculino e do feminino; o mundo da prostituição e o início do movimento feminista no Brasil — e sobretudo defende intransigentemente a mulher “que são “como todos nós, sujeitas, às influências várias que fazem flutuar as suas inclinações, as suas amizades, os seus gostos, os seus amores". Uma ambigüidade implícita e explícita em seus artigos não permeia o retrato da mulher elaborado em seus romances, novelas e contos, em que elas têm sempre atitude e comportamento progressista, são superiores aos maridos (exemplos de Olga e Edgarda em Triste fim de Policarpo Quaresma; Clara e Castorina em Clara dos Anjos; Efigênia em O cemitério dos vivos; Cecília de Diário íntimo , Cló, Adélia, Lívia em Histórias e sonhos; muitas outras em contos, etc) .&lt;br /&gt;Porém, nenhum escritor brasileiro do período ‘edificou’ tanto a mulher como personagem capital e leitmotiv básico de seus textos como Machado de Assis. Ele escrevia sobre mulheres e para mulheres. Amores e frustações femininos eram temas constantes, sempre presentes o ciúme, o adultério, a prostituição, e as personagens femininas ocupam lugar privilegiado, lugar de destaque em todos os romances e na maioria dos contos.E mais :Machado sempre escreveu para periódicos cujo público era predominantemente feminino, primeiro no Jornal das Famílias ,depois em A Estação.&lt;br /&gt;Nas entrelinhas de seus contos, romances, e também de suas crônicas, Machado sempre chamou atenção para as necessidades e os direitos da vida afetivo-sexual de suas leitoras: argumentava que a mulher devia receber instrução e não ficar confinada à vida doméstica, tendo direito ao amor e à liberdade -- daí, seus temas mais constantes: o ciúme e o adultério. Machado trouxe à luz a questão da sexualidade feminina ,a exemplo de Flaubert, Balzac, Eça, e mais tarde Freud . [aliás, como Roberto Schwarz diz , “Machado é um autor que em 1880 está dizendo coisas que Freud diria 25 anos depois” -- nos romances, principalmente da ‘segunda fase’, Machado capta de forma aguda, a la Freud, as sutilezas do ‘discurso do desejo inconsciente’, descreve conflitos e enfatiza o inconsciente, sua obra como o principal elemento/vetor de pontos de interseção entre a literatura e a psicanálise ; a percepção acentuada do funcionamento do psiquismo humano na verdade vem desde as primeiras obras.]&lt;br /&gt;Na maioria dos romances, a mulher é o elemento forte, põe o homem dependente, é também o esteio, a base da relação. Há matriarcas que dominam e comandam propriedades e a família, a figura masculina sendo até desnecessária; é comum no romance machadiano, que retrata a sociedade de seu tempo, mulheres fortes, viúvas que não mais casam, como em Iaiá Garcia, Dom Casmurro, Casa Velha, Memorial de Aires. Em toda sua obra, Machado enfatizou o personagem feminino: mesmo em sua primeira fase, Livia, Guiomar, Helena, Iaiá Garcia, Lalau já dominavam; na segunda fase, as mulheres -- Marcela, Virgília, Sofia, Capitu, Fidélia, Carmo --são personagens de grande densidade psicológica&lt;br /&gt;Um número surpreendente de contos são o que pode ser catalogado como ‘estudos sobre a mulher’: “Singular ocorrência”; “Capítulo dos chapéus”; “Primas de Sapucaia!”; “Uma senhora”; “Trina e una”; “Noite de almirante”; “A senhora do Galvão”; “Missa do galo”; “D. Paula”, encenam vários tipos femininos e situações com as quais as mulheres se defrontam na vida comum . Em todos, estão presentes os elementos básicos da ficção machadiana: ciúme, adultério, e prostituição.&lt;br /&gt;Para muitos estudiosos, Machado era mesmo ‘feminista’ (eu, particularmente, não chego a tanto...)-- e a cada leitura de seus contos, romances e crônicas nos damos conta da sutileza e da abrangência desse feminismo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5121148060136346781-8969509154349861730?l=pandorawiki.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pandorawiki.blogspot.com/feeds/8969509154349861730/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5121148060136346781&amp;postID=8969509154349861730&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/8969509154349861730'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/8969509154349861730'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pandorawiki.blogspot.com/2011/03/quem-tem-medo-da-literatura-feminina.html' title='Quem tem medo da literatura feminina / feminista ?'/><author><name>Caixa de Pandora</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13780187324490495166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TOXBy1EVxVI/AAAAAAAAAic/POmRMcX667A/S220/foto%2B1.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-EgwbMqXWws4/TW6mFD15liI/AAAAAAAAAkw/FJgeRyX3hXk/s72-c/leitor%2BIII.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5121148060136346781.post-929544059794092617</id><published>2011-02-24T04:39:00.000-08:00</published><updated>2011-02-24T04:45:14.647-08:00</updated><title type='text'>O cinema vai à literatura (e a literatura se vale do cinema)</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-yPSg4wiY8LA/TWZSzAwuVPI/AAAAAAAAAkg/l8zwzaZXAtQ/s1600/cine+brasil+IV.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5577236224876106994" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 92px; CURSOR: hand; HEIGHT: 130px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/-yPSg4wiY8LA/TWZSzAwuVPI/AAAAAAAAAkg/l8zwzaZXAtQ/s200/cine%2Bbrasil%2BIV.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#993300;"&gt;&lt;em&gt;Abrem-se as cortinas e projeta-se na tela mais uma festa de entrega do Oscar. Excelente oportunidade para examinar as relações entre cinema e literatura.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Eventos como a entrega do Oscar -- e de resto, festivais regularmente realizados em distintas cidades,temáticas e enfoques, o Festival de Cannes , de Berlim, de Veneza, etc -- são excelentes por permitirem uma reflexão sobre a sempre vigente relação literatura-cinema , com suas interseções, confluências ...e divergências . Poucas formas artísticas estabelecem entre si tantas relações de sentido mútuo, ainda que sujeitas a entreveros e embates, acusações de “infidelidade autoral”, polêmicas sobre liberdades de criação, etc.-- até porque são diferenciadas as linguagens e distintos os respectivos códigos e modos de funcionamento : narrativa literária e narrativa fílmica distinguem-se e na maioria dos casos contrastam- se; são sempre difíceis as transposições de uma para o outro, pois as características intrínsecas do texto literário -- originalidades, subjetividades, entrelinhas, elaboramentos -- por princípio não encontram a mesma expressão na narrativa cinematográfica.&lt;br /&gt;A par das diferenças, entre a página e a tela há laços estreitos -- em forma de ‘mão e contra-mão’ : a página contém palavras que acionarão os sentidos e se transformam na mente do leitor em imagens; a tela abriga imagens em movimento que serão decodificadas pelo expectador por meio de palavras.Entre a literatura e o cinema, há um parentesco originário, diálogo que se acentuou sobremaneira após a intermediação dos processos tecnológicos. Assim, a enorme e expressiva influência da literatura sobre o cinema tem sua contrapartida, por meio de um ‘cinema interior ou mental’ sobre a literatura e as artes em geral, mesmo em uma época precedente ao advento dos artefatos técnicos.&lt;br /&gt;Optando pela modalidade narrativa, o cinema roubou da literatura parte significativa da tarefa de contar histórias, tornando-se, de início, um fiel substituto do folhetim romântico. E, apesar de experimentações mais ousadas, como a "Avant-Garde" francesa da década de 1920, ou o surrealismo cinematográfico, que buscaram fugir dessa linha, a narratividade continua a ser o traço hegemônico da cinematografia.&lt;br /&gt;Daí, adaptar para o cinema ou para a televisão — meios reconhecidamente ligados à cultura de massa — obras de autores como Shakeaspeare, Dostoiévski, Tolstói, Balzac, Flaubert, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, para citar apenas alguns nomes de relevo no panorama universal e nacional — equivale a trazer para as mídias o prestígio da grande arte ou, no dizer de alguns, tornar a arte erudita acessível ao grande público. Mas a adaptação de obras literárias para o cinema e, posteriormente para a televisão -- meios que privilegiam a linha narrativa — também não se tem feito sem conflitos, pois as adaptações resultam sempre em empreendimentos insatisfatórios.&lt;br /&gt;Não se pode negar que, principalmente em seu período clássico, o cinema tenha procurado na aproximação com a literatura uma forma de legitimar-se. E além das freqüentes adaptações de obras literárias para a tela, tornou-se prática corrente, em particular naquele período, a contratação de escritores como roteiristas. Assim é que, em Hollywood, notáveis escritores como William Faulkner, Scott Fritzgerald, Aldous Huxley, Gore Vidal, , James Age,Nathanael West, dentre outros, tornaram-se os contadores de muitas histórias que comoveram o grande público e garantiram o sucesso de vários empreendimentos. Saber se tais roteiros traziam a marca da criação literária já é uma outra questão, que talvez possa ser analisada a partir da postura de alguns desses escritores-roteiristas. Faulkner, por exemplo, não fazia segredo sobre a natureza de sua atividade em Hollywood: "Faço apenas o que me dizem para fazer; é um emprego, e pronto."&lt;br /&gt;“A literatura e cinema não são tão distantes assevera o pesquisador e professor do departamento de espanhol e português da University of California (UCLA), Randal Johnson – com quem tive oportunidade de conversar quando de sua estadia no Rio de Janeiro, em 2008, convidado pelo Programa de Pós-graduação da Escola de Comunicação (ECO-Pós) da UFRJ em parceria com o Globo Universidade para ministrar uma disciplina compactada sobre Cinema, Literatura e TV. Para ele, as relações entre cinema e literatura não se limitam às adaptações do texto escrito para a tela, apontando três outros importantes pontos de encontro. O primeiro seria os filmes feitos sobre escritores – de que gradativamente proliferam os exemplos : agora mesmo Clint Eastwood confirma seu projeto de uma biografia fílmica de Mark Twain ;outro, seria o uso estrutural ou incorporação de textos literários no discurso cinematográfico – esta indubitavelmente a ocorrência maior, de que Stanley Kubrick, p. ex.,é um dos maiores artífices ; e também o encontro da literatura e do cinema poderia se dar através de referências como alusões literárias nos diálogos e citações implícitas ou explícitas, visuais, orais ou escritas diretamente na tela – um expediente cada vez mais recorrente na produção contemporânea. Por outro lado, Johnson critica enfaticamente a valorização do texto literário sobre o discurso cinematográfico, sustentando ser muito comum entre os espectadores uma exigência de fidelidade do filme ao livro. “A questão da adaptação como um problema só ocorre em determinadas circunstâncias, não ocorre, por exemplo, quando a obra literária não é conhecida” . A insistência na fidelidade da adaptação cinematográfica à obra literária originária,pode resultar em julgamentos superficiais que freqüentemente valorizam a obra literária em detrimento da adaptação, sem uma reflexão mais profunda. Os filmes são julgados criticamente porque, de um modo ou de outro, não são “fieis” à obra modelo. O conceito, de ‘fidelidade’ assume conotação crucial,tornando-se na discussão\reflexão do relacionamento entre cinema e literatura, no chamado ‘x da questão’ : tudo, a rigor, gravita em torno disso.&lt;br /&gt;Às vezes a mais fiel das adaptações faz o pior dos filmes, porque o material não se presta a uma história filmada e, na forma como está escrito, não funciona na tela, por mais forte que seja a história no original.&lt;br /&gt;Esse freqüente discurso da fidelidade,diz o professor, “carrega insinuações de um pudor vitoriano e se baseia na crença difundida de que a literatura é superior ao cinema, um preconceito devido ao fato da literatura ser anterior no tempo ao cinema, o que pode levar à idéia de que o livro é historicamente mais nobre e o filme secundário -- além evidentemente do “pensamento dicotonômico de que cinema e literatura são rivais a partir da crença na idéia de que o filme adaptado suga e destrói o que é essencial no livro”.A dicotomia,portanto,não existiria, porquanto “a linguagem escrita sempre esteve no cinema, desde os filmes mudos com as cartelas que continham as falas e pensamentos dos personagens, não sendo uma arte melhor nem pior que a outra”, conclui Johnson.&lt;br /&gt;Na verdade, desde que o cinema é cinema, a literatura tem sido um de seus pontos de partida – haja vista, sabemos, o quanto os já à época denominados “filmes de arte” (essencialmente franceses) do início do século XX procuravam se legitimar como obras sérias e eruditas a partir de textos clássicos e intérpretes teatrais. As relações entre o cinema e a literatura são tão fortes que alguns estudiosos chegam a afirmar a sua existência antes mesmo do surgimento do cinema. Para isto evocam uma teoria limite, segundo a qual há uma essência do cinema, de um “pré-cinema” embutido em alguns textos literários anteriores à forma de expressão cinematográfica, e que teriam como especificidade o fato de os escritores ordenarem o relato em função da incidência do olhar do narrador, da sua ‘ocularização’ da cena a narrar. Desse modo, a narrativa cinematográfica já se encontrava latente em alguns textos narrativos literários e o surgimento do cinema no final do século XIX foi apenas a “descoberta da tecnologia que permitiu concretizar o modo narrativo que enfatiza a visualização perceptiva da imagem de uma cena”, sentencia Jorge Urrutia em “El cine filológico”( in Discursos, n. 11-12.Coimbra: Coimbra: Universidade, 1998).&lt;br /&gt;E desde então, a relação logo passou a trilhar indissolúvel (sic) mão dupla, quando literatos e dramaturgos começaram a se inspirar no cinema para formar narrativas em prosa e em poesia. A rigor, as diferenças entre textos literários e filmes neles apoiados são marcadas por historicidades específicas de cada linguagem --- ísto é, o tempo histórico que cada um retrata (um filme realizado na década de 2000 abriga um relato literário escrito ou passado em 1890 , ou em 1950, etc ) : e o momento histórico de cada um é que se constitui faceta que conduz a inevitáveis diferenças. Nenhum filme ‘repete’ uma obra literária, nenhuma obra literária ‘repete’ um filme, quer pelas diferenças de linguagem, quer pelo momento próprio de produção e circulação de cada um de seus produtos.&lt;br /&gt;Essa intrínseca, dialógica e dinâmica relação nasce no momento em que o cinema descobre seu potencial digamos literário , ao absorver o modelo narrativo do romance do século XIX a subsidiá-lo para melhor contar histórias – malgrado podermos hoje levantar a reflexão em plena era da imagem digital em que vivemos : o cinema continuaria ‘preso’ a um modelo narrativo já ,em maior ou menor grau, superado pela própria literatura? Em 2003, o (excepcional) cineasta inglês Peter Greenaway disse, numa entrevista, que “a maior parte do cinema feito hoje é uma ilustração de romances do século XIX” .Se o cinema beneficiou-se do romance do século XIX, por que na era da imagem digital, quando a capacidade plástica do cinema atinge seu ponto mais alto, continuam-se a ilustrar romances do século XIX?&lt;br /&gt;O certo é que naquele tempo era “a arte dos novos tempos, arte de e para as massas”, com o nascimento de um novo olhar sobre um novo homem nascido na virada de um século para outro, um novo homem que precisava de uma nova forma de expressão – e nada como a sedução da imagem para tal. O escritor e cineasta africano Ousmane Sembene declarou que, quando a palavra não atingia seu público, ele usava o cinema para enviar sua mensagem. O cinema, para ele, não é um meio em si, mas um veículo, como o livro. Não importa o suporte, mas a mensagem. E assim, a forma é sacrificada pelo conteúdo. A clareza é uma das regras básicas para a sedução no cinema, o que fere as regras da própria sedução, que é cheia de desvios, sombras e não-ditos. Talvez Sembene não seja o melhor exemplo, pois seu cinema, apesar de ser usado como suporte, não faz parte do grande sistema, daquilo que se convencionou chamar “cinema industrial”. Mas, o que nos interessa aqui é ver um escritor, que é também cineasta, dizer que o que produz são idéias e não importa o meio em que elas chegarão ao seu público -- desde que possam ser compreendidas.&lt;br /&gt;Em muitos casos, o cinema não é um suporte apenas, mas é a própria mensagem do realizador, e nenhum outro suporte poderia substituí-lo.&lt;br /&gt;Examinado detidamente com isento rigor crítico, no campo da narrativa, em sua já longa história, o cinema não sofreu muitas variações – malgrado certas exceções, como experimentos ‘de vanguarda’ – e vem à mente, por aproximação etimológica, a “Nouvelle Vague” da década de 1960 , que se propunha a romper com a lógica linearizante da estética e da narrativa fílmica de até então, inspirada num congênere da seara literária, o “nouveau roman”—ambas dialogando entre si pelas respctivas técnicas narrativas, num movimento de realimentação recíproco entre as duas linguagens.&lt;br /&gt;Convém não esquecer,entretanto, que sob a égide de suas afinidades com a cultura literária, se o cinema europeu tendia, então, a se afastar do modelo romanesco tradicional, a indústria cinematográfica hollywoodiana, voltada para o entretenimento, consolidou-se seguindo padrões já consagrados da narrativa literária – levando Jorge Luis Borges a observar que, com os westerns, “Hollywood, por razões comerciais, naturalmente, salvou a épica, num tempo em que os poetas tinham esquecido que a poesia começou pela épica”.Tanto uma quanto o outro buscando ultrapassar as limitações formais e “não procurando ordenar o caos”, ao contrário, o caos tornando-se o princípio da criação. Os cineastas da “Nouvelle Vague”,p. ex., queriam mostrar que nem tudo faz sentido e que os caminhos são múltiplos; e por fim aquilo que Jean Cocteau afirmou sobre o cinema pode agora se efetivar, pois para ele, os filmes só seriam bons quando fossem acessíveis como uma caneta e um papel.&lt;br /&gt;Contudo, há de se atentar para um outro viés ,uma espécie de contra-mão no processo de interação cinema-literatura, no caso um contrafluxo mediado, executado,e recentemente cada vez mais incentivado pelo setor editorial e mercado livreiro – nos quais dá-se o crescente movimento de publicação de livros motivados... pelo cinema :roteiros de filmes, diários de filmagens, histórias sobre a elaboração de filmes(making-of), edição ou reedição de obras literárias abrigando imagens e outros elementos iconográficos que remetem para os filmes realizados a partir da adaptação da obra para o cinema – uma subversão das relações entre cinema e literatura. De resto, uma tendência à qual avolumam-se questionamentos sobre até que ponto sinaliza tanto ‘perda de prestígio’ e ‘distorção\vulgarização’ da matéria literária, como sobretudo ‘dessacralização’ da literatura, tênues que se tornam cada vez mais as fronteiras entre ela e outros tipos de bens culturais que circulam pela mídia.e no seio de consumo da sociedade.&lt;br /&gt;Na década de 60 do século passado, McLuhan chamava a atenção para o fenômeno de interpenetração entre diferentes mídias, destacando que, para a indústria cinematográfica hollywoodiana, um best seller era como um “jorro de petróleo ou indício de ouro”, isto é, os banqueiros de Hollywood farejavam, neste tipo de livro, grandes lucros para o cinema, uma garantia de sucesso de bilheteria. Além de já ter sido aprovado pelo gosto popular, o best seller ainda emprestaria ao meio cinematográfico a “superioridade do meio livresco”. É dessa época e desse processo a intensificação da arregimentação de escritores norte-americanos – dos melhores e mais significativos de suas gerações – não só como ‘fornecedores e alimentadores’ da produção cinematográfica hollywoodiana mas também como roteiristas ‘intensivos’.&lt;br /&gt;Das mesmas forma e diapasão e desse processo decorrente, deflagra-se ao longo da segunda metade do século XX,por parte e ação do setor editorial ,a contrapartida à incorporação da obra literária,fosse best seller ou não – muitas criadas especificamente para se transporem à tela – pelo cinema , com o relançamento de romances adaptados e especialmente com a publicação de roteiros .&lt;br /&gt;Neste particular, a relação entre texto literário e roteiro é assinalada pelo escritor argentino Ricardo Piglia , ao afirmar que a novela do século XIX está hoje no cinema e “quem quiser narrar como Balzac ou Zola deve fazer cinema”, acrescentando, que “quem quer narrar como Dumas deve escrever roteiros”. Para ele, o roteirista seria uma espécie de versão moderna do escritor de folhetins, porque escreve por encomenda e por dinheiro e a toda velocidade uma história para um público bem preciso que está encarnado no produtor ou no diretor, ou nos dois. A observação de Piglia, referindo-se à transferência da narrativa de ficção do suporte impresso do jornal, na forma de folhetim, para as telas, faz lembrar o fenômeno, iniciado na década de 1940 nos EUA, do incremento dos escritores roteiristas, que se “alugam para sonhar” ,reportando-nos ao título “Me alugo para sonhar” de um conto de Gabriel García Márquez, de 1992.&lt;br /&gt;Toda a literatura poderia, então, ser considerada como texto básico para um filme, e na direção oposta, parece que o cinema vem buscando cada vez mais o espaço do livro, no que o mercado editorial explora o filão das publicações derivadas de filmes.&lt;br /&gt;No ‘umbelical’ -- nada dicotômico, portanto --relacionamento do cinema com a literatura, podem ser extraídos, ou inferidos\induzidos, alguns elementos como : a) uma obra literária de grande repercussão é meio caminho andado para gerar um filme de grande repercussão – e alguns cineastas, Kubrick p.ex.sobressaía-se nisso, são exímios em realizar filmes-evento, inscritos na agenda cultural de seu tempo; b) mas ´por vezes os componentes de um grande romance podem ser impróprios para a realização de um filme baseado nele – a corroborar a sentença de Kubrick “livro é livro, filme é filme”.&lt;br /&gt;No viés contrário, também se dá a influência do cinema sobre a literatura. Henry Miller, talvez ironicamente, chega a saudar a substituição da literatura pelo cinema: “O cinema é o mais livre de todos os meios de comunicação, pode-se realizar maravilhas com ele. De fato, eu iria saudar o dia em que os filmes substituíssem a literatura, quando não houvesse mais necessidade de ler”(in Os Escritores- 2: as históricas entrevistas da Paris Review. São Paulo: Companhia das Letras, 1989).Mas tanto ele quanto nós todos sabemos,a par da integração mútua, da ‘independência’ entre ambas e que jamais uma poderá substituir a outra.&lt;br /&gt;Por outro lado e em outra vertente, ao praticarem exercícios literários, cineastas e roteiristas via de regra imprimem a suas narrativas muito mais o teor, o timbre, o ritmo, o timing fílmico -- e menos literário. E além disso, mesmo que sua estória e trama seja de ação,de movimento, costumam lidar com o onírico, o sonho , e com o psicológico -- que é, sabemos, elemento recorrente ao extremo no cinema, do expressionismo alemão a Stroheim, de Bergman a Buñuel, de Resnais a Godard. Não poderia ser de outra forma, pois são eles antes e acima de tudo pessoas do cinema.&lt;br /&gt;Quase sempre nesses exercícios literários de cineastas e realizadores cinematográficos ocorre que&lt;br /&gt;· a narrativa se faz em quadros, planos (longos , médios, curtos) e fotogramas , como num filme -- e qual angulações e diferentes tomadas, utilizam mudanças de foco narrativo ( de resto, recurso também comum e genericamente usado na literatura)&lt;br /&gt;· a narração geralmente corre veloz, fatos se dão e são relatados quase que a galope , denota-se certo açodamento : só que no cinema a ação é rápida e a passagem de tempo ‘invisível’ para o espectador -- mas não o é para um leitor; nos escritos de cineastas, de uma seqüência chega-se a outra sem intermediações, nem explicações , contando com a imaginação do leitor&lt;br /&gt;· na maioria dos casos,os personagens são desenhados superficialmente, sem o esmero e detalhamento descritivo comum à literatura -- mas como no cinema, um retratar rápido e sumário (já que o espectador vê) como se o leitor os estivesse vendo em imagem, numa tela de cinema ou de tv, e não delineando-os na imaginação; os personagens são moldados, agem e comportam-se como atores, que são vistos na tela, prontos, sem necessitar de muita elaboração&lt;br /&gt;· assim também com as situações, fatos e com a própria ação : mesmo as reflexões e indagações que por exemplo um narrador faça, a respeito da natureza e do comportamento de personagens,&lt;br /&gt;· como que a analisá-los, aparecem como que anotações geralmente feitas em meio ou à margem do texto de roteiro cinematográfico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, em literatura tudo há de ser elaborado de acordo com os métodos próprios e intrínsecos à escrita ficcional. Na maioria das vezes, o texto literário de gente do cinema carece, em sua construção, de uma ‘personalidade’ própria, ficando a meio-caminho entre o cinematográfico e o literário : entre altos e baixos, persegue uma certa ilusão de fusão de formas, meios e linguagens.“O romance , na verdade, sempre foi uma forma literária propensa ao diálogo com outras linguagens”, ensina o professor Flávio Carneiro, da UERJ, autor de Da matriz ao beco e depois, e o cruzamento da literatura com outras formas artísticas tomou um novo rumo, na década de 1980 , com a produção de obras que “ incorporam ao universo romanesco a linguagem do cinema, da televisão”.&lt;br /&gt;Tudo isso propicia um exercício de reflexão e indagação: as incursões de cineastas e de profissionais de tv na literatura podem ser bem resolvidas e bem sucedidas ? O caso é que um diretor de cinema ou de tv quando vai à literatura leva com ele uma bagagem da linguagem -- o ritmo, o corte abrupto, o esperar pronto entendimento do leitor, qual um espectador -- e assim comete pecados e pecadilhos marcantes ( veja-se por exemplo Patrícia Melo, que de roteirista de tv impõe em seus livros uma narrativa toda cinematográfica, e ainda recebe elogios orquestrados da mídia... ). Ao contrário, um escritor que vai para o cinema -- como roteirista, quase sempre -- o faz melhor, sabe adaptar, mostra-se mais seguro, os resultados são melhores: caso de Rubem Fonseca, dos exemplos clássicos dos escritores norte-americanos com Hollywood ,e ainda de Jean Louis Carrière , Dalton Trumbo no cinema europeu.&lt;br /&gt;Sob essa perspectiva, é comum cineastas em incursões literárias atuarem numa espécie de contramão, na via inversa do terreno do relacionamento -- ou do embate -- literatura/cinema ; os questionamentos sobre “apropriação de obras literárias por cineastas”, ao realizar filmes, ganha outro contorno, de sinal trocado : no caso, um cineasta não pega um livro e faz um filme (e vale lembrar que para Autran Dourado “não existe livro filmado, existe filme baseado em livro” ), mas escreve um livro com elementos e ‘cacoetes’ de filme. Sai de seu habitat original e vem para outro, mas utilizando o mesmíssimo instrumental, na vã tentativa de sintetizar o mimetismo palavra-imagem.&lt;br /&gt;Desejariam cineastas e roteiristas, ao escreverem uma obra literária, responder a Stanley Kubrick -- para quem “ tudo que pode ser escrito e pensado pode ser filmado” -- provando que ‘tudo que pode ser filmado poderia ser escrito?’... &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5121148060136346781-929544059794092617?l=pandorawiki.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pandorawiki.blogspot.com/feeds/929544059794092617/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5121148060136346781&amp;postID=929544059794092617&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/929544059794092617'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/929544059794092617'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pandorawiki.blogspot.com/2011/02/o-cinema-vai-literatura-e-literatura-se.html' title='O cinema vai à literatura (e a literatura se vale do cinema)'/><author><name>Caixa de Pandora</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13780187324490495166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TOXBy1EVxVI/AAAAAAAAAic/POmRMcX667A/S220/foto%2B1.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-yPSg4wiY8LA/TWZSzAwuVPI/AAAAAAAAAkg/l8zwzaZXAtQ/s72-c/cine%2Bbrasil%2BIV.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5121148060136346781.post-1329868750170656219</id><published>2010-12-31T11:03:00.000-08:00</published><updated>2010-12-31T11:10:23.847-08:00</updated><title type='text'>ano novo,sempre</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TR4qlCHrrrI/AAAAAAAAAjg/OlnAMZcqSKA/s1600/ano+novo.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5556925805934390962" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 124px; CURSOR: hand; HEIGHT: 99px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TR4qlCHrrrI/AAAAAAAAAjg/OlnAMZcqSKA/s200/ano%2Bnovo.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="color:#993300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Machado de Assis e o ano novo&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt; [de 1865-- que pode ser o de 2011, e todos...]&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="color:#993300;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Volto com o novo ano - não direi tão loução como ele, nem ainda tão celebrado - mas seguramente tão cheio de promessas que espero cumprir, se, todavia, não intervier alguma razão de estado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os leitores sabem, mais ou menos, o que é uma razão de estado para o folhetim. A preguiça é um dom em que saímos aos deuses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ano que alvorece é sempre recebido entre palmas e beijos, ao passo que o ano que descamba na eternidade vai acompanhado de invectivas e maldições. Se isto não fosse uma regra absoluta, era legítima a exceção que se fizesse para a ocasião presente, em que se despede de nós o mais férreo, o mais infausto, o mais negro de todos os anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se eu não receasse fazer uma revista do ano, em vez de uma revista da semana, percorria aqui os principais acontecimentos e desastres do finado ano de 1864. Foi esse o ano dos fenômenos de toda a casta, tanto naturais, como políticos, como financeiros; foi o ano que produziu as revoluções astronômicas, as crises comerciais e as patacoadas e empalmações políticas - em ambos os mundos, e quase em todos os meses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Veja-se, pois, se o ano de 1865 não deve ser um ano singularmente celebrado, o alvo de todos os olhos, o objeto de todas as esperanças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele é, por assim dizer, o arco da aliança, que se desenha no horizonte assombreado, como uma promessa de paz e de concórdia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Manterá ele as promessas que faz? corresponderá à confiança que inspira? Ai triste! !a resposta é negativa: todas as palmas do dia da Circuncisão se converterão em vaias no dia de S. Silvestre. É a repetição do mesmo programa, o programa dos abissínios.&lt;br /&gt;Mas tal é a singular disposição do espírito humano que, só quando se for embora êste ano em que se puseram tantas esperanças, é que se lembrará de que no ano então amaldiçoado houve para ele um momento de felicidade verdadeira - ou a satisfação de uma ambição política - ou a realização de uma ilusão literária - ou uma hora de amor, de solitário andar por entre a gente - ou o sucesso de uma boa operação econômica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temos saudade de todos os anos, mas é só quando eles se acham já mergulhados em um passado mais ou menos remoto - porque o homem corre a vida entre dois horizontes --o passado e o futuro - a saudade e a esperança - a esperança e a saudade, diz um poeta, têm um horizonte idêntico : l' éloignement.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando 1865 não corresponder às aspirações de cada um, e quando todos se lembrarem desse momento de felicidade de 1864, então cada qual repetirá as suas maldições contra 1865, e sentirá, mas de modo diferente, as suas decepções: o político e o financeiro correm o risco de procurar na boca da pistola a solução da dificuldade, e o esquecimento da derrota; o poeta e o amante espalharão algumas saudades sobre a campa dos seus amores e das suas ilusões. Pobre poeta! pobre amante! pobre político! pobre financeiro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Folgo de crer que entre os meus leitores nenhum haverá que tenha ocasião de assistir a tais catástrofes; a todos desejo que o ano que começa seja mais feliz do que o ano que acaba, ou tão feliz, se ele foi feliz para alguns.&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;M.A.&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5121148060136346781-1329868750170656219?l=pandorawiki.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pandorawiki.blogspot.com/feeds/1329868750170656219/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5121148060136346781&amp;postID=1329868750170656219&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/1329868750170656219'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/1329868750170656219'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pandorawiki.blogspot.com/2010/12/ano-novosempre.html' title='ano novo,sempre'/><author><name>Caixa de Pandora</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13780187324490495166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TOXBy1EVxVI/AAAAAAAAAic/POmRMcX667A/S220/foto%2B1.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TR4qlCHrrrI/AAAAAAAAAjg/OlnAMZcqSKA/s72-c/ano%2Bnovo.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5121148060136346781.post-4961896719911703576</id><published>2010-12-23T12:51:00.000-08:00</published><updated>2010-12-23T12:59:51.338-08:00</updated><title type='text'>Natal: 2 contos e um soneto</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TRO4L218zhI/AAAAAAAAAjM/LKnS8AtOOsM/s1600/natal+-+IV.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5553985279317822994" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 101px; CURSOR: hand; HEIGHT: 135px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TRO4L218zhI/AAAAAAAAAjM/LKnS8AtOOsM/s200/natal%2B-%2BIV.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#993300;"&gt;Conto de Natal&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;Arthur Azevedo&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;Das janelas da sala de jantar dos barões de Santa Bárbara, nas Laranjeiras, vi-se o interior da miserável casinha onde morava o Alexandre, pobre –diabo desempregado e enfermo, vivendo de expedientes confessáveis,carregando a vida com um esforço quase sobre-humano.&lt;br /&gt;Fosse ele sozinho e tudo iria pelo melhor ; mas era casado, e lhe nascera um filhinho nas proximidades daquele Natal de 1871. Vir ao mundo uma criança, pelo Natal numa casa sem pão nem conforto, é uma dessas ironias da sorte, que só se tolerara à força de filosofia. O Alexandre era filósofo.&lt;br /&gt;Os barões de Santa Bárbara, que possuíam grandes cabedais,desejavam ter filhos e não os tinham. É sempre assim. A baronesa, das janelas da sala de jantar, olhava com inveja para a mulher do Alexandre. A mulher do Alexandre era pobre,paupérrima, quase indigente, mas tinha o prazer e o orgulho de amamentar um filho !&lt;br /&gt;Na véspera daquele Natal de 1871, os barões de Santa Bárbara,enquanto esperavam o almoço, debruçaram-se à janela e viram no interior de um quarto, na casinha do Alexandre, o recém-nascido deitado numa caixa de batatas, envolvido em trapos.&lt;br /&gt;O barão , que não era insensível às misérias do próximo, encheu-se de piedade,tanto mais que, pela coincidência do dia em que o acaso lhe deparava tão lastimoso espetáculo, parecia-lhe o próprio Menino Jesus que ali estava deitado naqueles trapos, mas um Menino Jesus desprezado pelos Reis Magos e pastores, um Menino Jesus com alfazema,talvez, mas sem incenso nem mirra.&lt;br /&gt;Sabia o barão que a baronesa era muito egoísta : não gostava de praticar o bem nem mesmo por ostentação ; foi, por isso, com certo receio que lhe propôs enviarem algum socorro aos vizinhos pobres ; quanto mais não fosse, umas roupinhas para o bebê.&lt;br /&gt;- Estás doido ! respondeu ela. Nunca mais nos largariam a porta !&lt;br /&gt;- Mas não era preciso que soubessem de onde partia o benefício ; a nossa esmola seria anônima ...&lt;br /&gt;- Qual ! deixa-te dessas idéias ! Eles precisam, é certo, mas há quem precise ainda mais e não seria justo socorrer somente a estes ,quando não podemos acudir aos outros ! Por que esse exclusivismo ? E depois, tu sabes lá que espécie de gente é essa ? Tu sabes se empregaríamos bem a nossa caridade ? Deixa-te dessas idéias, homem de Deus, e vamos almoçar, que a maionese está na mesa.&lt;br /&gt;Comeram ambos o almoço triste dos esposos que pensam diversamente um do outro, sem filhos que atenuem o que possa ter de inconveniente e dolorosa a divergência de sentimentos e impressões.&lt;br /&gt;Inteligente e sensato, o barão não contrariava a baronesa,embora no íntimo lhe detestasse o caráter, e não perdoasse tanto egoísmo numa criatura que lhe trouxera, quando se casou com ele, apenas a roupa do corpo e o próprio corpo. Fazia-lhe todas as vontades.&lt;br /&gt;Foi assim que comprara aquele título ridículo de barão de Santa Bárbara, nome da fazenda onde ele nascera, e era propriedade sua, na Província do Rio.&lt;br /&gt;Todos o tinham em conta de um marido dominado pela mulher, quando o que o dominava era apenas o desejo de viver com ela em aparente harmonia, sem dar aos criados nem aos vizinhos,nem a si mesmo o espetáculo mofino de um casal desunido.&lt;br /&gt;O barão saiu logo depois do almoço e foi a carro para o seu escritório da rua de São Bento.&lt;br /&gt;Como a lembrança do pobre pequenino ,deitado no caixão de batatas, o perseguisse com a insistência de um remorso, ele chamou em particular um empregado de confiança, incumbiu-o de comprar um berço, um enxoval completo de recém-nascido, peças de morim e de chita, latas de leite condensado, vidros de geléia, garrafas de vinho do Porto, etc, e mandar tudo, e mais algum dinheiro,à casa do Alexandre, sem que ninguém soubesse nem suspeitasse a proveniência desse presente.&lt;br /&gt;O empregado cumpriu irrepreensivelmente as ordens do patrão, e foi com uma surpresa, manifestada por frases impertinentes, que a baronesa viu, à tardinha, o caixão de batatas substituído por um berço de vime e os andrajos por boa roupa.&lt;br /&gt;- Vês ? disse ela ao barão. Faríamos asneira se lhes mandássemos alguma coisa: não lhes falta nada !&lt;br /&gt;Pouco tempo depois, a família do Alexandre mudou de residência, e os barões de Santa Bárbara nunca mais tiveram notícia dela.&lt;br /&gt;II&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Passaram-se muitos anos ,que correram prósperos para o barão, grande plantador de café ; mas a lei de 13 de Maio surpreendeu-o, como a tantos outros agricultores imprevidentes, e a sua fortuna sofreu grandes reveses.&lt;br /&gt;Depois de proclamada a República, ele atirou-se às especulações da Bolsa ; ficou milionário durante a nevrose do Encilhamento, e não adivinhou a catástrofe. Quando esta veio, encontrou os seus milhões representados em ações de bancos e companhias que não valiam mais nada, e cuja liquidação foi a ruína completa. Nada,absolutamente nada lhe deixaram !...&lt;br /&gt;Nesse doloroso transe, o infeliz titular não ouviu da esposa uma única palavra de consolação ou de esperança que o animasse ; pelo contrário : a baronesa desfazia-se em exprobações e invetivas, e isto concorreu, naturalmente, para desesperá-lo.&lt;br /&gt;O mísero tinha resolvido suicidar-se, quando uma congestão pulmonar o livrou de cometer esse pecado.&lt;br /&gt;Morto o barão, a baronesa, sexagenária e enferma, ficou reduzida à miséria. Os amigos e parentes do marido tinham já se evaporado há muito tempo, e nenhum simpatizava com ela.&lt;br /&gt;A desgraçada ia ser posta na rua por um senhorio implacável, e, para não morrer de fome, estava resolvida a pedir que a mandassem para um asilo, quando foi procurada por um belo rapaz de vinte e cinco anos,pouco mais ou menos, que lhe disse :&lt;br /&gt;- Sra. baronesa, conheço v.ex., estou ao corrente de todas as desgraças que lhe sucederam, venho pedir-lhe que aceite um lugar em nossa casa.&lt;br /&gt;- Mas quem é o senhor ?&lt;br /&gt;- Sou aquela criança que, na véspera do Natal, em 1871, nas Laranjeiras, dormia num caixão de batatas, e a quem v. ex. socorreu,mandando-lhe um berço,roupinhas e leite. Bem vê v.ex. que não faço mais do que pagar uma dívida de gratidão.&lt;br /&gt;- Mas não me lembro... não fui eu que...&lt;br /&gt;- O empregado que se encarregou de fazer com que essa delicada esmola chegasse ao seu destino, não foi tão discreto como lhe recomendaram. Ele disse a meu pai,confidencialmente, que a esmola era do falecido sr.barão, mas minha mãe acudiu logo : - Não ! a lembrança é da baronesa ! Só as mulheres são capazes destes melindres do coração !&lt;br /&gt;A baronesa não confirmou nem desmentiu.&lt;br /&gt;- Há vinte e cinco anos, continuou o rapaz, o nome de v. ex. é repetido naquela casa como o de uma santa ! Venha, sra. baronesa ! Meu paí é morto, mas eu ganho o suficiente para sustentar duas mães...&lt;br /&gt;Uma hora depois, a baronesa de Santa Bárbara estava muito bem alojada na casa dos seus protetores.&lt;br /&gt;___________&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#993300;"&gt;Milagre do Natal&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Lima Barreto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bairro do Andaraí é muito triste e muito úmido. As montanhas que enfeitam a nossa cidade, aí tomam maior altura e ainda conservam a densa vegetação que as devia adornar com mais força em tempos idos. O tom p1úmbeo das árvores como que enegrece o horizonte e torna triste o arrabalde.&lt;br /&gt;Nas vertentes dessas mesmas montanhas, quando dão para o mar, este quebra a monotonia&lt;br /&gt;do quadro e o sol se espadana mais livremente, obtendo as cousas humanas, minúsculas e mesquinhas, uma garridice e uma alegria que não estão nelas, mas que sê percebem nelas. As tacanhas casas de Botafogo se nos afigura assim; as bombásticas "vilas" de Copacabana, também; mas, no Andaraí, tudo fica esmagado pela alta montanha e sua sombria vegetação.&lt;br /&gt;Era numa rua desse bairro que morava Feliciano Campossolo Nunes, chefe de secção do Tesouro Nacional, ou antes e melhor: subdiretor. A casa era própria e tinha na cimalha este dístico pretensioso: "Vila Sebastiana". O gosto da fachada, as proporções da casa não precisam ser descritas: todos conhecem um e as outras. Na frente, havia um jardinzinho que se estendia para a esquerda, oitenta centímetros a um metro, além da fachada. Era o vão que correspondia à varanda lateral, quase a correr todo o prédio.&lt;br /&gt;Campossolo era um homem grave, ventrudo, calvo, de mãos polpudas e dedos curtos. Não largava a pasta de marroquim em que trazia para a casa os papéis da repartição com o fito de não lê -los; e também o guarda-chuva de castão de ouro e forro de seda.Pesado e de pernas curtas, era com grande dificuldade que ele vencia os dois degraus dos "Minas Gerais" da Light, atrapalhado com semelhantes cangalhas: a pasta e o guarda chuva de " ouro".&lt;br /&gt;Usava chapéu de coco e cavanhaque.&lt;br /&gt;Morava ali com sua mulher mais a filha solteira e única, a Mariazinha.A mulher, Dona Sebastiana, que batizara a vila e com cujo dinheiro a fizeram, era mais alta do que ele e não tinha nenhum relevo de fisionomia, senão um artificial, um aposto. Consistia num pequeno pince-nez de aros de ouro, preso, por detrás da orelha, com trancelim de seda. Não nascera&lt;br /&gt;com ele, mas era como se tivesse nascido, pois jamais alguém havia visto Dona Sebastiana sem aquele adendo, acavalado no nariz. fosse de dia, fosse de noite. Ela, quando queria olhar alguém ou alguma cousa com jeito e perfeição, erguia bem a cabeça e toda Dona Sebastiana tomava um entono de magistrado severo.&lt;br /&gt;Era baiana, como o marido, e a Única queixa que tinha do Rio cifrava-se em não haver aqui&lt;br /&gt;bons temperos para as moquecas, carurus e outras comidas da Bahia, que ela sabia preparar com perfeição, auxiliada pela preta Inácia, que, com eles. viera do Salvador, quando o marido foi transferido para São Sebastião. Se se oferecia portador, mandava-os buscar; e. quando, aqui chegavam e ela preparava uma boa moqueca, esquecia -se de tudo, até que estará muito longe da sua querida cidade de Tomé de Sousa.&lt;br /&gt;Sua filha, a Mariazinha, não era assim e até se esquecera que por lá nascera: cariocara-se inteiramente. Era uma moça de vinte anos, fina de talhe, poucas carnes, mais alta que o pai,&lt;br /&gt;entestando com a mãe, bonita e vulgar. O seu traço de beleza eram os seus olhos de topázio com estilhas negras. Nela, não havia nem invento, nem novidade como - as outras.&lt;br /&gt;Eram estes os habitantes da "Vila Sebastiana" , além de um molecote que nunca era o mesmo. De dous em dous meses, por isso ou por aquilo, era substituído por outro, mais claro ou mais escuro, conforme a sorte calhava.&lt;br /&gt;Em certos domingos, o Senhor Campossolo convidava alguns dos seus subordinados a irem almoçar ou jantar com eles. Não era um qualquer. Ele os escolhia com acerto e sabedoria. Tinha uma filha solteira e não podia pôr dentro de casa um qualquer, mesmo que fosse empregado de fazenda. Aos que mais constantemente convidava, eram os terceiros escriturários Fortunato Guaicuru e Simplício Fontes, os seus braços direitos na secção. Aquele era bacharel em Direito e espécie de seu secretário e consultor em assuntos difíceis; e o último chefe do protocolo da sua secção, cargo de extrema responsabilidade, para que não houvesse extravio de processos e se acoimasse a sua subdiretoria de relaxada e desidiosa. Eram eles dous os seus mais constantes comensais, nos seus bons domingos de efusões familiares. Demais, ele tinha uma filha a casar e era bom que...&lt;br /&gt;Os senhores devem ter verificado que os pais sempre procuram casar as filhas na classe que&lt;br /&gt;pertencem: os negociantes com negociantes ou caixeiros; os militares com outros militares; os médicos com outros médicos e assim por diante. Não é de estranhar, portanto, que o chefe Campossolo quisesse casar sua filha com um funcionário público que fosse da sua repartição e até da sua própria secção.&lt;br /&gt;Guaicuru era de Mato Grosso. Tinha um tipo acentuadamente índio. Malares salientes, face&lt;br /&gt;curta, mento largo e duro, bigodes de cerdas de javali, testa fugidia e as pernas um tanto arqueadas. Nomeado para a alfândega de Corumbá, transferira-se para a delegacia fiscal de Goiás. Aí, passou três ou quatro anos, formando-se, na respectiva faculdade de Direito, porque não há cidade do Brasil, capital ou não, em que não haja uma. Obtido o título, passou-se para a Casa da Moeda e,desta repartição, para o Tesouro. Nunca se esquecia de trazer o anel de rubi, à mostra. Era um rapaz forte, de ombros largos e direitos; ao contrário de Simplício que era franzino, peito pouco saliente, pálido, com uns doces e grandes olhos negros e de uma timidez de donzela.Era carioca e obtivera o seu lugar direitinho, quase sem pistolão e sem nenhuma intromissão de políticos na sua nomeação.&lt;br /&gt;Mais ilustrado, não direi; mas muito mais instruído que Guaicuru, a audácia deste o superava, não no coração de Mariazinha, mas no interesse que tinha a mãe desta no casamento da filha. Na mesa, todas as atenções tinha Dona Sebastiana pelo hipotético bacharel:&lt;br /&gt;- Porque não advoga? perguntou Dona Sebastiana, rindo, com seu quádruplo olhar altaneiro, da filha ao caboclo que, na sua frente e a seu mando, se sentavam juntos.&lt;br /&gt;- Minha senhora, não tenho tempo...&lt;br /&gt;- Como não tem tempo? O Felicianinho consentiria - não é Felicianinho? Campossolo fazia solenemente :&lt;br /&gt;- Como não, estou sempre disposto a auxiliar a progressividade dos colegas.&lt;br /&gt;Simplício, à esquerda de Dona Sebastiana, olhava distraído para a fruteira e nada dizia. Guaicuru, que não queria dizer que a verdadeira . razão estava em não ser a tal faculdade "reconhecida", negaceava:&lt;br /&gt;- Os colegas podiam reclamar.&lt;br /&gt;Dona Sebastiana acudia com vivacidade :&lt;br /&gt;- Qual o que . O senhor reclamava, Senhor Simplício?&lt;br /&gt;Ao ouvir o seu nome, o pobre rapaz tirava os olhos da fruteira e perguntava com espanto:&lt;br /&gt;- O que, Dona Sebastiana ?&lt;br /&gt;- O senhor reclamaria se Felicianinho consentisse que o Guaicuru saísse, para ir advogar?&lt;br /&gt;- Não.&lt;br /&gt;E voltava a olhar a fruteira, encontrando-se rapidamente com os olhos de topázio de Mariazinha. Campossolo continuava a comer e Dona Sebastiana insistia:&lt;br /&gt;- Eu, se fosse o senhor ia advogar.&lt;br /&gt;- Não posso. Não é só a repartição que me toma o tempo. Trabalho em um livro de grandes proporções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos se espantaram. Mariazinha olhou Guaicuru; Dona Sebastiana levantou mais a cabeça&lt;br /&gt;com pince-nez e tudo; Simplício que, agora, contemplava esse quadro célebre nas salas burguesas,representando uma ave, dependurada pelas pernas e faz pendant com a ceia do Senhor - Simplício,dizia, cravou resolutamente o olhar sobre o colega, e Campossolo perguntou:&lt;br /&gt;- Sobre o que trata?&lt;br /&gt;- Direito administrativo brasileiro.&lt;br /&gt;Campossolo observou:&lt;br /&gt;- Deve ser uma obra de peso.&lt;br /&gt;- Espero.&lt;br /&gt;Simplício continuava espantado, quase estúpido a olhar Guaicuru. Percebendo isto, o matogrossense apressou-se:&lt;br /&gt;- Você vai ver o plano. Quer ouvi-lo ?&lt;br /&gt;Todos, menos Mariazinha, responderam, quase a um tempo só:&lt;br /&gt;- Quero.&lt;br /&gt;O bacharel de Goiás endireitou o busto curto na cadeira e começou:&lt;br /&gt;- Vou entroncar o nosso Direito administrativo no antigo Direito administrativo português.&lt;br /&gt;Há muita gente que pensa que no antigo regime não havia um Direito administrativo. Havia. Vou estudar o mecanismo do Estado nessa época, no que toca a Portugal. V ou ver as funções dos ministros e dos seus subordinados, por intermédio de letra-morta dos alvarás, portarias, cartas régias e mostrarei então como a engrenagem do Estado funcionava; depois, verei como esse curioso Direito público se transformou, ao influxo de concepções liberais; e, como ele transportado para aqui com Dom João VI, se adaptou ao nosso meio, modificando-se aqui ainda, sob o influxo das idéias da Revolução.&lt;br /&gt;Simplício, ouvindo-o falar assim dizia com os seus botões: "Quem teria ensinado isto a ele?"&lt;br /&gt;Guaicuru, porém, continuava:&lt;br /&gt;- Não será uma seca enumeração de datas e de transcrição de alvarás, portarias, etc. Será uma cousa inédita. Será coisa viva.&lt;br /&gt;Por aí, parou e Campossolo com toda a gravidade disse:&lt;br /&gt;- V ai ser uma obra de peso.&lt;br /&gt;- Já tenho editor!&lt;br /&gt;- Quem é? perguntou o Simplício.&lt;br /&gt;- É o Jacinto. Você sabe que vou lá todo o dia, procurar livros a respeito.&lt;br /&gt;- Sei; é a livraria dos advogados, disse Simplício sem querer sorrir.&lt;br /&gt;- Quando pretende publicar a sua obra, doutor? perguntou Dona Sebastiana.&lt;br /&gt;- Queria publicar antes do Natal. porque as promoções serão feitas antes do Natal, mas...&lt;br /&gt;- Então há mesmo promoções antes do Natal, Felicianinho ?&lt;br /&gt;O marido respondeu:&lt;br /&gt;- Creio que sim. O gabinete já pediu as propostas e eu já dei as minhas ao diretor.&lt;br /&gt;- Devias ter-me dito, ralhou-lhe a mulher.&lt;br /&gt;- Essas coisas não se dizem às nossas mulheres; são segredos de Estado, sentenciou Campossolo.&lt;br /&gt;O jantar foi. acabando triste, com essa história de promoções para o Natal.&lt;br /&gt;Dona Sebastiana quis ainda animar a conversa, dirigindo-se ao marido:&lt;br /&gt;- Não queria que me dissesses os nomes, mas pode acontecer que seja o promovido o doutor Fortunato ou... O "Seu" Simplício, e eu estaria prevenida para a uma "festinha".Foi pior. A tristeza tornou-se mais densa e quase calados tomaram café.Levantaram-se todos com o semblante anuviado, exceto a boa Mariazinha, que procurava dar corda à conversa. Na sala de visitas, Simplício ainda pôde olhar mais duas vezes furtivamente os olhos topazinos de Mariazinha, que tinha um sossegado sorriso a banhar-lhe a face toda; e se foi.&lt;br /&gt;O colega Fortunato ficou, mas tudo estava tão morno e triste que, em breve, se foi também&lt;br /&gt;Guaicuru.&lt;br /&gt;No bonde, Simplício pensava unicamente em duas coisas: no Natal próximo e no "Direito"&lt;br /&gt;de Guaicuru. Quando pensava nesta .' perguntava de si para si: "Quem lhe ensinou aquilo tudo?&lt;br /&gt;Guaicuru é absolutamente ignorante" Quando pensava naquilo, implorava: "Ah! Se Nosso Senhor Jesus Cristo quisesse..."&lt;br /&gt;Vieram afinal as promoções. Simplício foi promovido porque era muito mais antigo na classe que Guaicuru. O Ministro não atendera a pistolões nem a títulos de Goiás. Ninguém foi preterido; mas Guaicuru que tinha em gestação a obra de um outro, ficou furioso sem nada dizer.&lt;br /&gt;Dona Sebastiana deu uma consoada à moda do Norte. Na hora da ceia, Guaicuru, como de&lt;br /&gt;hábito, ia sentar-se ao lado de Mariazinha, quando Dona Sebastiana, com pince-nez e cabeça, tudo muito bem erguido, chamou-o:&lt;br /&gt;- Sente-se aqui a meu lado, doutor, aí vai sentar-se o "Seu" Simplício.&lt;br /&gt;Casaram-se dentro de um ano; e, até hoje, depois de um lustro de casados ainda teimam.&lt;br /&gt;Ele diz:&lt;br /&gt;- Foi Nosso Senhor Jesus Cristo que nos casou.&lt;br /&gt;Ela obtempera:&lt;br /&gt;- Foi a promoção.&lt;br /&gt;Fosse uma coisa ou outra, ou ambas, o certo é que se casaram. É um fato. A obra de&lt;br /&gt;Guaicuru, porém, é que até hoje não saiu...&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Careta,&lt;/em&gt; 24-12-1921.&lt;br /&gt;[* o último Natal (e dezembro) de Lima : morreria em 1º. nov 1922]&lt;br /&gt;__________________&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#993300;"&gt;Soneto de Natal&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;Machado de Assis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um homem, — era aquela noite amiga,&lt;br /&gt;Noite cristã, berço do Nazareno, —&lt;br /&gt;Ao relembrar os dias de pequeno,&lt;br /&gt;E a viva dança, e a lépida cantiga,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quis transportar ao verso doce e ameno&lt;br /&gt;As sensações da sua idade antiga,&lt;br /&gt;Naquela mesma velha noite amiga,&lt;br /&gt;Noite cristã, berço do Nazareno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escolheu o soneto... A folha branca&lt;br /&gt;Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca.&lt;br /&gt;A pena não acode ao gesto seu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, em vão lutando contra o metro adverso,&lt;br /&gt;Só lhe saiu este pequeno verso:&lt;br /&gt;"Mudaria o Natal ou mudei eu?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5121148060136346781-4961896719911703576?l=pandorawiki.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pandorawiki.blogspot.com/feeds/4961896719911703576/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5121148060136346781&amp;postID=4961896719911703576&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/4961896719911703576'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/4961896719911703576'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pandorawiki.blogspot.com/2010/12/natal-2-contos-e-um-soneto.html' title='Natal: 2 contos e um soneto'/><author><name>Caixa de Pandora</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13780187324490495166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TOXBy1EVxVI/AAAAAAAAAic/POmRMcX667A/S220/foto%2B1.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TRO4L218zhI/AAAAAAAAAjM/LKnS8AtOOsM/s72-c/natal%2B-%2BIV.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5121148060136346781.post-636480831770742316</id><published>2010-11-23T01:59:00.000-08:00</published><updated>2010-11-23T02:02:54.790-08:00</updated><title type='text'>Lima Barreto  em dose dupla – e imprescindível</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TOuRQQhIinI/AAAAAAAAAi8/7KplihzmPjY/s1600/Lima+Barreto.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5542683474907400818" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 79px; CURSOR: hand; HEIGHT: 122px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TOuRQQhIinI/AAAAAAAAAi8/7KplihzmPjY/s200/Lima%2BBarreto.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Publiquei neste ano &lt;em&gt;Lima Barreto e a política : os "contos argelinos" e outros textos recuperados&lt;/em&gt; (agosto, PUC-Rio\ Loyola), em que resgato esse importante conjunto de contos até então parcamente editados (só numa edição de 1951),pouco conhecidos,estudados e divulgados, e mais 33 contos de mesmo teor político (mas sem a mesma linguagem alegórica e de simulacros dos "argelinos"), também meio-'enterrados': para ambos, foco uma análise até então inédita na obra de Lima,qual seja seu antipatrimonialismo ; e &lt;em&gt;Lima Barreto versus Coelho Neto:um fla-flu literário&lt;/em&gt; (outubro, Difel), que trata de futebol, sim, mas muito mais de literatura, e expões,analiticamente, o repúdio de Lima à República e às formas de pseudo,falsa modernização pregada por ela, à qual se renderam e subjugaram,com perda de substância, os literatos e intelectuais de então, objetos das polêmicas e repúdio de Lima.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Lima Barreto e a política: os "contos argelinos" e outros textos recuperados&lt;/em&gt; resgata não apenas os importantes 13 contos a que Lima deu essa rubrica("argelinos" ( no livro interpreto e explico,supostamente- como legítimo exercício intelectual\histórico - o porquê da titulagem ) mas 33 outros contos escritos na mesma época sob os mesmos teor,timbre e foco político, mas sem a linguagem, forma e estilo alegórico e de simulacro dos "argelinos". Insisto nesse ponto -- e isso meu estudo diferencia-se e contrapõe-se ao brilhante trabalho de Lilian Moritz [&lt;em&gt;Contos completos de Lima Barreto&lt;/em&gt;; Companhia das Letras,2010], que coloca os 46 sob a mesma rubrica de "argelinos" ,quando não o são (Lilian inclui no rol um 47o. conto, "Na avenida", que é comprovadamente crônica e não conto : como de resto 25 dos 45 contos inéditos que Lilian apresenta,num incomparável e esplêndido,admirável, trabalho de resgate e recolha, não são contos e sim crônicas).&lt;br /&gt;Outro elemento, no tocante aos "argelinos" e aos 33 contos políticos que me contrapõe a Lilian está nas notas de contextualização e breves introduções que aponho a cada um deles, a meu juízo imprescindíveis para entendimento(e admiração) do leitor de hoje.Meu livro, vale enfatizar, é temático, não de foco e escala abrangente, per se já um viés de diferenciação. E além de tudo mais (ou por essa conotação especificamente temática) formulo uma interpretação, ou análise, nunca realizada em estudo da obra de Lima : seu antipatrimonialismo, no que se opunha essencialmente a toda forma de poder (do qual a República era a expressão mais bem acabada -- e seu repúdio ao futebol, p.ex. era antes e acima de tudo manifestação de sua repulsa à República.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;conscientemente marginal, periférico, autoexcluído&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Lima era assumida e consciente um 'marginal', um periférico -- sem necessariamente viver na periferia urbana geograficamente falando. e nisso chego a um tópico que submeti á discussão e reflexão no recente simpósio em que atuei, na Fac.Letras da UFMG, promovido pelo Neia-Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Alteridade.: o tema era exatamente esse "alteridade e subalternidade", itens sobre os quais discutiu-se, discorreu-se,refletiu-se em diversos painéis, que intento colocar sempre sob estudos, qual seja a alteridade, ou a condição de periférico, pode advir essencialmente de uma postura ideológica-filosófica, de uma forma de escrita,linguagem,temática, de um estilo narrativo, etc, não necessariamente de uma condição ou estado social, habitacional, etc etc.&lt;br /&gt;Nesse simpósio a que me referi, alguns sustentam que a (importante -- estejamos todos atentos a isso) produção cultural da periferia,ou das 'quebradas', seja dirigida e consumida internamente, no próprio âmbito geográfico e social da comunidade; ao passo que outros -- entre os quais me coloco -- sustentam que deva sair 'para o mundo', que a chamada 'voz da periferia' se faça ouvir fora dos limites e círculos geográficos,sociais e culturais da comunidade.&lt;br /&gt;Não tenho dúvidas de que isso propicia estimulantes estudos e reflexões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5121148060136346781-636480831770742316?l=pandorawiki.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pandorawiki.blogspot.com/feeds/636480831770742316/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5121148060136346781&amp;postID=636480831770742316&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/636480831770742316'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/636480831770742316'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pandorawiki.blogspot.com/2010/11/lima-barreto-em-dose-dupla-e.html' title='Lima Barreto  em dose dupla – e imprescindível'/><author><name>Caixa de Pandora</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13780187324490495166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TOXBy1EVxVI/AAAAAAAAAic/POmRMcX667A/S220/foto%2B1.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TOuRQQhIinI/AAAAAAAAAi8/7KplihzmPjY/s72-c/Lima%2BBarreto.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5121148060136346781.post-2322004346525493968</id><published>2010-08-07T13:35:00.000-07:00</published><updated>2010-08-07T13:44:43.852-07:00</updated><title type='text'>Lima Barreto e a política</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TF3FoxxwJbI/AAAAAAAAAiI/9-Z9SsGFL1o/s1600/Lima+Barreto.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5502771624064066994" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 79px; CURSOR: hand; HEIGHT: 122px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TF3FoxxwJbI/AAAAAAAAAiI/9-Z9SsGFL1o/s200/Lima+Barreto.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:courier new;font-size:85%;color:#993300;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;estamos em temporada eleitoral - portanto, vale reportar a um dos mais políticos dos escritores brasileiros&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:courier new;font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:courier new;font-size:85%;"&gt;Em essência, Lima Barreto sempre tratou mais de política do que qualquer outro tema. Ninguém como ele, em seu tempo, escreveu tanto sobre o tema e, por extensão, sobre questões sociais. Sua ‘literatura militante’, assim por ele definida, determina o caráter marginal de sua obra: sua visão crítica da sociedade o fez enveredar concreta e irreversivelmente no caminho da luta social; nos jornais e revistas investiu contra todos os signos do poder, nos textos ficcionais denunciou as profundas injustiças da sociedade brasileira.&lt;br /&gt;Toda a obra barretiana desenvolve-se a partir e em torno de um tema nuclear: o poder e seus efeitos discricionários — o poder visto e descrito por ele como “o variado conjunto de elementos, vetores e procedimentos encadeados no interior da sociedade, compondo grandes e pequenas cadeias, visíveis e invisíveis, tendentes a restringir e constringir o pensamento dos homens, coibindo-lhes as possibilidades de afirmação, pessoal, cultural, profissional, social, e a justa inserção social”. Tinha a visão verticalizada, analisando desde as estruturas políticas como o governo e as ideologias, e as instituições culturais como a imprensa e a ciência, até os modelos determinantes do comportamento coletivo e do relacionamento cotidiano. Lima Barreto era, acima de tudo, um anti-patrimonialista. Crítico implacável da pretensa modernidade que se queria implementar com a República, avesso a todas as formas de assimilação de valores estrangeiros (no bojo ,p. ex. de sua resistência ao futebol, ao cinema e à cultura importada ), defensor ,por vezes intransigente, de uma brasilidade que sustentava devia permear a “autêntica língua nacional”, foi no entanto opositor ativo do nacionalismo ufanista surgido no final do séc. XIX e início do XX&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=5121148060136346781#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;&lt;span style="font-family:courier new;font-size:85%;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:courier new;font-size:85%;"&gt;,a começar por questionar as imagens errôneas que o Brasil fazia de si mesmo, levando ad absurdum os clichês e mitos nacionalistas e os desmascarando um a um.(no romance Triste fim de Policarpo Quaresma parodia implicitamente o opúsculo patrioteiro de Afonso Celso, filho de seu protetor, intitulado Por que me ufano do meu país (1901), livro muito popular no começo do século XX, que deu origem ao termo ufanismo e foi traduzido para diversas línguas na época, inclusive o alemão. Lima Barreto inclusive alertava para o que denominava “um dos mitos mais perigosos,o do patriotismo : no fundo, os patriotas grandiloqüentes de plantão não passam de traidores da pátria, pois a usam para a sua própria autopromoção e enriquecimento (...), a sociedade de classes e o Estado a instrumentalizarem o patriotismo e o nacionalismo em favor do interesse das elites.”.. Na contrapartida, procurou esboçar um patriotismo social, com consciência histórica e respeito pela cidadania, ancorado na cultura própria, resistente ao cosmopolitismo e de reconhecimento da mestiçagem – étnica,social e cultural --no Brasil.&lt;br /&gt;Para ele, a nova sociedade ,caracterizada pelo binômio cosmopolitismo, inspirador das ações da elite do país , e bovarismo&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=5121148060136346781#_ftn2" name="_ftnref2"&gt;&lt;span style="font-family:courier new;font-size:85%;"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:courier new;font-size:85%;"&gt;, “atitude mistificatória de o homem se conceber outro que não é, entre o que é e o que acredita ser”, era um sistema que premiava o egoísmo, o banal, a decadência dos costumes, o preconceito, lastreada nos valores máximos da elite – a fruição do conforto material, os privilégios, a superioridade, gerando discriminação e sectarismo. “A nossa República se transformou no domínio de um feroz sindicato de argentários cúpidos, com os quais só se pode lutar com armas na mão. Deles saem todas as autoridades, deles são os grandes jornais, deles saem as graças e os privilégios; e sobre a Nação eles teceram uma rede de malhas estreitas, por onde não passa senão aquilo que lhes convém” &lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=5121148060136346781#_ftn3" name="_ftnref3"&gt;&lt;span style="font-family:courier new;font-size:85%;"&gt;[3]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:courier new;font-size:85%;"&gt;Exemplares insofismáveis da veemente oposição de Lima Barreto à República, da ferrenha crítica aos governos republicanos ,notoriamente o ‘florianismo’ (referente a Floriano Peixoto) e o ‘hermismo’ ( a Hermes da Fonseca)&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=5121148060136346781#_ftn4" name="_ftnref4"&gt;&lt;span style="font-family:courier new;font-size:85%;"&gt;[4]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:courier new;font-size:85%;"&gt; -- já objetos de críticas exacerbadas em inúmeros artigos e crônicas e também na novela Numa e a ninfa e no memorialístico Diário íntimo -- expressão do intransigente e obstinado repúdio para as coisas da política, aos políticos, aos conchavos partidários,às oligarquias , os “contos argelinos” têm em seu cerne paródico a ascensão dos militares, com sua crescente participação na política, e o militarismo — importando notar que, em outro viès de leitura e interpretação, trazem em si a emblematização ficcional do patrimonialismo, contra o qual Lima Barreto se colocava na própria essência de sua ideologia.&lt;br /&gt;A criação, confecção e publicação dos “contos argelinos” deu-se em período histórico conturbado, durante os sucessivos governos de Hermes da Fonseca, Venceslau Brás e Epitácio Pessoa, em sete dos mais cruciais anos de plena sedimentação do regime republicano — de resto um processo de altíssima ebulição política, convulsionante e transformadora.&lt;br /&gt;Por essa época , apenas Lima Barreto (Euclides da Cunha morrera em 1909) mantinha , entre os escritores, uma postura participativa – de natureza crítica -- nas coisas da política , uma vez que os demais literatos se afastaram do envolvimento e da militância a que se entregaram ainda durante as campanhas abolicionista e republicana, nas últimas décadas do século XIX e início do século XX : frustrados a expectativa e o entusiasmo iniciais despertados pela República , os intelectuais desistiram da participação política ativa, militante, que muitos tiveram no advento do novo regime e passaram a se concentrar na literatura e em parte no jornalismo ‘croniquesco’, dedicando-se a produzir uma literatura de linguagem empolada, o ‘clássico’ calcado em expressões cediças e de figuras de efeito, cheia de arabescos estilísticos — uma literatura impregnada de vocábulos garimpados do virtuosismo lingüístico e verborrágico,expressão da frivolidade dominante. Uma literatura como “o sorriso da sociedade” de que falava Afrânio Peixoto e contra a qual Lima Barreto lutava com denodo.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A República, os intelectuais , o jornalismo e a literatura militante de Lima Barreto&lt;/em&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-family:courier new;font-size:85%;"&gt;Embora não tenha produzido correntes ideológicas próprias ou novas concepções estéticas, a geração de intelectuais solidamente arraigada nas teorias cientificistas de 1870 e no espírito progressista da época parecia estar com a República, apoiada pela maçonaria, pelo positivismo e pelas correntes que se julgavam “desassombradas de preconceitos”: as idéias circulavam então mais livremente, num ambiente que Evaristo de Moraes [Da Monarquia para a República ; s.ed., Rio de Janeiro, 1936 ] qualificou de “porre ideológico”, um verdadeiro mosaico no qual era predominante o liberalismo - manifestando-se especialmente entre os republicanos ‘históricos’ como Benjamin Constant, José do Patrocínio, Silva Jardim, Lopes Trovão, Alberto Sales, Joaquim Serra – mas que abrigava alguma voga de anarquismo em Elisio de Carvalho (até escrever o Five o’clock), Curvelo de Mendonça,Fabio Luz, Afonso Schmidt, simpatias explícitas ao socialismo em Martins Fontes, Olavo Bilac, e até anti-racismo declarado em Alberto Torres e Manuel Bonfim.&lt;br /&gt;Sob os princípios genéricos do liberalismo, o grupo intelectual definira a tarefa que lhes cabia: contribuir e propugnar por uma ampla, profunda ação conjunta para construir a nação —no campo da produção intelectual intensificaram estudos da realidade brasileira (as obras de Euclides da Cunha, Alberto Torres, Manuel Bonfim,Oliveira Vianna são documentos exemplares) e se empenharam no ‘criar um saber próprio sobre o Brasil’( enfatizava José Veríssimo em “Um estudioso pernambucano”, artigo na revista Kosmos,n.1,Rio de Janeiro,1907) — e remodelar e fortalecer o Estado (o que obviamente punha em confrontação a ambigüidade de sua ideologia baseada no liberalismo....).&lt;br /&gt;Já no dia 15 de novembro de 1889 os intelectuais registraram sua total adesão : numeroso grupo de republicanos,junto com gente da rua, tendo à frente José do Patrocínio,Aníbal Falcão, João Clapp,Campos da Paz, Olavo Bilac, Luis Murat e Pardal Mallet -- estes três pela primeira vez movidos à ação política concreta-- dirigiu-se à sede da Câmara, aos gritos de viva à República, e redigiram moção de apoio aos chefes da insurreição militar. O entusiasmo adesista dos intelectuais era generalizado,a ponto de emitirem outro manifesto, dirigido ao Governo Provisório instalado a 16 de novembro, assinado por alguns homens de letras em 22 de novembro.&lt;br /&gt;No clamor pela ampliação da atuação do Estado sobre a sociedade aliavam-se a homens públicos, políticos, jornalistas, até mesmo cafeicultores e industriais,e a esse grupo juntar-se-ia os grupos militares defensores e sequiosos de maior participação na política— o que mais tarde não causaria surpresas quando do progressivo e acentuado fortalecimento dos governos republicanos a partir de Floriano Peixoto. As reformas que preconizavam, no entanto, perderam-se no processo político republicano. Na consolidação do novo regime ,que se deu por meio de um processo caótico e dramático, malograram-se seus esforços cientificistas,reformadores, inovadores na criação daquele ‘saber sobre o Brasil’. Cedo, muito cedo, já nos primeiros anos do século XX desiludiam-se : “Está tudo mudado: Abolição, República... Como isso mudou ! Então, de uns tempos para cá parece que essa gente está doida”, vaticina Isaias Caminha , sob a pena de Lima Barreto. José Veríssimo, no artigo“Vida literária” (revista Kosmos, n. 7,1904), descreve: “Todos se presumiam e diziam republicanos,na crença ingênua de que a República, para eles palavra mágica que bastava à solução de problemas de cuja dificuldade e complexidade não desconfiavam sequer, não fosse na prática perfeitamente compatível com todos os males da organização social, cuja injustiça os revoltava”. Ainda em outubro de 1890, antes do primeiro aniversário do15 de novembro, desencantava-se Silva Jardim, lamentando em carta a Rangel Pestana: “Comunico-lhe que parto para a Europa, a demorar-me o tempo preciso a que esta País atravesse o período revolucionário de ditadura tirânica e de anarquia...” . “Esta não é a República de meus sonhos”. lamentou-se Lopes Trovão, um dos próceres do movimento republicano. “Foi para isso então que fizeram a República ?”, protestou Farias Brito.&lt;br /&gt;No campo político,os intelectuais até que mantiveram-se passivos diante da “ditadura tirânica” e aceitaram as coligações de Deodoro da Fonseca com as forças mais conservadoras do Brasil agrário, mas as esperanças esfacelaram-se diante da índole e prática repressoras do governo Floriano Peixoto , quando e alguns dos antigos entusiastas da República tiveram de fugir do Rio de Janeiro para evitar a prisão, como Olavo Bilac e Guimarães Passos.&lt;br /&gt;Passado o momento inicial de esperança, desfeito o caminho almejado da democratização do País prometida em comícios, conferências públicas ,na imprensa radical, consolidada a vitória da ideologia reforçadora do poder oligárquico, derrotados ,desapontaram-se as elites, desapontaram-se os trabalhadores e o povo, desapontaram-se os intelectuais , que desistiram da política militante e se concentraram na literatura,aceitando postos ,mesmo decorativos, na burocracia especialmente no Itamaraty de Rio Branco, que atraíra em torno de si -- eficiente Rui Barbosa nesse trabalho de ‘cooptação’ -- o grupo de intelectuais, representantes da intelligentsia do novo regime , constituindo o que à época se auto-denominaram “República dos Conselheiros”.&lt;br /&gt;Difícil de manter uma convivência pacífica entre a República política e a ‘Republica das letras’, agravado pela crescente insatisfação popular com o novo regime, exposta em agitações de rua,episódios violentos, revoltas e movimentos de protesto – e mais ainda com os novos costumes e práticas de desenfreada especulação financeira, a busca de enriquecimento a qualquer custo,o advento de um capitalismo predatório levando ao Encilhamento, a escandalizar Taunay que via “uma degradação da alma nacional”[ Visconde de Taunay, O Encilhamento ] e decepcionar republicanos ardorosos como Raul Pompéia ( “A república discute-se consubstanciada no Banco da República” ).A par do afastamento repressor promovido pelo poder, viram-se compelidos a submeter sua produção literária ao “valor do mercado” — (...) neste século de danação social, em que o Dinheiro logrou a tiara de pontífice ubíquo, para reinar discricionariamente sobre todas as coisas..”, registrava Augusto dos Anjos em palestra pública.&lt;br /&gt;Mas paradoxalmente foi o processo de arrivismo bursátil e de especulação mercantil -- gerando incremento de vultosos recursos , provocando a modernização da cidade, urdindo o que se denominou Regeneração, construindo a imagem de “uma sociedade ilustre e elevada” -- que propiciou aos intelectuais malogrados uma espécie de atavio : passaram a ser vistos pela sociedade como ‘símbolos de ilustração’, ‘expoentes da cultura’, propiciando, entre outros aspectos, o desenvolvimento do ‘novo jornalismo’, ao qual os literatos se entregaram de corpo e alma . A adesão maciça dos escritores ao jornalismo, exercendo inevitavelmente efeitos negativos sobre a criação artística—falou-se em “vazio de idéias”—obrigou-os a uma redefinição de suas posições intelectuais e uma clivagem em seu universo social. Deflagrava-se com todas as letras e tintas a belle époque cultural, com o conseqüente processo de banalização e neutralização da força cultural da literatura, o intelectual descaracterizado e ‘dissolvido’ em meio a sociedade, as facilidades da nova vida social tendentes a extinguir o engajamento dos intelectuais que haviam feito a República. O novo espírito “agitado e trêfego” que tomou conta da cidade produziu “o recolhimento dos autores em estéticas e poéticas evasivas”, no entender de José Veríssimo, os intelectuais irreversivelmente assimilados pela nova sociedade construída pela República abrindo espaços para a mercantilização e banalização da própria literatura – vista agora como “o sorriso da sociedade” de que falava Afrânio Peixoto ... [“A literatura é o sorriso da sociedade. Quando ela é feliz, a sociedade, o espírito se lhe compraz nas artes e, na arte literária, com ficção e com poesias, as mais graciosas expressões da imaginação(...)”,in. Panorama da literatura brasileira ; Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1940].&lt;br /&gt;Entrou-se de cheio no espírito mundano da belle époque, atingindo seu auge na primeira década do século, cuja literatura típica ,porém, era estéril em termos nacionais, ainda que seu modelo cosmopolita europeu se coadunasse com a própria fachada da época: era uma literatura articulada com o modo de vida das elites urbanas europeizadas,fomentador do consumo, do excesso,da sensualidade,do aristocratismo; de extrema superficialidade e caráter preciosístico , uma coligação de alta sociedade e alta cultura.(nesse aspecto,Lima Barreto tinha a chave para entender e interpretar o Rio de 1900 : o bovarismo , que apontava para as fantasias centrais que compunham o significado dessa época).&lt;br /&gt;O certo é que a decepção com a República e o ‘espírito’ inerente ao novo século, “o século da modernização e do progresso”, trouxeram novas formas e modos de o escritor se relacionar com a literatura, sob um processo algo ‘compulsório’ de aburguesamento e ‘mundanismo’, acarretando, por uma razão ou outra , a necessidade de adesão quase maciça dos literatos ao jornalismo — que se constituiu no fenômeno cultural mais marcante dos primeiros tempos do século XX. O significativo desenvolvimento dos meios técnicos da imprensa, iniciado na verdade em meados do século XIX, permitiu o crescimento e melhoria qualitativa dos jornais e o nascimento de muitas revistas ilustradas , ambos incluindo matérias literárias.&lt;br /&gt;Por essa época, tanto os jornais como as revistas buscaram mais intensa e concretamente atingir a classe média urbana que então ia se formando e consolidando com o advento da República. Jornais e revistas, além do compromisso de informar e divertir, estavam engajadas num movimento de ‘democratização’ cultural: periódicos como Gazeta de Notícias, Diário do Rio de Janeiro,O Paiz, Diário Mercantil ,Correio da Manhã, Jornal do Commercio,Jornal do Brasil, Rio-Jornal, A.B.C. e as revistas O Malho , Revista da Semana, Kosmos, A Renascença , FonFon! ,Revista Contemporânea (essas duas caracterizadas como “simbolistas”), Careta , Ilustração Brasileira, A Cigarra, Revista do Brasil, Dom Quixote, Paratodos, O Cruzeiro, incluíam muita matéria cultural, como reportagens sobre exposições de artes plásticas, crítica literária, música, contos, crônicas, poesia, teatro e cinema . Quase todas as revistas não conseguiram sobreviver por muito tempo e ter vida longa — exceção apenas a FonFon! e a Careta, que chegaram, não ininterruptamente, até à década de 1950.A maioria dos jornais e revistas (tanto do Rio de Janeiro quanto de São Paulo) acolhia , e pagava , colaboração literária , o que propiciou a escritores e literatos terem publicados seus trabalhos e ter uma fonte de recursos — para muitos, a única — e um chamado “second métier” condigno . Vale registrar que a imprensa propiciou a mudança para a metrópole de muitos intelectuais que não logravam realizar-se literariamente em suas cidades e regiões de origem.&lt;br /&gt;A rigor, quer no âmbito do jornalismo quer mormente da literatura, os escritores, sob pena de caírem em ostracismo cultural e profissional e financeiro tiveram de em maior ou menor grau se submeter à preferência ou gosto dos leitores da época : a necessidade de se expressaram no mesmo diapasão da cidade contagiada pelos anseios de modernização e marcada pela ânsia do enriquecimento rápido fizeram-no adotar estilo, linguagem , forma e conteúdo mais superficiais e mesmo descartáveis, “adequados ao gosto do consumidor pequeno-burguês formado pela República”.&lt;br /&gt;No lado oposto, além da ferrenha oposição à escrita aristocrática predominante , destoando e substancialmente contrário aos estilos vigentes, estava Lima Barreto – por essa época já respeitado como articulista e cronista e reconhecido como excepcional escritor mercê dos elogiados romances publicados Recordações do escrivão Isaias Caminha(1909) e Triste fim de Policarpo Quaresma (1915)—que rejeitava terminantemente fazer de tanto de seu trabalho jornalístico como de sua obra literária, fosse ficcional ou não-ficcional, “instrumento de propaganda do sonho republicano de falso progresso e falsa civilização”. Sustentavaele que fazia “uma literatura militante, de obras que se ocupam com o debate das questões da época (...), por oposição às letras que, limitando-se às preocupações da forma, dos casos sentimentais e amorosos e da idealização da natureza” [Impressões de leitura ; ed. Mérito ,Rio de Janeiro, 1953].&lt;br /&gt;Lima Barreto impôs — com sua escrita simples, direta e objetiva , que feria o convencionalismo literário da época, impregnado de falsas concepções estéticas, floreios , etc — os prenúncios do Modernismo logo depois rompante na cultura brasileira[curioso notar que Lima Barreto morreu no mesmo ano de 1922, em que eclodiu o movimento], cujos primeiros elementos e formas apareceram justamente pela linguagem típica da escrita barretiana. Não à toa despertou interesse e respeito por parte de Mario de Andrade, do alto de sua ‘autoridade’ de contista e teórico da construção ficcional, e levou p. ex. Sergio Milliet a escrever “(...) Lembro-me da grande admiração que tinha por Lima Barreto o grupo paulista de 22. Alguns entre nós, como Alcântara Machado, andavam obcecados .O que mais nos espantava então era o estilo direto, a precisão descritiva da frase, a atitude antiliterária, a limpeza de sua prosa, objetivos que os modernistas também visavam. Mas admirávamos por outro lado sua irreverência fria, a quase crueldade científica com que analisava uma personagem, a ironia mordaz, a agudeza que revelava na marcação dos caracteres”[artigo “Noticiário’, in O Estado de São Paulo, São Paulo, 11.11.1948] : nas páginas da então incipiente revista Klaxon (1921), os modernistas paulistas se propunham também a ‘descoelhonetizar’[ref. a Coelho Neto,então epígono da escrita rebuscada e cheia de floreios retóricos] a literatura brasileira, rompendo com os cânones acadêmicos., objetivos bastante semelhantes da revista Floreal, que Lima criara em 1907 e só durou quatro números.&lt;br /&gt;Assim, na contrapartida ao aristocratismo da escrita de então , aos nefelibatas da linguagem, tinha-se em Lima Barreto um registro da língua ‘brasileira’ do início do século XX e um ritmo genuinamente nacional que prenunciava a linguagem modernista. Segundo o historiador e ensaísta Nicolau Sevcenko [Literatura como missão:tensões sociais e criação cultural na Primeira República;(ed. Brasiliense, São Paulo, 1983], “chama muito à atenção quando se lê a obra do Lima Barreto, a atualidade dessa obra não só em termos de linguagem — uma linguagem bastante acessível, bastante próxima até da oralidade — pela qual foi muito criticado pelos seus pares e intelectuais da época. Mas não só por essa linguagem mas também pelos temas de que ele trata e pelo modo como os trata Pode-se ir além porque muitos problemas de Brasil que ele pensa naquela época, que ele critica, e que ele, enfim, desenvolve como reflexão, permanecem absolutamente atuais” .&lt;br /&gt;Contrariamente à maioria de seus contemporâneos, praticantes da escrita floreada e vazia, aristocrática e fútil, verdadeiros instrumentos literários do “sorriso da sociedade” apregoado por Afrânio Peixoto, Lima Barreto conferia à sua obra ficcional o sentido militante de uma “missão social, de contribuir para a felicidade de um povo ,de uma nação, da humanidade” Em sua concepção, a literatura tinha de ser “militante”, com objetivo concreto e definido, como sentencia em entrevista a A Época,18.02.1916 : “(...)não desejamos mais uma literatura contemplativa, cheia de ênfase e arrebiques ,falsa e sem finalidade, o que raramente ela foi; não é mais uma literatura plástica que queremos, a encontrar beleza em deuses para sempre mortos, manequins atualmente, pois a alma que os animava já se evolou com a morte dos que os adoravam; digamos não a uma literatura puramente contemplativa, estilizante sem cogitações outras que não as da arte poética, consagrada no círculo dos grandes burgueses embotados pelo dinheiro, de amplo emprego por pretensos intelectuais,bacharéis e políticos” (...) “a obra de arte tem por fim dizer o que os simples fatos não dizem. Este é meu escopo. Vim para a literatura com todo o desinteresse e toda coragem. As letras são o fim da minha vida. Eu não peço delas senão aquilo que elas me podem dar: glória!”&lt;br /&gt;Dono de obra ficcional e não-ficcional com vigoroso fulcro ideológico , Lima Barreto buscava na politização da literatura um sentido sobretudo ético.Na única conferência literária que faria, mas não o fez — “O destino da Literatura” [publicada na Revista Souza Cruz,Rio de Janeiro, 1921 , em cujo número também apareceu trecho do romance O cemitério dos vivos ], em Rio Preto, São Paulo, em fevereiro de 1921 — foi explícito :“A Beleza não está na forma, no encanto plástico, na proporção e harmonia das partes, como querem os helenizantes de última hora . A importância da obra literária que se quer bela sem desprezar os atributos externos de perfeição de forma, de estilo, deve residir na exteriorização de um certo e determinado pensamento de interesse humano(...) E o destino da literatura é tornar sensível, assimilável, vulgar esse grande ideal de fraternidade e de justiça entre os homens para que ela cumpra ainda uma vez sua missão quase divina. Mais do que qualquer outra atividade espiritual da nossa espécie, a Arte, especialmente a Literatura, a que me dediquei e com quem me casei; mais do que ela, nenhum outro qualquer meio de comunicação entre os homens, em virtude mesmo do seu poder de contágio, teve, tem e terá um grande destino em nossa triste humanidade.”&lt;br /&gt;Marginalizado por suas origens e condição social, execrado por ser ‘passadista e contrário à modernização’, Lima Barreto enfrentou as marcas de seu tempo e da sociedade brasileira que lhe foi contemporânea . Seu projeto era um projeto para uma vida inteira de militância literária contra o preconceito, mas também “contra os falsos intelectuais, contra um academismo espelhado no modelo europeu, contra uma literatura só de deleite, como ornamento”. Para ele, a literatura era uma verdadeira missão. A pretensa beleza estilística, os atributos externos formais de perfeição, de forma, de estilo, de vocabulário, não poderiam prescindir da “exteriorização de um certo e determinado pensamento de interesse humano, que fale do problema angustioso do nosso destino em face do Infinito e do Mistério que nos cerca, e aluda às questões de nossa conduta na vida” [Bagatelas ; Empresa de Romances Populares, Rio de Janeiro,1923].&lt;br /&gt;Esse ideal, entendia ser impossível cumprir sob a égide acadêmica , como expõe taxativamente naquela entrevista à A Época, em fevereiro de 1916 : “Vim para a literatura com todo o interesse e com toda coragem... Não quero ser deputado, não quero ser senador, não quero ser mais nada senão literato. Não peço às letras conquistas fáceis, não lhes peço glórias, peço-lhes coisa sólida e duradoura... Eu abandonei tudo por elas; e a minha esperança é que elas vão me dar muita coisa...”&lt;br /&gt;Tanto nos romances e contos como nas crônicas e artigos, Lima Barreto exerceu sempre uma crítica à cultura da modernidade contra a opressão social e a hipocrisia política — tal como se revelaram na implementação da República . A opção por uma literatura militante determinou o caráter marginal (e ‘revolucionário’, para muitos estudiosos) de sua obra : sua visão crítica da sociedade, da política e da cultura, renderam-lhe frutos amargos — desprezo do público, penúria econômica, alcoolismo e doença, internação em manicômio — mas nada o fez submeter-se aos ditames da moda e dos valores culturais da República. A “esperança” mencionada por Lima Barreto na entrevista de 1916 alimentava-se na verdade da recusa impassível em transigir com o que demandava popularidade — o aburguesamento do escritor, por via da adesão aos temas da moda, que fortaleciam os interesses políticos, econômicos, sociais e culturais da República. Nada porém o fez submeter-se a esses valores.&lt;br /&gt;...........&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=5121148060136346781#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;&lt;span style="font-family:courier new;font-size:85%;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:courier new;font-size:85%;"&gt; vivia-se uma época – regida pelo refrão "amor febril pelo Brasil”,presente em muitos hinos,durante a Campanha Nacionalista dos anos da I Guerra Mundial, quando intelectuais como Olavo Bilac,autor da letra do “Hino à Bandeira”, liderou a campanha pelo serviço militar obrigatório -- impregnada do pensamento positivista, em que patriotismo e nacionalismo se integravam,com o elevado tom de xenofobia que costuma acompanhá-los e exarcebados por um sentimento anti-português como reação dos tempos republicanos a tudo que vinha do Império. Exacerbação patrioteira transposta num ‘nacionalismo ornamental’ que inflamou,p. ex., Elísio de Carvalho no livro Esplendor e decadência da sociedade brasileira(1910), expondo uma visão aristocrática, nativista e desenvolvendo um nacionalismo triunfalista, que via na grandeza do país o fruto dos esforços das elites arianas e fidalgas ; essência temática que inspiraria também Oliveira Viana em 1920, com Populações meridionais do Brasil, inclusive fomentando um nacionalismo autoritário e conservador, caldo de cultura do militarismo , que iria predominar nas décadas de 1920 e 1930 – embora em contraponto os anos de 1920 trouxessem , no movimento modernista eclodido na Semana de Arte Moderna, idéias,conceitos e atitudes mais fecundas e construtivas no campo da literatura, das artes e do pensamento [Candido,2004,pp.215-17).&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=5121148060136346781#_ftnref2" name="_ftn2"&gt;&lt;span style="font-family:courier new;font-size:85%;"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:courier new;font-size:85%;"&gt; bovarismo, conceito cunhado pelo filósofo francês Jules de Gaultier em sua obra Le Bovarysme, em 1892, advindo de Gustave Flaubert e sua Madame Bovary, seja em relação à figura do artista ‘sonhador irresponsável’ seja a um comportamento artificial simbolizando um falseamento da vida,um desejo irreal de fuga – o abismo que se abre entre as duas escalas, a da realidade e a do imaginário, conferindo-lhe uma dimensão ao mesmo tempo trágica e irônica ; o termo é especialmente empregado também com o sentido da alienação intelectual que precede a construção de uma identidade cultural própria. Lima Barreto -- para quem o bovarismo era uma atitude mistificatória típica da nova elite, extremamente prejudicial para o país, “o poder partilhado no homem de se conceber outro que não é, o afastamento entre o indivíduo real e o imaginário,entre o que é e o que acredita ser” -- aplicou esse conceito tanto literariamente – no romance Triste fim de Policarpo Quaresma e nos contos “A biblioteca”, “Lívia” e “Na janela” aparece como a própria essência dos textos – quanto socialmente : segundo ele, a República estava toda imersa em atitudes bovaristas e ,pior, os próprios intelectuais, teoricamente dotados de maior capacidade e lucidez críticas, mergulharam desde o início numa militância ufanista,destemperada, de otimismo ingênuo ; e esse ufanismo bovarista era uma forma terrível de se alienarem dos graves problemas do país.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=5121148060136346781#_ftnref3" name="_ftn3"&gt;&lt;span style="font-family:courier new;font-size:85%;"&gt;[3]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:courier new;font-size:85%;"&gt; “Sobre a carestia”, in O Debate, 15.09.1917.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=5121148060136346781#_ftnref4" name="_ftn4"&gt;&lt;span style="font-family:courier new;font-size:85%;"&gt;[4]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:courier new;font-size:85%;"&gt; em dezembro de 1909,Lima Barreto editara com Antônio Noronha Santos (o maior de seus amigos) um panfleto contra a candidatura Hermes da Fonseca à presidência da República, intitulado “O Papão – semanário dos bastidores da política,das artes e... das candidaturas”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;.[&lt;span style="color:#cc6600;"&gt;excerto de &lt;em&gt;Lima Barreto e a política: os "contos argelinos" e outros textos recuperados&lt;/em&gt;,2010&lt;/span&gt;]&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5121148060136346781-2322004346525493968?l=pandorawiki.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pandorawiki.blogspot.com/feeds/2322004346525493968/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5121148060136346781&amp;postID=2322004346525493968&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/2322004346525493968'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/2322004346525493968'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pandorawiki.blogspot.com/2010/08/lima-barreto-e-politica.html' title='Lima Barreto e a política'/><author><name>Caixa de Pandora</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13780187324490495166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TOXBy1EVxVI/AAAAAAAAAic/POmRMcX667A/S220/foto%2B1.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TF3FoxxwJbI/AAAAAAAAAiI/9-Z9SsGFL1o/s72-c/Lima+Barreto.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5121148060136346781.post-1648432816541743041</id><published>2010-07-14T05:08:00.000-07:00</published><updated>2010-07-14T05:10:45.035-07:00</updated><title type='text'>CENÁCULOS DE ENSAIO,FICÇÃO E DESEJO</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TD2pK6Ow5HI/AAAAAAAAAh4/_dhwnjMM25M/s1600/sexualidade+2.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5493733125356840050" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 132px; CURSOR: hand; HEIGHT: 93px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TD2pK6Ow5HI/AAAAAAAAAh4/_dhwnjMM25M/s200/sexualidade+2.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;-- Fleming. Paula Fleming.&lt;br /&gt;-- Que nome bonito, minha linda ! nome e pessoa, aliás...em que posso serví-la,moça ?&lt;br /&gt;Pronto, sabia, lá vem esse idiota, mais um. Claro é homem e acha que esse é seu papel, com essa baboseira meio-troglodita.&lt;br /&gt;-- Deixe de gracinha, e faça sua função com respeito e seriedade. Preciso deste documento, que tudo indica, só se encontra aqui nesta repartição, já passei por praticamente todas as outras. Pode ver para mim? é urgente.&lt;br /&gt;--É a tal coisa, todos pedem urgência,repetem que é importante,tudo igual. Urgente e importante é resolverem aqui nossa situação, há 4 anos não temos aumento, salário de fome ,condições de trabalho precárias, e tendo de atender todo mundo bem. Coloque-se no meu lugar...Preencha o formulário de requisição, por favor.&lt;br /&gt;Falava,falava, mas não desviava os olhos docorpo de Paula, bem formado, as pernas, ah!que pernas bem torneadas, e de quebra que rosto... corpo de Paula , bem formado, as pernas, e que pernas ! bem torneadas, e de quebra que rosto...&lt;br /&gt;Sim, Paula era uma bela mulher, atraente e sedutora, ainda mais com aqueles olhos verdes e os negros cabelos encaracolados. A Paula poderia se aplicar - ela sempre se lembrava do comentário do amigo Sergio Augusto ( preciso voltar a visitá-lo,lembrou-se) com relação a Natassa Kinski:"com aquele corpo, não precisava daquele rosto, e com aquele rosto pra que tanto talento?".&lt;br /&gt;Bela, sensual, e mais: talentosa,competente, obstinada estudiosa, eficientíssima em tudo que fazia – e não se diga que contrariasse o estereotipado perfil de uma intelectual, uma ‘nerd’(muito por ser afinal uma ‘cdf’, talvez por causa dos óculos de alto grau que por vezes tinha de usar); escritora, pesquisadora,verdadeira arqueóloga literária sempre à busca de raridades bibliográficas. .&lt;br /&gt;Anos de convivência com Mauro, até mais –digamos- íntima, a fizera garimpeira de preciosidades textuais. Como agora, sob os olhares voluptosos daquele funcionário público, quase que despindo-a,sem disfarçar de alto a baixo. É certo que ela gostava – qual mulher não gosta de sentir-se desejada? – e fomentava isso, com sua sensual picardia e um jeitinho todo especial de seduzir para obter o que queria.&lt;br /&gt;-- Mas no caso esse documento tem importância que o senhor nem imagina e ter acesso a ele é urgente. O senhor, que tanto me elogia, e acho que já me admira, não vai querer que eu saia daqui de mãos abanando e decepcionada com o senhor,que é tão simpático e dedicado a fazer o melhor para quem precisa, não é mesmo?&lt;br /&gt;Embevecido, era a sensação, o estado daquele voraz devorador ocular, e de outros sentidos fisiológicos. (que mulher, meu Deus! gataça,e cheia de manha. que faço ?)&lt;br /&gt;Esse cara todo embasbacado podia ser bom para facilitar e agilizar a recolha do documento ,mas não sei:de repente,excitado, vai entrar numa de fazer uma troca,o documento pelo meu,digamos,afeto, já conheço o lance. (bem feito,culpa sua, com essa mania de charme ,não se emenda mesmo, né Paula? não basta valer-se dos meios protocolares,normais? não, tem que fazer joguinho, seduzir,estimular tentações- não sabe como são os homens, oh idiota?. vê se contorna e resolve isso, logo logo).&lt;br /&gt;Absorta nos pensamentos, mas sem perder de vista os olhares e gestos do homem, Paula percebeu que ele acionava o computador e acessava alguma coisa, um arquivo talvez, um link, uma entrada. Fingiu-se distraída, consultou o celular – ah!um SMS, é de Vera, grande amiga, ainda ontem à noite jantamos juntas e falei dessa minha incursão aqui, e agora ela me envia _ “Vamos ajudar a procurar o documento. Deve ter coisas muito importantes nele”. Querida,.só você mesmo, sim tem coisas muuuuito importantes , será uma revelação, ou confirmação bombástica em torno do nosso Machado na política,’quem viver verá’...&lt;br /&gt;Desde que o burocrata em estado de transe sexual e mental aí na minha frente, atrás desse balcão, consultando essa máquina resolva ser o atendente cioso de seus deveres e desista de ser o donjuan dos cenáculos documentais.Claro que é lugar comum, imagem recorrente, nada de novo nesse enredo – até Kafka, ora ora o aludiu.&lt;br /&gt;-- Estou consultando aqui, mas não está fácil localizar. Talvez você tenha de voltar outro dia, preciso de tempo para conseguir isso, vou me empenhar ao máximo, principalmente pelo prazer de servi-la, minha... (cacete, isso é hora de chegar gente aqui, logo agora?). Pois não, um momentinho, por favor.&lt;br /&gt;Esse rapaz que acaba de chegar é bom alvitre, talvez faça o cara aí se tocar. Aliás, rapaz bem simpático, bonito mesmo, corpo meio sarado, e até que tem um ar inteligente. Entabulo conversa? quem sabe...?(você não tem jeito mesmo, Messalina, Mata-Hari de meia-tigela).&lt;br /&gt;-- Bem, como ia dizendo,você me dê seu telefone que aviso quando tiver o documento.&lt;br /&gt;Pronto, é o que ele queria. E você também, sua burra, quando vai aprender com essa mania de sedução?(fácil e cômodo dizer que é ‘técnica,estratégia de pesquisa’,que aprendi com o Mauro,também um metido a sedutor, a jogar charme,a fazer gracinhas e gracejos no caso com as mulheres,claro. É essa a sina do pesquisador,como a do jornalista,onde comecei : utilizar esses expedientes,não de todo reprováveis, para ‘dobrar’ as fontes?&lt;br /&gt;Falando no bruxo, ei-lo que me procura ao celular – “mensagem urgente: Mauro” -- mas não atendo: sei que está ansioso, doido pra saber se consegui o documento, compete comigo,bem sei - e eu com ele, claro. Primeiro resolver de vez a situação aqui com esse burocrata – e, óbvio, saber quem é e qual é desse moço recém-chegado... : professor, pesquisador, que tipo de profissional,quem é ele?...&lt;br /&gt;-- Não, não posso esperar,tem de ser hoje e só hoje. Agora ou nunca, tenho de trabalhar nesse documento e enviar logo logo relatório para Paris, a uma universidade. Se não for hoje, desisto e perco o trabalho, inclusive a possibilidade de ter de vir aqui à cata de outro documento decorrente deste, conforme o parecer da universidade de lá(é a de Rennes,do Massa: nem pensar em detalhar pro brucutu aí).&lt;br /&gt;Espero tê-lo convencido, o conquistador de araque vai se tocar que nunca mais verá, se me der o documento agora haverá uma segunda chance... E enquanto isso, exercito um pouco de charme pra cima do cara aí parado estático, ou será extático, com minha pessoa ? as mãos nos bolsos, cara de pastel à espera de o funcionário-excitado atendê-lo, ou de poder falar comigo,já adivinho(e almejo,óbvio)...&lt;br /&gt;Entre o ar perplexo atrás do balcão, certamente impactado por minha resposta, e o ar paspalho aqui a meu lado, fatalmente traído pelo sensorial corpóreo, tiro da sacola o batom discreto e passo-o pelos lábios em suaves e lentos movimentos (e olhando de soslaio para um e para outro, dois patetas à frente da ‘femme fatale’). Ah, no celular tem SMS do Mauro, só podia ser_ “PF, como está o lance aí?vai conseguir? saudades... MR”&lt;br /&gt;-- Bem,já que é tão importante e urgente assim, moça, vou ver o que dá pra fazer,me aguarde,por favor(droga,será que vou ter de desistir e esperar a outra vez, de preferência sem um chato por perto? paciência, perde-se uma batalha mas não se perde a guerra, já dizia o Manezinho de Madureira, saudades daquele cara lá do “meu amado subúrbio”,li isso no Lima Barreto). O senhor, aí, o que deseja ?&lt;br /&gt;-- Ah, eu ? (o cara tá mesmo embabacado, afinal ninguém me resiste, eheh... eta mulher danada! idiota,isso é que sou...). Recolher documentos da Fazenda sobre a economia brasileira na década de 1850, tenho a relação deles comigo. Não preciso de todos, mas pelo menos desses aqui marcados, principalmente as portarias do ministro.(ih,a gata parece ter se interessado: por mim ou pelo pedido?)&lt;br /&gt;-- Gozado, a bela moça me pede documento que é da década de 1860, o senhor me vem com 1850: estão combinados ? Um se junta ao outro, são do mesmo projeto?vocês trabalham juntos ? (se deu bem hein cara!). ...Preencha o formulário de requisição, por favor,senhor. Bem, vou lá dentro verificar para um e para outro, veremos o que consigo (queria mesmo é reter mais a gata por aqui,... ou fazê-la voltar).Sabem perfeitamente que vão levar a reprodução, né? E que reproduzir demora, ainda mais se os documentos forem velhos,que são pela data, e exigirem cuidados especiais.&lt;br /&gt;Ei, o que é isso ? mas esse período, e a grande expansão econômica de então ,que o Sergio Buarque descreveu tão bem ,no Raizes do Brasil e o Caio Prado reafirmou no História econômica do Brasil, é justamente um dos atuais estudos do Mauro prum livro (como trabalha o bruxo!),que até me chamou para participar... quem é esse moço, afinal? hum, vou apurar(como jornalista que fui).....&lt;br /&gt;-- Pelo visto, companheiro, parecem ser dados importantes, não? Desculpe perguntar,não me leve a mal (a voz singela ajuda a quebrar resistências),qual seu ramo de pesquisa ?&lt;br /&gt;-- Bem, nem tanto mas um pouco,sim,importantes : apenas preciso saber certos elementos de política fiscal da época, que faz parte de um projeto de finanças públicas para a Ebape,da FGV.(creio ter me saído bem, não posso abrir o jogo, mesmo pra essa beleza de mulher,que agora me sorri com um pouco de malícia,acho). Sou economista e professor. Raphael Lambertti.&lt;br /&gt;-- Fleming, Paula Flemming.&lt;br /&gt;No aperto de mãos sinto a mão firme dele, embora delicada : me vem até certo frenesi,que é isso, Paula? te cuida,caraca.&lt;br /&gt;Que sensação gostosa ao tocar a mão dela, quase não resisto, me excito, para com isso rapaz....&lt;br /&gt;Entre suspiros, pelo pensamento nela lá fora, e a frustração do plano fracassado, o funcionário espantava-se na consulta que lhe revelava quem era Paula .&lt;br /&gt;-- Esse Google mostra muita coisa, ou tudo mesmo, maravilha. Mas essa moça, tão gataça, tão gostosa, é uma verdadeira sumidade, caramba! olha só o que está aqui, tem formação lá no estrangeiro e trabalhos feitos em várias universidades do exterior,além de projetos em entidades de Portugal,da França e da Alemanha! isso só aumenta meu desejo, ao mesmo tempo em que me .dá um certo medo,é muita areia pro meu caminhão.&lt;br /&gt;Tenho de extrair o máximo desse moço, será verdade o que ele diz? aliás, como me preocupo com o Mauro,e ele às vezes ,quase sempre, não reconhece;acha que me formou,moldou e aprimorou e por isso me dá uma esnobada. mas eu tô ali, oh, tenho paixão por ele, paixão intelectual fique claro (mas rola também de outro tipo,todo mundo sabe, tantas foram nossas vivências, tempos de estudos,trabalho e... amor).&lt;br /&gt;Mas agora,sem deleites de passado, o presente me instiga com esse cara aí e sua pesquisa,além de ter de continuar a administrar o burocrata, que,imagino, antes dos documentos, aposto que foi fuçar pra saber quem sou eu, e se viu alguma coisa deve no mínimo estar tonto e meio deslumbrado, e deve também querer ver se descobre email,telefone,endereço – ih, estaria eu perdida!.&lt;br /&gt;-- O interesse maior na verdade é pela dívida pública federal de então, que já se formava e pautaria, e pauta ,historicamente a existência econômica do Brasil (acho que continuo me saindo bem,com esse discursinho que tem certo fundamento e consistência, sem revelar a essência da verdade de tudo. a qualquer hora ele vai me ligar, ou mandar um SMS, vou ter de informar – mas sem essa belezoca aí perceber...).E tenho também de saber dela que documentos de 1860 é esse,o problema é que não tô conseguindo controlar minha excitação, e fico descentrado e meio bocó.&lt;br /&gt;-- O que você procura trata de quê? deve ser muito importante,por sua ansiedade, e pela seriedade profissional que você mostra ter,de pessoa inteligente e preparada (e com esse visual de ‘miss-sexy das pesquisas inglórias’...nossa, que pernas,que cruzada e descruzada genial!)&lt;br /&gt;A gata é fera,olha só essa boazuda,uma intelectual de primeira ; tô naquela de que uma mulher bonita,e gostosa, não pode ser tão cabeça assim, já me disseram que isso é preconceito, e preconceito burro, completamente fora de lógica. Mas o que fazer, é minha cabeça,não sou inteligente mesmo, não tive lá muita instrução, só o sufici.ente para entrar no serviço público,graças a Deus, e isso é que me segura e leva minha vida.(emprego público! bah,grrr!com esse salário de merda ,aumento só de vez em quando, e neste lugar respirando poeira, e tendo de atender cada um,cada chato, cada feiúra - diferente dessa belezoca aí - e cada pastelzinho como o moço que tá lá fora,,no mínimo na paquera da gracinha. por falar nisso, tenho de saber também quem é,rapidinho, pra destrinchar logo esses documentos que eles querem, primeiro o dela,óbvio...)&lt;br /&gt;Não posso também abrir o jogo, não sou burra, fica aí jogando essa conversa mole pra cima de mim,e pensa que caio nessa? tô meio interessada em você, não só por sua pesquisa, mas por ter um jeito bem atraente, meio sensual.e quem garante que tá me dizendo a verdade?(aprendi a desconfiar e depurar de certos depoimentos,mesmo os dados nos documentos e fontes de nossas pesquisas.o carinha aí é simpático, pode ser sincero,mas não me convenceu de todo,e agora quer extrair de mim algo mais...)&lt;br /&gt;-- É sobre a culinária no Brasil imperial, justo nessa década de 1860 intensificou-senesse campo também, a influência da França e da cultura francesa, incluída a culinária, na sociedade por aqui.&lt;br /&gt;(ih, lembro agora que o Mauro ainda tem de lapidar o estudo de “Machado e os franceses”, e tocar as outras obrinhas,o pessoal lá da Universidade do Porto tá esperando,minha prezada prof. Malato outro dia me indagou sobre. aliás, quando vou voltar a Portugal, terrinha de meus amores?...saudades de meus 4 anos lá, naqueles dois projetos fascinantes; saudades carinhosas também do Gonçalo Ferreira, aquela gracinha do Alenrejo,e sua mansarda aconchegante,seu jeito machão...).&lt;br /&gt;-- Estou agora dedicada a examinar esse ‘francesismo’ no Brasil do século XIX (consegui convencê-lo ? acho que sim.pra distrair sua atenção e concentração, vou fazer outro exercício -invencível,ah, ‘a dor e a delícia de ser mulher’- agora de olhar, com aquele famoso olhar 38,malicioso e paralisante...)&lt;br /&gt;Vejo aqui no formulário que ele preencheu, que o moço também é fera, eta doutorzinho gabaritado,e como ela também de 42 anos, não é que também esteve lá fora, pósgraduação,PhD, estágio?- epa, que estagião esse nos States; é historiador elogiado, professor ,autor de 3 livros,um em inglês.... isso é que é. péra aí, se a gata souber disso vai ficar na dele, não dá pra competir.(também pára pra pensar, oh Geraldo, tu pensa que é o quê ? o máximo que conseguirá é ficar sonhando com ela...por falar na beldade, tenho de ver logo esse bendito documento que ela quer,deixe ver no formulário pra não errar. não posso errar senão me dano...)&lt;br /&gt;Ela quer me enlouquecer,agora com esses olhos e esse olhar ‘oblíquo e devastador’, não bastam as pernas,querida? num tô aguentando muito não e não consigo me concentrar o suficiente,como resistir,meu Deus! é duro ser homem,valham-me os deuses. Estranho, ou coincidência, em que não acredito: esse lance de influência da França e dos franceses é tema de estudo do Mauro,que tá tocando muito devagar, atolado em tantos outros projetos,o cara é doido mesmo.(epa epa será que ela tá junto com ele nesse projeto? mas ele nunca falou de mulher nenhuma em projeto nenhum – a não ser que... não.não,deixa de paranóia Rapha, mantenha sua mente arejada,não começa com formulações conspiratórias, justo uma das matérias-primas de teu metier, a História -e eu dizendo a ela ser economista, argh-.mas do jeito que o Mauro é,sensível à Beleza,rrssss)...&lt;br /&gt;Tenho certeza de que tá meio desarticulado de pensamento,sem saber bem se acredita e leva a sério isso que lhe disse, se é válido esse tipo de pesquisa,mesmo que o tema mereça - claro que merece, não sei se ele como economista que diz ser (e se não for? se for por exemplo de história,ou de literatura ? ei, aí a coisa fica meio complexa, aí mesmo que aumentaria minha desconfiança com relação à verdade de sua pesquisa).&lt;br /&gt;Com ela - ah, musa indelével deste cenáculo - eu também tenho de manter a desconfiança e o cuidado de todo pesquisador com depoimentos e declarações alheias, é a regra básica pro nosso meio, se não acaba-se revelando segredos, e lá se vai o ineditismo, o pioneirismo, a descoberta, o resgate de coisas preciosas.&lt;br /&gt;Não se descompense, Raphael, mantenha-se íntegro...(mas sensível a essa mulher e seus movimentos, suas palavras, seu odor,sua...)&lt;br /&gt;-- Seu celular deu um toque aí, deve ser mensagem, Raphael.&lt;br /&gt;-- Obrigado Paula. Sim, é mensagem (é o Mauro, já esperava _ “RL, como estão as coisas,difícil ou fácil? e tá escondendo o lance? MR”&lt;br /&gt;-- Muito bem, senhores ,ou melhor, senhora e senhor!(vou ser bem formal e protocolar; se não espanta a gata e pode me dar problema se o moço achar que não cumpro meu dever de ofício e apresentar queixa à direção: estaria lascado). Verifiquei suas solicitações, a demanda de cada um, recolhi o que me era possível, a mim e à repartição, o que está nos acervos.Prezada jovem, o documento que procura(que coisa, Machado de Assis na política, esse partido aí, ele candidato...hum) aqui está devidamente reproduzido. Caro senhor, entrego-lhe seus documentos,reproduzidos.(dezenas,centenas de dados e números,e relatórios,e pareceres, sobre a economia aqui de 1849 a 1861- quase se junta com o da moça, pela época).Desculpem a demora mas a reprodução é lenta,bem sabem. Espero tê-los atendido bem e cumprido meu dever, estou aqui para isso, e esta repartição espera ter cumprido sua função; se desejarem e precisarem, estaremos às ordens para vos servir inclusive (principalmente você, gostosinha) a senhorita que pode ser que precise voltar depois do parecer da universidade lá de Paris, como me falou.&lt;br /&gt;Hum, ótimo aqui estão os documentos, vai acabar de vez com esse lance do distanciamento político de Machado, a turma não se convence nem pelo que escreveu nas crônicas e nos contos, ah o Mauro tem de publicar logo isso, não basta os artigos que já lançou por aí. aliás, tô aqui fazendo isso só pra quebrar um galho – isso não é linguagem acadêmica, Paulinha, de estudioso, pô...- estou em outro projeto, aquele sobre “Queda que as mulheres têm para os tolos” : meu lance com Paris, que citei pro burocrata aí, é sobre isso, pro Massa, e não pra este. vamos ver se o Mauro reconhece, desviei-me de meu projeto para atendê-lo, e sei que ele não espera que consiga o que consegui aqui. tenho de ligar pra ele e cantar vitória, quero ver a reação...antes tenho de resolver a parada com o moço aí.&lt;br /&gt;Muito bom, muito bom, cá está o que preciso, aliás de que precisamos eu e o Mauro, vamos tocar- – quer dizer, acho que eu vou tocar sozinho, vai sobrar pra mim -- o projeto do grande surto econômico da década de 1850,que tem elementos importantes para aquele estudo do liberalismo social de que o Mauro tá afim de fazermos juntos também.vou dar um jeito de ligar pra ele, e não posso deixar de entabular logo um lance com a gata aí..&lt;br /&gt;-- Vamos, Raphael? Ao senhor, atencioso e dedicado funcionário , como é seu nome, prezado?&lt;br /&gt;-- É Geraldo, Geraldo Neves, às suas ordens, volte logo (tomara...).&lt;br /&gt;-- Muito obrigada por tudo, voltarei sim,pra ser bem atendida e bem tratada pelo senhor (e lá vai aquele olhar,o boboca ,deve até estar a tremer)&lt;br /&gt;-- Vamos, Paula. De minha parte todos os agradecimentos, sr. Geraldo. Fui muito bem atendido, até à próxima.&lt;br /&gt;No elevador,descendo para o térreo, Paula pensa e avalia se deve sair com Raphael – claro, ela antevê,que ele vai propor ir a algum lugar, um café, um lanche, vai vir até com idéia de jantar mais tarde , etc,faz parte do script (certo que o carinha me despertou a curiosidade, ele em si e o projeto dele, tenho de procurar saber tudo, usar de meus ‘métodos femininos’ pra arrancar o possível, ‘eu gosto de ser mulher”, lalarililá)&lt;br /&gt;Olhando de soslaio para ela e algo desconfortável no elevador, que tem mais duas pessoas, Raphael planeja o que lhe parece o corolário da empreitada : obtidos os documentos, obter a gata (pena que essa gente toda aqui no elevador, mas lá embaixo lanço o “vamos tomar um café”, quem sabe lanchar, ou thantchantchan mais tarde jantar , tô afim dela, vai firme cara...)&lt;br /&gt;Mas todo cuidado é pouco pra não abrir o jogo e revelar a verdade de meu projeto e desta pesquisa,por isso tenho de pensar muito, usa de toda tua intuição e razão, Paula, não dá bobeira .....(mas tenho mesmo é de ligar pro Mauro,e quem sabe ir lá falar com ele e entregar os documentos; ou não ? valorizo um pouco, deixo passar o tempo, levo amanhã, só pra sentir o clima, e a sensação dele – jogar é comigo mesmo...)&lt;br /&gt;Mas pensando bem, preciso tomar cuidado,caso se dê a continuação deste convívio,de não revelar nada do verdadeiro propósito do projeto e desta pesquisa,ela é sedutora demais, pode me envolver,aliás já faz, acabo abrindo o jogo.(antes, tenho de avisar ao Mauro que acho está ansioso, na verdade nunca se sabe porque ele disfarça e fica às vezes meio blasé....)&lt;br /&gt;Poderia até envolvê-lo facilmente em minha teia, levando com ele um papo meio acadêmico, falando de pesquisa, interessada em saber de seu trabalho, suas atividades, projetos, emendaria com considerações sobre a economia brasileira, deixaria ele falar e falar, poderia aí escapar algum indício ou informação, reforçaria os olhares, tocaria em sua mão meio sem querer , e coisa e tal (por falar em envolver, onde estará Ricardo? preciso reencontra-lo, “alô amor, saudades? , ele tem elementos importantes, para mim, sobre Alencar...). Mas não,não,te segura malandra, pode ser um risco e pôr em risco o plano,com conseqüências sérias,acho (tô certa, Mauro?).é isso, fica pra próxima,dou a ele meu email,e pronto.&lt;br /&gt;Seria elementar, dear Raphael, entabularia um papo meio acadêmico, falando de pesquisa, interessado em saber de seu trabalho, suas atividades, projetos, emendaria com considerações sobre a cultura brasileira, ela gostaria, não falha. E iria envolvendo, e coisa e tal (por falar em envolver, onde estará Bianca? também não a procurei mais, ela até que tinha informações importantes para mim sobre Nabuco ...).Pensa bem, Raphael, usa da racionalidade que tanto elogiam em você, pode ser até que ela esteja afim, me seduziu lá em cima o tempo todo , e com mulher assim vai ser quase impossível resistir.Não,não,não,por maior que seja meu desejo, paro por aqui, dou meu telefone e até à próxima(não sou tolo, como aqueles a quem as mulheres do século passado,até hoje em parte, preferiam, já revelava mestre Machado.o Mauro aliás me disse vai trabalhar nisso, falta-lhe tempo e gente pra auxiliar, vou ver se lhe indico alguém,de preferência uma mulher...)&lt;br /&gt;-- Já sei que você ia me propor um café, acertei Raphael? ou um lanche,um papo mais,digamos,profundo,né ?(tolos,tolos,são os homens, nós sacamos tudo, e antes não sei como é que as mulheres no século XIX os preferia, relatava e ironizava Machado. preciso tocar e muito esse projeto, vou ter de ir a Paris, Montmartre aqui me tens de volta (vou conversar mais com a Vera, esteve lá há pouco, vai me atualizar).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- Sabe, até que pensei nisso, sei de um ótimo lugar,nele poderíamos até falar de culinária, bem a propósito desse seu projeto, não ? Mas tenho de levar os documentos para o diretor do departamento de economia da PUC (embuste : vou lá no Mauro, deve estar no ap. do Leblon,à espera dos documentos, ansioso...),ele quer logo começar a examiná-los e até trabalhar noite adentro.&lt;br /&gt;-- Até que eu gostaria, mas também não posso, tenho um compromisso lá no Grajaú (engodo: acho que vou ao Mauro, quer dizer, se eu decidir levar agora o documento, ou fazer suspense...), e quero logo cedo amanhã debruçar-me nesse documento pro meu projeto.&lt;br /&gt;-- Podia até de dar uma carona, Paula, estou de carro,você está ? mas vamos para lugares opostos na cidade. Meu email e telefone, me contata, OK ? Foi um prazer que você nem imagina conhecê-la, e desejo todo sucesso,e continue assim, simpática com os outros e dedicada às pesquisas.&lt;br /&gt;-- Merci, estou no meu carro. Toma meu email e o endereço de um bloguinho em que me distraio lançando abobrinhas (como quase todos aliás,neste mundo...). Gostei muito de conhecer você,ótimo te encontrar nesta mesma seara de pesquisas,tomara a gente se reencontre pela aí, que você seja muito bem-sucedido, parece-me um profissional muito competente.&lt;br /&gt;Ah, Geraldo Geraldo, que mulher ! e pode ser até que me engane,ou delire, mas ela jogou um olhar muito especial pra você, será que agradei mesmo a gata? Como vou conseguir esperar e sonhar que ela volte? Não vou agüentar,não não vou escavar,fuçar, e descobrir onde ela trabalha, se dá aulas, deve estar ligada a uma faculdade, deve sim. Paula Fleming, dra. Paula Fleming, professora,pesquisadora, escritora – vou descobrir !...&lt;br /&gt;-- Até mais,Raphael (beijinhos só na face, cheri, mas toco de leve nos cantos de sua boca...eheh). Vou ao banheiro (lá dentro ligo pro Mauro...),e depois pegar a sacola ali na recepção.Au revoir.&lt;br /&gt;-- Espero lhe rever, Paula (epa, tentei não deu, ficamos só na beirinha, mas o suficiente pra me excitar, ai ai...). Também vou ao toilete (e falar com o Mauro,lá...) e depois pegar a mochila no balcão.S’il you later....&lt;br /&gt;É assim mesmo,na vida e na ficção, comenta Mauro com seus neurônios, diante do laptop, já deduzindo e induzindo o que ocorria lá fora com os dois. Enredos se formam,tramas se esboçam, roteiros se engendram, clímaxes e enlaces se anunciam, mas no fim nada sucede,tudo se imobiliza no mesmo.(leitores mais dedicados estão familiarizados com isso, não só nessa contemporaneidade pósmodernista,hum,argh,brrrr!,mas desde Balzac,Proust,Tolstoi,Henri James,Machado, Garret, de Maistre, ih tantos,até Borges e Cortazar...).&lt;br /&gt;Uma obra – ficcional ,vale frisar - “existe em três planos : como o autor o imagina antes de escrevê-lo; depois, quando está escrito, e, por fim, quando o leitor abre o livro; ao acabar de ler , o leitor termina também de reescrevê-lo à sua maneira porque, afinal, imagina coisas que não conhece nem nunca poderá conhecê-las porque perdidas no tempo” -- significativo que me venha à mente agora o que o prof. Adelto Gonçalves,reportando ao escritor catalão Eduardo Mendoza, registrou na resenha que escreveu sobre o livro Leitor real e teoria da recepção: travessias contemporâneas, de Robson Coelho Tinoco, e que,gentilmente como sempre, me enviou, para meu deleite de sempre.&lt;br /&gt;Paula e Raphael ainda vão se encontrar, e muito : oportunidades, iniciativas, planos e desejos muito se apresentarão.&lt;br /&gt;Paula, oh Paulinha, como és linda,maliciosa, oblíqua e dissimulada , te homenageio com esta imagem de minha musa literária; e inteligente,beirando a genialidade, intelectual obstinada, a workaholic nata. filha de d. Camila, que conheci muito bem, bela e charmosa sempre,mesmo aos 68 anos quando a vi pela última vez, ela sempre me reportando àquela profecia da lagartixa de Heine, subindo os Apeninos,a que Machado se referia: “dia virá em que as pedras serão plantas, as plantas animais, os animais homens e os homens deuses.”,assim permaneceu incólume ao tempo a mãe de Paula..&lt;br /&gt;Raphael, querido,de nome de anjo, mas nada angélico ou espiritualizado, muito menos bíblico ou cristão,mas obcecado em refletir sobre a nada utópica,assim também penso, possibilidade de conexão filosófica do ‘fides et ratio’, da conciliação plena de fé e ciência, de razão e emoção, do ‘sense and sensibility’’(preciso voltar a ler a Austen); intelectualidade pura e suprema, uma das pessoas mais racionais que já conheci, desde quando apresentado em 1992 pela Anita Novinski, lá na USP, logo nos entrosamos e me auxiliou tanto no São Paulo a cidade literária,como no estudo sobre Pedro II e o Brasil imperial e hoje neste estudo sobre a economia de 1850, que vai abastecer três projetos, e também está naquele maravilhoso projeto que acalento sobre a linguagem literária brasileira.&lt;br /&gt;- Droga, o celular do Mauro ocupado,justo agora ! não faz mal, ligo lá fora, depois de o moço sumir de vista...Vou decidir se levo o documento a ele, ou faço aquele joguinho : acho melhor isso ; devo ir pra casa, na Barra, ou sair pela night do Rio pra espairecer e dar um bordejo?...&lt;br /&gt;- Fala, Mauro, é Raphael, o quê? sim, estou sozinho agora, falando com segurança total. Tudo em cima, recolhi o que tinha de recolher, vitória completa, com méritos, não ? O projeto avançará a todo vapor, congratulemo-nos, e parabenize-me, amigo, atendi a seus anseios... Ah, já foi pra casa em Petrópolis,não está no Leblon? e como lhe entrego os documentos? Ei, nada de emoção nem saudação? claro, você sempre meio distanciado, sempre que pode vem com esse jeito lacônico....&lt;br /&gt;-- Ah, celular livre. Oi, amor, sou eu. Hein? Tô, tô sozinha, segurança plena pra falar. Consegui tudo,vitória ! não acreditava né, não vai me cumprimentar? Vamos festejar?... O quê? está em casa,em Petrópolis? mas não ia me esperar no Leblon?...mas que descaso, tá fazendo jogo, lá vem você com isso.... não quer ver logo os documentos?...E como e quando lhe mostro? só depois de amanhã, no Leblon ? Porra, pensei que estivesse ansioso, e doido pra me ver ...&lt;br /&gt;...E deixei de sair com a gata da Paula, dava até um jeito, com meu talento, pra convencê-la, mesmo com o compromisso que dizia ter: tudo pra preservar o segredo da pesquisa. É... nesses momentos que sinto nitidamente que Mauro não me tem como amigo verdadeiro, como parceiro e companheiro de estudos,projetos, pesquisa – tudo é ficção, me faz, isso sim, de mero personagem!!!&lt;br /&gt;Estou pra matar esse cara... E eu, idiota, não saí com o Raphael, pra resguardar o segredo desta pesquisa, que raiva ! Agora mesmo é que vou pra noite carioca, me aguarde baixo Gávea! Sabe de uma coisa: nessas horas vejo claramente que o Mauro, cretinão, não me tem como amiga, até mesmo companheira, como parceira de estudos,pesquisas,projetos – é tudo ficção, me tem como simples personagem!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5121148060136346781-1648432816541743041?l=pandorawiki.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pandorawiki.blogspot.com/feeds/1648432816541743041/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5121148060136346781&amp;postID=1648432816541743041&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/1648432816541743041'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/1648432816541743041'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pandorawiki.blogspot.com/2010/07/cenaculos-de-ensaioficcao-e-desejo.html' title='CENÁCULOS DE ENSAIO,FICÇÃO E DESEJO'/><author><name>Caixa de Pandora</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13780187324490495166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TOXBy1EVxVI/AAAAAAAAAic/POmRMcX667A/S220/foto%2B1.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TD2pK6Ow5HI/AAAAAAAAAh4/_dhwnjMM25M/s72-c/sexualidade+2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5121148060136346781.post-6205286889263861349</id><published>2010-06-10T08:06:00.000-07:00</published><updated>2010-06-10T08:29:27.165-07:00</updated><title type='text'>O futebol ,paixões e ódios , os literatos , duas cidades</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TBEEouu8zVI/AAAAAAAAAhc/SEuE8Fg4iMA/s1600/futebol+Portinari.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5481167319272836434" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 118px; CURSOR: hand; HEIGHT: 94px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TBEEouu8zVI/AAAAAAAAAhc/SEuE8Fg4iMA/s200/futebol+Portinari.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;no Rio de Janeiro...&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O futebol, todos sabemos, surgiu no limiar do século XX no Rio de Janeiro como “uma grande novidade”, mas por ser esporte de origem inglesa logo cairia no gosto das rodas elegantes da cidade ( que na época cultivavam quase que exclusivamente o remo ) — e de imediato, por suas próprias características , despertaria paixões acirradas, não apenas entre torcedores e admiradores dos clubes então formados ( Payssandu Cricket Club, Fluminense Foot-Ball Club, The Bangu Athletic Club, etc ).&lt;br /&gt;O futebol, mais genericamente o esporte, na verdade constituiu um elemento dos modismos aos quais a sociedade da cidade do Rio de Janeiro, inclusive os literatos e intelectuais,aderiu, no afã de se integrar a um processo de modernização advindo e preconizado pela República, implantada em 1889 e que tinha entre seus projetos de afirmação ideológica e política revelar-se como meio e suporte de transformar um país “atrasado não só institucionalmente,porquanto monarquia até então, como também econômica, socialmente e até urbanisticamente” e mostrar ao concerto das nações mundiais ser o regime mais adequado a superar e sustentar as exigências de um processo capitalista de transformação e evolução.&lt;br /&gt;Por essa época, nas principais cidades do Brasil começou a fervilhar entre seus jovens -- explicitamente por influência dos ingleses que aqui viviam -- as práticas esportivas mais variadas: o rowing (remo), o tênis, a luta greco-romana, o turfe, a pelota, o box, o ciclismo, a esgrima, o golfe, a patinação, o hipismo, além do tiro ao alvo, automobilismo, e notadamente do cricket:, modalidades que rapidamente espraiaram-se por setores da sociedade local.&lt;br /&gt;Ainda que desde os tempos de Colônia persistisse no Brasil uma espécie de postura/ideologia ‘anti-esportiva’ por força da cultura escravocrata, que sedimentara entre brasileiros e portugueses o valor do ócio e a convicção de que o esforço físico “não era digno” (o que viria a ser revertido na década de 1910 pelo culto ao esporte e à educação física), e também por causa do medo da febre amarela que mantinha as pessoas afastadas de aglomerações (a epidemia de febre amarela assolou o País até 1906, quando foi debelada pelo médico sanitarista Oswaldo Cruz). .Não se praticava esportes também porque não havia, entre os brasileiros e portugueses, o hábito de freqüentar clubes -- somente por volta de 1860 começaram a surgir os primeiros embriões de agremiações esportivo-sociais, sempre graças à iniciativa de ingleses para efeito da prática do cricket: pois foi justamente um clube dessa modalidade que em 1901 deu origem ao primeiríssimo clube de futebol do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;Pelos registros ‘oficiais’, o futebol teria surgido no Brasil -- mais precisamente no estado de São Paulo -- com Charles Miller, que retornando da Inglaterra em 1894, trouxe com ele as bolas e o sonho de ver o futebol crescer no país. Na capital paulista surgiram os clubes São Paulo Athletic (que só praticava o cricket), o Sport Club Internacional e o Club Atlético Paulistano. No Rio de Janeiro os pioneiros clubes especificamente de futebol, com tal denominação, foram o Fluminense Football Club , fundado em 1902, e o Botafogo de Foot-ball e Regatas, em 1904.&lt;br /&gt;Mas informações de igual credibilidade histórica induzem a se admitir que as origens da prática do futebol no Brasil remontam a épocas, formas e locais outros que os ‘fields’ e os clubes elitistas do início do século XX : estariam também nas ruas e em colégios. Ainda no século anterior a esse, escravos e jovens pobres já procuravam imitar os marinheiros ingleses que corriam com uma bola no porto do Rio de Janeiro e , segundo fontes insuspeitas, seminaristas eram incentivados pelos jesuítas a praticar futebol como parte da educação física .&lt;br /&gt;Justamente por ter vindo da “Old Albion” (assim era chamada a Inglaterra, ‘ na intimidade’, pelas elites) , em seus primeiros anos na cidade o futebol teve um caráter restrito, praticado preponderantemente por jovens ricos e bem-nascidos — mas já no final da década de 1910 alcançava uma popularidade nunca vista, logo fascinando um significativo contingente de jovens, primeiro atraídos pela praticidade — jogar futebol era tão possível quanto assisti-lo, ao contrário do remo, do turfe, do pólo — depois maravilhados com a dinamicidade e plasticidade que aliava ritmo e vibração, movimento e velocidade de maneira bastante peculiar — e ,tanto quanto os demais esportes trazidos por migrantes de boa estirpe do Velho Mundo , enquadrou-se naqueles anseios elitistas de transformar as cidades brasileiras segundo modelos das metrópoles européias.Nesse sentido, jogar futebol simbolizava estar sintonizado com um novo modelo de sociedade e inserção num padrão ‘civilizado’. Até porque as autoridades e dirigentes do País impuseram-se a tarefa de “organizar a sociedade” — a começar pela capital da República, modificando o traçado urbano, e atuando também no âmbito da saúde, do trabalho, da educação e do lazer. Uma atuação ‘pedagógica’ que contou com um forte aliado : o esporte.&lt;br /&gt;Só que a incontrolável difusão veio a extrapolar esses primeiros limites sociais. Na segunda metade da década de 1910, por exemplo, já era o esporte “de maior número de praticantes e adeptos”, segundo a revista Época Sportiva ; a popularidade ímpar do futebol, além de obrigar a criação de seções especiais nos jornais de então — como O Paiz, Gazeta de Notícias, A Noite,Correio da Manhã — mas mantidos os tradicionais espaços para o remo e o turfe, fez nascer publicações especializadas, como a citada Época Sportiva, Sport Ilustrado, Sportmen (esta, de São Paulo ).O crescimento e o interesse desperto pelo jogo de bola não tardariam em ocupar maiores espaços nas páginas dos jornais.&lt;br /&gt;Se em 1901 o público presente na primeira partida disputada no Rio de Janeiro era menor que o número de atletas em campo, em 1904 o futebol já atraía tanta gente que foi preciso a Federação Carioca das Sociedades de Remo oficiar aos clubes um apelo para que não fossem realizados jogos nos dias de regatas.E em 1906, no campo do Fluminense, cerca de mil e quinhentas pessoas aglutinaram-se para ver um “match” entre brasileiros e ingleses(estes, na verdade, ingleses residentes no Rio de Janeiro).&lt;br /&gt;A extraordinária e avassaladora difusão do futebol nos primeiros anos do século XX, não apenas no seio das chamadas rodas elegantes da sociedade brasileira, encontrou também generosa guarida entre intelectuais e escritores — contingente social e profissional que passou a adquirir notável significância e papel de proa no contexto histórico de então : afinal, conferia-se uma nítida feição de elegância e distinção para o futebol — e o elitismo originário se manifestava tanto no fato de ser praticado pelas camadas ‘endinheiradas’ como notoriamente pela exclusiva utilização dos termos ingleses que faziam parte do vocabulário do chamado “jogo bretão”. Bastante apropriado para aquele tipo de ‘cultura belle èpoque’ então vigente...&lt;br /&gt;João do Rio foi o primeiro cronista a detectar a importância do jogo para a cidade , assinando com o pseudônimo de José Antonio José (um de seus ‘disfarces’ jornalísticos : com esse nome, escreveu por exemplo Memórias de um rato de hotel) uma crônica intitulada “Pall Mall Rio – Foot-ball” em O Paiz de 4 de setembro de 1916, onde vaticinava :“Tenho assistido a meetings colossais em diversos países, mergulhei no povo de diversos países, nessas grandes festas da saúde, da força e do ar. Mas absolutamente nunca eu vi o fogo , o entusiasmo, a ebriez da multidão assim .”&lt;br /&gt;Na esteira de João do Rio, impressionados com a avassaladora popularidade do futebol, os intelectuais, e notadamente os escritores, se entregaram à tentação e ao desafio de interpretá-lo,o futebol vindo a sensibilizar, em maior ou menor grau, a quase todos, como Olavo Bilac, Luis Edmundo, Afrânio Peixoto – a quem atribui-se participação decisiva nesse despertar de interesse pelo futebol entre os literatos : médico que também era, foi o primeiro a legitimar, sob argumentação científica,o futebol como atividade ‘respeitável’, ligando-o ao intelecto e à educação. Peixoto chegou a declarar ,em 1918 ,que “esse jogo de foot-ball, esses desportos que dão saúde e força, ensinam a disciplina e a ordem, fazem a cooperação e a solidariedade, me enternecem, porque são grandes escolas onde está se refazendo o caráter do Brasil (...) o futebol estará reformando, senão refazendo o caráter do Brasil ” (em “A educação nacional”, no livro Poeira de estrada, 1918)”.&lt;br /&gt;Sob outro prisma, pode-se da mesma forma entender a notável receptividade que o futebol encontrou, de pronto, junto aos literatos por força do culto então vigente no seio da sociedade carioca a ‘traços e coisas da modernidade, à européia’.. Logo, escritores como Coelho Neto e Olavo Bilac, por exemplo — até mesmo por sua ‘índole estilística’ — não hesitaram em ‘literatizar’ o esporte, pincelando-o com tons e matizes da Grécia e da mitologia,dedicando-se integral e incondicionalmente à louvação — e, de certa forma, mitificação — do novo esporte, e apregoando as vantagens ‘filosóficas’ de sua prática e disseminação : o futebol enquanto prática de aprimoramento físico e instrumento de otimização social.A função do novo esporte seria “(...) criar no país uma “nova raça que deixasse definitivamente para trás a sua malfadada herança cultural(...)”. O modo pelo qual isso poderia ser conseguido era bastante claro: abrindo mão dos interesses pessoais, todos deveriam trabalhar por uma mesma causa, por um mesmo ideal — não por acaso uma das preocupações básicas dos defensores da melhoria da raça brasileira, que faziam da propaganda cívica uma das estratégias básicas de sua atuação. Era o ‘discurso eugênico’ que então permeava e prevalecia no meio científico brasileiro — e mundial — divulgando e enfatizando os ‘sentimentos nobres’ atribuídos as “raças superiores”, como o senso de disciplina, a harmonia social e o amor à Pátria.&lt;br /&gt;De resto, a prática e aceitação do futebol se expandia entre todas as camadas da população, inclusive e notadamente entre trabalhadores e operários : os esportes seriam em geral uma lídima expressão de educação física, “saudável ao corpo e à mente”. Por considerá-los verdadeiras fontes de energia, cada vez mais intensificava-se uma campanha a favor dos esportes: assim, o futebol iria contribuir para a criação de uma sociedade “saudável, forte, altaneira, os de homens adestrados pelo exercício físico e preparados, em corpo e mente a fazer o progresso da Pátria”-- e justamente aí reside um elemento capital das excepcionais aceitação e admiração por parte de muitos intelectuais e literatos: viam no futebol, mercê de sua notável popularização e dotado de ‘sentido tão nobre’, “uma força de transformação sociológica”,adequado a alguns dos projetos de cunho político e social que sustentavam e se propunham a promover.&lt;br /&gt;A par de ‘instrumento de regeneração social’, o esporte abrigava os princípios do ‘helenismo’ e do ‘espírito olímpico’ inerente a Atenas : o futebol derivava-se em linha reta dos jogos atléticos da Hélade (e por outro lado,como hoje interpretado, resgataria e expressaria a katarsis,individual e coletiva, almejada e idealizada originalmente pela filosofia grega — e se retirava dele o caráter ‘bretão’. Os praticantes do futebol e os jogadores dos clubes oficialmente constituídos seriam uma espécie de missionários de ‘uma causa nobre’, que dariam ao País exemplo de disciplina, solidariedade, energia, força... e civismo . Esporte e Nação, patriotismo e futebol ,eram conceitos e elementos inseparáveis.&lt;br /&gt;Entre todos, um logo se notabilizou como o maior dos adeptos, o mais vibrante entusiasta do novo esporte, tornando-se em pouco tempo grande ideólogo do jogo, mergulhando obstinadamente na defesa apaixonada das vantagens de sua disseminação : Coelho Neto. A atração que o futebol logo exerceu sobre ele manifestou-se já em seu romance Esfinge, publicado em 1908 , em que o personagem James Marian, um inglês hóspede da pensão de miss Barkley, tinha o hábito de “aos domingos, sair cedo com seu material de tênis e com roupa para o foot-ball”. E o futebol passaria a ser, a partir daí, tema onipresente não só nas crônicas e discursos mas também -- e principalmente -- na vida pessoal de Coelho Neto.&lt;br /&gt;Sócio do Fluminense, entregou-se cada vez mais à paixão -- pelo esporte e pelo clube. Tanto que chegava a assistir, no mesmo dia, quatro jogos diferentes do Fluminense, pois tinha filhos jogando em cada uma das categorias que o clube disputava ; tamanha paixão, que o levou a liderar a primeira invasão de campo do futebol carioca, inconformado com o juiz que marcara um pênalti a favor do Flamengo num movimentado Fla-Flu no campo da rua Paissandu, e que acabou provocando a anulação do jogo.Tamanha paixão que em 1915 escreveu a letra do primeiro hino do Fluminense ( “O Fluminense é um crisol / onde apuramos a energia / ao pleno ar, ao claro sol / lutando em justas de alegria / o nosso esforço se congraça / em torno do ideal viril / de avigorar a nossa raça / do nosso Brasil ...) ,onde fica evidente e bem mais nítida a campanha que ele começava a mover a favor do futebol.&lt;br /&gt;Coelho Neto via o futebol “ajudando a criar uma sociedade na qual os homens , qual os esportistas, fossem adestrados pelo exercício físico, criando um tempo de paz e de harmonia e abrindo o peito para valores nobres de confraternização e integração social”. E os jogadores, para ele, assumiam a feição de verdadeiros missionários de uma causa nobre : propagando os princípios da disciplina e da solidariedade, os atletas dariam ao país grande exemplo, ajudando a consolidar o potencial transformador do futebol.Gerando harmonia e solidariedade entre os homens, controlando seus impulsos e moldando seus corpos e suas mentes na construção de um ideal de Pátria, o futebol seria a força propulsora de uma nação forte e vigorosa e os jogadores representantes dessa nova nação que se erguia dos campos.&lt;br /&gt;Contudo, numa efetiva contramão desse contexto, emerge e insere-se Lima Barreto e seu inquebrantável repúdio ao futebol – que,de resto, integrava-se à ojeriza visceral e irredutível ao estrangeirismo, a tudo que fosse alienígeno à nacionalidade, vistas também como ‘estrangeiras’ as elites republicanas. Via a sociedade brasileira como o fruto da combinação de distintas etnias, mestiçagem essa que atingira grau elevado de intimidade e adaptabilidade á natureza tropical; abominava por isso a preocupação obsessiva das elites em fomentar e transmitir a imagem de uma ‘nação branca e civilizada’, fato que as tornava tão estrangeiros quanto os europeus e americanos “invasores, as mais das vezes sem nenhuma cultura e sempre rapinantes.”.&lt;br /&gt;Na crítica à violência gerada pelo futebol dentro e fora dos campos, inseria-se também em sua crença e pregão dos ideais de fraternidade, harmonia e paz entre os homens; na crítica aos elitismo, sectarismo e exclusão social promovidos pelo futebol, a manifestação de sua ideologia anarquista-maximalista. E mais : na essência mesmo do futebol, encontrava-se a figura de Coelho Neto, epígono e personificação da escrita/linguagem ‘empolada, de expressões cediças e figuras de efeito, cheias de arabescos estilísticos’, expressão da frivolidade e mundanismo então prevalecentes. Sobretudo o futebol como exemplo da pretensa, falsa e “obtusa” modernização preconizada e pretendida pela, segundo ele, “nefanda República&lt;br /&gt;Lima Barreto alinhava-se entre “os tantos inimigos que pela imprensa o combatem” e que logo passou a fazer do futebol um de seus temas prediletos nas páginas da imprensa carioca. Com espaço e reconhecimento já assegurados nos círculos literários , com três romances e uma infinidade de crônicas, Lima inaugurou seus ataques em 15 de agosto de 1918 no artigo “Sobre o Foot-ball” no jornal Brás Cubas :&lt;br /&gt;“ Diabo ! A coisa é assim tão séria ? Pois um divertimento é capaz de inspirar um período tão gravemente apaixonado a um escritor ?&lt;br /&gt;(...) Reatei a leitura, dizendo cá com os meus botões : isto é exceção, pois não acredito que um jogo de bola e sobretudo jogado com os pés, seja capaz de inspirar paixões e ódios. Mas , não senhor ! A cousa era a sério e o narrador da partida, mais adiante, já falava em armas...&lt;br /&gt;Não conheço os antecedentes da questão; não quero mesmo conhecê-los; mas não vá acontecer que simples disputas de um inocente divertimento causem tamanhas desinteligências entre as partes que venham a envolver os neutros ou mesmo os indiferentes, como eu, que sou carioca, mas não entendo nada de foot-ball . “&lt;br /&gt;Lima atentava, desde o princípio, para a força social do jogo: longe de ser um mero passatempo sem sentido, era capaz de inspirar paixões e ódios — e o futebol adquiria para ele uma seriedade ímpar, que o obrigaria como ‘crítico de costumes’ a dedicar-se profundamente ao novo fenômeno. Transformando-se no paladino do combate ao jogo de bola, Lima elegeria justamente Coelho Neto como o principal adversário. Iniciava-se então um acirrado confronto pelas páginas da imprensa carioca , logo depois de mais um empolgante discurso de Neto, por ocasião da inauguração da piscina do Fluminense em 1919 — discurso que para Lima parecia um verdadeiro pecado, manifestado na crônica “Histrião ou literato” , na Revista Contemporânea, de 15 de fevereiro de 1919 :&lt;br /&gt;Lima Barreto acusava Coelho Neto de fazer “somente brindes de sobremesa para satisfação dos ricaços”, e sustentava que a simpatia de Neto pelo futebol seria mero oportunismo, um meio de agradar às ricas famílias , vindo de “um homem que não entende sequer a alma de uma criada negra”. A partir daí, Lima aumentaria a quantidade e virulência dos ataques, em crônicas quer em tom agressivo quer irônico, nas quais surge a imagem de um jogo brutal e sem sentido, totalmente diferente do elemento de regeneração social preconizado por Coelho Neto, para desespero da imprensa carioca, quase toda ela empenhada em prestigiar o futebol — com raríssimas exceções como, por exemplo, a do jornalista e escritor Carlos Sussekind de Mendonça, que incorporou-se à luta de Lima Barreto contra o futebol, que ele considerava entre outros aspectos “micróbio de corrupção e imbecilidade”, “estrangeirismo estéril e inútil”. Propunha sobretudo combater , de todas as formas, a “nefasta defesa do futebol” feita por intelectuais e escritores — rejeitando, inclusive, qualquer teoria de que “o esporte possa manter alguma relação com a razão e o intelecto” — e denunciar as “verdadeiras atrocidades,até dentro dos próprios clubs” promovidas pelo futebol : como Lima Barreto, enfatizava o “blefe de regeneração social” contido no futebol e “os malefícios físicos, sanitários,sociais e culturais” de sua disseminação “que só pode ser bocado de feitiçaria” em campos “onde se apinham centenas de ociosos assistindo inertes, a transpirar, os vinte e dois heróis de maxambona ou caixa pregos” .Em 1921, então editor do jornal A Época, do Rio de Janeiro, Sussekind de Mendonça teve seu livro O sport está deseducando a mocidade brasileira - hoje obra raríssima - publicado com o subtítulo “dedicado a Lima Barreto”.&lt;br /&gt;Ainda em 1919, crescente sua oposição ao futebol, Lima Barreto passa a contar com a solidariedade de outros adversários do jogo: junto com ele, o dr. Mário de Lima Valverde — quem, cerca de dois meses antes ,discorrera para Lima sobre os malefícios à saúde provocados pela prática de futebol — o jornalista Antonio Noronha Santos e o “homem de letras” Coelho Cavalcanti resolvem criar, em março de 1919, uma “Liga Contra o Futebol”, cuja constituição é anunciada em pequena nota na edição do Rio-Jornal de 12 de março.&lt;br /&gt;As aludidas “verdadeiras atrocidades promovidas pelo futebol”, eram denunciadas por Lima Barreto — como na crônica intitulada “Divertimento?”, publicada na revista Careta em 04 de dezembro de 1920, em que destacava os inúmeros conflitos e constantes brigas ocorridos nos campos, com tumultos e batalhas entre torcidas diferentes, registradas nos jornais diários a cada segunda-feira, culminando com o tiroteio num jogo entre o Metropolitano e o São Paulo e Rio em 18 de dezembro de 1920 — como atestados de que, mais do que casos isolados, seriam “o fim próprio e natural do jogo”, como sustenta no artigo “Uma conferência esportiva”, na revista Careta de 1 de janeiro de 1921.&lt;br /&gt;Por trás da oposição crítica barretiana estava muito mais do que uma questão literária ou mera contestação do papel de redenção social que Coelho Neto atribuía ao futebol: Lima via nele um fator de degeneração da cultura e da política nacional, pois patrocinava uma injusta e gritante diferenciação social e regional, como declarou em entrevista ao Rio-Jornal em 13 de março de 1919 :“ – Está aí, uma grande desvantagem social do nosso foot-ball. Nos dias em que, para maior felicidade dos homens, todos os pensadores procuram apagar essas diferenças acidentais entre eles, no intuito de obter um mútuo e profundo entendimento entre as várias partes da humanidade, o jogo do ponta-pé propaga sua separação e o governo o subvenciona “&lt;br /&gt;Lima criticava os “favores e favorezinhos” que os clubes de futebol recebiam do governo para “criar distinções idiotas e anti-sociais entre os brasileiros , e longe de tal jogo contribuir para o congraçamento, para uma mais forte coesão moral entre as divisões políticas da União, separa-as” : segundo ele, os clubes de futebol seriam “portadores de uma pretensão absurda, de classe, de raça, etc” – haja vista que os defensores do futebol sustentavam ser “um sport que só pode ser praticado por pessoas da mesma educação e cultivo”(jornal Sports, de 6 de agosto de 1915 ) e reclamavam “que alguns jogadores não tinham o nível social de há uns anos atrás” (Jornal do Brasil, de 3 de maio de 1920).&lt;br /&gt;Não eram apenas econômicas e sociais as distinções combatidas por Lima Barreto, mas também raciais, vedando aos negros participação nos grandes clubes de futebol: em 1921 quando o próprio presidente Epitácio Pessoa proíbe jogadores negros de fazerem parte do selecionado que ia à Argentina disputar um campeonato, Lima foi duro nas críticas, publicando no mesmo dia 1 de outubro de 1921 dois artigos — “O meu conselho” e “Bendito foot-ball” — no jornal A B. C., onde afirma que “quando não havia foot-ball, a gente de cor podia ir representar o Brasil em qualquer parte” e aponta o caráter nocivo do futebol para o país.“ É o fardo do homem branco : surrar os negros, a fim de trabalharem para ele. O foot-ball não é assim : não surra, mas humilha, não explora, mas injuria e come as dízimas que os negros pagam .”&lt;br /&gt;Vendo nos sócios dos grandes clubes os herdeiros dos antigos senhores de escravos, Lima enxerga no futebol “uma das formas de continuação da dominação exercida durante décadas pelo regime escravista, onde se troca a violência pela humilhação de quem paga impostos para sustentar, com subvenções oficiais, um jogo ao qual não tem acesso”, o futebol aparece em seus textos como “ um poderoso instrumento de domínio utilizado por uma raça que se julga eleita por Deus graças às suas habilidades nos pés ; como a escravidão, sua única finalidade é criar uma separação idiota entre os brasileiros, perpetuando as desigualdades e continuando um passado de diferenciação e segregação” (artigo “O nosso esporte”, publicado no jornal A . B. C., de 26 de agosto de 1922 ).&lt;br /&gt;Direta ou indiretamente, não há dúvida de que os literatos como Coelho Neto e Lima Barreto e suas polêmicas alimentavam um processo que anos depois faria do futebol, como o é hoje, uma verdadeira instituição nacional. A dinâmica da transformação do jogo em fenômeno nacional — com suas implicações sociológicas, políticas e culturais — no entanto, foi muito menos compreendida por Coelho Neto do que por Lima Barreto, que indignado com o fato de “indivíduos que não davam para nada “ serem transformados em verdadeiros “heróis nacionais”, refutava no último artigo escrito antes de morrer ( “O herói”, para a revista Careta de 18 de novembro de 1922 ) a lógica que fazia desses “pobres esforçados, que nada fazem para o benefício comum, injustas ‘glórias do Brasil’”.&lt;br /&gt;realidade incontestável é que o futebol continuou – e continua -- ao longo do tempo, sua meteórica ascensão e disseminação entre todas as camadas e estratos, como ‘força esportiva’, ‘força social’, ‘força cultural’. Seguiu sua trajetória eletrizando todas as camadas sociais e sensibilizando escritores, artistas e intelectuais — de Graciliano Ramos, que o repudiava ("Futebol não pega, tenho certeza; estrangeirices não entram facilmente na terra do espinho", em 1916), a Orígenes Lessa,Fernando Sabino, que o inseriram em contos ; de Gilberto Freyre,um entusiasta de primeira linha, que incluiu o futebol em muitos de seus escritos, a Mario Filho – autor do memorável O negro no futebol brasileiro – e chegando ao auge da paixão futebolística ‘a serviço’ da literatura, nela integralmente enfronhada e estigmatizada, em José Lins do Rego e Nelson Rodrigues&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;... e em São Paulo&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;Por sua vez, na esteira e na órbita do pioneirismo que sempre caracterizou a cidade, São Paulo foi ‘o berço do futebol no Brasil”[o introdutor do futebol no Brasil,Charles Miller, descendente de ingleses e escoceses, era um paulistano nascido no Brás, aos 9 anos seguiu para a Inglaterra com a finalidade de estudar, e lá aprendeu - e bem - a jogar futebol. No ano de 1894, retornando de seus estudos na Inglaterra, trouxe na bagagem uma bola de futebol e começou então a catequizar seus companheiros de trabalho e de críquete - altos funcionários da Companhia de Gás, do Banco de Londres e Ferrovia São Paulo Railway, fundando em 1888 o primeiro clube de futebol do Brasil, o São Paulo Athletic, clube que congregava os britânicos residentes em São Paulo], a primeira cidade a organizá-lo e disseminá-lo em campos oficiais, pelas ruas e pelos terrenos baldios. Principalmente por causa dos imigrantes europeus,sobretudo ingleses,que — a exemplo do Rio de Janeiro — contribuíram para a disseminação dos esportes em geral e para fundação de clubes esportivos, a princípio de cricket e depois, de futebol.&lt;br /&gt;Na verdade, nenhuma cidade brasileira como São Paulo apresenta tamanha precocidade na introdução do futebol: já no final do século XIX era praticado em clubes, empresas(de capital inglês) e escolas; em 1896, por exemplo, o velódromo da família Prado, na Consolação, foi reformado para abrigar partidas de futebol ; em 1902 a cidade organiza o primeiro campeonato de futebol do país — a primeira partida de futebol realizada no Brasil, dentro das regras oficialmente estabelecidas na Inglaterra em 1863, aconteceu na Várzea do Carmo, entre as equipes inglesas São Paulo Railway e The São Paulo Gaz, em 14 de abril de 1895 (jogo ganho pela primeira por 4 x 2); e o primeiro clube de futebol formado essencialmente por brasileiros foi o Mackenzie College, criado em 1898.&lt;br /&gt;Em 1899 são fundados primeiro o S.C. Internacional, e quinze dias depois o S.C. Germânia. Em 1900, pode-se dizer, nasceu a verdadeira organização do futebol paulistano quando chegou, de volta de seus estudos na Suíça, o jovem Antonio Casimiro da Costa, que começou a lutar para a constituição de uma Liga dos clubes já existentes, e pela organização de um campeonato . Neste mesmo ano deu-se a fundação do Clube Atlético Paulistano; e em 1904 apareceu a Associação Atlética das Palmeiras — que até 1915 foi constituída por doutorandos, engenheiros e futuros advogados. Isso porque o futebol era o coqueluche da mocidade estudiosa de São Paulo, no início do século: quase que se limitava aos estudantes naquele tempo, quase todos filhos de famílias abastadas ; a verdadeira diversão domingueira da alta sociedade paulistana, não se compreendia então um acadêmico de direito sem ser integrante de um dos clubes já existentes. A classe dominava abertamente no Paulistano, Palmeiras, Mackenzie e Internacional: muitos rapazes, grandes craques do início do século, foram e são homens públicos, cientistas, diplomatas, jurisconsultos e engenheiros famosos: tornaram-se os ídolos máximos dessa geração Rubens Sales e Arthur Friedenreich, este considerado o primeiro craque do futebol brasileiro (e autor do primeiro gol da seleção nacional, em 1914).Em 1920 o futebol já dominava a cidade inteira -- memorável entre os fatos esportivos, foi a excursão do Paulistano à Europa em 1925(que inclusive propiciou o poema “E a Europa curvou-se ante o Brasil”, de Oswald de Andrade).&lt;br /&gt;Estudiosos sugerem duas hipóteses para tentar explicar a razão pela qual São Paulo — que já contava desde o início com um espaço específico, o velódromo da Consolação — antecede o Rio de Janeiro na adoção do futebol: primeiro, o Rio já possuía um esporte de relativa popularidade, o remo, que o futebol somente conseguiu destronar por volta de 1910; segundo, por causa da índole de modernidade paulistana embrião da metrópole frenética que naquele momento melhores condições possuía para assimilar inovações, e dentre elas o futebol. E São Paulo foi a primeira cidade a atrair grandes multidões aos campos: de um lado, o futebol, como prática popular de entretenimento, insere - se na própria formação da classe operária paulistana, como elemento de sua cultura; de outro, certamente o grande número de imigrantes e operários contribuiu para a rápida popularização do futebol na cidade.&lt;br /&gt;Mas um dos proeminentes vetores da popularização do jogo de futebol teria sido resultado direto da intervenção dos patrões, das autoridades, do Poder Público: no Rio, como contraposição à capoeira, já prática proibida; em São Paulo, a emergência e fortalecimento do movimento operário por volta de 1917 ‘revelou’ ao governo e aos empresários que a cidade precisava de “um esporte de massas”(sic) como antídoto contra as greves -- os operários seriam então ‘mandados a jogar futebol’, para o que os patrões “deveriam construir grounds”. O futebol seria assim um eficiente instrumento ‘disciplinador’ utilizado e patrocinado pelos industriais “para ordenar os trabalhadores e dinamizar a produção”, “um ensinamento de disciplina e de harmonia” — o esporte sendo muito mais uma imposição ou uma ‘dádiva’, muito menos prazer e desejo e iniciativa de quem o praticava. Ao mesmo tempo, em São Paulo os campos de futebol se constituíram em importante elemento na caracterização das vilas operárias, que eram “espaços de ordenação”: o futebol ajudava a manter o operário em ‘ordem e disciplina, livre do caos e da desordem’ e proporcionava aos trabalhadores ‘o relaxamento necessário para depois produzirem mais e melhor...’.&lt;br /&gt;Em São Paulo, o Poder Público isentava os campos de impostos, os industriais construíam grounds, e a polícia deixava de reprimir os “rachas” em terrenos baldios, já era bastante difundida e rotineira a prática do jogo nas várzeas.Naquele ano de 1902 em que os paulistas organizam o primeiro campeonato de futebol no Brasil surgiram os primeiros campos de várzea, que logo se espalham pelos bairros operário; já em 1908/1910 a várzea paulistana congregava vários e concorridos campeonatos, de forma que São Paulo não é apenas pioneira nacional no futebol ‘oficial’, mas também (e sobretudo) no ‘futebol popular’. Não por acaso, surge em 1910 aquele que, dentre os grandes clubes do futebol brasileiro, foi o primeiro a se formar a partir de uma base popular: o Sport Clube Corinthians Paulista.&lt;br /&gt;Um mais abrangente pano de fundo histórico registra que, pela necessidade de um reordenamento geral de todo o contexto social, o futebol passou a ser considerado como parte do processo modernizador e o desenvolvimento de práticas esportivas considerado uma forma de atenuar as tensões políticas. .Caracterizado já nas décadas de 1930/40 como um fenômeno popular e de massa, o futebol,assim como as atividades esportivas em geral, já era visto pelas elites governantes como um componente fundamental a ser atingido numa “cruzada disciplinadora”, correspondendo a um movimento cultural e político mais amplo, envolvendo tanto os interesses de disciplina social do Estado quanto a produção de uma identidade nacional (expressa e reforçada, por exemplo, pela participação da seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo de 1938 ).&lt;br /&gt;Nacionalismo e autoritarismo constituíam-se em eixos fundamentais na prática política e uma tarefa urgente se impunha: construir a nação brasileira. Para tal, o futebol, com sua extraordinária adesão popular, foi sem dúvida um excepcional instrumento. A relação dos esportes com a identidade da nação tornara-se decisiva , acionando a idéia de uma unidade nacional que tinha a seleção brasileira como uma das instâncias principais de representação simbólica, coincidindo com um projeto de configuração do Estado-nação de Getulio Vargas nas décadas de 1930 e 1940.&lt;br /&gt;Nesse particular, por exemplo, a construção de estádios de futebol passou a constituir prioridade para sua disseminação e arregimentação de massas populares: em abril de 1940 foi aberto ao público, em São Paulo, o Estádio Municipal do Pacaembu, “de linhas tão imponentes quanto harmoniosas, maravilhosa obra coletiva que encarna plenamente a modernidade paulistana”, com o qual nasceu uma das principais tradições políticas do futebol brasileiro: a construção generalizada de estádios com recursos públicos .&lt;br /&gt;Embora por volta de 1905 o futebol ainda fosse desconhecido para a ampla maioria dos brasileiros, em São Paulo já atraía grande interesse popular — tanto que até Monteiro Lobato, então acadêmico de direito, que numa carta a Godofredo Rangel, em 11.07.1904, escrevia: "(...) E cá estou de novo em São Paulo, mas ainda atribulado. Mudei-me para um quarto de frente na rua Araújo 26, com um lampião de rua bem junto à minha janela. Tenho luz de graça. E defronte há uma vizinha janeleira que já piscou. Em vez de namorá-la, meti-me no futebol –‘Palmeiras !’ Joguei vários dias seguidos e fiquei mais derreado que com as léguas do sertão. Estou cheio de pisaduras e dodóis. Isto deve ser o que na Vida intensa o Th. Roosevelt quer. O futebol empolgou-me de alma e corpo; escrevo crônicas de futebol e jogo. Diz o Tito que é mania - e diz-lhe o Raul:’Jacques, tu es un âne’. Seja como for, asseguro-te que o futebol apaixona e contunde".O mesmo Lobato de um discurso fervoroso em 1905 após assistir a jogos entre paulistanos e ingleses: "(...) Essa luta tinha para a população de São Paulo um significado moral dez vezes maior do que a eleição para um presidente do Estado (...) O último goal do Paulistano provocou a maior tempestade de aplausos jamais conhecida em São Paulo (...) É desta espécie de homens que precisamos. Menos doutores, menos parasitas, menos bajuladores, e mais struggle-for-life. Mais homens, mais nervos, mais corpúsculos vermelhos, para que um Camilo Castelo Branco não possa repetir que ele tem sangue corrompido nas veias e farinha de mandioca nos ossos".&lt;br /&gt;Apesar disso, não conseguia suscitar grandes paixões que extrapolassem o âmbito esportivo. Intelectuais e escritores -- caso de Amadeu Amaral, Sylvio Floreal, Hilário Tácito -- apenas esparsa e timidamente o registravam em seus escritos: quando muito admitiam e exaltavam a plasticidade do jogo, a elasticidade das jogadas, a empolgação dos que praticam e assistem as partidas . Mais tarde, já pelo final da década de 1910 e início de 1920 em São Paulo dava-se a dedicação documental-historiográfica de Antonio Figueiredo e Leopoldo Santana , um relativo envolvimento de Menotti Del Picchia -- registrando-o em poemas, nos roteiros dos dois primeiros filmes do cinema brasileiro sobre futebol, “Alvorada de glória” e “Campeão de futebol”,ambos em 1931, e na frase “o Corinthians é um fenômeno sociológico a ser estudado em profundidade” -- referências de Cassiano Ricardo, a simpatia de Raul Bopp -- em artigo sobre o “élan magnético” que o atraía para o futebol -- e sobretudo o ‘fervor’ de Alcântara Machado --não só pelo famoso conto “Corinthians (2) vs. Palestra(1)”, e pela crônica “Notas sobre a visita do Bologna F.C” , mas por uma relação direta com a difusão dos esportes no Brasil, fundador da primeira Liga Atlética Acadêmica do Brasil, entidade poliesportiva -- o completo envolvimento de Francisco Rebolo -- artista plástico e jogador de futebol, autor de “Jogadores de futebol” (1936), e um dos pioneiros na luta pela incorporação do negro no futebol brasileiro -- a motivação de Candido Portinari -- em duas séries de trabalhos “Futebol em Brodósqui” (1933) -- dos artistas Rodolfo Chambelland (“Menino com bola”, 1914), Ismael Nery (“Em caminho do goal”,1917), André Lhote (“Football”, 1933) , Djanira (“Futebol”, 1948), Antônio Gomide (“Futebol no morro”, 1959).&lt;br /&gt;O futebol posteriormente encontraria acolhida em muitos contos de João Antonio, Ignácio de Loyolla Brandão; ‘receptividade’ em escritos de Sergio Milliet, de Sergio Buarque de Holanda, Paulo Emilio Salles Gomes. – e especialmente em dois grandes intelectuais, Anatol Rosenfeld e Vilém Flusser. O alemão Rosenfeld em fins da década de 1930 auto-exilou-se no Brasil devido às perseguições sofridas na Alemanha hitlerista e aqui deu continuidade a sua vasta produção intelectual, escrevendo contos, poesias e crônicas, além de opinar sobre arte, sobre o pensamento europeu, sobre teatro, imprensa, rádio, filosofia, política ,antropologia — e sobre o futebol: no texto “O futebol no Brasil”, publicado originalmente em alemão no Anuário do Instituto Hans Staden em 1956, comenta sua introdução no país, preocupou-se em analisar os elementos sócio-econômicos do futebol, da ascensão das massas aos componentes típicos dos jogos de bola - o torcedor, o ídolo, o clube, explicando ao público germânico que “em terras brasileiras (...) entre os negros, mulatos e brancos pobres, havia um grande número de jogadores de primeira classe, seja porque os ajudava o talento natural, seja porque a ´sucção de subida´ e o remoinho das chances do futebol os envolvia e canalizava, seja porque eles não eram estudantes de medicina ou direito e freqüentemente não tinham uma profissão, podiam lançar toda a sua paixão no jogo; em suma, porque levavam o jogo a sério e ´não tinham nada a perder´. (...) Dar pontapés numa bola era um ato de emancipação(...)”. Flusser, filósofo tcheco, radicado em São Paulo na década de 1940, debruçou-se sobre o futebol por via do tema da alienação, que inclusive intitulou brilhante ensaio no qual contrapõe-se ao conceito de que o futebol exerceria somente uma função evasiva da realidade, ao contrário, vindo a constituir-se num elemento, isso sim, de engajamento por ter o futebol extravasado de sua seara original, como esporte e prática esportiva, para praticamente todas escalas -- sociais, culturais, antropológicas,sociológicas, políticas, econômicas ; chegou a formular o conceito de “um novo homem brasileiro, um homo ludens”.&lt;br /&gt;Intelectuais paulistanos, paulistas e migrantes/radicados — como Décio de Almeida Prado, Nicolau Sevcenko, Waldenir Caldas, José Sérgio Leite Lopes, Francisco Costa, Luiz Henrique de Toledo, Fátima Martin Rodrigues Ferreira Antunes — que se dispuseram a buscar uma compreensão do futebol construíram uma percepção do esporte como uma ágil e poderosa forma de expressão do caráter nacional; uma codificação positivista da estrutura social brasileira: o indivíduo, valendo-se de características muito peculiares, sobressairia-se a quaisquer empecilhos à sua sobrevivência e/ou ao relacionamento social, e assim alcançaria o sucesso e aceitação coletiva.&lt;br /&gt;O futebol interpretado sob a ótica da representatividade nacional, uma forma de se chegar a concepções sobre a brasilidade, colocando- o também no terreno da cultura popular, sob o projeto de construção de símbolos nacionais, que a música popular e o folclore já haviam tornado possíveis e que, naquele momento, por meio de uma ‘brasilidade esportiva’, o futebol também facultava. Refletiam e retratavam emblematicamente as tradução e decodificação sofridas pelo futebol ao longo das décadas de 1920, 1930 e 1940, metamorfoseando-se de esporte elitista estrangeiro em esporte nacional-popular.&lt;br /&gt;Relevante observar especificamente o relacionamento dos intelectuais modernistas com o futebol, recebido de modo diametralmente oposto na primeira, na segunda e na terceira fase (assim Afrânio Coutinho caracterizava o ciclo modernista). O fenômeno futebolístico no Brasil dos anos de 1920 passou muito ao largo das preocupações missionárias dos primeiros, o esporte visto como “subproduto de importação, a adoção de mais um artigo de luxo, com sua linguagem integralmente inglesa e seu vestuário britânico desconhecido, provindo de uma matriz européia transplantada por uma elite anglófila e francófila, ávida por novidades e exotismos, típico da dependência cultural brasileira”; depois, já na década de 1930, o futebol interpretado sob a questão da representatividade nacional, uma forma de se chegar às suas concepções sobre a brasilidade; e no decênio seguinte, ao entrar em cena os regionalistas oriundos do Nordeste, a interpretação modernista colocando o futebol também no terreno da cultura popular, retomando o projeto modernista de construção de símbolos nacionais, que a música popular e o folclore já haviam tornado possíveis e que, naquele momento, por meio de uma ‘brasilidade esportiva’, o futebol também facultava. Gilberto Freyre, por exemplo, em consonância com a noção de antropofagia desenvolvida por Oswald de Andrade em seu manifesto de 1928, identificou no futebol um exemplo indubitável da capacidade do brasileiro de transplantar, de assimilar e de reinterpretar os inúmeros produtos que historicamente vinham importados e impingidos da Europa.&lt;br /&gt;O modernismo pareceu à primeira vista lidar com certa cautela e muitas reservas, quando não, com explícita antipatia, diante do crescente e contagiante processo de popularização de um esporte de origem e teor eminentemente europeus. Mas a tradução e a decodificação sofrida pelo futebol ao longo das décadas de 1920, 1930 e 1940, metamorfoseando-se de esporte elitista estrangeiro em esporte nacional-popular, possibilitou aos escritores modernistas da segunda fase uma paulatina alteração no enfoque do fenômeno, ainda que não de uma maneira unânime e consensual.&lt;br /&gt;De Mário de Andrade e Oswald de Andrade o futebol recebeu imediatamente crítica e repúdio – mas em ambos amenizando-se ao longo do tempo, muito mais em Oswald , sem nunca alcançar porém o engajamento empolgado . Mario de Andrade o via como “uma moda fútil entre tantas que aportam da Europa” em Paulicéia desvairada, “uma praga” em Macunaíma, não deixa de realçar em algumas crônicas a violência e o teor elitista do futebol permeado de expressões estrangeiras (a la Lima Barreto), embora na crônica “Brasil-Argentina”, em 1939, acentue a transformação verificada em torno do futebol, o processo de apropriação pela identidade da nação, chegando a adquirir – em uníssono com a tese de Oswald – um caráter antropofágico onde se afirmava a capacidade brasileira de deglutição, bem como de assimilação das influências estrangeiras e de sua transformação em expressões genuinamente nacionais.&lt;br /&gt;Oswald de Andrade, por sua vez, referiu-se com uma certa simpatia – carregada de ironia – nos versos do poema “E a Europa curvou-se ante o Brasil”(em que refere-se à excursão do Paulistano à Europa em 1925), e em “Bungalow das rosas e dos pontapés”, sarcástico sobre a violência do futebol; a rigor, sempre combateu o futebol, como “veículo de alienação”, “ópio do povo”, inclusive elegendo para este confronto de idéias (reprisando o espírito de polêmica de Lima Barreto x Coelho Neto) José Lins do Rego– embora mais tarde fosse ligar-se a Mario Filho e a Candido Portinari justamente por causa do futebol...&lt;br /&gt;Impõe-se, de resto, a especulação reflexiva sobre duas instâncias do mesmo núcleo de questão: primeira, por que o futebol em São Paulo, a cidade natal do introdutor do futebol no Brasil, a cidade onde fundou-se o primeiro clube de futebol do País, onde realizou-se o primeiro campeonato organizado de futebol, a cidade berço do ‘futebol de rua, de terreno baldio’, a cidade que produziu o primeiro craque do futebol brasileiro, não teve já em seus primórdios,por parte de seus intelectuais, a mesma acolhida entusiástica como, por exemplo, no Rio de Janeiro? E depois, como avaliar o comportamento dos modernistas — da “primeira, segunda e terceira fases” — com relação ao futebol ? Entende-se que os modernistas da primeira fase tenham visto no futebol, em seu início de implantação no Brasil, um elemento elitista, “burguês e estrangeirista, alheado dos aspectos considerados essenciais e originais da cultura brasileira”—mas por que, depois da avassaladora popularização do futebol, transformado a partir da década de 1930 (o ano de 1938 como claro ponto de inflexão) em ‘símbolo de identidade nacional’, não se engajaram em sua aceitação, com o entusiasmo esperado, como elemento essencialmente ligado a seus ideais de nacionalidade, ou pelo menos não o encararam devidamente como um instrumento para chegar às suas concepções sobre a brasilidade, a exemplo do que tinham feito ao acolher, por exemplo, o folclore e a música popular ? O futebol tinha tudo para cair nas graças também dos modernistas da primeira fase (muito além dos registros de Alcântara, Menotti, Bopp, Cassiano) lado a lado com os da segunda fase (os do Nordeste) e da terceira fase , e mesmo dos ‘pós-modernistas’ — mas deu-se apenas na efêmera simpatia de ordem plástico-estética de Mario de Andrade e na contestação de cunho ideológico de Oswald de Andrade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;e por que o futebol empolga e ‘joga’ tanto com paixões e ódios ?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;São muitas as razões ,sob várias órbitas, porque o futebol, no Brasil, empolga e apaixona tanto, a todas as camadas sociais, todas as raças, todas as escalas culturais – de trabalhadores a intelectuais, de operários a literatos, etc – a todas as esferas :&lt;br /&gt;• por ser extremamente lúdico(até criando um “homo ludens”- sic), por sua plasticidade , que permitem e estimulam o drible,a ginga,a finta,, o ‘jogo de cintura’, o malabarismo, a malícia,a dança – elementos bem incorporados a ‘brasilidade’.&lt;br /&gt;• pelo contato físico direto, combate corporal, choque – a excitar o desejo de conquista,poder, dominação, inclusive com conotações sexuais [sic]: a violência que acompanha o futebol, quase que a ele inerente – claro, uma distorção do espírito que deve primar a prática de esportes – está ligada a esses conceitos e elementos&lt;br /&gt;• por resgatar e expressar a katarsis ,individual e coletiva—almejada e idealizada pela Filosofia grega e outras; ou mesmo de ‘anestesiamento’(como preconizado pelos patrões e empresários em São Paulo no início do século XX) e torpor&lt;br /&gt;• por permitir, como nenhum outro esporte , a ocorrência de resultados imprevistos(em que o time mais fraco em tese vence o mais forte, onde a chamada 'zebra' se faz presente): incerteza,imprevisibilidade, 'mistério', suspense, que guardam nítida - e psicologicamente explicável -- relaçãoilação com, p. ex. o gênero (romance,filme,etc)policial, de suspense(hitchcookniano- sic),de terror, etc.: quem matou,quem é o assassino? que time vai vencer? ; quem se salvará,quem matará o monstro?que time sairá classificado,qual será campeão?-etc.&lt;br /&gt;• por emblematizar,no caso da seleção brasileira, elementos de identidade nacional, pátria, etc (como,p.ex., se deu e foi incentivado ,como política pública, na década de 1930 – o Estado Novo- e depois na de 1970 – a ditadura militar 64-85)&lt;br /&gt;• pela necessidade de identificação e aceitação social – eou ‘familiar’ - por meio de um clube ou time (um processo familiar, de pertinência : “preciso pertencer a tal clube para ser aceito”).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Direta e indiretamente, não há dúvida de que enaltecimentos, louvações, críticas, polêmicas e dissidências, ao longo do tempo, alimentaram um processo que faria do futebol, como o é hoje, uma verdadeira instituição nacional.&lt;br /&gt;A realidade incontestável é que o futebol continuou – e continua – ao longo do tempo, sua meteórica ascensão e disseminação entre todas as camadas e estratos, como ‘força esportiva’, ‘força social’, ‘força cultural’. Esporte mais popular, no Brasil e no mundo, seguiu sua trajetória eletrizando todas as camadas sociais e sensibilizando escritores, artistas e intelectuais.&lt;br /&gt;Persiste o futebol, e assim será ad eternum, sempre provocando prazer e dor, polêmicas e alegrias, brigas, tumultos, conflitos, prazer, tristeza, paixões e ódios — nos campos, nos estádios, nos gramados, nas arquibancadas,nos terrenos baldios, nas várzeas, nos corações e mentes de todo o País.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5121148060136346781-6205286889263861349?l=pandorawiki.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pandorawiki.blogspot.com/feeds/6205286889263861349/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5121148060136346781&amp;postID=6205286889263861349&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/6205286889263861349'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/6205286889263861349'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pandorawiki.blogspot.com/2010/06/o-futebol-paixoes-e-odios-os-literatos.html' title='O futebol ,paixões e ódios , os literatos , duas cidades'/><author><name>Caixa de Pandora</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13780187324490495166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TOXBy1EVxVI/AAAAAAAAAic/POmRMcX667A/S220/foto%2B1.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TBEEouu8zVI/AAAAAAAAAhc/SEuE8Fg4iMA/s72-c/futebol+Portinari.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5121148060136346781.post-3577406138637327487</id><published>2010-05-13T14:20:00.001-07:00</published><updated>2010-05-13T14:25:47.668-07:00</updated><title type='text'>O cinema vai à literatura(e a literatura se vale do cinema)</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/S-xuStPXqsI/AAAAAAAAAhM/8CIcO4m4JZg/s1600/cine+brasil+I.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5470868915009071810" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 131px; CURSOR: hand; HEIGHT: 91px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/S-xuStPXqsI/AAAAAAAAAhM/8CIcO4m4JZg/s200/cine+brasil+I.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#cc6600;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Abrem-se as cortinas e projeta-se na tela mais um Festival de Cinema de Cannes. Excelente oportunidade para examinar as relações entre cinema e literatura .&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#cc6600;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Eventos como o Festival de Cannes -- e de resto, festivais regularmente realizados em distintas cidades,temáticas e enfoques, a entrega do Oscar, etc -- são excelentes por permitir uma reflexão sobre a sempre vigente relação literatura-cinema , com suas interseções, confluências ...e divergências . Poucas formas artísticas estabelecem entre si tantas relações de sentido mútuo, ainda que sujeitas a entreveros e embates, acusações de “infidelidade autoral”, polêmicas sobre liberdades de criação, etc.-- até porque são diferenciadas as linguagens e distintos os respectivos códigos e modos de funcionamento : narrativa literária e narrativa fílmica distinguem-se e na maioria dos casos contrastam- se; são sempre difíceis as transposições de uma para o outro, pois as características intrínsecas do texto literário -- originalidades, subjetividades, entrelinhas, elaboramentos -- por princípio não encontram a mesma expressão na narrativa cinematográfica.&lt;br /&gt;A par das diferenças, entre a página e a tela há laços estreitos -- em forma de ‘mão e contra-mão’ : a página contém palavras que acionarão os sentidos e se transformam na mente do leitor em imagens; a tela abriga imagens em movimento que serão decodificadas pelo expectador por meio de palavras.Entre a literatura e o cinema, há um parentesco originário, diálogo que se acentuou sobremaneira após a intermediação dos processos tecnológicos. Assim, a enorme e expressiva influência da literatura sobre o cinema tem sua contrapartida, por meio de um ‘cinema interior ou mental’ sobre a literatura e as artes em geral, mesmo em uma época precedente ao advento dos artefatos técnicos.&lt;br /&gt;Optando pela modalidade narrativa, o cinema roubou da literatura parte significativa da tarefa de contar histórias, tornando-se, de início, um fiel substituto do folhetim romântico. E, apesar de experimentações mais ousadas, como a "Avant-Garde" francesa da década de 1920, ou o surrealismo cinematográfico, que buscaram fugir dessa linha, a narratividade continua a ser o traço hegemônico da cinematografia.&lt;br /&gt;Daí, adaptar para o cinema ou para a televisão — meios reconhecidamente ligados à cultura de massa — obras de autores como Shakeaspeare, Dostoiévski, Tolstói, Balzac, Flaubert, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, para citar apenas alguns nomes de relevo no panorama universal e nacional — equivale a trazer para as mídias o prestígio da grande arte ou, no dizer de alguns, tornar a arte erudita acessível ao grande público. Mas a adaptação de obras literárias para o cinema e, posteriormente para a televisão -- meios que privilegiam a linha narrativa — também não se tem feito sem conflitos, pois as adaptações resultam sempre em empreendimentos insatisfatórios.&lt;br /&gt;Não se pode negar que, principalmente em seu período clássico, o cinema tenha procurado na aproximação com a literatura uma forma de legitimar-se. E além das freqüentes adaptações de obras literárias para a tela, tornou-se prática corrente, em particular naquele período, a contratação de escritores como roteiristas. Assim é que, em Hollywood, notáveis escritores como William Faulkner, Scott Fritzgerald, Aldous Huxley, Gore Vidal, , James Age,Nathanael West, dentre outros, tornaram-se os contadores de muitas histórias que comoveram o grande público e garantiram o sucesso de vários empreendimentos. Saber se tais roteiros traziam a marca da criação literária já é uma outra questão, que talvez possa ser analisada a partir da postura de alguns desses escritores-roteiristas. Faulkner, por exemplo, não fazia segredo sobre a natureza de sua atividade em Hollywood: "Faço apenas o que me dizem para fazer; é um emprego, e pronto."&lt;br /&gt;“A literatura e cinema não são tão distantes assevera o pesquisador e professor do departamento de espanhol e português da University of California (UCLA), Randal Johnson – com quem tive oportunidade de conversar quando de sua estadia no Rio de Janeiro, em 2008, convidado pelo Programa de Pós-graduação da Escola de Comunicação (ECO-Pós) da UFRJ em parceria com o Globo Universidade para ministrar uma disciplina compactada sobre Cinema, Literatura e TV. Para ele, as relações entre cinema e literatura não se limitam às adaptações do texto escrito para a tela, apontando três outros importantes pontos de encontro. O primeiro seria os filmes feitos sobre escritores – de que gradativamente proliferam os exemplos : agora mesmo Clint Eastwood confirma seu projeto de uma biografia fílmica de Mark Twain ;outro, seria o uso estrutural ou incorporação de textos literários no discurso cinematográfico – esta indubitavelmente a ocorrência maior, de que Stanley Kubrick, p. ex.,é um dos maiores artífices ; e também o encontro da literatura e do cinema poderia se dar através de referências como alusões literárias nos diálogos e citações implícitas ou explícitas, visuais, orais ou escritas diretamente na tela – um expediente cada vez mais recorrente na produção contemporânea. Por outro lado, Johnson critica enfaticamente a valorização do texto literário sobre o discurso cinematográfico, sustentando ser muito comum entre os espectadores uma exigência de fidelidade do filme ao livro. “A questão da adaptação como um problema só ocorre em determinadas circunstâncias, não ocorre, por exemplo, quando a obra literária não é conhecida” . A insistência na fidelidade da adaptação cinematográfica à obra literária originária,pode resultar em julgamentos superficiais que freqüentemente valorizam a obra literária em detrimento da adaptação, sem uma reflexão mais profunda. Os filmes são julgados criticamente porque, de um modo ou de outro, não são “fieis” à obra modelo. O conceito, de ‘fidelidade’ assume conotação crucial,tornando-se na discussão\reflexão do relacionamento entre cinema e literatura, no chamado ‘x da questão’ : tudo, a rigor, gravita em torno disso.&lt;br /&gt;Às vezes a mais fiel das adaptações faz o pior dos filmes, porque o material não se presta a uma história filmada e, na forma como está escrito, não funciona na tela, por mais forte que seja a história no original.&lt;br /&gt;Esse freqüente discurso da fidelidade,diz o professor, “carrega insinuações de um pudor vitoriano e se baseia na crença difundida de que a literatura é superior ao cinema, um preconceito devido ao fato da literatura ser anterior no tempo ao cinema, o que pode levar à idéia de que o livro é historicamente mais nobre e o filme secundário -- além evidentemente do “pensamento dicotonômico de que cinema e literatura são rivais a partir da crença na idéia de que o filme adaptado suga e destrói o que é essencial no livro”.A dicotomia,portanto,não existiria, porquanto “a linguagem escrita sempre esteve no cinema, desde os filmes mudos com as cartelas que continham as falas e pensamentos dos personagens, não sendo uma arte melhor nem pior que a outra”, conclui Johnson.&lt;br /&gt;Na verdade, desde que o cinema é cinema, a literatura tem sido um de seus pontos de partida – haja vista, sabemos, o quanto os já à época denominados “filmes de arte” (essencialmente franceses) do início do século XX procuravam se legitimar como obras sérias e eruditas a partir de textos clássicos e intérpretes teatrais. As relações entre o cinema e a literatura são tão fortes que alguns estudiosos chegam a afirmar a sua existência antes mesmo do surgimento do cinema. Para isto evocam uma teoria limite, segundo a qual há uma essência do cinema, de um “pré-cinema” embutido em alguns textos literários anteriores à forma de expressão cinematográfica, e que teriam como especificidade o fato de os escritores ordenarem o relato em função da incidência do olhar do narrador, da sua ‘ocularização’ da cena a narrar. Desse modo, a narrativa cinematográfica já se encontrava latente em alguns textos narrativos literários e o surgimento do cinema no final do século XIX foi apenas a “descoberta da tecnologia que permitiu concretizar o modo narrativo que enfatiza a visualização perceptiva da imagem de uma cena”, sentencia Jorge Urrutia em “El cine filológico”( in Discursos, n. 11-12.Coimbra: Coimbra: Universidade, 1998).&lt;br /&gt;E desde então, a relação logo passou a trilhar indissolúvel (sic) mão dupla, quando literatos e dramaturgos começaram a se inspirar no cinema para formar narrativas em prosa e em poesia. A rigor, as diferenças entre textos literários e filmes neles apoiados são marcadas por historicidades específicas de cada linguagem --- ísto é, o tempo histórico que cada um retrata (um filme realizado na década de 2000 abriga um relato literário escrito ou passado em 1890 , ou em 1950, etc ) : e o momento histórico de cada um é que se constitui faceta que conduz a inevitáveis diferenças. Nenhum filme ‘repete’ uma obra literária, nenhuma obra literária ‘repete’ um filme, quer pelas diferenças de linguagem, quer pelo momento próprio de produção e circulação de cada um de seus produtos.&lt;br /&gt;Essa intrínseca, dialógica e dinâmica relação nasce no momento em que o cinema descobre seu potencial digamos literário , ao absorver o modelo narrativo do romance do século XIX a subsidiá-lo para melhor contar histórias – malgrado podermos hoje levantar a reflexão em plena era da imagem digital em que vivemos : o cinema continuaria ‘preso’ a um modelo narrativo já ,em maior ou menor grau, superado pela própria literatura? Em 2003, o (excepcional) cineasta inglês Peter Greenaway disse, numa entrevista, que “a maior parte do cinema feito hoje é uma ilustração de romances do século XIX” .Se o cinema beneficiou-se do romance do século XIX, por que na era da imagem digital, quando a capacidade plástica do cinema atinge seu ponto mais alto, continuam-se a ilustrar romances do século XIX?&lt;br /&gt;O certo é que naquele tempo era “a arte dos novos tempos, arte de e para as massas”, com o nascimento de um novo olhar sobre um novo homem nascido na virada de um século para outro, um novo homem que precisava de uma nova forma de expressão – e nada como a sedução da imagem para tal. O escritor e cineasta africano Ousmane Sembene declarou que, quando a palavra não atingia seu público, ele usava o cinema para enviar sua mensagem. O cinema, para ele, não é um meio em si, mas um veículo, como o livro. Não importa o suporte, mas a mensagem. E assim, a forma é sacrificada pelo conteúdo. A clareza é uma das regras básicas para a sedução no cinema, o que fere as regras da própria sedução, que é cheia de desvios, sombras e não-ditos. Talvez Sembene não seja o melhor exemplo, pois seu cinema, apesar de ser usado como suporte, não faz parte do grande sistema, daquilo que se convencionou chamar “cinema industrial”. Mas, o que nos interessa aqui é ver um escritor, que é também cineasta, dizer que o que produz são idéias e não importa o meio em que elas chegarão ao seu público -- desde que possam ser compreendidas.&lt;br /&gt;Em muitos casos, o cinema não é um suporte apenas, mas é a própria mensagem do realizador, e nenhum outro suporte poderia substituí-lo.&lt;br /&gt;Examinado detidamente com isento rigor crítico, no campo da narrativa, em sua já longa história, o cinema não sofreu muitas variações – malgrado certas exceções, como experimentos ‘de vanguarda’ – e vem à mente, por aproximação etimológica, a “Nouvelle Vague” da década de 1960 , que se propunha a romper com a lógica linearizante da estética e da narrativa fílmica de até então, inspirada num congênere da seara literária, o “nouveau roman”—ambas dialogando entre si pelas respctivas técnicas narrativas, num movimento de realimentação recíproco entre as duas linguagens.&lt;br /&gt;Convém não esquecer,entretanto, que sob a égide de suas afinidades com a cultura literária, se o cinema europeu tendia, então, a se afastar do modelo romanesco tradicional, a indústria cinematográfica hollywoodiana, voltada para o entretenimento, consolidou-se seguindo padrões já consagrados da narrativa literária – levando Jorge Luis Borges a observar que, com os westerns, “Hollywood, por razões comerciais, naturalmente, salvou a épica, num tempo em que os poetas tinham esquecido que a poesia começou pela épica”.Tanto uma quanto o outro buscando ultrapassar as limitações formais e “não procurando ordenar o caos”, ao contrário, o caos tornando-se o princípio da criação. Os cineastas da “Nouvelle Vague”,p. ex., queriam mostrar que nem tudo faz sentido e que os caminhos são múltiplos; e por fim aquilo que Jean Cocteau afirmou sobre o cinema pode agora se efetivar, pois para ele, os filmes só seriam bons quando fossem acessíveis como uma caneta e um papel.&lt;br /&gt;Contudo, há de se atentar para um outro viés ,uma espécie de contra-mão no processo de interação cinema-literatura, no caso um contrafluxo mediado, executado,e recentemente cada vez mais incentivado pelo setor editorial e mercado livreiro – nos quais dá-se o crescente movimento de publicação de livros motivados... pelo cinema :roteiros de filmes, diários de filmagens, histórias sobre a elaboração de filmes(making-of), edição ou reedição de obras literárias abrigando imagens e outros elementos iconográficos que remetem para os filmes realizados a partir da adaptação da obra para o cinema – uma subversão das relações entre cinema e literatura. De resto, uma tendência à qual avolumam-se questionamentos sobre até que ponto sinaliza tanto ‘perda de prestígio’ e ‘distorção\vulgarização’ da matéria literária, como sobretudo ‘dessacralização’ da literatura, tênues que se tornam cada vez mais as fronteiras entre ela e outros tipos de bens culturais que circulam pela mídia.e no seio de consumo da sociedade.&lt;br /&gt;Na década de 1960, McLuhan chamava a atenção para o fenômeno de interpenetração entre diferentes mídias, destacando que, para a indústria cinematográfica hollywoodiana, um best seller era como um “jorro de petróleo ou indício de ouro”, isto é, os banqueiros de Hollywood farejavam, neste tipo de livro, grandes lucros para o cinema, uma garantia de sucesso de bilheteria. Além de já ter sido aprovado pelo gosto popular, o best seller ainda emprestaria ao meio cinematográfico a “superioridade do meio livresco”. É dessa época e desse processo a intensificação da arregimentação de escritores norte-americanos – dos melhores e mais significativos de suas gerações – não só como ‘fornecedores e alimentadores’ da produção cinematográfica hollywoodiana mas também como roteiristas ‘intensivos’.&lt;br /&gt;Das mesmas forma e diapasão e desse processo decorrente, deflagra-se ao longo da segunda metade do século XX,por parte e ação do setor editorial ,a contrapartida à incorporação da obra literária,fosse best seller ou não – muitas criadas especificamente para se transporem à tela – pelo cinema , com o relançamento de romances adaptados e especialmente com a publicação de roteiros .&lt;br /&gt;Neste particular, a relação entre texto literário e roteiro é assinalada pelo escritor argentino Ricardo Piglia , ao afirmar que a novela do século XIX está hoje no cinema e “quem quiser narrar como Balzac ou Zola deve fazer cinema”, acrescentando, que “quem quer narrar como Dumas deve escrever roteiros”. Para ele, o roteirista seria uma espécie de versão moderna do escritor de folhetins, porque escreve por encomenda e por dinheiro e a toda velocidade uma história para um público bem preciso que está encarnado no produtor ou no diretor, ou nos dois. A observação de Piglia, referindo-se à transferência da narrativa de ficção do suporte impresso do jornal, na forma de folhetim, para as telas, faz lembrar o fenômeno, iniciado na década de 1940 nos EUA, do incremento dos escritores roteiristas, que se “alugam para sonhar” ,reportando-nos ao título “Me alugo para sonhar” de um conto de Gabriel García Márquez, de 1992.&lt;br /&gt;Toda a literatura poderia, então, ser considerada como texto básico para um filme, e na direção oposta, parece que o cinema vem buscando cada vez mais o espaço do livro, no que o mercado editorial explora o filão das publicações derivadas de filmes.&lt;br /&gt;No ‘umbelical’ -- nada dicotômico, portanto --relacionamento do cinema com a literatura, podem ser extraídos, ou inferidos\induzidos, alguns elementos como : a) uma obra literária de grande repercussão é meio caminho andado para gerar um filme de grande repercussão – e alguns cineastas, Kubrick p.ex.sobressaía-se nisso, são exímios em realizar filmes-evento, inscritos na agenda cultural de seu tempo; b) mas ´por vezes os componentes de um grande romance podem ser impróprios para a realização de um filme baseado nele – a corroborar a sentença de Kubrick “livro é livro, filme é filme”.&lt;br /&gt;No viés contrário, também se dá a influência do cinema sobre a literatura. Henry Miller, talvez ironicamente, chega a saudar a substituição da literatura pelo cinema: “O cinema é o mais livre de todos os meios de comunicação, pode-se realizar maravilhas com ele. De fato, eu iria saudar o dia em que os filmes substituíssem a literatura, quando não houvesse mais necessidade de ler”(in Os Escritores- 2: as históricas entrevistas da Paris Review. São Paulo: Companhia das Letras, 1989).Mas tanto ele quanto nós todos sabemos,a par da integração mútua, da ‘independência’ entre ambas e que jamais uma poderá substituir a outra.&lt;br /&gt;Por outro lado e em outra vertente, ao praticarem exercícios literários, cineastas e roteiristas via de regra imprimem a suas narrativas muito mais o teor, o timbre, o ritmo, o timing fílmico -- e menos literário. E além disso, mesmo que sua estória e trama seja de ação,de movimento, costumam lidar com o onírico, o sonho , e com o psicológico -- que é, sabemos, elemento recorrente ao extremo no cinema, do expressionismo alemão a Stroheim, de Bergman a Buñuel, de Resnais a Godard. Não poderia ser de outra forma, pois são eles antes e acima de tudo pessoas do cinema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase sempre nesses exercícios literários de cineastas e realizadores cinematográficos ocorre que&lt;br /&gt;· a narrativa se faz em quadros, planos (longos , médios, curtos) e fotogramas , como num filme -- e qual angulações e diferentes tomadas, utilizam mudanças de foco narrativo ( de resto, recurso também comum e genericamente usado na literatura)&lt;br /&gt;· a narração geralmente corre veloz, fatos se dão e são relatados quase que a galope , denota-se certo açodamento : só que no cinema a ação é rápida e a passagem de tempo ‘invisível’ para o espectador -- mas não o é para um leitor; nos escritos de cineastas, de uma seqüência chega-se a outra sem intermediações, nem explicações , contando com a imaginação do leitor&lt;br /&gt;· na maioria dos casos,os personagens são desenhados superficialmente, sem o esmero e detalhamento descritivo comum à literatura -- mas como no cinema, um retratar rápido e sumário (já que o espectador vê) como se o leitor os estivesse vendo em imagem, numa tela de cinema ou de tv, e não delineando-os na imaginação; os personagens são moldados, agem e comportam-se como atores, que são vistos na tela, prontos, sem necessitar de muita elaboração&lt;br /&gt;· assim também com as situações, fatos e com a própria ação : mesmo as reflexões e indagações que por exemplo um narrador faça, a respeito da natureza e do comportamento de personagens,&lt;br /&gt;· como que a analisá-los, aparecem como que anotações geralmente feitas em meio ou à margem do texto de roteiro cinematográfico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, em literatura tudo há de ser elaborado de acordo com os métodos próprios e intrínsecos à escrita ficcional. Na maioria das vezes, o texto literário de gente do cinema carece, em sua construção, de uma ‘personalidade’ própria, ficando a meio-caminho entre o cinematográfico e o literário : entre altos e baixos, persegue uma certa ilusão de fusão de formas, meios e linguagens.“O romance , na verdade, sempre foi uma forma literária propensa ao diálogo com outras linguagens”, ensina o professor Flávio Carneiro, da UERJ, autor de Da matriz ao beco e depois, e o cruzamento da literatura com outras formas artísticas tomou um novo rumo, na década de 1980 , com a produção de obras que “ incorporam ao universo romanesco a linguagem do cinema, da televisão”.&lt;br /&gt;Tudo isso propicia um exercício de reflexão e indagação: as incursões de cineastas e de profissionais de tv na literatura podem ser bem resolvidas e bem sucedidas ? O caso é que um diretor de cinema ou de tv quando vai à literatura leva com ele uma bagagem da linguagem -- o ritmo, o corte abrupto, o esperar pronto entendimento do leitor, qual um espectador -- e assim comete pecados e pecadilhos marcantes ( veja-se por exemplo Patrícia Melo, que de roteirista de tv impõe em seus livros uma narrativa toda cinematográfica, e ainda recebe elogios orquestrados da mídia... ). Ao contrário, um escritor que vai para o cinema -- como roteirista, quase sempre -- o faz melhor, sabe adaptar, mostra-se mais seguro, os resultados são melhores: caso de Rubem Fonseca, dos exemplos clássicos dos escritores norte-americanos com Hollywood ,e ainda de Jean Louis Carrière , Dalton Trumbo no cinema europeu.&lt;br /&gt;Sob essa perspectiva, é comum cineastas em incursões literárias atuarem numa espécie de contramão, na via inversa do terreno do relacionamento -- ou do embate -- literatura/cinema ; os questionamentos sobre “apropriação de obras literárias por cineastas”, ao realizar filmes, ganha outro contorno, de sinal trocado : no caso, um cineasta não pega um livro e faz um filme (e vale lembrar que para Autran Dourado “não existe livro filmado, existe filme baseado em livro” ), mas escreve um livro com elementos e ‘cacoetes’ de filme. Sai de seu habitat original e vem para outro, mas utilizando o mesmíssimo instrumental, na vã tentativa de sintetizar o mimetismo palavra-imagem.&lt;br /&gt;Desejariam cineastas e roteiristas, ao escreverem uma obra literária, responder a Stanley Kubrick -- para quem “ tudo que pode ser escrito e pensado pode ser filmado” -- provando que ‘tudo que pode ser filmado poderia ser escrito?’...&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5121148060136346781-3577406138637327487?l=pandorawiki.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pandorawiki.blogspot.com/feeds/3577406138637327487/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5121148060136346781&amp;postID=3577406138637327487&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/3577406138637327487'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/3577406138637327487'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pandorawiki.blogspot.com/2010/05/o-cinema-vai-literaturae-literatura-se.html' title='O cinema vai à literatura(e a literatura se vale do cinema)'/><author><name>Caixa de Pandora</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13780187324490495166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TOXBy1EVxVI/AAAAAAAAAic/POmRMcX667A/S220/foto%2B1.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/S-xuStPXqsI/AAAAAAAAAhM/8CIcO4m4JZg/s72-c/cine+brasil+I.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5121148060136346781.post-8322407286239608241</id><published>2010-05-04T14:04:00.000-07:00</published><updated>2010-05-04T14:15:26.945-07:00</updated><title type='text'>Lima Barreto e a mulher - IX</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/S-COV5yJ8uI/AAAAAAAAAhE/yWgWef5EKos/s1600/dama+I+a+Pandora.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5467526454567367394" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 68px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/S-COV5yJ8uI/AAAAAAAAAhE/yWgWef5EKos/s200/dama+I+a+Pandora.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#993300;"&gt;&lt;strong&gt;feminismo&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;O nosso feminismo&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Uma moça, residente no Engenho Novo, nesta capital, foi sorteada, para o serviço militar. Negou-se a servir alegando a sua qualidade de mulher, que tudo está a indicar ser imprópria para serviço de tal jaez.&lt;br /&gt;Eu julgo que a razão e a justiça estão ao lado da moça: ela não pode nunca ser soldado. Isto por todas as leis divinas, naturais e humanas, pondo nesta categoria a Constituição Federal brasileira de 24 de fevereiro de 1891.&lt;br /&gt;Mas, o caso merece considerações e não posso deixar de fazê-las aqui muito rapidamente, com grande desgosto meu.&lt;br /&gt;A Constituição da República diz que "todo o brasileiro é obrigado ao serviço militar, em defesa da Pátria e da Constituição, na forma das leis federais".&lt;br /&gt;Diz também um pouco atrás que "os cargos públicos civis e militares são acessíveis a todos os brasileiros, observadas as condições de capacidade especial, que a lei estatui, etc., etc."&lt;br /&gt;Um feminismo interesseiro e burocrático que aí anda, entendeu de dizer que "brasileiro" neste último artigo está tomado no sentido geral; é tanto homem como mulher; é como réu, por exemplo, em outras leis.&lt;br /&gt;Com tão cerebrina interpretação, umas das damas espertas, dispondo de bons pistolões e alguma sabença das "irmãs", deram para invadir as repartições com os seus deliciosos sorrisos e os seus vestidos bem-cortados.&lt;br /&gt;Hoje, a não ser nas repartições do Ministério da Guerra e da Marinha, não se entra em nenhuma que não se tope logo com uma rua do Ouvidor de datilógrafas, amanuenses e até secretárias, sabendo grego e latim e aspirando à Academia de Letras-, antes de terem publicado a mais desvaliosa plaquette de versos.&lt;br /&gt;Diabo! Eu fui amanuense ou o que quer que seja de uma vetusta secretaria, durante quinze anos, e sei bem o quanto aquilo de fazer ofícios, registros e decretos dá à ambiência das repartições um ar morno e depressivo; sei bem que a graça feminina quebra esse ar magnificamente, como acontece, por exemplo, na repartição da Estatística, que tem sempre o ar festivo e galante de sala de baile.&lt;br /&gt;Mas lei é lei; e a Constituição quando falou em "brasileiro" aí, no tal artigo, não incluiu mulher, porque ela se quis referir a cidadão brasileiro. Tanto não é que a dama sorteada não quer ser soldado, alegando que "nenhuma lei ainda tornou extensivo às mulheres o serviço militar".&lt;br /&gt;É muito engraçado! Para o tal feminismo que anda aí, o "brasileiro" da Constituição inclui as mulheres quando se trata do provimento de cômodos cargos públicos; mas, quando se trata do trabalhoso serviço militar, criado para a "defesa da Pátria", nos termos da Constituição, no "brasileiro" desta, não entra mais a mulher, mas unicamente o homem, sendo preciso uma lei especial do Congresso, para que a "mulher" possa prestar o árduo mister de soldado ou marinheiro.&lt;br /&gt;Não é preciso pôr mais na carta, para sé ver o que visa esse "feminismo" caricato que prolifera pelos solicitados dos jornais. O que ele quer não é a dignificação da mulher, não é a sua elevação; o que ele quer são lugares de amanuenses com cujos créditos possa comprar vestidos e adereços, aliviando nessa parte os orçamentos dos pais, dos maridos e dos irmãos.&lt;br /&gt;É o feminismo que sustenta, com a Constituição na mão, poder a mulher ser escrituraria ; mas teme essa mesma Constituição quando esta, segundo a hermenêutica de tais damas, exige que a mulher vá para a tarimba ou para o picadeiro.&lt;br /&gt;Tenho dito.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Careta&lt;/em&gt; 16.04.1921&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Voto feminino&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;A engraçada contenda presidencial que anda por aí, nos jornais e meios políticos, desviou a atenção da população para o projeto do Senado, concedendo voto às mulheres. Eu, porém, não o perdi de vista e digo-lhes por quê.&lt;br /&gt;Esse negócio de ser este ou aquele cidadão presidente da República não tem para mim a mínima importância. Se eu pudesse ser ministro, ainda vá que me interessasse; se tivesse, entre os candidatos, um amigo do peito que ao chegar à presidência, me arranjasse uma gorda concessão com a qual enriquecesse, ainda vá ; se conseguisse com um camarada no cocuruto do Catete, um lugar ou mesmo uma comissão na Europa, na Ásia ou até na África onde pudesse espairecer um pouco o meu tédio, vá; mas, seja Pedro, Sancho ou Martinho, estou certo de que não obterei nada disso tudo nem muito menos. Para que então azucrinar a minha paciência com semelhante questão?&lt;br /&gt;De resto, eu não tenho nenhuma fé nos princípios republicanos. Agora mesmo, nessa questão de candidatura à presidência, vi como eles são elásticos. Vejo que se baralham nas asseverações, escritos e gestos dos seus próceres coisas antagônicas com as suas asseverações, escritos e gestos de poucos anos atrás. Quando pessoas tão eminentes canivetam assim a lógica, um pobre diabo como eu, além de pasmado, deve ficar calado. Sei bem que as coisas da vida não têm lógica alguma, principalmente quando é uma delas o ocupar a presidência da República.&lt;br /&gt;Ainda mais; o dissídio que a questão da escolha do futuro supremo magistrado da República trouxe nos meios políticos, principalmente nas duas casas do Congresso, tirou-lhes o único que, segundo parece, é essencial à existência deles.&lt;br /&gt;Um jornal desta cidade narra um aspecto da Câmara, nestes últimos dias, com as seguintes palavras:&lt;br /&gt;Os gritos ouvidos e os gestos vistos eram completamente estranhos à atual situação econômica. O que aqueles homens, representantes da nação, cuidavam era de injuriar ou aplaudir alguns nomes indicados para a sucessão presidencial, tratavam de competições de bancada de maiores ou menores estados; falavam em perseguições a oficiais do nosso Exército; das viagens do senhor Raul Soares a Belo Horizonte ou do senhor Carlos de Campos, a São Paulo; de telegramas do senhor Borges ou de conversas na praia do Flamengo.&lt;br /&gt;Não chega a ser trágico, mas cômico também não é. É absolutamente desagradável.&lt;br /&gt;Vejam agora só como, com o voto feminino, as cousas se passavam de modo bem diverso.&lt;br /&gt;Dona Deolinda Daltro, que está pleiteando a passagem do projeto, ia para o Senado com um bando de senhoras, senhoritas e meninas, carregadas de flores, e despejava as pétalas sobre a cabeça do respeitável e imenso senador Lopes Gonçalves, que sabe inglês e é o defensor do mesmo projeto, embora seja este de autoria do seu colega Justo Chermont. As flores, porém, foram e irão para o senhor Gonçalves, porque é pessoa notoriamente elegante e trata-se de um projeto que interessa às damas.&lt;br /&gt;Um jornal desta cidade contava o aspecto do Senado quando iam lá as senhoras pleitear tão maravilhoso direito que eu, a bem dizer, nunca quis usar; ele contava assim :&lt;br /&gt;As mulheres interessadas com o caso têm comparecido ao Senado, enchendo as suas tribunas. E como lhes agradasse a defesa documental e valorosa do senador amazonense, as sufragistas nacionais não lhe têm faltado com as justas manifestações de entusiasmo.&lt;br /&gt;Vêem bem os senhores como é diferente essa fisionomia parlamentar da que tomou a Câmara com a questão do senhor Bernardes, Bermudes, Beldroegas, Brederodes ou quem quer que seja aspirante à presidência desta nossa maravilhosa República.&lt;br /&gt;Não tenho nenhuma simpatia pelo projeto, mas julgo-o útil porque dá às casas do parlamento feições floridas e gentis de sala de baile ou platéia de teatro.&lt;br /&gt;Demais, segundo diz o mesmo jornal, as senhoras andam aos abraços com os senadores. Não diz se andam também aos beijos. A folha volante dá até um detalhe tentador:&lt;br /&gt;Da manifestação, já provou o senador Lopes Gonçalves, saudado calorosamente pelas moças que foram ao Senado. Todas disputam a honra de um abraço do senador amazonense. De uma ouvimos a pergunta orgulhosa, feita a uma companheira:&lt;br /&gt;- Já obteve o seu abraço? Eu acabo de receber o meu!&lt;br /&gt;Podia comentar outros detalhes do aspecto que, segundo as folhas, toma a Câmara Alta quando lá se discute a outorga de voto às mulheres. Não é preciso pôr mais na carta. Uma lei que nasce de abraços, só pode ser favorável aos destinos da Pátria.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Careta&lt;/em&gt; 09.07.1921&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Uma nota&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Não cesso de dizer que acompanho o movimento feminista com o maior interesse. Isto não é de agora; desde as priscas épocas de dona Deolinda com os seus caboclos, que assim procedo. Tenho tido raros momentos de prazer e gozo íntimo. Posso assegurar que, como eu, só pode ter gozado tanto, com esse nosso engraçado feminismo, o doutor Lopes Gonçalves, quando foi, em pleno Senado, abraçado pelas discípulas de dona Daltro.&lt;br /&gt;Eu não o fui e não o serei; mas só poder verificar a graça e as coisas jocosas desse nosso feminismo burocrático, dá mais alegria que o abraço das sufragistas nacionais com os seus ramos de flores de presente.&lt;br /&gt;Mas, não é só do sufragismo de dona Daltro que vem o meu riso íntimo; é também de outras feministas. Os senhores devem ter reparado que a nossa religião feminista, mal nasceu, cindiu-se. Há diversas seitas e cada qual mais ferozmente inimiga da outra.&lt;br /&gt;Podia-se escrever até uma história das variações das nossas seitas feministas; mas ficará isto para mais tarde.&lt;br /&gt;Por hoje, como simples nota, fica a seguinte observação. A senhora dona Berta Lutz, sabendo que um ministro mandara ouvir um dado funcionário sobre, se as moças podiam ser admitidas em concurso, saiu-se lá de sua Liga pela Emancipação da Mulher (uma das seitas) e resolveu oficiar a esse funcionário, pedindo que o parecer dele fosse de acordo com o programa de sua "liga".&lt;br /&gt;Esta senhora é funcionário público e devia saber que não é decente ninguém insinuar a um funcionário, seja por que meio for, que os seus pareceres sejam dados em tal ou qual sentido.&lt;br /&gt;Em certas ocasiões chega a ser até crime ...&lt;br /&gt;A senhora dona Berta Lutz devia saber disso. Enfim, o feminismo tem razões, etc. etc.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Careta&lt;/em&gt; 27.08.1921&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Carta aberta&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;(a uma senhora que se envolveu numa alta especulação, interessando o Código Penal, e se portou, durante o processo, com a perfeição do mais afeiçoado Pigatti.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Excelentíssima Senhora:&lt;br /&gt;Dispenso-me de iniciar esta com as fórmulas habituais de saudações, porque o nosso tempo que é de cousas práticas e frutíferas, não permite mais a perda de energia com futilidades de civilidade e boa educação.&lt;br /&gt;Já se passaram os dias e os anos em que um cumprimento bem-feito revelava a cultura e o aperfeiçoamento que o indivíduo tinha trazido a si mesmo. Hoje, não se estima isso; e embora, debaixo de farrapos, se descubra um fidalgo, a gente de hoje não quer saber do fidalgo; só considera os farrapos.&lt;br /&gt;Condorcet - Vossa Excelência sabe quem é? Condorcet, o marquês de Condorcet (não era do Papa), foi preso por causa de suas mãos finas, conquanto estivesse vestido como um simples proletário, e muito pobremente. Conto a anedota. Nos agitados tempos de Revolução, ele era girondino e membro da Convenção Francesa. O partido contrário conseguiu decretar a prisão dos girondinos e Condorcet fugiu e ocultou-se nos arredores de Paris. Saiu certo dia e foi a um botequim tomar café, vestido popularmente. Os circunstantes começaram a observá-lo e notaram que o desconhecido tinha as mãos finas, aristocráticas. Prenderam-no e ele se envenenou na prisão. Note, a Excelentíssima Senhora, que ele não era lá grande coisa em matéria de cuidados com o corpo. Ao contrário. Há uma carta de Mlle. Lespinasse que censura o seu relaxamento. Pois bem: hoje, ninguém olharia as mãos; miravam-lhe as vestes pobres e sacudiriam o olhar para o lado, com asco.&lt;br /&gt;Não estamos, portanto, no tempo de salamaleques. Não há mais delicadeza, nem mesmo nas danças de sala, nem mesmo nos divertimentos públicos. Durante as partidas do tal de futebol, as damas e senhoritas trocam amabilidades de palavras e gestos que faziam corar um frade de pedra; e, às vezes mesmo, elas se atracam com uma sem-cerimônia digna de valentões consumados.&lt;br /&gt;Chamam elas, a isso, torcer e defender as cores dos seus clubes.&lt;br /&gt;É o feminismo em marcha que deixa as secretarias, para manifestar-se nas arquibancadas das arenas do esporte bretão, como dizem os virtuosos cronistas esportivos.&lt;br /&gt;Vossa Excelência, porém, foi mais além na conquista de um lugar ao sol para a mulher, e também na senda das reivindicações femininas.&lt;br /&gt;Vossa Excelência, de pronto, de uma hora para outra, quase sem experiência preliminar alguma, mostrou-se de uma finura e de uma habilidade, para lidar com essas cousas de polícia e de justiça, que devem ter surpreendido os mais refinados profissionais que estão sob custódia, na Pensão Meira Lima.&lt;br /&gt;Nunca neguei capacidade alguma na mulher. O meu antifeminismo não parte do postulado da incapacidade da mulher, para isso ou para aquilo; é baseado em outros motivos, mais de ordem social do que mesmo de natureza fisiológica ou psicológica. Há cousas, porém, Excelentíssima Senhora, que exigem aprendizagem, e prática, além do sangue-frio e um poder exibitório que só uma lenta educação da vontade pode dar, permitindo que se fale a verdade de diversos modos, diante de delegados e juízes. Isto feito assim, pela primeira vez, surpreende e causa pasmo, mostrando, na mulher, capacidades excepcionais para tudo, mesmo sem estudo e treinamento.&lt;br /&gt;Nunca supus a mulher capaz de tanta energia nervosa, capaz de tanta matreirice, pois sempre as vi chorando diante das autoridades, por cousas insignificantes.&lt;br /&gt;Vossa Excelência, porém, mostrou-me que as cousas não se passam sempre assim; e, na boca das mulheres, diante de austeros juízes e severos delegados, a verdade não é nunca uma só, podendo ser ondeante e diversa. Até agora, isto só acontecia quando se tratava falar a maridos ou mesmo a amantes; porém, neste momento, com a iniciativa de Vossa Excelência, o sexo feminino deu um passo além; sabe de pronto emaranhar juízes e delegados. Meus paraabéns, Excelentíssima Senhora; e o meu sentimento é que se haja estreado tão tarde, em papel de tanto relevo e significação.&lt;br /&gt;De Vossa Excelência, etc., etc.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Careta&lt;/em&gt; 24.09.1921&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;A poliantéia das burocratas&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;A Noite&lt;/em&gt;, numa segunda-feira destas últimas, resolveu fazer um inquérito entre as meninas e as moças recentemente nomeadas funcionárias públicas, depois do advento do feminismo burocrático, instituído pelo senhor Nilo Peçanha, ouvindo ao mesmo tempo os seus chefes, a respeito do trabalho e méritos delas.&lt;br /&gt;A reportagem é fartamente ilustrada com os retratos das senhoritas que auxiliam os governos a fazer a felicidade da pátria. Até agora, eu supunha que o feminismo fosse o partido das moças feias; mas vejo que não. O retrato da leader, apesar de dona Deolinda, vem no centro da primeira página, em "abismo", como se diz em heráldica, tratando-se de escudos.&lt;br /&gt;Todos os chefes estão satisfeitos com os gentis amanuenses; e não podia ser de outra forma. As mulheres têm tanta vocação para os cargos públicos que as suas letras não só se parecem, mas quase são iguais. Indivíduos que têm semelhantes predicados não podem deixar de ser amanuenses ideais, tanto mais que, atualmente, já se usa nas repartições públicas a impessoal máquina de escrever. De resto não é boa recomendação para ser bom escriturário ou ótimo oficial de secretaria, a posse de uma individualidade, de um temperamento; e, raramente, a mulher é dona dessas coisas. Dá, portanto, sempre um bom empregado.&lt;br /&gt;Os gabos dos chefes, inclusive os do sempre simpático doutor Bruno Lobo, são perfeitamente legítimos; e eu o mesmo diria, se fosse diretor ou coisa que o valha, sem faltar absolutamente com a mais estrita verdade.&lt;br /&gt;Ninguém nega que a mulher tenha as qualidades subalternas e secundárias que são exigidas para o exercício de um simples cargo público; mas o que está em jogo não é bem isso.&lt;br /&gt;Está em jogo a maneira irregular e ilegal que tem presidido o provimento desses cargos, por moças e senhoras. Em que lei se hão baseado as autoridades que tal têm feito?&lt;br /&gt;Não respondem. Ou antes: respondem citando consultas, pareceres e outros documentos mais ou menos graciosos, que não podem ter valor legal, isto é, de lei alguma. .&lt;br /&gt;Até bem pouco, para certos e determinados cargos ou lugares públicos, nos Correios, nos Telégrafos, e não sei aonde mais, podiam ser admitidos indivíduos do sexo feminino; mas isso, em virtude de artigos explícitos dos respectivos regulamentos, expedidos por autorização do Congresso.&lt;br /&gt;A coisa estava perfeitamente legal e nada havia que dizer; mas, obedecendo a motivos talvez respeitáveis domesticamente, um ministro entendeu que, à última hora, devia inscrever em concurso, para um lugar de sua repartição, uma moça que, naturalmente, se apresentou à última hora.&lt;br /&gt;Resolveu isso, sem prorrogar, porém, a inscrição para que outras, nas mesmas condições, o fizessem também. Está se vendo que esse feminismo rond-de-cuir nasceu torto e aleijado por diversas razões e há duas principais. Primeira: um ministro não tem competência para decidir sobre semelhantes assuntos, isto é, equiparação dos direitos do sexo feminino ao masculino; segunda: se ele resolveu, no caso vertente, essa equiparação, à última hora, devia, para mostrar isenção de ânimo, prorrogar a inscrição, a fim de que se apresentassem outras candidatas, tanto mais que, na data e durante a publicação do respectivo edital, não se admitia tal equiparação.&lt;br /&gt;É verdade que a Constituição fala que os cargos públicos são acessíveis a todos os brasileiros, e, afinal de contas, as mulheres que nascem no Brasil são gramaticalmente, em conjunto com os homens, brasileiros; mas também afirma a Constituição que todo o brasileiro é obrigado ao serviço militar; entretanto, quando se trata de saber se a mulher pode ou não ser soldado, há hesitação em se decidir que também ele é o brasileiro de que fala a Constituição, e pede-se uma lei ao Congresso. Desde, porém, que se trate de fazer uma dama secretário de qualquer coisa ou amanuense disso ou daquilo, a questão fica logo resolvida: pode exercer o cargo. O Congresso é dispensado.&lt;br /&gt;Tanto esse "brasileiro" da Constituição não tem sentido estreitamente lexicográfico, mas sim um caráter menos literal, que até agora se espera que o Congresso dê o direito de voto às mulheres, para que se possam alistar no Partido Republicano Feminino e noutras facções que estão em dissidência, mas, nem por isso, deixam de ser perfeitamente respeitáveis.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A Noite&lt;/em&gt;, como disse acima, nessa sua edição prematura de segunda-feira, entrevista as gentis burocratas e as suas opiniões constituem um precioso florilégio que convém comentar, embora brevemente.&lt;br /&gt;Nele - o que é de admirar - há poucas manifestações de sabichonas, conquanto fosse de esperar que, nesse feminismo paletó de alpaca, houvesse muitas descendentes de Filaminta.&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;Dona Berta Lutz e, com ela, muitas outras colocam a questão sob o aspecto do direito da mulher ao trabalho próprio. Havia muito que epilogar a tal respeito. Adiemos, porém, os comentários.&lt;br /&gt;Diz essa senhora, que bem podia também ser sufragista, tão completo e acendrado é o seu feminismo:&lt;br /&gt;- A meu ver, o trabalho é o ponto capital do movimento feminista. Não só porque representa o eixo principal em redor do qual se têm vindo grupar todas as reivindicações feministas, como também porque só ele permitirá a solução integral da questão.&lt;br /&gt;E continua por aí, reformando o Código Civil e outras instituições respeitáveis. Mas, eu direi simplesmente : minha senhora, então a mulher só veio a trabalhar porque forçou as portas das repartições públicas? Ela sempre trabalhou, minha senhora, aqui e em toda a parte, desde que o mundo é mundo; e até, nas civilizações primitivas, ela trabalhava mais do que o homem. Dou o meu testemunho pessoal. Desde menino - e já tenho quarenta anos feitos - que vejo trabalhar em casa, fora de casa, em oficinas, ateliers de costura e até na roça, plantando, colhendo, guiando bois ao arado, etc.&lt;br /&gt;Eu lhe conto, minha senhora. Certa noite, há três anos, um amigo meu, o engenheiro Noronha Santos, levou-me à Fábrica de Tecidos Rink, na Rua do Costa, onde havia serão e ele tinha um lugar elevado. Lá fui e o meu ex-colega fez-me correr aí pelas dez horas da noite, mais ou menos, todas as dependências do estabelecimento fabril.&lt;br /&gt;Havia muitas mulheres junto aos teares e outros maquinismos cujos nomes não sei. Uma delas, porém, chamou-me a atenção: era uma negra velha que, sentada no chão, tinha diante de si um monte de lã, limpa, alva, recentemente lavada quimicamente, e o seu cabelo, o da Regra, era já tão branco e encaracolado que desafiava a alvura da lã que estava diante dela.&lt;br /&gt;Pergunto: esta mulher precisou do feminismo burocrata para trabalhar, e não trabalhava ainda, apesar de sua adiantada velhice?&lt;br /&gt;Eu lhe conto inda mais. Uma tarde, fui à Livraria Alves falar sobre negócios de um livro com o respectivo proprietário, que estava ainda são e forte. Subi ao primeiro andar, para entender-me com ele, no seu escritório. Lá em cima, conversando com o terrível livreiro, observei uma porção de moças, que de avental completo, quase um roupão pardacento, cabelos em poeira dos, com a célebre poeira Alves, faziam pacotes de livros, a fim de serem expedidos para aqui e para ali. Pergunto: essas moças não trabalhavam? E, a menos que a senhora julgue que trabalho seja só sentar-se a um amplo bureau e muito solenemente distribuir serviço aos amanuenses, creio que há de concordar que nunca se negou o direito de trabalhar ao sexo gentil.&lt;br /&gt;Como já disse, não há, nesse feminismo rond-de-cuir, muitas descendentes de Filamintas. Todas as representantes dele são moças simples, que só têm o desejo de ter um ordenado razoável para se manter e auxiliar os parentes. Nada mais justo e respeitável ; entretanto, essa questão sugere tantas outras de interesse mais alto que não é possível referir-se a ela sem alguma aspereza, diante da sem-cerimônia com que ministros e presidentes do Brasil se julgam capazes de tudo decidir por si, as questões mais delicadas, como essas, sem esperar um debate amplo, largo, na tribuna e na imprensa, para que bem aclarado fique o problema e esclarecida a opinião pública.&lt;br /&gt;Entretanto, não é o que se está fazendo com esse feminismo de secretaria. O que se está fazendo com esse feminismo bastardo, burocrático, é uma coisa de momento, clandestina, para servir a amigos, disfarçando-se a bastardia das medidas com pareceres graciosos, familiares, e consultas tendenciosas, resolvidas por Sancho Pança, governador da ilha da Baratária; e, por mais respeitáveis que sejam os nomes que consignam tais pareceres e consultas, não pode o meu respeito segui-los até esse ponto, porquanto não é da competência deles legislar sobre o assunto. Legislar, só o Congresso Nacional; e ele ainda não falou a respeito. Continuemos:&lt;br /&gt;Na poliantéia da &lt;em&gt;A Noite&lt;/em&gt;, há opiniões curiosas e sinceras.&lt;br /&gt;Uma delas é a daquela moça que, perguntada se gostava da carreira, respondeu:&lt;br /&gt;- Gosto, mas gostaria mais de ficar em minha casa. Devo dizer-lhe que os meus companheiros são muito distintos e me encorajam no trabalho.&lt;br /&gt;Está aí uma moça que não,merece castigo. O chefe da seção do Ministério da Agricultura, Marcos Martins, é um pouco rude, mas talvez não esteja longe da verdade, a sua opinião.&lt;br /&gt;Ele atribui ao prestígio da saia o sucesso na classificação das moças, em concursos.&lt;br /&gt;Em exames, eu os fiz muitos, o ascendente das moças e meninotas sobre os examinadores é sabido. Quando eu fazia preparatórios, moça que entrasse em exame tirava distinção pela certa. Estava a ver-se que elas sabiam tanto ou menos que nós, mas a distinção era inevitável, enquanto nós, rapazes e meninos, gramávamos na plena e até na simples, com as mesmas respostas certas.&lt;br /&gt;Fiz o meu último preparatório, há quase vinte e cinco anos. Guardei nomes de várias "colegas" acidentais, daquele tempo. Apesar das sucessivas distinções, todas deram em "droga".&lt;br /&gt;Está aí.&lt;br /&gt;As mulheres têm muita aptidão para a retenção e para a repetição, sobretudo nas primeiras idades; mas não filtram os conhecimentos através do seu temperamento, não os incorporam à sua inteligência, ficam sempre como estáticos a elas, não os renovam em si. Daí, a sua pouca capacidade de invenção e criação; mas daí também os seus sucessos nos exames e concursos. Tudo está na ponta da língua... '&lt;br /&gt;Prefiro a criação, a invenção, as lacunas no saber que dão lugar à imaginação criadora, do que a repetição pura e simples.&lt;br /&gt;Muito boas amanuenses podem ser, as mulheres; serão péssimas chefes, piores que os carrancas homens, tal deve ser o seu respeito ao estabelecido nos regulamentos, nas praxes, etc.&lt;br /&gt;Estou, por isso, com aquela moça da Agricultura que disse ao repórter da A Noite, ao ser inquirida:&lt;br /&gt;- Qual é a sua aspiração, senhorita?&lt;br /&gt;- Só tenho uma aspiração, como funcionária: não ter como chefe outra mulher.&lt;br /&gt;Certamente muitas não pensam assim como essa funcionária despachada, conforme se diz em linguagem familiar.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Rio-Jornal&lt;/em&gt; 26-27.09.1921 &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5121148060136346781-8322407286239608241?l=pandorawiki.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pandorawiki.blogspot.com/feeds/8322407286239608241/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5121148060136346781&amp;postID=8322407286239608241&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/8322407286239608241'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/8322407286239608241'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pandorawiki.blogspot.com/2010/05/lima-barreto-e-mulher-ix.html' title='Lima Barreto e a mulher - IX'/><author><name>Caixa de Pandora</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13780187324490495166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TOXBy1EVxVI/AAAAAAAAAic/POmRMcX667A/S220/foto%2B1.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/S-COV5yJ8uI/AAAAAAAAAhE/yWgWef5EKos/s72-c/dama+I+a+Pandora.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5121148060136346781.post-6325185562892233726</id><published>2010-04-20T15:30:00.000-07:00</published><updated>2010-04-20T15:41:17.483-07:00</updated><title type='text'>Lima Barreto e a mulher - VII</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/S84tczx5_wI/AAAAAAAAAg8/_fW-6D7YXrM/s1600/dama+II+a+Pandora.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5462353371006107394" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 86px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/S84tczx5_wI/AAAAAAAAAg8/_fW-6D7YXrM/s200/dama+II+a+Pandora.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#993300;"&gt;&lt;strong&gt;feminismo&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;A amanuensa&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;A República dos Estados Unidos do Brasil teima em cometer todos os absurdos contra as mais comezinhas leis da glória e os mais elementares princípios de sociologia.&lt;br /&gt;As palavras que aqui vão ser lidas, espero sejam tomadas como um respeitoso protesto contra o ato de um homem público do Brasil por quem tenho a máxima consideração.&lt;br /&gt;Trata-se do senhor Nilo Peçanha, cujo talento e cuja operosidade muito admiro. O senhor Nilo, porém, tem o defeito de querer ferir a multidão pela singularidade de seus gestos e estranheza de suas atitudes.&lt;br /&gt;Há no nosso atual ministro do Exterior muito talento, muita vontade de acertar e um grande desejo de ser útil à causa do Brasil; mas a sua mania de aparecer como estranho e original prejudica extraordinariamente as suas grandes qualidades de homem de Estado e de homem inteligente.&lt;br /&gt;Sua Excelência devia, para a nossa glória, já que subiu a posições tão eminentes, coibir-se de semelhante defeito.&lt;br /&gt;Nos lugares que o senhor Nilo tem ocupado, e há de ocupar, o exigido é muita ponderação. Eu nunca seria nomeado ministro, nem aceitaria tal cargo, a não ser no regime maximalista.&lt;br /&gt;O nosso atual ministro do Exterior, entretanto, que tem disputado tais cargos, não pode ir para eles com idéias de botequim.&lt;br /&gt;O seu ato, admitindo em concurso, para o lugar de terceiro oficial da sua secretaria, uma moça, aprovando-a e nomeando-a, aberra de todas as nossas concepções políticas e vai de encontro a todos os princípios sociais.&lt;br /&gt;Já de uma feita, houve da parte de uma senhorita pretensão semelhante, para escriturária do Tesouro. O ministro era o senhor Joaquim Murtinho, cujos méritos e adiantamento de espírito não preciso relembrar aqui.&lt;br /&gt;Pois saiba, senhor doutor Nilo, o que fez o ministro: indeferiu o pedido.&lt;br /&gt;O senhor Peçanha ou a sua secretaria devia saber que, nessas coisas, a praxe é estabelecida pelo Tesouro e nunca se a deve desrespeitar, a menos que haja lei clara que a contrarie.&lt;br /&gt;Desde que os lugares públicos, mesmo os que não o são, mas que naturalmente são destinados aos homens, sejam invadidos pelas mulheres, tal fato irá prejudicar a regularidade da reprodução da nossa raça.&lt;br /&gt;O nosso interesse está em favorecê-la da melhor forma e nunca prejudicar a perpetuidade da espécie humana no planeta.&lt;br /&gt;É sabido que, desde que as mulheres foram, na Europa, chamadas aos serviços exercidos normalmente pelos homens, de ano em ano, as dimensões antropométricas exigidas para os recrutas eram diminuídas. Está isto no Spencer, Introdução à Ciência Social. Favorecer, empregando meninas na burocracia, tal coisa, é um pecado de lesa-humanidade.&lt;br /&gt;A mulher ressente-se muito mais que o homem de semelhante espécie 'de serviço. O homem é sempre um progresso (sic) e resiste, por isso mesmo, a todos os inconvenientes.&lt;br /&gt;A mulher é a conservação e sofre mais por ser assim do que há de mau no sedentarismo de uma mesa de secretaria.&lt;br /&gt;Não é bastante que uma moça papagueie francês ou alemão para ser melhor funcionário que um rapaz. A inteligência da moça é, em geral, reprodutora, portanto muito própria para esse estudo de línguas muito do gosto das repartições catitas, como o Itamarati ; mas nunca é capaz de iniciativa, de combinação de imagens, dados concretos e abstratos que definam a verdadeira inteligência.&lt;br /&gt;Tanto isto é verdade que a candidata do senhor Nilo, na falatina do Berlitz foi muito bem; mas quando se tratou da simples aritmética caiu n'água e, direito constitucional, nem se fala.&lt;br /&gt;Não é possível compreender que o empregado de uma secretaria de Estado não saiba nada do nosso direito fundamental e que regula as relações, já não só dos indivíduos, mas dos poderes políticos do país.&lt;br /&gt;A elegância da repartição da Rua Larga, porém, entende as coisas por forma.&lt;br /&gt;Desde que por lá passou o pedantismo do barão do Rio Branco, a sua presunção e prosápia, ela ficou assim.&lt;br /&gt;Sua alma, sua palma !&lt;br /&gt;Ao acabar este ligeiro comentário, eu peço licença para lembrar ao senhor doutor Nilo Peçanha que Krafft-Ebing diz, num dos seus livros, que a profissão da mulher é o casamento.&lt;br /&gt;Sua Excelência - eu lhe rogo - antes de tratar de fazer "amanuensas" procure arranjar para as meninas bons maridos, honestos e trabalhadores.&lt;br /&gt;É obra de misericórdia que certamente há de levá-lo ao reino dos Céus.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A. B. C.&lt;/em&gt; 05.10.1918&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Novidades&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Quando queremos ler um jornal com cuidado, fazemos descobertas portentosas. Não há quem as não faça, por menos sagaz que seja. Veja esta só que vem no Correio da Manhã destes últimos dias:&lt;br /&gt;J. Ferrer &amp;amp; Cia., negociantes, estabelecidos nesta capital, propuseram no juízo da 6ª. Vara Cível uma ação contra Álvaro de Tal e sua mulher, para o fim de condená-los a pagar a quantia de 9:607$950.&lt;br /&gt;Até aí não há nenhuma novidade: mas leiam o que se segue:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Alegam os autores que forneceram à ré, quando solteira, dinheiro, materiais e mão-de-obra para a construção do prédio à rua etc. Dizem os autores que, casando a ré sem lhes haver pago, o marido, morando na casa e casado em comunhão de bens, também era responsável pela dívida, que se tornou comum.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;O resto não nos interessa; mas pelo que aí fica, podemos fazer algumas considerações boas.&lt;br /&gt;Até bem pouco tempo, o interesse principal do casamento, a sua virtude primordial era arranjar uma noiva rica que nos pagasse as dívidas.&lt;br /&gt;Todos os rapazes tinham essa ambição; e, desde que conseguissem uma futura cara-metade, nessas condições tinham o crédito decuplicado.&lt;br /&gt;Tenho um conhecido que se casou numa igreja de arrabalde afastado, não fez convites, foi quase à capucha, mas, ao entrar na igreja, ficou admirado com a numerosa assistência: eram os credores que a enchiam.&lt;br /&gt;Parecia que era regra geral que os homens procurassem casar para fazer a operação de crédito muito simples de saldar as suas contas.&lt;br /&gt;Hoje, porém, à vista do caso que o citado vespertino alude, parece que não. As mulheres também procuram maridos, para liquidar as suas dívidas convenientemente.&lt;br /&gt;Estamos no tempo do feminismo rubro até ao tacape e nada há de admirar. Não nos devemos assombrar com as suas novidades, nem mesmo com esta. Tudo é possível.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Careta &lt;/em&gt;22.11.1919&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Legião da Mulher Brasileira&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;De quando em quando, as nossas gentis patrícias, como dizem as seções elegantes dos jornais, cansadas do ramerrão das festas mundanas e de torcer nas agitadas partidas de football, lembram-se de fundar partidos, clubes e outras agremiações exclusivamente femininas.&lt;br /&gt;Há dias, no salão de honra da Associação dos Empregados no Comércio, ali adiante, nesta catita Avenida Central ou Rio Branco, muitas senhoras solenemente instalaram uma sociedade a que deram o nome retumbante de Legião da Mulher Brasileira.&lt;br /&gt;Não tive a dita de assistir a essa instalação pelo motivo muito simples de que, sendo homem, julgava não me ser permitido tomar parte na festa ; mas, seguindo os acontecimentos, nos jornais que publicaram fotogravuras, vi bem que nessa legião da mulher tomavam parte muitos homens.&lt;br /&gt;Parece - não afirmo coisa alguma - que as nossas senhoras não se julgam perfeitamente aptas para esses trabalhos de sessões solenes; precisam, por isso, do auxílio masculino e este foi abundante na partida a que me refiro.&lt;br /&gt;Não há senão louvar nas nossas gentis patrícias (lá vem o estilo de seção elegante) essa precaução. Completamente novatas nessas coisas mais ou menos parlamentares, era justo que elas fossem buscar luzes entre os homens, que são sempre hábeis nesse ofício de sessões e assembléias.&lt;br /&gt;O que afirmo nestas últimas palavras, posso garantir que é convicção por mim obtida graças a experiência própria.&lt;br /&gt;Na minha vizinhança, no pacato Todos os Santos, nas proximidades de Inhaúma, a longínqua, dias ou semanas antes do carnaval, alguns meus conhecidos e amigos de modesta condição, que me dão a honra de ouvir, nas vendas e botequins, as minhas prédicas sociais e políticas, fundaram um cordão, rancho ou bloco a que chamaram de "Rapaduras Gostosas".&lt;br /&gt;Eu não sei bem por que quiseram tal nome, mas nada objetei-lhes e calei toda a crítica irreverente ou tola a semelhante manifestação de arte popular. Diabo! Eu sou povo também; não descendo, como o presidente, de fidalgos flamengos, que ficaram no Brasil e abandonaram os seus patrícios quando eles foram batidos pelas hostes pernambucanas de André Vidal de Negreiros, Fernandes Vieira, Camarão e Henrique Dias. Sou essencialmente homem do povo e criticar manifestações artísticas de pessoas da mesma condição que a minha pode parecer pretensão e soberbia. Guardei a crítica e convenci-me de que podia haver rapaduras amargas.&lt;br /&gt;Tendo tomado essa precaução, fui a uma das sessões de início do bloco e assisti-a de começo ao fim. A presidi-la, estava o meu bom camarada Manuel Parafuso, artista pintor de liso, muito consagrado pelas famílias abastadas da redondeza; o secretário era Miguel Barbalho, um rapaz acobreado da mais perfeita aparência caprina; e outros cujos nomes não me recordo.&lt;br /&gt;Pois bem, todos esses homens humildes de condição e instrução guiaram os trabalhos da assembléia com uma perfeição extremamente parlamentar, a ponto de, se pudessem lá estar, causar inveja ao senhor Andrade Bezerra ou ao senhor Torquato Moreira.&lt;br /&gt;Sendo assim, isto é, encontrando-se até em homens humildes capacidades de notáveis parlamentares, nada mais justo do que as senhoras da legião fossem pedir a alguns homens conspícuos o favor de dirigir-lhes os trabalhos legislativos.&lt;br /&gt;O acerto foi notável com semelhante gesto, porquanto os senhores escolhidos foram dos mais notáveis no nosso meio intelectual.&lt;br /&gt;Além do senhor Carlos de Laet, que é sobejamente conhecido como professor, erudito, jornalista e homem de letras, lá havia também dois sacerdotes católicos dos mais respeitáveis e portadores de instruções especiais de Sua Eminência o Senhor Arcebispo, para orientar a reunião.&lt;br /&gt;A sessão parecia correr magnificamente, perfeitamente mansueta e cheia de beatitude, como era de esperar devido à influência do Espírito Santo que devia naturalmente estar presente.&lt;br /&gt;Creio que foi por sua obra e graça que se aclamou -"presidente de honra" - a ilustre senhora Dona Mary de Saião Pessoa, digníssima esposa do senhor presidente da República.&lt;br /&gt;Uma escolha dessas está tão acima das faculdades humanas que somente uma inspiração sobrenatural podia ditá-la.&lt;br /&gt;Os outros cargos da diretoria ou das diretorias foram providos excelentemente, mas em nenhum deles houve esse sinete sobrenatural com que foi marcada a aclamação da "presidente de honra".&lt;br /&gt;Tudo ia muito bem com discursos variados, masculinos e femininos, só se mantendo calado o senhor Carlos de Laet, quando, a folhas tantas, o eminente orador sacro, o reverendo João Gualberto, foi interrompido violentamente.&lt;br /&gt;Estava aí um fim tristíssimo para uma assembléia que tinha começado sob tão belos auspícios. A coisa ia degenerar em sessão de football, esse divertimento que está tão profundamente unido à nossa mocidade por meio de barulhos e conflitos.&lt;br /&gt;Felizmente, entre as nossas gentis patrícias (que mania essa minha de falar à moda do Binóculo !) não houve conflito nem pugilato. Para boa compreensão do sucesso, transcrevo as palavras dos jornais. Ei-las:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O padre Gualberto não pôde, entretanto, prosseguir a sua oração. As suas idéias, no momento expendidas, acerca do modo por que, baseada nos ensinamentos da igreja católica, devia a legião presidir os seus destinos, provocaram sério protesto de uma grande parte da assistência, que se levantou, retirando-se do recinto entre os protestos dos que, com as idéias referidas, não podiam, por uma questão de crença, estar absolutamente de acordo. Entendiam os que protestavam que a legião, formada por senhoras de diferentes credos religiosos, não podia admitir injunções de quem quer que fosse, de maneira a abalar o sentimento religioso que divergia por completo entre os presentes.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Esse charivari de fundo religioso deu fim à sessão. A diretoria declarou que vai convocar outra reunião em que se ponha de lado qualquer credo religioso; e as senhoras operárias foram até às redações dos jornais protestar contra essa intromissão manhosa do sacerdócio católico nos negócios do seu puro interesse.&lt;br /&gt;Abstenho-me de mais comentários sobre esse pequeno acontecimento, mas estou certo que esse agradável insucesso da celebrada oratória do padre João Gualberto em nada influirá na diminuição ou acréscimo de seu auditório feminino, nas igrejas e matrizes dos bairros ricos.&lt;br /&gt;O reverendo tem uma reputação feita nesses meios que nada pode abalar. Cada sermonista tem a sua freguesia escolhida e adequada,&lt;br /&gt;Petrópolis gosta da frase elegante do senhor Padre João Gualberto; aqui, onde moro, em Todos os Santos, o grande orador sacro para toda gente é o padre André. Ele tem uma oratória popular com imagens pitorescas de coisas familiares e triviais que encanta a todos, inclusive a mim, que não lhe falto a uma prédica.&lt;br /&gt;A política da igreja devia consistir em aproveitar cada vocação sacerdotal de acordo com as necessidades da catequese. Para Botafogo, este; para Madureira, aquele; e assim por diante.&lt;br /&gt;É muita pretensão minha dar conselhos, mas é que desejo muito a prosperidade da Legião da Mulher Brasileira.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A. B. C.&lt;/em&gt; 27.03.1920 &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;As mulheres na Academia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;Os jornais, com grande ruído, publicaram um ofício ou carta de uma senhora que ilegalmente exerce uma função pública, pedindo que, na Academia de Letras, fossem admitidas meninas prendadas.&lt;br /&gt;Está aí um negócio que eu acho muito razoável. Ninguém, como semelhantes moças, é próprio para semelhante coisa.&lt;br /&gt;Nas salas e salões, desde Botafogo ao Méier, não há quem não admire uma moça que saiba recitar.&lt;br /&gt;Todos os meninotes e mais dançarinos de tais paragens ficam embasbacados quando uma menina de olheiras põe-se no meio da sala e diz o "Quisera amar-te".&lt;br /&gt;É um grande e inevitável sucesso que quebra a monotonia habitual dos bailes poucos regados à cerveja e outras bebidas.&lt;br /&gt;Eu não tenho nenhuma ojeriza especial às moças que se dedicam às letras; ao contrário: acho que as meninas em geral têm muita vocação para isso, porquanto se vestem muito bem e com pouco dinheiro. Há grandes escritores que só são notáveis pelas suas roupas. Não preciso exemplificar porque tal cousa é sabida por todos.&lt;br /&gt;Um vestido bem-talhado, por uma pobre costureira de qualquer grande casa de modas da rua do Ouvidor, deve ser título bastante para uma moça ser considerada uma honrada literata.&lt;br /&gt;A literatura nada tem a ver com a vida, com os seus choques inevitáveis, com as dores dos outros, com os problemas do nosso destino e da sociedade; a literatura é um negócio de contramestre de casa de confecções (cuidado com o Assis Sintra) e modas.&lt;br /&gt;Que sabe uma mulher, uma "melindrosa", ali da Avenida, a respeito da dor de uma pobre rapariga criada de servir?&lt;br /&gt;Nada. Entretanto, ela esteve no Colégio de Sion e fala mais ou menos o francês e, do resto dos homens e mulheres que não são da sua roda, ela tem um grande desprezo.&lt;br /&gt;Para ela, essa gente não tem alma, como certo concílio afirmou no tocante às mulheres.&lt;br /&gt;Pois então, dirá essa dama prendada, aquele sujeito que vai ali tão feio e tão sujo pode dizer - merci?&lt;br /&gt;Por isso mesmo, porque as mulheres não compreendem nada disto; porque elas não têm uma visão larga e profunda da Humanidade; porque elas nunca viram a dor dos humildes nem se interessaram por ela; por isso é que elas são grandes escritoras.&lt;br /&gt;As suas qualidades primordiais estão em colocar bem os pronomes, em saber que quem descobriu a América foi Cristóvão Colombo, em afirmar que o ar é uma mistura e responder logo de pronto que a batalha de Lepanto foi em 1571.&lt;br /&gt;A minha opinião, à vista do exposto, é que a academia deve ser composta só de mulheres; que ela não deve ter mais biblioteca, arquivo, nem coisas parecidas. O que ela deve ter, são jóias montadas, alfinetes e grampos para chapéus.&lt;br /&gt;Dessa forma, ela pode muito concorrer para o progresso das letras pátrias.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Careta &lt;/em&gt;19.02.1921&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5121148060136346781-6325185562892233726?l=pandorawiki.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pandorawiki.blogspot.com/feeds/6325185562892233726/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5121148060136346781&amp;postID=6325185562892233726&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/6325185562892233726'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/6325185562892233726'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pandorawiki.blogspot.com/2010/04/lima-barreto-e-mulher-vii.html' title='Lima Barreto e a mulher - VII'/><author><name>Caixa de Pandora</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13780187324490495166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TOXBy1EVxVI/AAAAAAAAAic/POmRMcX667A/S220/foto%2B1.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/S84tczx5_wI/AAAAAAAAAg8/_fW-6D7YXrM/s72-c/dama+II+a+Pandora.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5121148060136346781.post-7547144194119025365</id><published>2010-04-17T15:36:00.000-07:00</published><updated>2010-04-17T15:42:47.704-07:00</updated><title type='text'>Lima Barreto e a mulher - VI</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/S8o5V3ynIzI/AAAAAAAAAg0/gShF99edHk4/s1600/leitor+III.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5461240546056414002" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 101px; CURSOR: hand; HEIGHT: 124px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/S8o5V3ynIzI/AAAAAAAAAg0/gShF99edHk4/s200/leitor+III.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#993300;"&gt;&lt;strong&gt;mulher brasileira&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Concurso para a cozinha&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Na escola Rivadávia Correia realizou-se na semana passada, sendo examinadas as cinco candidatas da primeira turma e muitas outras, um concurso para contramestra de cozinha.&lt;br /&gt;Aprovo o alvitre, tanto mais que verifico que são muitas as candidatas.&lt;br /&gt;Na notícia que li, há cerca de dez nomes.&lt;br /&gt;Com prazer verifiquei que a vocação da mulher para a cozinha ainda não foi morta pela de auxiliar de escrita da estrada de ferro.&lt;br /&gt;O número das que se inclinam para o forno ainda não é menor do que aquelas que se sentem atraídas pela máquina de escrever do doutor Assis Ribeiro.&lt;br /&gt;Prefiro as últimas às primeiras. Não há como um bom pitéu bem- temperado. Um tutu de feijão com um bom molho de tomates, cebolas e vinagre, seguido de uma carne-seca picadinha, vale mais do que qualquer ofício limpo, redigidinho naquela pobretona literatura oficial, sem calor nem gosto.&lt;br /&gt;Não há quem possa negar isto; e muita gente tem escrito sobre as excelências da cozinha. Brillat-Savarin escreveu um tratado que ainda é lido, mais do que muitas obras solenes e científicas que ficaram às traças.&lt;br /&gt;O destino das nações, diz ele, depende da maneira que elas se nutrem; e só os homens de espírito sabem comer.&lt;br /&gt;Pois se é assim, agora que todos nós, inclusive o chefe do executivo, pretendemos criar de novo uma nação forte, cheia de inteligências, não há nada mais precioso que os poderes públicos se preocupem com a cozinha, formando mestras dela sábias e proficientes.&lt;br /&gt;Semelhante iniciativa deve provir da firme disposição em que está o público brasileiro de fazer disto aqui um novo Estados Unidos da América do Norte.&lt;br /&gt;Já começamos pela cozinha e havemos de chegar à sala de visitas, graças a Deus, thanks giving day!&lt;br /&gt;Tomo, porém, licença de notar que não podemos ficar no feijão, na carne-seca ... Esta está pela hora da morte! Conto uma história:&lt;br /&gt;Certo dia fui jantar com um amigo rico e ele me deu este caro menu:&lt;br /&gt;Sopa de legumes;&lt;br /&gt;Carne-seca frita e pirão;&lt;br /&gt;Bacalhoada à portuguesa, com quiabos e maxixes.&lt;br /&gt;Antes de nada, ele me disse:&lt;br /&gt;-- Não repares! Só estes quiabos custaram-me um vintém cada um.&lt;br /&gt;Comi muito e, lembrando-me do fato de agora, da mestra de cozinha, tenho medo que, aperfeiçoando-se muito a cozinha, nós não podemos mais comer ... Enfim!&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Careta &lt;/em&gt;22.11.1919&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Amazonas do Assírio&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;No "restaurant" ou bar Assírio, diversas freqüentadoras daquelas paragens, segundo os jornais e por motivos que não vem a pêlo reproduzir aqui, se engalfinharam num pugilato, a altas horas da noite.&lt;br /&gt;Em matéria de combates entre mulheres nós pouco sabemos de positivo.&lt;br /&gt;A história não guarda memória de nenhuma delas, ao que eu saiba; e a única tribo guerreira de damas - assim mesmo não é da história, é da lenda, - de que se tem notícia, é das amazonas.&lt;br /&gt;Essas, porém, não se batiam entre si, mas contra os homens unicamente.&lt;br /&gt;As damas do elegante porão do Municipal, porém, não procedem assim. Deixam de parte os marmanjos e se engalfinham entre elas.&lt;br /&gt;Não posso deixar de aprovar-lhes o procedimento, porque vai nisso um verdadeiro progresso. Se elas ficassem no papel de amazonas da mitologia, que seria delas, do champagne e das sedas?&lt;br /&gt;Ia tudo por água abaixo e a indústria vinhateira ou semelhante de vários países muito sofreria, assim como a do bicho-da-seda.&lt;br /&gt;Procedendo, como procederam, naturalmente quebraram-se algumas garrafas do precioso vinho espumante, estragaram-se muitos vestidos de seda. Daí vem um lucro para os mercadores de vinho e para os comerciantes de fazendas.&lt;br /&gt;Dirão: se fosse à moda das Amazonas, acontecia o mesmo. Não há tal.&lt;br /&gt;Aquelas respeitáveis senhoras combatiam com armaduras, capacetes e outras peças de uniforme inenarrável. O que não acontece com as combatentes atuais, que vão para a liça em traje de passeio.&lt;br /&gt;Dou parabéns àquela dependência do Municipal, por ter podido presenciar mais esse progresso moderno nos costumes femininos.&lt;br /&gt;Não foi à toa que ele, o teatro que devia regenerar a nossa literatura&lt;br /&gt;dramática, custou tão caro ...&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Careta&lt;/em&gt; 22.05.1920&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Vestidos modernos&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Nunca foi da minha vocação ser cronista elegante; entretanto, às vezes, me dá na telha olhar os vestidos e atavios das senhoras e moças, quando venho à Avenida. Isto acontece principalmente nos dias em que estou sujo e barbado.&lt;br /&gt;A razão é simples. É que sinto uma grande volúpia em comparar os requintes de aperfeiçoamentos na indumentária, tanto cuidado de tecidos caros que mal encobrem o corpo das "nossas castas esposas e inocentes donzelas", como diz não sei que clássico que o Costa Rego citou outro dia, com o meu absoluto relaxamento.&lt;br /&gt;Há dias, saindo de meu subúrbio, vim à Avenida e à rua do Ouvidor e pus-me a olhar os trajes das damas.&lt;br /&gt;Olhei, notei e concluí: estamos em pleno carnaval.&lt;br /&gt;Uma dama passava com um casaco preto, muito preto, e mangas vermelhas; outra, tinha uma espécie de capote que parecia asas de morcego; ainda outra vestia uma saia patriótica verde e amarelo; enfim, era um dia verdadeiramente dedicado a Momo.&lt;br /&gt;Nunca fui ao Clube dos Democráticos, nem ao dos Fenianos, nem ao dos Tenentes; mas estou disposto a apostar que em dias de bailes entusiásticos nesses templos de folia, os seus salões não se apresentam tão carnavalescos como a Avenida e adjacências nas horas que correm.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Careta &lt;/em&gt;22.07.1922&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5121148060136346781-7547144194119025365?l=pandorawiki.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pandorawiki.blogspot.com/feeds/7547144194119025365/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5121148060136346781&amp;postID=7547144194119025365&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/7547144194119025365'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5121148060136346781/posts/default/7547144194119025365'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pandorawiki.blogspot.com/2010/04/lima-barreto-e-mulher-vi.html' title='Lima Barreto e a mulher - VI'/><author><name>Caixa de Pandora</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13780187324490495166</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/TOXBy1EVxVI/AAAAAAAAAic/POmRMcX667A/S220/foto%2B1.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/S8o5V3ynIzI/AAAAAAAAAg0/gShF99edHk4/s72-c/leitor+III.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5121148060136346781.post-6954109251332419372</id><published>2010-03-31T14:51:00.000-07:00</published><updated>2010-03-31T15:03:02.094-07:00</updated><title type='text'>Lima Barreto e a mulher - V</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/S7PGiLYVEbI/AAAAAAAAAgs/4MFYRKfYKzE/s1600/leitor+I.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5454921864148488626" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 129px; CURSOR: hand; HEIGHT: 105px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_QBwbqp6bTho/S7PGiLYVEbI/AAAAAAAAAgs/4MFYRKfYKzE/s200/leitor+I.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#993300;"&gt;mulher brasileira&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;A mulher brasileira&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;É de uso que, nas sobremesas, se façam brindes em honra ao aniversariante, ao par que se casa, ao infante que recebeu as águas lustrais do batismo, conforme se tratar de um natalício, de um casamento ou batizado. Mas, como a sobremesa é a parte do jantar que predispõe os comensais a discussões filosóficas e morais, quase sempre, nos festins familiares, em vez de se trocarem idéias sobre a imortalidade da alma ou ó adultério, como observam os Goncourts, ao primeiro brinde se segue outro em honra à mulher, à mulher brasileira.&lt;br /&gt;Todos estão vendo um homenzinho de pince-nez, testa sungada, metido numas roupas de circunstâncias, levantar-se lá do fim da mesa; e, com uma mão ao cálice, meio suspenso, e a outra na borda do móvel, pesado de pratos sujos, compoteiras de doce, guardanapos, talheres e o resto - dizer: "Peço a palavra;" e começar logo: "Minhas senhoras, meus senhores." As conversas cessam; dona Lili deixa de contar a dona Vivi a história do seu último namoro; todos se aprumam nas cadeiras; o homem tosse e entra em matéria: "A mulher, esse ente sublime ... " E vai por aí, escachoando imagens do Orador familiar, e fazendo citações de outros que nunca leu, exaltando as qualidades da mulher brasileira, quer como mãe, quer como esposa, quer como filha, quer como irmã.&lt;br /&gt;A enumeração não foi completa; é que o meio não lhe permitia completá-la. É uma cena que se repete em todos os festivos ágapes familiares, às vezes mesmo nos de alto bordo.&lt;br /&gt;Haverá mesmo razão para tantos gabos? Os oradores terão razão? Vale a pena examinar.&lt;br /&gt;Não direi que, como mães, as nossas mulheres não mereçam esses gabos; mas isso não é propriedade exclusiva delas e todas as mulheres, desde as esquimós até às australianas, são merecedoras dele. Fora daí, o orador estará com a verdade?&lt;br /&gt;Lendo há dias as &lt;em&gt;Memórias&lt;/em&gt;, de Mme d'Épinay, tive ocasião de mais uma vez constatar a floração de mulheres superiores naquele extraordinário século XVIII francês. Não é preciso ir além dele para verificar a grande influência que a mulher francesa tem tido na marcha das idéias de sua pátria.&lt;br /&gt;Basta-nos, para isso, aquele maravilhoso século, onde não só há aquelas que se citam a cada passo, como essa Mme d'Épinay, amiga de Grimm, de Diderot, protetora de Rousseau, a quem alojou na famosa "Ermitage", para sempre célebre na história das letras; e Mme du Deffant, que, se não me falha a memória, custeou a impressão do Espírito das leis. Não são unicamente essas. Há mesmo um pululamento de mulheres superiores que influem, animam, encaminham homens superiores do seu tempo. A todo o momento, nas memórias, correspondências e confissões, são apontadas; elas se misturam nas intrigas literárias, seguem os debates filosóficos.&lt;br /&gt;É uma Mme de Houdetot; é uma marechala de Luxemburgo; e até, no fundo da Sabóia, na doce casa de campo de "Charmettes", há uma Mme de Warens que recebe, educa e ama um pobre rapaz maltrapilho, de quem ela faz mais tarde Jean-Jacques Rousseau.&lt;br /&gt;E foi por ler Mme d'Épinay e recordar outras leituras, que me veio pensar nos calorosos elogios dos oradores de sobremesas à mulher brasileira. Onde é que se viram no Brasil essa influência, esse apoio, essa animação das mulheres aos seus homens superiores?&lt;br /&gt;É raro; e todos que o foram, não tiveram com suas esposas, com suas irmãs, com suas mães essa comunhão nas idéias e nos anseios, que tanto animam, que tantas vantagens trazem ao trabalho intelectual.&lt;br /&gt;Por uma questão qualquer, Diderot escreve uma carta a Rousseau que o faz sofrer; e logo este se dirige a Mme d'Épinay, dizendo: "Se eu vos pudesse ver um momento e chorar, como seria aliviado!" Onde é que se viu aqui esse amparo, esse domínio, esse ascendente de uma mulher; e, entretanto, ela não era nem sua esposa, nem sua mãe, nem sua irmã, nem mesmo sua amante!&lt;br /&gt;Como que adoça, como que tira as asperezas e as brutalidades, próprias ao nosso sexo, essa influência feminina nas letras e nas artes.&lt;br /&gt;Entre nós, ela não se verifica e parece que aquilo que os nossos trabalhos intelectuais têm de descompassado, de falta de progressão e harmonia, de pobreza de uma alta compreensão da vida, de revolta clara e latente, de falta de serenidade vem daí.&lt;br /&gt;Não há num Raul Pompéia influência da mulher; e cito só esse exemplo que vale por legião. Se houvesse, quem sabe se as suas qualidades intrínsecas de pensador e de artista não nos poderia ter dado uma obra mais humana, mais ampla, menos atormentada, fluindo mais suavemente por entre as belezas da vida?&lt;br /&gt;Como se sente bem a intimidade espiritual, perfeitamente espiritual, que há entre Balzac e a sua terna irmã, Laura Sanille, quando aquele lhe escreve, numa hora de dúvida angustiosa dos seus tenebrosos anos de aprendizagem: "Laura, Laura, meus dois únicos desejos, 'ser célebre e ser amado', serão algum dia satisfeitos?" Há disso aqui?&lt;br /&gt;Se nas obras dos nossos poetas e pensadores passa uma alusão dessa ordem, sentimos que a coisa não é perfeitamente exata, e antes o poeta quer criar uma ilusão necessária do que exprimir uma convicção bem-estabelecida. Seria melhor talvez dizer que a comunhão espiritual, que a penetração de idéias não se dá; o poeta força as entradas que resistem tenazmente.&lt;br /&gt;É com desespero que verifico isso, mas que se há de fazer? É preciso ser honesto, pelo menos de pensamento ...&lt;br /&gt;É verdade que os homens de inteligência vivem separados do país; mas se há uma pequena minoria que os segue e acompanha, devia haver uma de mulheres que fizesse o mesmo.&lt;br /&gt;Até como mães, a nossa não é assim tão digna dos elogios dos oradores inflamados. A sagacidade e agilidade de espírito fazem-lhes falta completamente para penetrar na alma dos filhos; as ternuras e os beijos são estranhos às almas de cada um. Sonho do filho não é percebido pela mãe; e ambos, separados, marcham no mundo ideal. Todas elas são como aquela de que fala Michelet: "Não se sabe o que tem esse menino." "Minha Senhora, eu sei: ele nunca foi beijado."&lt;br /&gt;Basta observar a maneira de se tratarem. Em geral, há jeitos cerimoniosos, escolhas de frases, ocultações de pensamentos; o filho não se anima nunca a dizer francamente o que sofre ou o que deseja e a mãe não o provoca a dizer.&lt;br /&gt;Sem sair daqui, na rua, no bonde, na barca, poderemos ver a maneira verdadeiramente familiar, íntima, sem morgue nem medo, com que as mães inglesas, francesas e portuguesas tratam os filhos e estes a elas. Não há sombra de timidez e de terror; não,há o "senhora" respeitável; é "tu", é "você".&lt;br /&gt;As vantagens disso são evidentes. A criança habitua-se àquela, confidente; faz-se homem e, nas crises morais e de consciência, tem onde vazar com confiança as suas dores, diminuí-las, portanto, afastá-las muito, porque dor confessada é já meia dor e tortura menos. A alegria de viver vem e o sorumbatismo, o mazombo, a melancolia, o pessimismo e a fuga do real vão-se.&lt;br /&gt;Repito: não há tenção de fazer uma mercurial desta crônica; estou a exprimir observações que julgo exatas e constato com raro desgosto. Antes, o meu maior desejo seria dizer das minhas patrícias aquilo que Bourget disse da missão de Mme Taine, junto a seu grande marido, isto é, que elas têm cercado e cercam o trabalho intelectual de seus maridos, filhos ou irmãos de uma atmosfera na qual eles se movem tão livremente como se estivessem sós, e onde não estão de fato sós.&lt;br /&gt;Foi, portanto combinando a leitura de uma mulher ilustre com a recordação de um caso corriqueiro da nossa vida familiar que consegui escrever estas linhas. A associação é inesperada; mas não há do que nos surpreender com as associações de idéias.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Gazeta da Tarde&lt;/em&gt; 27.04.1911&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;O anel dos musicistas&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;As meninas do Instituto de Música escreveram aos jornais, lembrando a criação de um anel que as marcasse ao fim do curso ou dos cursos daquela casa sonora. A exemplo dos médicos, dos advogados, dos engenheiros, dos dentistas, dos bacharéis do Pedro lI, dos cônegos, das raparigas da Escola Normal, elas querem também um distintivo que as extreme do vulgo. É muito justo, pois se o destino da mulher é o casamento, tudo o que possa concorrer para que elas o cumpram deve merecer o nosso apoio entusiástico. Quando uma moça, doutora do Instituto, for de anel no dedo pelos bondes afora, ao fim da viagem não esperará muito que um namoro se transforme em noivado ... Ela garantirá a "zona" e o marido futuro ficará sossegado quanto às despesas da casa. O anel à mostra, isto é, o que ele rende, ficará sendo assim, às claras, uma espécie de dote, porque, de todas as profissões femininas, a que tem maiores possibilidades entre nós é a de professora de música, quando garantidas pelo Instituto do Largo da Lapa. Os motivos disto estão entrando nos olhos de todos os que residem no Rio de Janeiro e vivem sitiados por pianos ou violinos, na frente, nos fundos, nos lados, seja a casa em bairro rico ou pobre.&lt;br /&gt;De tal modo é rendoso o ofício de professora de música e de seus instrumentos, no Rio, que as brigas vergonhosas que há de vez em quando no conservatório só podem ser atribuídas à ganância dos professores e acólitos na caça e disputa de discípulos. Cherchez l'argent.&lt;br /&gt;A música, entre nós, é a única arte em que raramente aparece uma tentativa de criação. Entregue, como está, a moças, melhor, a mulheres, que em geral nunca em arte foram criadoras - estudam unicamente para o professorado - a arte musical, na nossa cidade, não dá nenhuma demonstração superior da nossa emoção, dos anseias e sonhos peculiares a nós. Limita-se a repetir, trilhando os caminhos batidos. Não há invento nem novidade.&lt;br /&gt;As suas sacerdotisas agora querem um anel, talqualmente as senhorinhas da Escola Normal, quando acabam o seu curso secundário.&lt;br /&gt;Se a medida não trouxer progressos à arte de Euterpe, entra, entretanto, na lógica da nossa sociedade. Não é possível que num país democrático uma moça que andou aos cuidados do senhor Richard, do senhor Arnaud Gouveia, do senhor Alberto Nepomuceno, que escreve óperas para exportação, possa ser confundida com qualquer rapariga aí.&lt;br /&gt;Para todos os que têm um curso qualquer, não há distintivo? Como não cabe o mesmo direito às talentosas executoras do Instituto de Música?&lt;br /&gt;Certamente que elas têm toda a razão, e, se dependesse do meu voto, desde já estariam usando o berloque simbólico. Seria mais um.&lt;br /&gt;As pedras, querem elas que sejam de safira, porque - justificam - a música tem muita coisa com a matemática; e a safira é a pedra dos anéis de engenheiros. A moça que projetou o anel tem certamente um namorado aos cuidados dos senhores Ortiz ou Villiot, na Escola Politécnica, imagino eu. Contudo, animo-me a lembrar a ambos que tanto a engenharia dele como a música da sua deidade, no fim, quando ambos forem se servir de uma coisa e da outra, a matemática que entrar nelas pouco além irá daquela que se aprende nas escolas primárias.&lt;br /&gt;Seria melhor que a menina que ideou o anel desde já estudasse as divisões da nossa moeda, a conta de juros da Caixa Econômica, para bem poupar e fazer render o que ganhar nas suas lições. E, para isto, basta o Viana, Aritmética; e pode deixar de lado o nome pomposo da matemática. Quanto ao seu futuro marido, se algum dia passar além do trânsito ou do nível, tem os handbooks que lhe suprirão as falhas na sabedoria.&lt;br /&gt;A matemática, minha senhora, para a maioria dos engenheiros, é assim como o latim para um grande número de padres: eles sabem só pronunciá-la.&lt;br /&gt;Não amesquinho seu noivo ou namorado, pois nunca foi do meu temperamento amesquinhar um doutor ou futuro doutor. Faço uma observação, unicamente. De passagem seja-me permitido lembrar à futurosa Cellini acadêmica que a safira, na escala da dureza, ocupa um dos primeiros lugares; e uma pedra tão dura não fica bem para emblema de uma arte tão doce e tão pouco rígida. Pense em outras, minha senhora.&lt;br /&gt;Se o fito é distinguir-se, extrema r-se do vulgo feminino, há um processo seguro: é a tatuagem, que os doutores também poderiam usar, e, em certas partes dos corpos femininos, no colo, por exemplo, iria magnificamente. Além de tudo, é indelével. Ficaria a senhora doutora em música, até que, como nós todos, fosse a gentil senhorinha formada, muito comumente, "moisir parmi les ossements, sous l'herbe et les floraisons grassses", como diz Baudelaire. Procure na "Une charogne" isso.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Lanterna&lt;/em&gt; 25.01.1918&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Quereis encontrar marido? - aprendei! ...&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;A Livraria Schettino, desta cidade, há tempos, editou um pequeno opúsculo de doze páginas, tipo graúdo, entrelinhado, com este soberbo título: &lt;em&gt;Quereis encontrar marido? – Aprendei ! ...&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;É autor do livro uma senhora, dona Diana D'Alteno, que, a seguir a regra geral, nunca encontrou o seu. Digo isto porque, na quase-totalidade, todas as pessoas que se propõem a fornecer tal cousa ou outra a seus semelhantes não a possuem. Haja vista os feiticeiros, negromantes, cartomantes, adivinhos, hierofantes, que estão sempre prontos a dar fortuna aos outros, mas que, entretanto, não têm níquel, pois precisam de espórtulas e gratificações para os seus generosos serviços.&lt;br /&gt;Dona Diana D' Alteno começa o seu interessante opúsculo assim, deste modo, que transcrevo tal e qual:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Gentis e amáveis moças solteiras. É a vós que dedico estes meus escritos. O motivo que me induz a traçar estas linhas é um dos mais vitais, e quiçá dos mais graves.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Depois desta invocação às suas caras leitoras, a autora entra de pronto no "argumento". Sabem qual é este argumento? Pois fale ela. Eis as suas palavras:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Permiti, pois, que vos fale disso como cousa nova.&lt;br /&gt;Se trata do terrível dépeuplement!, a diminuição progressiva de nascimentos, que poderá um dia ser causa de tremendos conflitos entre as nações, aproveitando-se umas sobre as outras de maior a menor número de combatentes.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Vejam os senhores só como esta senhora está adiantada em matéria de previsão histórica e como a sua sociologia é muito obstétrica e ginecológica.&lt;br /&gt;O despovoamento pode ser um dia causa de tremendos conflitos, fenômeno terrível que ela qualifica mais adiante: "Espada de DâmocIes suspensa sobre a cabeça de boa parte do gênero humano."&lt;br /&gt;A senhora D' Alteno, ao acabar de fazer tão curiosa descoberta, não fica satisfeita. Parece que o seu gênio é como a atividade catequizadora de São Francisco Xavier: quer ir mais longe, mais longe. "Amplius!"&lt;br /&gt;Então toma a palavra pela segunda vez e descobre a causa. Mais uma vez passo para aqui as palavras da ilustre socióloga:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Pela segunda vez, peço permissão de tomar a palavra e explicar sem ambages qual seja esse motivo: é a diminuição dos matrimônios. É o caso de dizer "a pequenas causas, grandes efeitos" e na verdade, os matrimônios se tornam cada vez mais raros e mais difíceis.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Peço licença para observar à ilustre senhora cousas simples. Antes, tenho a dizer que nada entendo dessas cousas sociais, mesmo em se tratando de casamentos. Não é atividade da minha seara intelectual, mas já foi dito que cada qual tem o direito de ter uma opinião e de dizê-la. Eu julgo que o casamento nada tem com o despovoamento. Pode haver multiplicação da humanidade sem ele, como pode haver com ele. O "crescei e multiplicai-vos" não subentende casamento algum. Há muitas espécies animais que obedecem ao preceito bíblico e prescindem de semelhante cerimônia. Por acaso entre os nossos animais domésticos que crescem e se multiplicam, apesar das pestes, das facas das cozinheiras, do choupo, etc., há pastores e sacerdotes encarregados de realizar casamentos? Não.&lt;br /&gt;Estou bem certo que a autora não se zangará comigo, apesar do seu nome que, entretanto, não é também propício aos destinos do seu singular folheto. Mas ... Afirma dona Diana que "o homem (o grifo é dela) tem medo do matrimônio. Um sacro terror se apoderou dele a tal palavra".&lt;br /&gt;Ainda uma vez peço licença à ilustre autora para discordar. O "homem" não tem medo do matrimônio; o "homem" o quer sempre. A culpa é da mulher, que escolhe muito. Se ela casasse com o primeiro que encontrasse, a tal história não se daria. Eu, por exemplo, atiro ao terreiro um grão de milho; se não houver um galináceo que o coma, ele germina logo. Agora, se ele quiser terra especial ou a terra quiser um grão especial, a cousa é outra. Vai ver a ilustre autora como me vai dar razão nas suas penúltimas palavras, que são estas:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Permanecei "mulher", se quereis um dia ser mãe - a "Materniidade!" é esta a maior vitória que glorifica a mulher; é esta a sua grandiosa obra.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Não falaria eu com tanto calor, mas diria a mesma cousa com simplicidade, chãmente. Vossa Excelência, porém, está no seu direito, apesar de Diana, de fazê-lo da forma que o fez.&lt;br /&gt;E essas suas palavras vêm a pêlo agora quando várias senhoritas se assanham para entrar para a estrada de ferro, para o Tesouro, como funcionárias públicas.&lt;br /&gt;Há nisto vários erros, uns de ordem política, outros de ordem social.&lt;br /&gt;Os de ordem política consistem em permitir que essas moças se inscrevam em concurso para aspirar um cargo público, quando a lei não permite que elas o exerçam.&lt;br /&gt;Não sou inimigo das mulheres, mm; quero que a lei seja respeitada, para sentir que ela me garante.&lt;br /&gt;Nos países em que se há permitido que as mulheres exerçam cargos públicos, os respectivos parlamentares têm votado leis especiais nesse sentido. Aqui, não. Qualquer ministro, qualquer diretor se julga no direito de decidir sobre matéria tão delicada. É um abuso contra o qual eu já protestei e protesto.&lt;br /&gt;Quando era ministro Joaquim Murtinho - da Fazenda - é preciso saber - uma moça requereu inscrever-se em concurso para o Tesouro. Sabem o que ele fez, depois de ouvir as repartições competentes? Indeferiu o pedido, por não haver lei que tal autorizasse.&lt;br /&gt;Nos Telégrafos e Correios, as moças têm acesso, porque os respectivos regulamentos - autorizados pelo Congresso - permitem. Nas outras repartições, não; é abuso.&lt;br /&gt;Mulher não é, no nosso direito, cidadão.&lt;br /&gt;Está sempre em estado de minoridade. Por aí iria longe; por isso convém parar.&lt;br /&gt;Spencer, na &lt;em&gt;Introdução à Ciência Social&lt;/em&gt;, observa que desde que o serviço militar foi instituído na França, para todos os rapazes entre 18 e 21 anos, o que obrigou as raparigas a virem a fazer os serviços que competiam àqueles, as exigências de altura, talhe, etc., para os recrutas foram pouco a pouco diminuindo; o trabalho da mulher tinha influído na geração ...&lt;br /&gt;Krafft-Ebbing diz, não sei onde, que a profissão da mulher é o casamento; por isso cumprimento dona Diana D'Anteno 
